Um tratado sobre diversas questões – capítulo I

por George Gillispie

 

Onde muitas perguntas úteis e casos de consciência são discutidos e resolvidos: Para a satisfação daqueles que não desejam nada mais do que buscarem e encontrarem Verdades Preciosas, em meio às controvérsias desses tempos.

POR

George Gillespie, Comissário Escocês
Para a Assembleia de Teólogos
em Westminster.

Capítulo I

Acaso o Ministério é uma Ordenança Perpétua de Cristo para a Igreja, e os Ministros devem ser recebidos como as Embaixadas de Cristo, tanto agora como nos tempos primitivos?

Aquilo que há muito tempo se esconde nos corações de muitos ateus é agora professado e defendido por aquele cruel erastiano furioso, cujo livro foi publicado no ano passado em Franeker. Ele alega que o mundo é atormentado com a noção da Sagrada Vocação Ministerial e que embora os Apóstolos e os outros que primeiro pregaram o Evangelho tenham sido realmente enviados e separados para o Santo Ofício (o que também foi confirmado por Sinais e Milagres para que fossem, portanto, recebidos e enviados como embaixadores de Cristo); os Ministros e Pastores atuais não são reconhecidos como os Embaixadores de Cristo e não há mais um Chamado Sagrado (distinto e especial) ou uma Solene Separação de homens para o Ministério da Palavra e dos Sacramentos; ou seja, qualquer um que é apto e capacitado pode tanto pregar quanto ministrar os Sacramentos (o Batismo e a Ceia do Senhor), embora não seja chamado ou ordenado. A seita de questionadores também afirma que não há, nem houveram por muitos séculos, verdadeiros Ministros ou Embaixadores de Cristo. Para refutar estes erros e para fortalecer e confortar as pessoas que (de alguma forma) foram abaladas ou incomodadas por isso; achei bom, em primeiro lugar, reforçar o princípio de que o Ministério é uma ordem permanente e perpétua de Cristo em sua igreja até o fim do mundo, sendo distinto do Magistrado e dos Cristãos comuns.

  1. Isso provo em Mateus 28:19-20: Vão e ensinem a todas as nações, batizando-as, etc. Essa comissão não pode significar apenas os Apóstolos, ou outros Ministros de Cristo daquele tempo, de forma respectiva e pessoal, mas precisa ser estendida aos verdadeiros Pregadores e Administradores do Batismo em todas as épocas até o fim do mundo, como é manifestado pela promessa acrescentada, Eu estou com vocês todos os dias, até o fim do mundo.
  2. Em Efésios 4:11-13: a Ordenação de Pastores e Professores (ou Mestres). A Obra do Ministério vai até o aperfeiçoamento de todo o Corpo de Cristo, a reunião de todos os eleitos e, consequentemente, até o fim de o mundo.

III. Nas Profecias e Promessas Evangélicas de Pastores e Mestres (Jeremias 3:15 e 23:4; Isaías 30:20 e 62:6-7 e 66:21; Ezequiel 44:23), as quais não se restringem às Igrejas dos tempos primitivos, mas às Verdadeiras Igrejas de Cristo em todas as épocas e lugares.

Cristo designou o Seu Evangelho para ser pregado a todas as nações (Mateus 24:14; Lucas 24:47), em todo o mundo (Mateus 26:13) e a toda criatura debaixo do céu (Marcos 16:15). A Pregação do Evangelho é o meio e a maneira ordenada de Deus para salvar aqueles que creem (Romanos 10:14; 1 Coríntios 1:23). Ora, embora existisse uma grande difusão do Evangelho no tempo dos Apóstolos, através da qual este alcançou várias partes do mundo até então conhecido, essa Comissão Universal não foi perfeitamente executada e cumprida como será antes do fim. E, todos os Eleitos não estavam reunidos naquele tempo, ainda que muitos deles ainda estivessem reunidos, o que deve ser feito pela pregação. E quem pode κηρύττειν senão o κήρυξ? Quem fará o Ofício de um Arauto, senão aquele que é um Arauto? A Palavra Do Espírito Santo usada para pregar é concedida pela Ordenação.

