Democracia e difamação do ofício – Parte 2

por Gregory E. Reynolds

 

A Restauração do Ofício Eclesiástico

Nenhuma doutrina pode ser devidamente restaurada na mentalidade da igreja sem uma definição cuidadosa. A concepção do tríplice ofício não é exceção. As distinções feitas no debate do século XIX são úteis para focalizamos na definição. Na verdade, foi a falta de distinções adequadas que caracterizaram a teoria dos dois ofícios para Hodge. O ponto em questão, ele sustentou, é que

a natureza do ofício do ancião regente. Ele é um clérigo, um bispo? Ou ele é um leigo? Ele ocupa o mesmo ofício ao lado do ministro ou um ofício distinto? De acordo com a nova teoria, os ofícios são identificados …. Esta nova teoria faz com que todos os anciãos, bispos, pastores, professores e governantes sejam a mesma coisa …. De fato, ela destrói todas as distinções oficiais entre eles. Reduz a ordem, a classe ou o ofício de dois em um.[1]

O foco da questão, de uma perspectiva exegética, é claramente declarado por Iain Murray:

A questão que surge é como esta distinção presbiteriana entre “ministros” e “presbíteros” deve ser justificada do Novo Testamento. Por qual razão um título como “pastor” deve ser restrito a um se, no Novo Testamento, a palavra é descritiva a todos aos presbíteros?[2]

Se o termo presbítero é usado com uniformidade no Novo Testamento para se referir a um único ofício, então a distinção entre o ancião regente e o pastor não pode ser mantida. Mas, como Clowney advertiu:

Em 1 Timóteo 5:17, os que se engajavam no governo se distinguiam daqueles que também afadigavam na palavra e na doutrina. De novo, o fato de que ambos os grupos podem ser chamados πρεσβύτεροι [presbyteroi] de forma alguma demonstra que seu ofício é idêntico.[3]

Hodge acentua o ponto exegético crucial ao relatar a essência de um debate que teve com Thornwell:

Este é o dilema em que o Dr. Thornwell tentou colocar o Dr. Hodge, como entendemos, quando perguntou-lhe, baseado na Assembleia, se ele admitia que o ancião era um presbítero. O Dr. Hodge replicou perguntando ao Dr. Thornwell se ele admitia que os apóstolos eram diáconos. Ele respondeu: Não. Mas, disse o Dr. Hodge, Paulo disse que ele era um διάκονος [diakonos]. O, respondeu o Dr. Thornwell, isso foi no sentido geral da palavra. Precisamente. Se a resposta for boa em um caso, é boa no outro. Se os apóstolos eram diáconos no sentido amplo da palavra, não prova que eles eram oficialmente diáconos, então os anciãos eram presbíteros no sentido único, não prova que eles eram presbíteros no outro sentido. Sustentamos, com Calvino, que os presbíteros oficiais do Novo Testamento eram bispos; pois, como ele disse, “[Para todos os que realizam o ministério da Palavra, (as Escrituras) concede o título de ‘bispos’. Mas quanto aos anciãos regentes, ele acrescenta: [governadores (1 Co 12:28) foram, creio eu, anciãos escolhidos pelas pessoas, investidos da censura, da moral e do exercício da disciplina junto com os bispos]” Institutio, &c. IV. 3. 8.[4]

Alguns defensores da concepção de tríplice ofício, como Thomas Smyth, consideraram que os anciãos governantes nunca foram mencionados no Novo Testamento “sob o termo presbítero ou ancião, que sempre se refere apenas ao mestre ou ao bispo”.[5] Como Calvino, ele encontrou seu mandato para o ofício de governante, ou ancião regente, em passagens como 1 Coríntios 12:28 e Romanos 12: 8. Ele entendeu passagens como 1 Timóteo 3; 5:17; Tito 1; Atos 20 referindo-se apenas aos ministros da Palavra. No outro extremo do espectro exegético dos defensores de três ofícios, Samuel Miller compreendeu as passagens acima para se referir a ambos os ofícios juntos. Miller, no entanto, manteve claramente a visão de três ofícios.[6] Na verdade, Hodge declarou-se estar totalmente de acordo com Miller quanto à natureza do ofício governante, apenas diferindo consigo no método de estabelecer o seu mandato bíblico.[7] A uniformidade exegética não é necessária para basear a clara visão nas Escrituras.

