O Dispensacionalismo e suas implicações doutrinárias

Por João Alves dos Santos

 

  1. ORIGEM E DIVULGAÇÃO

O movimento chamado de dispensacionalismo surgiu em meados do século passado na Inglaterra, através do grupo que levou o nome de Irmãos ou Irmãos de Plymouth, por ter nesta cidade seu quartel general. Seu principal expoente foi John Nelson Darby (1800-1882), um irlandês que, insatisfeito com a Igreja Anglicana, da qual era ministro (cura), juntou-se ao grupo dos Irmãos em 1827. Por volta de 1830 Darby já era o principal líder dos Irmãos, dada a sua capacidade de organização e a sua proficiência em escrever. A característica principal desse grupo foi a ênfase que deu às reuniões semanais de estudo bíblico e celebração da Ceia do Senhor, associada a um desprezo por qualquer tipo de organização denominacional ou forma de culto. Os Irmãos rejeitavam qualquer sistema clerical ou de classe ministerial, insistindo que estavam regressando à forma simples de culto e governo eclesiástico dos apóstolos.

Embora não fosse o tema principal no começo, não tardou para que a doutrina da volta de Cristo ocupasse o centro dos estudos e, com ela, surgisse com grande ímpeto o desenvolvimento de um novo modelo de interpretação bíblica. Darby e seus seguidores passaram a alardear que haviam “redescoberto verdades” que foram desconhecidas ao longo de toda a história, desde os dias apostólicos, as quais teriam ficado à margem do ensino tradicional do Cristianismo histórico. Fazia parte desse novo modelo aquilo que passou a ser chamado até hoje, nos círculos dispensacionalistas, de “interpretação literal das profecias” e de que devemos também nos ocupar neste trabalho.

Esse novo modo de interpretação bíblica, especialmente de profecias, ganhou popularidade rapidamente nos círculos evangélicos, graças ao grande trabalho de divulgação que dele foi feito pelo próprio Darby e por seus seguidores, e graças, principalmente, ao grande volume de livros, panfletos e artigos sobre o assunto que foram, desde então, escritos e ainda continuam sendo. Grandes movimentos, como o das Conferências Evangelísticas de Dwight L. Moody, eram virtualmente controlados por dispensacionalistas.[1]A escola fundada por Moody, que passou a chamar-se Instituto Bíblico Moody, assim como diversas outras escolas teológicas, como o atual Seminário Teológico de Dallas, passaram a ser verdadeiros centros de doutrinação dispensacionalista, nos Estados Unidos. O mesmo se dá hoje no Brasil, especialmente com os institutos bíblicos chamados de interdenominacionais, de modo geral.

Outro fator que muito contribuiu para a difusão do pensamento dispensacionalista foi a publicação da chamada Bíblia de Referência de Scofield, em 1909, a qual já vendeu mais de dois milhões de cópias desde então. A Bíblia de Scofield ou, mais corretamente, a Bíblia de Referência de Scofield é, na verdade, uma edição da Versão King James, com anotações feitas por Scofield, na linha de interpretação dispensacionalista. William E. Cox afirma que “o pai do dispensacionalismo, Darby, assim como seus ensinos, provavelmente não seriam conhecidos hoje, não fosse por seu devoto seguidor, Scofield”.[2] Esta declaração, baseada em pesquisa feita pelo autor citado, dá bem uma ideia da influência que Scofield exerceu, especialmente através de sua “Bíblia”, na propagação do dispensacionalismo.

Cyrus Ingerson Scofield (1843 – 1921) nasceu nos Estados Unidos e foi, até sua conversão em 1879, advogado e político. Três anos após sua conversão foi ordenado ministro congregacional, sem qualquer formação teológica, e foi assim, sem formação teológica, que escreveu sua Bíblia de Referência.[3] Para muitos, hoje, as anotações de Scofield têm o mesmo valor e a mesma autoridade do próprio texto da Palavra de Deus. Como diz Cox, se Scofield tivesse colocado suas anotações em um livro separado e não na própria Bíblia, certamente que seus livros estariam agora, como os de Darby, ajuntando pó nas estantes. Mas o fato de ter associado o seu nome ao de Paulo e ao de Pedro, pela audácia de colocar suas notas pessoais nas mesmas páginas sagradas que trazem os escritos daqueles autores inspirados, garante-lhe a imortalidade. E, conclui Cox, “na mente de alguns dos seguidores devotos de Scofield, discordar dele é o mesmo que discordar de Paulo ou de Pedro”.[4]

Os estudiosos e historiadores do Cristianismo são unânimes em afirmar que a Bíblia de Scofield trouxe benefícios de uma certa ordem, pois estimulou o interesse pelo estudo bíblico e o respeito pela autoridade da Palavra de Deus, numa época em que a Alta Crítica e a teologia liberal atacavam o Livro Sagrado. Scofield era, de qualquer forma, um conservador, no sentido em que acreditava na inspiração e na inerrância da Bíblia. Mas não resta dúvidas de que trouxe também seríssimos prejuízos à Igreja de Cristo, na medida em que, desviando-se da linha histórica de interpretação bíblica, popularizou e erigiu à posição de quase dogma, em muitos círculos cristãos, uma hermenêutica falha e um conceito falso a respeito do modo de Deus tratar com os homens, a respeito da salvação e, especialmente, a respeito da Igreja de Cristo. William Cox, de cuja obra estamos nos servindo para essa análise introdutória do assunto, chega a dizer que a Bíblia de Scofield, nas mãos de um novato ou recém-convertido, pode ser um livro perigoso.