Cristo designou Administradores fiéis e sábios para governarem os da Sua Casa, para lhes dar a sua porção de alimento no tempo devido (Lucas 12:42), os quais não foram designados apenas para os tempos primitivos, mas até que ele volte, como aparece no verso 43: Bem-aventurado aquele servo que seu Senhor, quando vier, o achar fazendo isso; e no verso 45: Mas, se aquele servo disser no seu coração, meu Senhor retarda a sua vinda, etc. Mais deste trecho será abordado depois.

Em 1 Timóteo 6:14; o Apóstolo que, naquela Epístola, deu orientação sobre os Oficiais da Igreja (Bispos, Presbíteros e Diáconos) com muitos outros detalhes pertencentes ao Ministério; quando chega ao fim da Epístola, dá uma ordem estrita e solene a Timóteo para manter este Mandamento sem mancha e irrepreensível, até a aparição de nosso Senhor Jesus Cristo; isto não pode ser entendido como algo pessoal a Timóteo, mas é uma exortação dada em sua pessoa a todos os Ministros do Evangelho que viverão até a aparição de Cristo.

Em Apocalipse 2:24-25. Há uma advertência: Aquilo que vocês têm, sustentem até que Eu venha; Isto é dado a dois tipos de pessoas. Primeiro; ὑμῖν, vobis, aos Bispos ou Pastores, pois havia mais de um deles em Tiatira; como também em Filipos (Filipenses 1:1), Antioquia (Atos 13:2; 15:35) e Éfeso (Atos 20:17,28,36-37). O mesmo pode ser observado em outras igrejas primitivas. Em segundo lugar; λοιποῖς, ao resto, isto é, ao Rebanho e Corpo da Igreja. Como esta advertência não pode ser restrita à Igreja de Tiatira, nada mais pode ser restrito ao Ministério em Tiatira; mas Cristo exorta a todos, Ministros e Membros da Igreja, que retenham a Joia do Evangelho, até que Ele volte.

É privilégio da Nova Jerusalém, a qual está por vir, que não haja Templo nela (Apocalipse 21:22). Não haverá nem Ministério, nem Pregação, nem Sacramentos no Céu; mas Deus será tudo em todos. Um gozo imediato de Deus neste mundo sem Ordenanças é apenas uma ilusão. Para a Igreja Triunfante: As Profecias cessarão (1 Coríntios 13:8). Mas para a Igreja Militante: Não desprezem as profecias (1 Tessalonicenses 5:20).

Objeções

  1. Qualquer objeção (como algumas pessoas fanáticas já fizeram) baseada em Jeremias 31:34 (E não ensinarão mais a cada um seu próximo, ect) e I João 2:27 (E vocês não necessitam que ninguém os ensine).

Resposta: Estes trechos devem ser entendidos comparativamente, no mesmo sentido em que Deus disse que queria misericórdia e não sacrifício (Oseias 6:6). O Espírito de Iluminação e Conhecimento é tão abundantemente derramado sob o Evangelho que Deus escreve Suas Leis nos corações de Seu Povo, de forma que há tanta diferença entre aqueles sob a Antiga Aliança e aqueles sob a Nova Aliança, que seria como se fosse entre aqueles que precisam de um professor e aqueles que não precisam de um professor.