Hodge resumiu a posição do tríplice ofício de forma robusta:

Esta é a doutrina antiga, saudável e conservadora da Igreja Presbiteriana. Os ministros da palavra são clérigos, tendo treinamento especial, vocação e ordenação; os anciãos regentes são leigos, escolhidos do povo como seus representantes, tendo, por ordem divina, autoridade igual em todos os tribunais da Igreja com os ministros.[8]

Vários estudos sobre esta questão precisam ser realizados por presbiterianos. A integridade dos ofícios do ancião regente e do ministro está em jogo. E precisamos levar a sério a advertência de Thomas Smyth de que nossa devoção não “termina com a forma externa, a ordem, o ministério ou as ordenanças de qualquer igreja”,[9] não devemos esquecer que a forma bíblica adequada, será a que melhor servir ao Senhor que a ordenou. Isso é verdade para ambos os ofícios.

A edição de 1941 da Forma do Governo da Orthodox Presbyterian Church começou o capítulo “Dos Ministros” declarando: “O ofício do ministro é o primeiro na igreja, tanto pela dignidade quanto pela utilidade”. Mas esta frase foi excluída do capítulo que descreve o ofício do ministro na revisão de 1978, como acomodação na concepção dos dois ofícios. O título do capítulo também foi alterado de “Dos Ministros” para “Ministros ou Anciãos Docentes”. Curiosamente, a sentença permanece no capítulo sobre “Ordenar e Instalar Ministros” (23.8, 14). No entanto, a sua omissão na descrição do ofício ministerial é infeliz porque, em última instância, a centralidade da pregação está em jogo. Calvino disse bem: “Deus muitas vezes elogiou a dignidade do ministério por todas as possíveis marcas de aprovação para que possa ser realizado entre nós com a mais alta honra e estima, como sendo a mais excelente de todas as coisas”.[10] Não é o privilégio das pessoas, mas a dignidade da Palavra de Deus que está sendo confirmada. O igualitarismo, sem qualquer concepção real do ofício, tende a ver todas as distinções oficiais como ferramentas de opressão. Um servo bíblico, no entanto, verá essa distinção como uma ferramenta de ministério e a si mesmo como um instrumento da graça de Deus.

A doutrina do tríplice ofício também preserva a função regente do ancião. Como Hodge e Clowney apontaram, a visão de dois ofícios cria uma lacuna entre o clero e as pessoas. Como todo ministro fiel sabe, é impossível manter sozinho a supervisão do rebanho. A posição de três ofícios permite que os anciãos regentes se concentrem na aplicação do que o ministro ensina da Palavra de Deus. A posição de três ofícios, justamente entendida, preserva sozinha a verdadeira dignidade e eficácia do ofício regente.

Somente uma distinção cuidadosa dos ofícios, em última instância, preservará as funções apropriadas de cada um. Historicamente, o esquema de dois ofícios leva ao desaparecimento do ancião regente e a atrofia da liderança leiga. Em alguns círculos, a função de ensino foi degradada, mas isso parece ser o caso em que prevalece a ideia de “não-ofício”, como ocorre no Brethrenism.[11] Quando todos são ministros, de fato, ninguém o é. O impulso igualitário, por sua própria natureza, corrói a ideia do ofício para o grande prejuízo da igreja.

Os benefícios da concepção de três ofícios são diversos. Primeiro, a paridade do governo protege a igreja da tirania. O ministro não governa sozinho. Existe um equilíbrio de poder – um sistema de restrição e equilíbrio. Como Miller observou, o ancião regente tem “uma voz igual. Mesmo o voto do mais humilde e tímido ancião regente, tem o mesmo benefício que o de seu ministro”.[12] Sietsma observou: “É preciso lembrar que o ofício é a única justificativa e a limitação adequada de qualquer exercício humano de poder e autoridade”.[13] A visão de três ofícios traz essa ideia em si. O igualitarismo permite que o poder recaia nas mãos do dominador e dê voz, em última análise, à voz mais vigorosa.

Em segundo lugar, a doutrina de três ofícios fornece liderança. O ministro, como um escriba da Palavra, é um líder entre os governantes. Ele é normalmente o moderador do conselho, o primeiro entre iguais. Um navio não pode navegar sem um capitão. Como observou Geoffrey Thomas:

Onde existe a pluralidade dos anciãos, o princípio da liderança única é necessário. Em nenhuma parte, nas Escrituras encontramos liderança exercida por uma comissão com um homem agindo como um tipo de presidente, embora seja a consequência do conceito de paridade entre os anciãos plurais em muitos casos hoje.[14]

Ao impedir os ministros de dominar sobre os anciãos, a visão dos dois ofícios tende a deixar um vácuo de liderança. Smyth declarou: “Os ministros são como a cabeça da qual procede o estímulo, a orientação e a direção, que são essenciais para a vitalidade, a atividade, a dignidade e a harmonia do sistema”.[15] O igualitarismo engendra senhorio, não liderança.