Dentre os perigos que ele ressalta está a atitude de superioridade que a obra implanta na mente de seus leitores e que, certamente, já foi testemunhada pela maioria dos que, em alguma ocasião, puderam dialogar com dispensacionalistas sobre os pontos de divergência. Diz Cox que “nenhuma doutrina da Bíblia apresenta o menor problema a esses experts.  Nem precisam eles fazer um estudo mais profundo; tudo o de que precisam está contido nas notas de rodapé da Bíblia de Referência de Scofield.[5]

Outros autores, também citados por Cox, destacam o mesmo perigo de presunção de conhecimento que essa obra produz; talvez, conforme pensamos, por serem essas notas muitas vezes confundidas, em termos de autoridade, com a própria Palavra de Deus. T.T. Shields afirma:

De uma posição de inteira ignorância das Escrituras para uma posição de certeza religiosa oracular – especialmente com respeito a assuntos escatológicos, para algumas pessoas requer-se apenas de três a seis meses com uma Bíblia de Scofield. Eu prontamente reconheço que a Bíblia de Scofield é muito popular entre os novatos, isto é, os que têm recentemente chegado à fé, e também entre muitos de experiência cristã mais longa, mas que são apenas estudantes superficiais das Escrituras. Roupas prontas são populares em todo lugar entre pessoas de tamanho médio…Pelo mesmo princípio, ideias religiosas prontas serão sempre populares, especialmente entre aqueles indispostos ao esforço de ajustar seus conceitos religiosos a um conhecimento escriturístico sempre crescente. Essa disposição humana comum, em grande parte, explica a popularidade da Bíblia de Scofield. [6]

Referindo-se a esse mesmo tipo de pessoas que não apenas se dão por satisfeitas com o “conhecimento” obtido através dessas notas, mas, presunçosamente, ousam desprezar todo estudo sério que, porventura, as contrarie, diz Albertus Pieters:

Essas boas pessoas não são faltas de fé e zelo, mas são tristemente faltas de conhecimento; e o trágico da situação está exatamente nisto que, o que lhes falta, é exatamente o que pensam que obtiveram com a Bíblia de Scofield! Estão aptas para dizer em seus corações e não infrequentemente com seus lábios:” Tenho mais entendimento do que todos os meus mestres, porque tenho uma Bíblia de  Scofield![7]

O Dispensacionalismo não se constitui propriamente numa denominação e, embora tenha surgido com os Irmãos, que são hoje um pequeno grupo, não se restringe a eles nem a qualquer denominação, em particular. Há dispensacionalistas hoje em, praticamente, todos os ramos do Protestantismo e até naqueles onde a sua presença representa uma negação de certos princípios doutrinários distintivos, como no caso do Presbiterianismo, por contraditório que possa parecer. Acreditamos que não há presbiterianos dispensacionalistas, mas certamente há dispensacionalistas presbiterianos. No primeiro caso estamos usando a palavra “presbiteriano” com conotação teológica e, no segundo, com conotação denominacional. O Dispensacionalismo tem sido, geralmente, confundido com o Pré-milenismo, mas não são a mesma coisa. Todo dispensacionalista é, necessariamente, pré-milenista, mas nem todo pré-milenista é necessariamente dispensacionalista.

É preciso dizer, também, que há pelo menos três tipos de dispensacionalismo, com marcantes diferenças entre si. Há o que Oswald T. Allis chama de ultra-dispensacionalismo, desenvolvido por E. W. Bullinger (1837-1913), que faz distinção entre a “Igreja Apostólica Pentecostal” do livro de Atos e a “Igreja-Mistério Paulina”, das Epístolas da Prisão, que ele chama de “igreja corpo” e “igreja noiva”, respectivamente. Bullinger ainda faz distinção entre essas duas igrejas e a de Mateus 16, que Jesus chamou de “minha igreja” e que, segundo ele, será uma igreja judaica remanescente no futuro. O ultra-dispensacionalismo é, segundo Allis, o método levado ao extremo ou às suas últimas conseqüências.[8]

Os outros dois tipos são os que Grover E. Gunn, III chama de clássico e de neo-dispensacionalismo. O dispensacionalismo clássico é o representado por C. I. Scofield e por Lewis S. Chafer, fundador do Seminário de Dallas, e segundo o qual o plano de Deus para com Israel é puramente terreno e para com a Igreja, celestial; há dois modos de salvação (obras no VT e fé no NT) e, segundo Chafer, dois Novos Pactos. Este foi o tipo de dispensacionalismo que prevaleceu desde o século passado até meados deste (1800 a 1950). O neo-dispensacionalismo é o agora defendido por homens como Charles C. Ryrie, John F. Walvoord e J. Dwight Pentecost, segundo o qual Israel e a Igreja se ajuntarão após o milênio; há um só modo de salvação em ambos os Testamentos (fé) e um só Pacto. É a linha atual do Seminário de Dallas.[9]. Neste trabalho apresentaremos apenas alguns dos pontos básicos em que o sistema dispensacionalista, de um modo geral e mais particularmente o que aqui chamamos de clássico, difere da teologia que chamamos de “reformada” e que entendemos ser a correta interpretação da Palavra de Deus. As questões menores serão deixadas de lado por serem numerosas e de importância secundária.

 

  1. PREMISSAS BÁSICAS DO SISTEMA

Toda interpretação bíblica está ou deve estar subordinada a um determinado sistema. Não há forma neutra de se abordar o estudo bíblico sem se incorrer em erro. Um versículo da Bíblia, isolado do seu contexto, pode apresentar mais de um sentido e somente um é o verdadeiro. Um sistema teológico pode ser definido, segundo Grover E. Gunn, como “o entendimento global dos ensinos das Escrituras e de como esses ensinos se relacionam entre si”.[10] Para que a interpretação de um determinado texto esteja correta é preciso que ela se harmonize com o ensino geral (global) das Escrituras. É o que geralmente se chama de “analogia da fé”. O sistema teológico de alguém, porém, pode estar errado e, com isso, toda a interpretação à luz daquele sistema fica comprometida. Por isso, é preciso que o próprio sistema esteja sendo sempre conferido e, se necessário, ajustado com as Escrituras, para que possa conduzir a uma correta interpretação. Citando novamente Gunn:

O intérprete deve sempre buscar a confirmação de que seu sistema teológico é consistente com todo o ensino das Escrituras e também, logicamente, consistente em si mesmo. Esse é um processo de toda uma vida. Na verdade, é um processo de muitas vidas, já que o intérprete sempre constrói sobre a obra de exegetas anteriores e visto que a tarefa nunca se finda.[11]

Para se determinar se as conclusões dos dispensacionalistas são verdadeiras, em particular aquelas que conflitam com a interpretação tradicional da Igreja cristã, é preciso verificar se a sua hermenêutica é coerente e sustentável, o que equivale a dizer, se seu sistema teológico é consistente. O edifício do sistema dispensacionalista está construído sobre três pilares básicos, ou três pressupostos:

 

  1. Uma Interpretação Estritamente Literal das Escrituras

Com isto se quer dizer que todas as profecias feitas no VT, com relação a Israel, deverão se cumprir literal e incondicionalmente em Israel, como nação ou povo terreno. Nenhuma promessa do VT, portanto, se refere à Igreja, pois isto viola o princípio da literalidade. As profecias do VT devem ser sempre entendidas sob a perspectiva do VT; Exemplo: Se o VT diz que Israel vai possuir a terra prometida para sempre significa que a nação de Israel (povo judeu) deverá ter como possessão perpétua aquela porção geográfica do Oriente Médio. Se alguém disser que o verdadeiro Israel é hoje nação espiritual (1 Pe 2. 9,10) ou que a terra que os israelitas possuíram era um tipo ou antecipação da Nova Jerusalém celestial (Hb 11: 13-16; 12:22; Gl 4:25-26) estará violando o seu conceito.