A Lei não é feita para o justo (1 Timóteo 1:9), ou seja, para servir como espora e freio, porque ele não necessita de tal compulsão, mas a obedece naturalmente e voluntariamente; contudo, a lei é feita para um homem justo no sentido de ser uma Regra de obediência para ele; assim os Crentes, sob o Evangelho, não precisam ser ensinados pelos homens, como os ignorantes são ensinados, eles não são sem entendimento como o cavalo ou a mula, porque todos eles Me conhecerão, diz O Senhor em Jeremias 31:34; e vocês sabem todas as coisas (1 João 2:20); contudo, eles precisam de um Ministério de ensino para crescerem em conhecimento, para sua Edificação e Crescimento, a fim de os fortalecer e confirmar, como também os refrescar a memória e os despertar (Efésios 4:12; 2 Pedro 1:12; 3:18; Filipenses 1:9). Haverá sempre necessidade do Ministério, tanto para converter os que ainda não estão convertidos, como para confirmar aqueles que são convertidos. O Apóstolo (1 Tessalonicenses 3:2) julgou necessário enviar Timóteo para a igreja dos tessalonicenses para os exortar e consolar.

Enquanto estivermos neste mundo, essa promessa de que não precisaremos de nenhum homem para nos ensinar não é perfeitamente cumprida; porque nós sabemos, mas em parte (1 Coríntios 13:9,12); precisaremos de um Mestre até estarmos no Céu e vermos Cristo face a face.

Finalmente, eles precisariam entender os trechos que rejeitaram, ou ao menos fazer com que estes contradissessem outras partes da Escritura (Jeremias 3:15; Romanos 10:14; 1 Coríntios 1:23); e ainda explicar como um homem pode entender sem um Mestre (Atos 8.31).

  1. Mas se crermos que o Ministério é uma Ordenança perpétua, e se há uma Promessa de que Cristo estará com esse Ministério até o fim do mundo, então também devemos crer numa sucessão de ministros desde os dias dos apóstolos, e que no meio do próprio Papado, Cristo há um verdadeiro Ministério.

Resposta: Crer na Santa Igreja Universal e que em todas as épocas Cristo teve e terá uma Igreja Verdadeira, não conclui que devemos crer na Igreja sempre visível ou sempre pura, então a nossa crença de um Ministério perpétuo não pode inferir que devemos acreditar em uma sucessão de Ministros lineares ou visíveis, ou na sua pureza e preservação do erro. Não há nada deste tipo pode ser contestado contra a nossa crença, de um ministério perpétuo, mas esse argumento cai pesadamente diante da nossa crença da perpetuidade da Igreja.

III. A multidão de Crentes é sob o Novo Testamento, feita Sacerdócio Real (1 Pedro 2:9); e Cristo nos fez Reis e Sacerdotes para Deus (Apocalipse 1:6).

Resposta: Pedro se explica: Vocês são sacerdócio santo, para oferecer Sacrifícios Espirituais, aceitáveis a Deus por Jesus Cristo (1 Pedro 2:5). O que esses sacrifícios espirituais significam podemos encontrar em outras partes da Escritura: A mortificação da carne e a oferta de nós mesmos a Deus (Romanos 13:1); Contrição (Salmos 51:17), Orações e Súplicas (Salmos 141:2; Hebreus 5:7; Apocalipse 5:8) Ações de Graças (Salmos 50:14,23; Hebreus 13:15) e Boas Obras (Filipenses 4:18; Hebreus 13:16). Quanto a estes, todos os crentes possuem de fato um Santo Sacerdócio, mas não para as Administrações Ministeriais públicas.

Esta objeção leva à abolição da Magistratura e do Governo Civil, assim como do Ministério, pois se Cristo fez crentes tanto Reis como Sacerdotes, e se forem Reis, então não são subordinados.

A mesma coisa foi dita ao Povo de Israel: E vocês serão para mim um Reino de Sacerdotes (Êxodo 19:6); contudo, Deus designou apenas os filhos de Arão para serem Sacerdotes quanto à Administração pública das Coisas Santas.