Em terceiro lugar, a visão de três ofícios permite que o ministro se concentre no ministério da Palavra, sem obstáculos com as muitas preocupações que só o grupo de anciãos pode atender com ele. Quantos dos púlpitos de nossa terra sofrem por causa das demandas excessivas feitas no tempo de um ministro? O conselho de Jetro para Moisés é tão pertinente hoje quanto há mais de três milênios: “O que você está fazendo não é bom. Você e as pessoas com você, certamente, se desgastarão, pois isto é muito pesado para você. Você não pode fazê-lo sozinho”. (Êx 18:17-18). Os apóstolos colocaram esse princípio em prática no chamado dos diáconos em Atos 6. O igualitarismo leva não só à tirania, mas ao esgotamento.

Em quarto lugar, essa visão permite a implementação adequada e efetiva da disciplina, que o ministro não poderia fornecer de forma adequada ou prática por conta própria. O igualitarismo leva ao caos moral.

Finalmente, a ideia de três ofícios prevê as necessidades de todas as pessoas. Miller representou, de modo lindo, este abrangente ministério:

Em cada departamento de serviço oficial, o pastor desta denominação se associou a ele, um corpo de piedosos, conselheiros sábios e imparciais, tirados de entre as pessoas; familiarizados com os seus pontos de vista; participando de seus sentimentos; capaz de dar bons conselhos quanto à sabedoria e praticabilidade dos projetos que exigem uma cooperação geral para a sua implementação; e também, depois de ter ajudado na formação de tais projetos, retornam aos seus integrantes, e assim defende e recomenda-os, a fim de assegurar a aceitação geral a seu favor.[16]

Há várias coisas que precisam ser feitas para promover uma visão mais bíblica do ofício em nossas igrejas. Primeiro, as pessoas precisam ser instruídas sobre a natureza e os perigos do igualitarismo. A maioria das pessoas desconhece os pressupostos democráticos que fazem parte da estrutura da cosmovisão em que eles foram nutridos como americanos. Na medida em que esses pressupostos são antibíblicos, os oficiais da igreja, especialmente os ministros, devem promover a transformação das mentes das pessoas, para que não sejam conformados com este mundo (Rm 12:1-2).

Em segundo lugar, os pastores e os anciãos precisam encorajar-se mutuamente a cumprir os ministérios aos quais Deus os chamou. Isso significa que cada um deve estar ciente dos requisitos bíblicos, deveres e limites dos cargos de pastor e regente. Em particular, cada um deve entender o que é especificamente esperado deles na congregação local. Os pontos fortes e fracos de cada oficial devem ser abertamente discutidos na privacidade da sessão. Força e dons especiais devem ser apreciados e cultivados, de modo que a grande variedade de necessidades em uma determinada congregação seja atendida.

Em terceiro lugar, uma boa relação de trabalho deve ser cultivada entre anciãos e ministros. Isso significa desenvolver a comunicação bíblica e as habilidades na resolução de conflitos. O conselho deve perceber-se como uma equipe. Isso significa que o instinto individualista deve ser suprimido em ministros e anciãos. As questões em discussão devem ser mantidas confidenciais. Quando as decisões são tomadas, o dissidente deve manter consigo a sua opinião discordante, a menos que envolva absolutos morais ou doutrinários. Então, os meios adequados de disciplina devem ser judiciosamente usados para lidar com o pecado e a heresia.

Uma das maiores tentações apresentadas pela mentalidade democrática é a ideia de que o ancião regente é um instrumento de ressonância para o descontentamento da congregação ou um agente para interesses especiais. Smyth já estava ciente desse perigo no século XIX, quando advertiu:

Lembre-se, no entanto, que, enquanto você é o representante do povo, você não representa seus DESEJOS e OPINIÕES, mas seus DEVERES e OBRIGAÇÕES, seus DIREITOS e PRIVILÉGIOS, como estes são estabelecidos nas leis celestiais às quais você está igualmente sujeito, e que nenhum poder na terra pode alterar, modificar, abrandar ou ampliar.

Pelo fato do orgulho aumentar essa tentação, ele acrescentou: “Não busque popularidade à custa da fidelidade”.[17]

A ideia, corretamente enfatizada por Hodge e outros, de que os anciãos regentes são “representantes do povo” pode facilmente ser mal utilizada para opor o ministro contra o povo, como se o pastor não simpatizasse com suas preocupações. Os pregadores frustrados não devem tratar os seus anciãos como Absalões.[18] Reuniões anuais para avaliação, juntamente com um sistema sábio e regular de visitas de anciãos e ministros, farão muito bem para evitar esse tipo de abuso.