Todos os que não interpretam profecias com o mesmo grau de literalidade são considerados “espiritualizantes”, “alegorizadores” e, em alguns casos, até “liberais”. Um exemplo disso pode ser encontrado num livro de Oswald J. Smith, onde se lê estas arrogantes declarações:

Conheço bem poucos dos antigos comentários que são confiáveis no que tange a profecia. Quase todos eles espiritualizam as predições dos profetas do Velho Testamento e confundem o reino com a Igreja. Daí serem suas interpretações sem nenhum valor.[12]

Depois de citar Isaías 11: 1-13 e 12: 1-6, esse mesmo autor diz:

Nenhuma delas (das passagens) foi cumprida no primeiro advento e nenhuma delas pode ser espiritualizada, pois não têm seu cumprimento na Igreja, a despeito do que os grandes comentaristas dizem. Deus não achou conveniente iluminá-los.[13]

Uma das expressões ou frases feitas preferida dos dispensacionalistas é a de que “as profecias do Velho Testamento com respeito à primeira vinda de Cristo… foram todas cumpridas literalmente. Não há cumprimento não literal dessas profecias no NT”.[14] Se essa hermenêutica é rigorosamente correta e se a afirmação acima pode ser provada é questão que pretendemos analisar.

 

  1. Uma Dicotomia Rígida Entre o Israel do VT e a Igreja do NT

Em todo livro de interpretação dispensacionalista “que se preze” certamente se encontrará esta regra áurea: Israel significa Israel e Igreja significa Igreja. O dispensacionalista nega qualquer relação entre o Israel do VT e a Igreja do NT e chega mesmo a dizer que não há no VT uma profecia sequer que se refira à Igreja. Seguindo a linha da chamada “interpretação literal”, diz que as profecias do VT foram feitas a Israel como nação terrena e devem se cumprir literalmente em Israel, como nação terrena. Os santos do VT não fazem parte da Igreja universal, a Noiva ou o Corpo de Cristo. São o povo terreno de Deus, enquanto a Igreja constitui o Seu povo celestial. Tanto Scofield como Chafer, líderes dispensacionalistas do modelo clássico, eram de opinião de que a semente terrena, Israel, deverá passar a eternidade na nova terra e que a semente celestial, a Igreja, deverá passar a eternidade no céu.

De acordo com esse modo de pensar, a dicotomia entre Israel e a Igreja deve perdurar por toda a eternidade.[15] As seguintes citações documentam nossas declarações sobre esse ponto de vista. Diz C. I. Scofield:

Qualquer pessoa que leia a Bíblia, com verdadeiro interesse, jamais pode deixar de perceber que mais da metade do que contém é aplicada a uma só nação, isto é, aos israelitas. Há de perceber, ainda, que os judeus ocupam uma posição de destaque nos negócios e na Providência de Deus… Parece, também, que todas as comunicações de Jeová com Israel, como nação, têm relação com a terra. Sendo fiel e obediente, à nação israelita é prometida grandeza, riqueza e poder terrestres. Sendo, porém, infiel e desobediente, deverá ser espalhada “entre todos os povos, de uma até a outra extremidade da terra” (Dt. 28: 64). Mesmo a promessa do Messias é feita no sentido de que Ele será uma bênção “para todas as famílias da terra”.

Continuando com suas pesquisas bíblicas, o estudante descobre muitas menções da existência de um outro corpo distinto, que é chamado a Igreja. Este corpo também mantém uma relação peculiar com Deus e, como Israel, tem dEle recebido promessas especiais. Mas a semelhança aí termina, iniciando-se um contraste dos mais dignos de nota. Em vez de ser constituída tão somente pelos descendentes de Abraão, é ela um corpo no qual desaparece a distinção entre judeu e gentio. Em lugar da relação se constituir de mero concerto, é ela constituída de um nascimento. Em lugar da recompensa, pela obediência, de grandeza e riqueza terrestres, a Igreja é instruída a se contentar com alimento e vestimento e a esperar perseguição e ódio. É de perceber-se que, do mesmo modo como Israel fica ligado às coisas terrestres e temporais, a Igreja está ligada às coisas espirituais e celestiais.

As Escrituras ainda revelam que nem sempre existiu Israel ou a Igreja. Cada qual teve um princípio -Israel, com a chamada de Abraão, e a Igreja, no Pentecoste (contrário, talvez, às suas expectativas, pois tem sido provavelmente ensinado que Adão e os Patriarcas estão na Igreja), pois ela não existia antes, nem durante a vida terrena de Cristo, que, referindo-se à sua Igreja, o fez como tendo de ser estabelecida no futuro…

De Ef. 3: 5-10, o estudante da Bíblia descobre que a Igreja não é nem uma vez sequer mencionada nas profecias do Velho Testamento, mas era, nessa época, um mistério escondido em Deus. Descobre, sim, nas mesmas Escrituras, que o nascimento da Igreja aparece em Atos 2 e o término de sua carreira terrena em 1 Ts 4.

Nas predições concernentes ao futuro de Israel e da Igreja, a distinção é ainda mais surpreendente. A Igreja será arrebatada inteiramente da terra, mas Israel, restaurado, deve ainda ter maior esplendor e poder terreno (grifos do autor).[16]

Em outra obra C. I. Scofield declara:

A distinção, glória e destino de Israel serão sempre terrenos. Ele será também um povo espiritual, a possessão de Jeová. Não há, todavia, divisão entre o judeu salvo e o gentio salvo desta dispensação, estando ambos na igreja. Mas após completar-se a igreja e no fim desta dispensação, haverá, por necessidade, uma divisão. A “Santa Jerusalém” de Apocalipse 21 é a “noiva”, “ a esposa do Cordeiro”, para quem são os” novos céu”, enquanto que a “nova terra” será para Israel; o tabernáculo de Deus estará com eles, e “o próprio Deus estará com eles e será o  seu Deus”. As bênçãos espirituais e celestiais distintivas do Novo Testamento são para a Igreja; aquelas outras da e sobre a terra, para Israel.[17]