O mesmo Deus que fez dos Cristãos um Santo Sacerdócio, prometeu à Igreja do Novo Testamento, que iria separar e tomar dentre eles, ou do meio deles (por meio de distinção e Vocação Especial), Sacerdotes; que ministrariam diante Dele nas Coisas Santas (Isaías 66:21; Ezequiel 44:15-16; etc), aos quais chamou Sacerdotes, não no sentido judaico, nem papal, mas para a Sua Oferta dos gentios a Deus, pela Pregação do Evangelho e Santificação Pelo Espírito Santo (Romanos 15:16). Ainda podemos imaginar que eles são chamados Sacerdotes pelos Profetas, para que sejam entendidos de uma forma melhor, falando na linguagem daqueles tempos; pela mesma razão os profetas falaram da Igreja do Novo Testamento mencionando o monte Sião, Jerusalém, os Sacrifícios, o Incenso, a Festa dos Tabernáculos, etc. Mas eu não devo esquecer o que o fóssil erastiano, com muito despeito e escárnio, rejeita não apenas o Ministério Perpétuo na Igreja, mas também que Ministros legalmente chamados devam ser recebidos como os Embaixadores de Cristo e Enviados de Deus. Como há um Ministério Perpétuo, esse filho do diabo e inimigo de Cristo (ele só pode ser isso, pois é inimigo do Ministério da Palavra e dos Sacramentos) não pode perverter os caminhos corretos Do Senhor. Ele não reconhecerá nenhum Ministro nas Igrejas Reformadas como Embaixador de Cristo, embora os Apóstolos o fossem. Parece que ele odeia mais ainda esse nome; porque os Embaixadores, pelo direito das nações, são pessoas invioláveis; quanto mais, então, os Embaixadores de Cristo! Mas vejamos agora se a Palavra de Deus não dá tão alta Ascensão e Autoridade ao Ministério Ordinário do Evangelho como Embaixador de Cristo. Quando Paulo diz: Somos embaixadores de Cristo (2 Coríntios 5:20). ele fala não em referência a qualquer coisa peculiarmente apostólica, ou a qualquer coisa inadequada para Ministros Comuns. O contrário é muito claro a partir do próprio Texto, Ele nos confiou a Palavra de Reconciliação. Agora, então, somos embaixadores de Cristo; como se Deus rogasse por nós, rogamos, pois, em lugar de Cristo, para que vocês se reconciliem com Deus. Ora, assim como Paulo foi o Embaixador de Cristo, porque lhe havia sido confiada a Palavra de Reconciliação, então todos os verdadeiros Ministros do Evangelho são também Embaixadores de Cristo pelo mesmo motivo; veja o Trecho semelhante: Pelo qual sou um Embaixador (Efésios 6:20). Para quê? Não para fazer Milagres, expulsar demônios, plantar Igrejas em vários reinos, ou coisas do tipo; mas para abrir a minha boca corajosamente, e assim dar a conhecer o Mistério do Evangelho (Efésios 6:19); é nisso que ele desejava ser ajudado pelas Orações dos Santos. Pela mesma razão, todos os Ministros fiéis, e legalmente chamados, são os Embaixadores de Cristo, bem como os Apóstolos eram. Mesmo no Antigo Testamento, os Sacerdotes que eram Mestres Comuns e chamados de maneira ordinária mediata eram Anjos, ou Mensageiros, Do Senhor dos Exércitos (Malaquias 2:7), bem como os Profetas (2 Crônicas 36:16). Assim é dito que os Sábios e os Escribas são enviados de Deus, assim como os profetas (Mateus 23:34). Os Ministros das sete igrejas na Ásia são chamados Anjos (Apocalipse 2 e 3); um intérprete da palavra de Deus é um Mensageiro (Jó 33:23). Agora, Cristo deu à igreja Pastores e Mestres que (como os Apóstolos, Profetas e Evangelistas) procedem do céu, não dos homens (Efésios 4:11).

 

Cedido gentilmente pelo Instituto Presbiteriano John Knox

Tradução de Caio Ribeiro Maranhão Leite.

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