O conselho deve apresentar uma liderança unida. Isso significa que uma cunha nunca deve ser posta entre um pastor e os anciãos. O pastor deve ser ensinável e humilde, nunca exigindo a sua agenda. Mas também significa que o regente deve proteger o pastor do poder da crítica destrutiva. A crítica em si é saudável, mas o Diabo, o igualitário original, é um mestre em inspirar críticas injustas e usar apenas críticas divisoras para arruinar igrejas e expulsar homens bons do ministério. O ancião sábio tentará responder às críticas e preocupações dos membros na situação crítica, ou trazer o assunto diretamente ao pastor (com o crítico, se necessário). É crucial que os anciãos apoiem o pastor, especialmente quando não concordam com ele. Berghoef e DeKoster têm uma seção excelente sobre este assunto.[19] Este seria um excelente livro para que os conselhos estudassem juntos. Finalmente, os ministros e os anciãos servirão o Senhor e promoverão melhor o governo piedoso de sua igreja, sendo servos de Deus e do seu povo. A visão de três ofícios, por si só, não restaurará o verdadeiro ministério para a igreja. Somente se aqueles que preencherem os ofícios tiverem a mente de seu Mestre, a mente de um servo (Filipenses 2:5-11), é que, então, o igualitarismo será mantido à distância e o reino de Deus edificado. O individualista usará o ofício para a sua própria realização pessoal e, assim, difamará o ofício. O servo buscará a glória de seu Senhor.

 

Gregory E. Reynolds serve como pastor da Amoskeag Presbyterian Church (OPC) em Manchester, New Hampshire, é o editor Ordained Servant. Ordained Servant Online, February 2014.

Artigo de

https://opc.org/os.html?article_id=403&issue_id=92&pfriendly=Y&ret=L29zLmh0bWw%2FYXJ0aWNsZV9pZD00MDMmaXNzdWVfaWQ9OTI%3D  acessado em 11/10/2017 às 13h38.

 

Traduzido por Rev. Ewerton B. Tokashiki

 

NOTAS:

[1] Charles Hodge, Discussions in Church Polity (New York: Charles Scribner’s Sons, 1878), p. 128.

[2] Iain Murray, “Ruling Elders—A Sketch of a Controversy,” The Banner of Truth Magazine, no. 235 (April 1983): 1.

[3] Edmund P. Clowney, “A Brief for Church Governors in Church Government” (unpublished paper, 1972), p. 15.

[4] Hodge, Church Polity, 130. (A tradução inglesa de Battles da Library of Christian Classics é substituída pela citação de Hodge de Calvino em latim).

[5] Thomas Smyth, Complete Works of the Reverend Thomas Smyth, D.D., ed. J. William Flinn (Columbia, S.C.: R. L. Bryan, 1908), vol. 4, p. 26.

[6] Samuel Miller, An Essay on the Warrant, Nature, and Duties of the Office of the Ruling Elder, in the Presbyterian Church (New York: Jonathan Leavitt; Boston: Crocker and Brewster, 1831), p. 28.

[7] Hodge, Church Polity, p. 129.

[8] Ibid., p. 130.

[9] Smyth, Works, vol. 4, p. 26.

[10] John Calvin, Institutes of the Christian Religion, LCC, trans. Ford Lewis Battles, ed. John T. McNeill (Philadelphia: Westminster, 1960), 4.3.8:1055.

[11] Brethrenism são as crenças e práticas religiosas dos Plymouth Brethren, ou outros grupos similares. Veja em https://en.oxforddictionaries.com/definition/us/brethrenism acessado em 11/10/2017, às 15h55. Nota do tradutor.

[12] Miller, The Ruling Elder, p. 197.

[13] K. Sietsma, The Idea of Office (Jordan Station, Ontario: Paideia Press, 1985), p. 15.

[14] Geoffrey Thomas, “The Pastoral Ministry,” in Practical Theology and the Ministry of the Church, 1952–1984, Essays in Honor of Edmund P. Clowney, ed. Harvey M. Conn (Phillipsburg, N.J.: Presbyterian and Reformed, 1991), pp. 78–79.

[15] Smyth, Works, vol. 4, p. 28.

[16] Miller, The Ruling Elder, pp. 311–12.

[17] Smyth, Works, vol. 4, p. 31.

[18] O articulista possivelmente fez referência ao caso de 2 Sm 15.1-6. Nota do tradutor.

[19] Gerard Berghoef and Lester DeKoster, The Elder’s Handbook (Grand Rapids: Christian Library, 1979), 160–62. Cf. Lawrence Eyres, The Elders of the Church (Phillipsburg, N.J.: Presbyterian and Reformed, 1975), pp. 17–18.

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