Lewis Sperry Chafer, fundador e primeiro presidente do Seminário de Dallas, centro irradiador de dispensacionalismo, assim se expressa sobre a questão Israel e Igreja:

O judaísmo tem seu próprio campo de teologia com sua Soteriologia (doutrina da salvação) e sua Escatologia. O fato de que estes fatores de um sistema que ocupa três quartas partes do Texto Sagrado não sejam reconhecidos e tenham sido deixados no abandono pelos teólogos não significa que não existam, nem é prova de que sejam sem importância. Uma Teologia do Pacto produz a noção de que só há uma Soteriologia e uma Escatologia, e de que a Eclesiologia, assim como a entendem, se estende desde o Éden até o grande trono branco. Os insuperáveis problemas exegéticos que tais suposições importunas produzem são facilmente descartados, não se lhes dando qualquer atenção. Por outro lado, a Escritura mantém-se harmônica e sua mensagem se esclarece quando é reconhecido que o judaísmo e o cristianismo são dois sistemas estabelecidos por Deus e quando se observam seus diferentes caracteres, sendo cada sistema completo em si mesmo. Não importa quão ortodoxos puderam ser em matéria de inspiração, da deidade de Cristo, seu nascimento virginal e a eficácia de Sua morte, ainda assim os teólogos do Pacto não têm avançado em sua exposição bíblica. Este grande campo de trabalho tem sido e é ocupado por aqueles que distinguem as coisas que se diferem, os quais, embora deem toda atenção ao que já foi escrito, não estão presos por tradições teológicas. O judaísmo não é o botão que floresceu no cristianismo. Estes sistemas, de fato, têm aspectos que são comuns a ambos Deus, a santidade, Satanás, o homem, o pecado, a redenção, a responsabilidade humana, e os assuntos da eternidade contudo, eles introduzem diferenças tão vastas que não podem se juntar. Cada um estabelece sua base de relacionamento entre Deus e o homem – o judeu por nascimento físico, o cristão por nascimento espiritual; cada um provê suas instruções para a vida de seus adeptos – a lei para Israel, os ensinos da graça para a Igreja; cada um tem sua esfera de existência – Israel na terra, por todas as eras vindouras, a Igreja no céu. Com a finalidade de que a Igreja seja chamada dentre ambos, judeus e gentios, uma era peculiar e sem relação com as outras foi introduzida no contínuo programa divino na terra. É neste sentido que o judaísmo, que é a porção permanente da nação de Israel, cessou. Quando a Igreja tiver sido completada e houver saído da terra, o judaísmo será novamente a incorporação de todo o propósito divino no mundo.[18]

Em outra parte de sua “Teologia Sistematica” Chafer diz o seguinte:

O fato de que a revelação concernente tanto a Israel como à Igreja inclui a verdade acerca de Deus, da santidade, do pecado e da redenção pelo sangue, não elimina um conjunto maior de verdades em que se revela que os israelitas vêm a ser o que são por nascimento natural, ao passo que os cristãos vêm a ser o que são por nascimento espiritual; que os israelitas foram designados para viver e servir debaixo de um sistema meritório e legal, ao passo que os cristãos vivem e servem debaixo de um sistema de graça; que os israelitas, como uma nação, têm a sua cidadania agora e seu destino futuro se concentra somente na terra, estendo-se até a nova terra que está por vir, ao passo que os cristãos têm sua cidadania e destino futuro centralizados somente no céu, estendendo-se até os novos céus que ainda hão de ser cridos…[19]

Uma forma mais recente de dispensacionalismo, que aqui já foi chamada de neo-dispensacionalismo, admite que os santos de todas as épocas vão estar juntos na nova terra na eternidade, mas mantém a mesma dicotomia, mesmo na eternidade, por excluir da Igreja, ou seja, do Corpo e da Noiva de Cristo, os santos do Velho Testamento, assim como os santos da Tribulação e do Milênio (judeus convertidos nesses períodos). A esse grupo pertencem homens como Charles C. Ryrie, John F. Walvoord e J. Dwight Pentecost, como já foi dito, os quais são os de maior expressão, na atualidade, na defesa e propagação desse sistema. Como evidência de que essa dicotomia ainda é feita e continua a ser uma das premissas básicas do sistema, citaremos também algumas de suas afirmações. Assim se expressa Ryrie:

Que Deus continua Sua obra de redenção chamando um povo para o Seu nome na Igreja, o Corpo de Cristo, alegremente afirmamos, mas também insistimos em que esse Corpo de Cristo é diferente de qualquer corpo anterior de pessoas redimidas, em sua natureza, características, tempo e promessas.[20]

Por sua vez, J. Dwight Pentecost  afirma:

As bodas do Cordeiro são um evento que, evidentemente, envolve somente Cristo e a Igreja…Embora seja impossível eliminar (santos do Velho Testamento e da tribulação) do lugar de observadores, eles não podem estar na posição de participantes do próprio evento.[21]

 

  1. A Teoria de Que o Período da Igreja É um Parêntese Imprevisto no Programa Judaico Profetizado no Velho Testamento

Já vimos citações segundo as quais a Igreja não foi profetizada no V. T. e que Israel só espera a retirada da Igreja deste mundo para que seja de novo chamado à cena a fim de desempenhar o seu importante papel no programa divino. Tais ideias levaram necessariamente os dispensacionalistas a concluir que a era ou período da Igreja não foi previsto na profecia do V. T. e só foi inserido no programa divino devido à rejeição do Messias pelos judeus. Não tivessem os judeus rejeitado a Jesus, a era do reino judaico teria começado na primeira vinda de Cristo. Com a rejeição, houve um intervalo ou interrupção no programa judaico para que a Igreja tivesse a “sua vez”, devendo esse programa ser retomado logo após o arrebatamento, ou seja, no fim da dispensação da Igreja.

As seguintes afirmações comprovam, nas palavras dos expoentes dispensacionalistas, o que é a teoria e como ela é um desenvolvimento lógico da hermenêutica “literalista” desse movimento: Diz L.S. Chafer:

Para os que estão acostumados à ordem religiosa que se tem obtido por mil e novecentos anos, é essencial a capacidade de se formar uma imagem mental da inovação transformadora que representa o lançamento de um projeto divino completamente novo e imprevisto. Até aquele tempo o judaísmo não só havia ocupado o campo, como havia sido produzido, promovido e abençoado por Deus. Era a vontade de Deus para o Seu povo neste mundo. Os beneficiários do judaísmo estavam como que entrincheirados em sua posição religiosa e em suas convicções, e muito bem sustentados por sanções divinas como estão os crentes mais ortodoxos hoje.

