O ofício de presbítero

por Geerhardus Vos

 

Chegamos aos ofícios ordinários. Aqui diferentes questões devem ser discutidas: (a) A relação que os ofícios de ancião (presbítero) e bispo ou superintendente (episkopos) mantêm um com o outro, e se é um e o mesmo ofício. (b) A relação em qual o ofício de pastor (poimēn) é nos dois mencionados (a); isto é, se dentro do presbiterato há uma distinção entre aqueles que são pastores e aqueles que não são pastores. (c) A questão relativa ao cargo de mestre e se este era um ofício particular, distinto do cargo de pastor. (d) A questão concernente ao ofício de diáconos e diaconisas. (e) A questão concernente ao chamado aos ofícios e a forma como alguém é investido no ofício.

  1. A relação entre o episcopado e o presbiterato. Os que advogam o sistema episcopal dizem que os dois ofícios de bispo e presbítero são diferentes. Os bispos são superiores aos presbíteros. Eles têm o poder de ordenar e governar os presbíteros. Estes não podem se ordenar. Há quem vá mais longe, como vimos, e faz dos bispos os sucessores dos apóstolos. Em antítese, postulamos a tese: o bispo e o presbítero, o superintendente e os anciãos indicam inteiramente o mesmo ofício. Um superintendente é um ancião e um ancião é um superintendente. Se houvesse uma distinção no presbiterato e no ofício de supervisão, isso não teria nada a ver com o duplo nome. Nomeiam-se os dois tipos de anciãos tanto para os supervisores como os presbíteros. É relatado que Paulo (Atos 20:17) convocou os anciãos da igreja de Éfeso e depois, referiu-se a eles como superintendentes (20:28). Em Filipenses 1:1, os supervisores aparecem ao lado dos diáconos, como em outros lugares os anciãos estão ao lado dos diáconos (ver também 1 Tim 3: 2 com 3: 8); “Que você deve nomear anciãos de cidade em cidade” (Tito 1: 5) e “um superintendente deve ser reprovado” (1: 7). Consequentemente, nada é mais claro do que a identidade desses dois ofícios. A única diferença reside nesses dois pontos: ancião (presbítero) é um termo judaico derivado da sinagoga, que também foi administrado pelos homens mais velhos; O supervisor (episkopos) é um termo grego. Ancião refere-se à dignidade do ofício, supervisor é o seu trabalho.
  2. A segunda das questões acima diz respeito à distinção dentro do próprio presbiterato. Havia dois tipos de anciãos? Parece que em 1 Timóteo 4:14, numa mesma igreja, havia uma pluralidade de anciãos, e que eles formavam uma equipe, um colegiado, “presbitério”, “ancião”. Em 1 Timóteo 5:17, parece que havia anciãos que trabalhavam na Palavra e no ensino, e também anciãos que não estavam ocupados com tal trabalho. A distinção entre anciãos docentes e anciãos governantes se baseia nisso.

 

Teremos agora que pensar sobre o assunto da seguinte forma. Originalmente, toda a ênfase acerca do ancião recaiu sobre o governo, mantendo a supervisão. A razão para isso foi que o ofício extraordinário de profecia e o extraordinário dom (charismata), em geral, bem como a presença contínua dos apóstolos e evangelistas tornaram a necessidade de um ofício ordenado de mestre menos visível. Os anciãos podiam ensinar e falar a Palavra, mas havia outros além daqueles que também ensinavam e profetizavam na congregação. Mais tarde, quando dons extraordinários diminuíram, surgiu a necessidade de um ofício regular de mestre. Nas Epístolas pastorais de Paulo, isso aparece como uma estrutura estabelecida. Ainda assim, parece-nos que isto deriva muito das informações que argumentam que todos os anciãos não eram livres para atuarem no ensino na congregação. Somente isso segue com certeza: havia um número de anciãos que tinham o dever específico de ensinar. Os outros podem teriam a liberdade, mas eles não tinham o dever. Por isso, de fato, a distinção reformada entre dois tipos de anciãos é legitimada em princípio.

Existe alguma diferença em relação ao ofício de anciãos regentes. De acordo com uma teoria, eles devem ser vistos como representantes das pessoas. A igreja é então governada por dois tipos de oficiais: (a) ministros da Palavra, que são clérigos; (b) anciãos regentes, que são leigos. Ambos têm direitos idênticos em todos os órgãos eclesiásticos aos quais são delegados. Mas os anciãos que apenas regem trazem esses direitos das pessoas que representam; os anciãos docentes têm esses direitos, por assim dizer, em si mesmos. Daí segue-se que estes também continuam a possuí-los nas assembleias eclesiásticas quando não representam um concílio ou uma congregação da igreja. Um docente sem ministério, no entanto, tem voto nas assembleias. A Igreja Presbiteriana dos Estados Unidos diz em sua “Forma de Governo”: “Os oficiais ordinários e permanentes na igreja são os supervisores ou pastores; os representantes do povo são comumente chamados de anciãos regentes e diáconos”. E novamente: “Os anciãos regentes são adequadamente os representantes do povo e são escolhidos por eles para exercer o governo e a disciplina vinculados aos pastores e ministros da Palavra” (cap. III, 2, e cap. V).4 Há objeções substanciais para essa visão:[1]