O novo programa divino intencionalmente não havia sido revelado antes de sua inauguração. Veio, portanto, não só de modo muito repentino como também totalmente sem qualquer revelação do Velho Testamento. O caso seria quase paralelo se, neste tempo atual, um projeto novo e imprevisto fosse imposto para substituir o Cristianismo. O preconceito obstinado e a resistência violenta que surgiram na mente judaica estão na proporção direta da sinceridade com que o indivíduo judeu estimava seus privilégios de longos anos. Somado a tudo isso e calculado para tornar a nova empresa divina muitas vezes mais difícil foi seu ousado anúncio de que os desprezados gentios seriam colocados em pé de igualdade com os judeus.

Desta forma, o primeiro concílio de igrejas chegou à conclusão de que um novo propósito divino havia sido introduzido e que, quando esse propósito chegasse à sua conclusão, Deus retomaria o programa judaico e o levaria à sua consumação predita. O documento da decisão desse notável congresso se encontra em Atos 15: 13-18.[22]

Realmente, o novo e até aqui não revelado propósito de Deus no chamamento de um povo celestial dentre os judeus e os gentios é tão divergente com respeito ao propósito divino para com Israel, propósito que precedeu a esse e ainda o seguirá, que o termo “parentético”, comumente empregado para descrever o propósito da nova era, é incorreto. Uma porção parentética mantém certa relação direta ou indireta com o que precede ou com o que segue; porém, a presente era não está relacionada desta forma e, portanto, é mais preciso chamá-la de “intercalação”. A exatidão deste termo se verá no fato de que, como uma interpolação é formada pela inserção de uma palavra ou frase em um contexto, da mesma forma uma intercalação é formada pela introdução de um dia ou um período de tempo no calendário. A presente era da Igreja é uma intercalação no calendário ou programa revelado de Deus, do modo como esse programa foi previsto pelos profetas do passado. Esse é, na verdade, o caráter preciso da presente era (grifos do autor).[23]

Na mesma linha de pensamento diz o dispensacionalista contemporâneo Charles C. Ryrie:

A Igreja não está cumprindo em nenhum sentido as promessas feitas a Israel. O período da Igreja não é visto no programa de Deus para com Israel. É uma intercalação…A Igreja é um mistério no sentido em que esteve completamente oculta no Velho Testamento e foi agora revelada no Novo Testamento.[24]

A interpretação das setenta semanas de Daniel 9: 20-27 é também usada como evidência de que o período da Igreja não foi profetizado no VT, pois essas semanas fazem referência apenas ao programa divino para Israel, estando aquele período compreendido entre a 69ª e a 70ª semana, conforme esse modo de interpretar.

Além desses três pontos que podem ser considerados básicos para a interpretação dispensacionalista, há outros que são decorrência natural de sua hermenêutica e que, igualmente, trazem consigo sérias implicações doutrinárias. Dentre esses, mencionaremos os seguintes:

 

  1. a) A Divisão de Todo o Programa de Deus Para a Humanidade em Sete Dispensações

Aliás, vem daí, desse ensino, o termo “dispensacionalismo” pelo qual o sistema é conhecido. Embora a palavra “dispensação” signifique literalmente “administração” ou “mordomia” (derivada de oikonomi/a – oikonomia – Ef. 3: 2), ela é empregada pelos dispensacionalistas para designar “um período de tempo durante o qual o homem é testado quanto à sua obediência a alguma revelação específica da vontade de Deus”, segundo a própria definição de Scofield (que é a mesma do “Dicionário Aurélio”).[25] É dito que cada uma dessas dispensações termina com o fracasso humano e o inevitável juízo de Deus. Diz Scofield:

Esses períodos se distinguem nas Escrituras por uma mudança no método divino de tratar a humanidade, ou parte dela, no que se refere a estas duas grandes verdades: pecado e responsabilidade humana. Cada Dispensação pode ser considerada como uma prova para o homem natural e termina sempre em juízo, demonstrando assim o seu completo fracasso…Cinco dessas dispensações, ou períodos de tempo, já se consumaram. Estamos vivendo na sexta, cujo término, segundo tudo faz crer, está para breve. A sétima, ou a última, ficará para o futuro – É o Milênio (negritos do autor).[26]

As chamadas dispensações são as seguintes: 1ª) Da Inocência, que começou com a criação de Adão, e terminou com a sua expulsão do Éden; 2ª) Da Consciência, que começou com a expulsão do Jardim (consciência do bem e do mal) e terminou com o dilúvio; 3ª) Do Governo Humano, que começou com o dilúvio e terminou com a confusão das línguas; 4ª) Da Promessa, que começou com Abraão e terminou com a escravidão no Egito; 5ª) Da Lei, que começou no Sinai e terminou com a expulsão de Israel e Judá da terra de Canaã; 6ª) Da Graça, a atual, que começou com a morte de Cristo e terminará com o arrebatamento da Igreja; 7ª) Do Reino, que começará com a Segunda Vinda de Cristo e terminará com o juízo do Grande Trono Branco – é também chamada de Dispensação do Milênio.

 

  1. b) A Dubiedade a Respeito do Modo de Salvação no Velho Testamento, Dando a Entender a Possibilidade de Salvação Pelas Obras

Este é um dos pontos mais delicados do sistema dispensacionalista e aquele em que tem havido mais hesitação e duplicidade. Embora neguem que o sistema ensine a salvação à parte da fé, não se pode deixar de entender isso nas declarações de seus expositores, pelo menos os do dispensacionalismo clássico. Há até quem alegue que as sete dispensações acabam criando sete diferentes planos de salvação. A rígida distinção entre Israel e Igreja e lei e graça leva o dispensacionalista a conclusões indesejáveis, mas inevitáveis, no que diz respeito ao modo de salvação. Grover E. Gunn, coloca assim o problema do dispensacionalista:

Os dispensacionalistas reconhecem que se os santos do Velho Testamento estão em Cristo, do modo como Paulo usou esse termo, então os santos do Velho Testamento estão na igreja universal (I Cor. 12: 13.), e isso efetivamente destruiria a dicotomia dispensacional entre Israel e a Igreja. Um povo de Deus salvificamente unificado através das eras é um conceito contrário às pressuposições fundamentais do dispensacionalismo. Esse preconceito dispensacional básico contra a unidade salvífica do povo de Deus em Cristo, através das eras, é, conforme penso, a principal fraqueza no ensino dispensacionalista sobre a salvação no Velho Testamento.27]

Embora dispensacionalistas atuais reclamem que os críticos desse sistema são injustos ao atribuir-lhe dois diferentes modos de salvação, como na seguinte citação de Ryrie feita por Gunn, segundo a qual “nem os mais antigos nem os mais novos dispensacionalistas ensinam dois modos de salvação, e não é justo tentar fazê-los ensinar assim”,[28]repetimos:- não se pode entender de outra forma as palavras de L.S. Chafer, que passamos a citar:

Deve-se observar aqui uma distinção entre os homens justos do Velho Testamento e os justificados de acordo com o Novo Testamento. De acordo com o Velho Testamento, os homens eram justos porque eram verdadeiros e fiéis na guarda da Lei Mosaica… Os homens eram, portanto, justos por causa de suas próprias obras para com Deus, ao passo que a justificação do Novo Testamento é a obra de Deus para com o homem, em resposta à fé (Rom. 5: 1) (negritos meus).[29]

A Lei de Moisés apresenta um pacto de obras para ser cumprido na energia da carne; os ensinos da graça apresentam um pacto de fé para ser cumprido na energia do Espírito.[30]

O Sermão do Monte é a expansão do sentido pleno da justiça pessoal que é requerida no reino. As grandes palavras nesta era são “crer” e “graça”. Nenhuma vez estas palavras aparecem em conexão com os ensinos de Mateus 5 – 7.[31]

Os ensinos do reino, como a Lei de Moisés, são baseados em um pacto de obras. Os ensinos da graça, por outro lado, são baseados num pacto de fé. Em um dos casos, a justiça é requerida; no outro, ela é provida, quer imputada e comunicada ou, então, operada interiormente (infundida). Uma é uma bênção a ser conferida por causa de uma vida perfeita, a outra é uma vida a ser vivida por causa de uma bênção perfeita já recebida.[32]

Sob a graça, o fruto do Espírito É, o que indica a presente posse da bênção através de pura graça; ao passo que sob o reino, a bênção SERÁ para os que a merecerem pelas suas próprias obras (negritos do autor da citação).[33]

Nesta era, Deus está tratando com os homens na base de Sua graça como ela se apresenta em Cristo. Seu trato com os homens na era vindoura se baseia em uma relação muito diferente. Naquela ocasião, o Rei governará com uma vara de ferro. Não há qualquer menção da cruz ou da graça nos ensinos do reino.[34]

É estranho, na verdade, que homens que têm sido honrados como teólogos de primeira magnitude não vejam a diferença entre a proclamação de um reino terreno endereçada a uma nação eleita, para ser estabelecido em bases legais, e a proclamação de uma mensagem de graça que diz respeito apenas a indivíduos, judeus e gentios em pé de igualdade, sob o pecado, e que oferece em soberana graça àquele que crê em Cristo, que seja posto em condições de ser participante da herança dos santos em luz.[35]

“O caminho estreito e apertado” é um resultado do mérito e justiça pessoal e está muito longe da salvação, a qual provê uma justificação perfeita e eterna baseada em uma aceitação no Amado. O cristão foi salvo por um ato de fé e não por perseverar inflexivelmente em um caminho estreito. Aqui não há descanso na obra terminada de Cristo (cf. Hb 4:9); tudo é mérito pessoal como      base da esperança para se entrar no reino dos céus.[36]

Assim se pode concluir que os ensinos da lei, os ensinos da graça e os ensinos do reino são sistemas de regras divinas, separados e completos, que se adaptam perfeitamente às variadas condições de três grandes dispensações. OS  ENSINOS DE MOISÉS E OS ENSINOS DO REINO SÃ0 PURAMENTE LEGAIS, AO PASSO QUE AS INSTRUÇÕES PARA O CRENTE DESTA DISPENSAÇÃO ESTÃO EM CONFORMIDADE COM A MAIS PURA GRAÇA (maiúsculas e negritos do autor da citação).[37]

Todas essas citações deixam bem claro, ao nosso ver, que pelo menos os dispensacionalistas mais antigos, como Chafer, acreditavam em diferentes modos de salvação para os “santos do Reino” (VT e Milênio) e para os “santos da Igreja” (“dispensação atual”). Não é sem razão que Grover E. Gunn, de cuja obra extraímos todas essas citações, tenha se admirado de que Ryrie, que foi aluno de Chafer no Seminário de Dallas, pudesse afirmar que nem os dispensacionalistas mais antigos nem os mais novos ensinam dois modos de salvação.[38]

Bem antes de Chafer, Scofield já havia escrito em sua “Bíblia Anotada” as seguintes palavras: “Como uma dispensação, a graça começa com a morte e ressurreição de Cristo…O ponto de teste não é mais a obediência legal como a condição de salvação, mas a aceitação ou rejeição de Cristo, com as boas obras como fruto da salvação” (negritos meus).[39]A dedução lógica extraída desta afirmação é de que, antes da “Graça” as pessoas eram salvas pela obediência à lei, mas agora, pela aceitação de Cristo. A expressão “não é mais” indica que antes o era, no entender de Scofield.

 

  1. c) A Dicotomia Radical Entre os Conceitos de Reino e Igreja Devido à Divisão de Épocas ou Dispensações Distintas

Nossa Confissão de Fé declara que “A Igreja Visível…é o Reino do Senhor Jesus…” Com isso o dispensacionalista jamais concorda. Ele ensina que Jesus, na Sua primeira vinda, ofereceu o Reino à nação judaica, entendendo-o como terreno e político. Se os judeus tivessem aceitado a Jesus como o Messias, Ele teria restabelecido o antigo reino político de Davi de modo mais exaltado e extenso e teria cumprido assim as profecias do VT. Diante da rejeição do Messias pelos judeus, como nação, a oferta do Reino foi suspensa e adiada até o futuro reino judaico do Milênio, dando ensejo à inserção do período da Igreja nesse intervalo, que é chamado de “parêntese” no programa divino para com Israel e as nações. A presente era, portanto, que é a da Igreja, nada tem a ver as profecias do Reino. O reino que Cristo exerce hoje sobre a Igreja nada tem a ver com o Pacto Davídico (base das promessas do Reino) ou com as profecias messiânicas, conforme o dispensacionalismo.