  1. Pode-se inferir disso que a congregação que escolhe esses representantes pode dar-lhes um mandato específico – agora mais amplo, e depois menos abrangente – tudo conforme a sua escolha. Estritamente falando, pode-se dar instruções a um representante e dizer: você deve agir assim. Agora, é claro que, neste sentido, os anciãos regentes não são representantes do povo. Eles receberam um ofício de Cristo; o Espírito Santo os designou como superintendentes do rebanho; eles não devem responder aos reclames dos seus eleitores, mas a Deus e a sua Palavra.
  2. Não se pode comprovar que o Novo Testamento faz tal distinção em relação ao poder dos anciãos docente e regente. Aparentemente formam uma instituição, carregam os mesmos nomes (bispo e ancião), e é completamente impossível explicar isso se houver uma diferença tão profunda como essa teoria pressupõe. Alguns dos seus defensores (Charles Hodge, entre outros) reteriam o termo presbítero em um sentido específico para os anciãos regentes – completamente sem apoio, em nosso pensamento. Se alguma coisa estiver clara, então é isso: que em 1 Timóteo 5:17, os dois tipos de anciãos são especificamente chamados de presbíteros.
  3. É certamente verdadeiro que o poder é dado por Cristo à igreja como um todo, mas isso deve ser entendido no sentido descrito acima e não como se fosse transferido democraticamente da congregação para os anciãos, que governam. Os anciãos têm o seu poder para governar de Cristo como eles pertencem ao organismo da congregação.
  4. Que pelo fato dos anciãos serem escolhidos pela congregação não significa que eles sejam representantes da congregação. Está bem estabelecido que, mesmo na eleição de um apóstolo, a congregação é consultada para sua escolha. Ninguém deduziria disso que um apóstolo representava a congregação. E a congregação também participa da eleição de um ancião docente. Por outro lado, parece que, às vezes, os apóstolos também nomearam diretamente os anciãos regentes e docentes, ou os nomearam por meio dos seus evangelistas. Se o ofício de ancião regente fosse na sua essência um ofício de representação da congregação, então é preciso dizer: um ancião regente escolhido por um apóstolo é uma noção contraditória. Mas o assunto torna-se completamente diferente se alguém abandonar essa ideia de representação. Então fica claro como existem duas maneiras pelas quais Cristo escolhe os portadores dos ofícios, tanto os regentes como os docentes – ou seja, às vezes diretamente por seus apóstolos e, às vezes, pela escolha da congregação.

 

No entanto, há alguma verdade nessa teoria. Já foi observado acima que um ancião regente só pode servir na congregação particular que o escolheu. Ele não pode exercer o seu ofício noutra congregação. Mas um ministro da Palavra pode certamente fazer isso. Isso, no entanto, não prova que os anciãos regentes recebem sua autoridade da congregação. Isso simplesmente segue da limitação de seu trabalho. Os Ministros da Palavra têm uma missão geral ou limitada. Mas eles também, por exemplo, podem ser delegados por um presbitério a um concílio superior.

Enquanto um ancião regente não tem os direitos e deveres de um ancião docente, em antítese, um ancião docente certamente tem os direitos e deveres de um ancião regente. Aqueles que ensinam também governam, mas não o contrário. A fórmula de instalação para os anciãos regentes especifica as suas atividades da seguinte maneira: (1) tendo supervisão da congregação; (2) auxiliar aos ministros da Palavra no exercício do poder de governo da igreja (ver acima); (3) tendo a supervisão da doutrina e conduta dos ministros da Palavra.

Por outro lado, os anciãos docentes têm: (1) o ministério da Palavra; (2) vinculado à administração dos sacramentos; (3) a invocação pública do nome de Deus em nome de toda a congregação; (4) o exercício do poder de governo; (5) a supervisão e disciplina da congregação.

Existe um termo específico que é padrão para os anciãos docentes na Escritura? Para isso, alguns queriam usar o termo “pastores” (poimenes). A partir disso vem a terminologia dos nossos “pastores”, que não é aplicada aos anciãos regentes. Mas a Escritura não faz essa distinção. Em Efésios 4:11, os “pastores” são colocados ao lado dos “mestres”, e os primeiros aparentemente devem ser entendidos “anciãos”, “supervisores”, sem mais especificações ou divisão. Em Atos 20:28, novamente, refere-se a todos os presbíteros que foram nomeados como supervisores para pastorear (poimainein) a congregação de Deus. Além disso, esse conceito inclui um duplo pastoreio: (a) a alimentação; (b) liderança ou o governo. Em todas as suas dimensões, é, portanto, apenas aplicável aos anciãos docentes, e, nesse sentido, têm um certo direito de chamá-los de “pastores” de forma preeminente, como aqueles em que o conceito de “pastor” é realizado na íntegra. Por outro lado, há outro termo para os supervisores e os anciãos que, em seguida, deixa mais ênfase no elemento regente, a saber, “protetores” (proistamenos, proestōs, de proistanai, Rm 12:8; 1 Tm 5:17); veja também “administrações” (kybernēseis, 1 Cor 12:28).

 

Tradução por Rev. Ewerton B. Tokashiki

 

Geerhardus Vos, Reformed Dogmatics – Ecclesiology, the Means of Grace, and Eschatology (Bellingham, Lexham Press, 2016), vol. 5, pp. 55-60.

 

 

 

 

 

[1] Tradução holandesa de Vos. Não consegui verificar qual edição da Forma de Governo citada ou precisa referência. Não está claro que denominação presbiteriana, Vos tem em vista; mas possivelmente seja a Igreja do Norte. Nota de Richard B. Gaffin Jr.

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