Essa dicotomia é paralela à que é feita entre Israel e a Igreja e dela depende, pois no conceito dispensacionalista, as promessas do Reino (Davídico) são feitas apenas para Israel como nação, nunca para a Igreja. Diz John F. Walvoord:

Se for adotada uma interpretação literal, a presente entronização de Cristo não é um cumprimento do pacto, o qual deve referir-se ao futuro. Está claro que, no presente, Cristo não está em qualquer sentido literal reinando sobre o reino de Davi.

Uma promessa literal espiritualizada é fraude exegética. A característica do pacto Davídico é que o Filho de Davi irá possuir o trono de Seu pai Davi. Considerar a Sua pessoa literal mas Seu trono um conceito espiritualizado é anular a promessa.

O Novo Testamento é totalmente carente de ensino positivo de que o trono do Pai no céu deva ser identificado com o trono Davídico. Está clara a inferência de que Cristo está assentado no trono do Pai, mas isto não é, de forma alguma, a mesma coisa que estar assentado no trono de Davi.[40]

 

  1. d) A divisão do Evangelho em Quatro Formas Diferentes

No esforço de mostrar a diferença no modo de Deus tratar cada grupo de pessoas em cada diferente dispensação, o sistema acabou criando quatro formas diferentes de Evangelho. Elas estão descritas na Bíblia Anotada de Scofield da seguinte forma:

(1) O Evangelho do reino. São as boas novas de que Deus Se propõe a estabelecer na terra, em cumprimento ao Pacto Davídico (2 Samuel 7: 16 e refs.), um reino político, espiritual, israelítico e universal, sobre o qual o Filho de Deus, herdeiro de Davi, será Rei, e que será, por mil anos, a manifestação da justiça de Deus nos negócios humanos.

Duas pregações deste Evangelho são mencionadas; uma passada, começando com o ministério de João Batista, continuando por nosso Senhor e Seus discípulos, e terminando com a rejeição judaica do Rei. A outra é ainda futura (Mateus 24:14), durante a grande tribulação, e imediatamente precedendo a vinda do Rei em glória.

(2) O Evangelho da graça de Deus. São as boas novas de que Jesus Cristo, o Rei rejeitado, morreu na cruz pelos pecados do mundo, ressuscitou dos mortos para a nossa justificação, e que, por Ele, todos os que creem são justificados de todas as coisas. Esta forma do Evangelho é descrita de diversas maneiras…

(3) O Evangelho eterno (Ap 14:6). É o que deverá ser pregado aos moradores da terra no final da grande tribulação e imediatamente antes do julgamento das nações (Mt 25. 25:31 e refs.). Não é nem o Evangelho do reino nem o da graça. Embora o seu tema seja julgamento, não salvação, significa boas novas para Israel e para aqueles que forem salvos durante a tribulação (Ap 7:9-14; Lc 2:28; Sl 96:11-13; Is 35:4-10).

(4) O que Paulo chama de “meu Evangelho” (Rm 2:16 e refs.). Este é o Evangelho da graça de Deus em seu mais pleno desenvolvimento, mas inclui a revelação do resultado desse Evangelho na chamada da igreja, suas relações, posição, privilégios e responsabilidade. É a verdade distintiva de Efésios e Colossenses, porém, interpenetra todos os escritos de Paulo.[41]

De acordo com essa teoria, João Batista, Jesus e os apóstolos e, depois, Paulo, não pregaram a mesma coisa. Não era o mesmo evangelho, apenas acrescido de novas revelações, mas evangelhos de conteúdo e temas diferentes. Até que o Reino fosse rejeitado pelos judeus, João Batista e o próprio Jesus pregaram um evangelho “judaico”, terreno, político. Depois que Seu plano de estabelecer o Reino foi frustrado pelos judeus, Jesus mudou Sua pregação e começou a anunciar o Evangelho da graça, isto é, da Sua morte e ressurreição, até o fim de Seu ministério terreno. Esse mesmo evangelho foi pregado pelos apóstolos até Paulo, a quem foi dado conhecer melhor ou, pelo menos, revelar o “mistério” da Igreja.

 

  1. e) A Interpretação das Escrituras de Acordo Com o Sistema de Dispensações Diferentes Para Grupos e Épocas Diferentes

Não se trata apenas de reconhecer que é preciso, para uma boa interpretação bíblica, saber para quem Deus está falando e a respeito do que está falando. É todo um sistema que, por entender que as Escrituras foram dadas “dispensacionalmente” (isto é, diferentes passagens foram dadas a dispensações totalmente diferentes e separadas), acaba por defender e adotar um método de fragmentação da verdade bíblica. Acaba-se com todo o princípio de unidade e continuidade da revelação bíblica, a não ser dentro daquela mesma “dispensação”. É o que chamam de interpretar a Bíblia “dispensacionalmente”. “Distingam-se as épocas e as Escrituras se harmonizam”, diz Scofield na introdução de “sua” Bíblia, citando Agostinho.[42] Curiosamente, porém ,Agostinho identificava o Reino de Deus com a Igreja.[43]

Um exemplo de como esse princípio é levado ao extremo pode ser visto nesta declaração de Samuel Ladeira: “Em 1 Co 10:32 está o verso chave para todo estudo e interpretação da Bíblia” (grifos meus).[44]

O texto de 1 Co 10:32 diz: “Não vos torneis causa de tropeço nem para judeu, nem para gentios, nem tão pouco para a igreja de Deus”. A simples menção de três grupos aí é suficiente para um dispensacionalista concluir que a própria Bíblia divide a humanidade em três partes distintas e se dirige a essas partes (grupos) separadamente, de maneira sistemática, e que esse texto fornece a “chave para todo estudo e interpretação da Bíblia”.

“Manejar bem a palavra da verdade” (2 Tm 2:5), conforme a interpretação dispensacionalista, é estudar a Bíblia desta maneira, dispensacionalmente. M.R. DeHaan, um pregador de rádio que muito contribuiu para a divulgação desse sistema nos Estados Unidos, escreveu o seguinte:

A regra seguinte é a do correto manuseio da Palavra da verdade. Em 2 Tm 2:15, Paulo escreveu a Timóteo: “Procura apresentar-te a Deus, aprovado, como obreiro que não tem de que se envergonhar, que maneja bem a palavra da verdade”. A expressão “que maneja bem”, aqui empregada, é tirada dos sacrifícios do Antigo Testamento, e significa “cortar direito”. Por isso mesmo a tradução da Bíblia para o holandês diz “Recht Snijdt” ou “cortar direito”. Para entender o que isso quer dizer, deixe-me levá-lo até os sacrifícios do Antigo Testamento. Quando o ofertante trazia um cordeiro ou outro sacrifício qualquer, o mesmo era dividido em três partes (exceto no caso da oferta queimada, que era posta inteira sobre o altar). Uma parte era oferecida a Deus, outra parte era oferecida àquele que trouxera a oferta, enquanto que a terceira partilha cabia ao sacerdote. É dessa prática que foi emprestada a expressão “que maneja bem”. Significa simplesmente, dar a cada qual o que lhe pertence de direito. Ora, no estudo da Bíblia você deve ser muito cauteloso em dar à Igreja aquilo que pertence ao Corpo de Cristo, a Israel aquilo que pertence a Israel, e aos gentios aquilo que pertence aos gentios. Assim como o sacrifício era dividido ou cortado em três partes, também a Bíblia informa-nos que existem três espécies de povos neste mundo na presente dispensação. Em I Cor. 10:32, Paulo escreve: “Não vos torneis causa de tropeço nem para judeus, nem para gentios, nem tão pouco para a Igreja de Deus”. Quando estiver estudando a Bíblia, portanto, antes de mais nada, certificar-se para quem Deus está falando antes de fazer sua aplicação. Não misture Israel com a Igreja, nem a fé com as obras, nem a lei com a graça, nem a Igreja com o reino, nem o céu com o milênio. Disso só poderá resultar confusão e tolice.[45]

Analisando esse sistema de interpretação, William E. Cox diz que alguém que tomasse cada versículo da Bíblia e o atribuísse a uma dessas três categorias – judeu, gentio e cristão, e publicasse a Bíblia em três seções separadas, estaria prestando um serviço valioso, se esse fosse o método correto de se manejar (dividir) bem a Palavra de Deus.[46]

Cox ilustra como isso é feito citando as seguintes palavras de  William L. Pettingill, ardoroso defensor da Bíblia de Scofield e ex-deão da Escola Bíblica de Filadélfia, fundada pelo próprio Scofield:

Eu estou de há muito convencido e tenho ensinado que a Grande Comissão de Mateus 28:19,20 é aplicável primariamente ao Reino e não à Igreja….A comissão de Mateus entrará em vigor para o Remanescente Judaico depois que a Igreja for arrebatada.[47]

Pelo mesmo método de interpretação, ainda segundo Cox, esse grupo ensina que os cristãos não devem fazer a oração do “Pai Nosso”, pois esta era uma oração judaica a ser feita (pelos judeus) em uma época posterior.[48]

 

III.  AVALIAÇÃO DESSAS PREMISSAS BÁSICAS

A primeira das premissas desse sistema está relacionada com o conceito de interpretação literal das Escrituras, especialmente das profecias do VT.

“Interpretação Literal das Escrituras” não é um conceito definido em si mesmo. Diferentes pessoas tem diferentes ideias sobre o assunto. O princípio, em si, não é propriedade exclusiva nem privilégio dos dispensacionalistas. É regra aceita por todos os sistemas honestos de interpretação, especialmente os de linha ortodoxa. Mas o que significa a palavra “literal”?

Charles C. Ryrie afirma que interpretação literal é a que “dá a cada palavra o mesmo sentido que ela teria em uso normal, quer empregada na escrita, fala ou no pensamento”, o que ele depois identifica como “interpretação gramático-histórica”.[49]

Porém, como muito bem observa Gunn, o problema não está resolvido, porque alguém pode ainda perguntar o que é “uso normal”? Vê-se que a definição é tautológica, dado o aspecto subjetivo do problema.

M.R. DeHaan, ensinando interpretação literal, diz:

Leia a Bíblia literalmente, como faria com qualquer outro livro, crendo que Deus quer dizer exatamente o que afirma. Israel significa Israel, a Igreja significa a Igreja, uma pedra significa uma pedra, uma estrela significa uma estrela, a não ser quando o contexto ou a estrutura indique claramente que se trata de um símbolo ou figura, e não devem ser tomados literalmente. O bom senso sempre indicará quando alguma coisa deve ser considerada literalmente, ou deve ser tomada simbolicamente (negritos meus).[50]

A afirmação de DeHaan, feita no intuito de defender o princípio da literalidade com que as profecias sobre Israel devem ser tratadas, na verdade acaba deixando o juízo final com o “bom senso”, que é subjetivo, e destrói o próprio princípio que quer estabelecer, pelo silogismo adotado, se bem que verdadeiro.

A conclusão lógica é esta: se Israel é Israel e a Igreja é a Igreja, na Bíblia, no mesmo sentido em que uma pedra é uma pedra e uma estrela é uma estrela; se se puder provar que, em algumas passagens, uma pedra não significa uma pedra e uma estrela não significa uma estrela, então ficará provado também que igualmente em algumas passagens Israel pode não significar Israel e  Igreja pode não significar a Igreja, no sentido em que entendem os dispensacionalistas. Isso provado, terá ruído todo o fundamento sobre o qual repousa a teoria da separação absoluta entre Israel e a Igreja e o princípio da literalidade absoluta das profecias, os quais estão baseados na suposição de que todas as profecias feitas no VT com relação a Israel deverão se cumprir literal e incondicionalmente em Israel, como nação terrena, visto que a Igreja não foi profetizada no Velho Testamento.

 

NOTAS:

[1] Cf. Harvie M. Conn, Teologia Contemporanea en El Mundo (Grand Rapids: Subcomisión Literatura Cristiana de la Iglesia Cristiana Reformada, s.d.) p. 115.

[2] Cf. An Examination of Dispensationalism (Phillipsburg: Presbyterian and Reformed Publishing Co., 1963), p. 13.

[3] Cf. W.E. Cox, op. cit., p. 13.

[4] Ibid., p. 14.

[5] Ibid., pp. 14-15.

[6] T.T. Shields, in The Gospel Witness, de 7 de Abril de 1932, citado por W.C. Cox, op. cit., p. 15.

[7] A. Pieters, A Candid Examination of the Scofield Bible, p. 5, citado por W.E. Cox, op. cit., p. 15.

[8] Cf. O.T. Allis, Prophecy and the Church (Phillipsburg: Presbyterian and Reformed Publishing Co., 1955), p. 15.

[9] Cf. C.I. Crenshaw & G.E. Gunn, III, Dispensationalism – Today, Yesterday, and Tomorrow (Memphis: Footstool Publications, 1985), p. 7.

[10] G.E. Gunn, op. cit., p. 124.

[11] Ibid., pp. 124-125.

[12] O.J. Smith, When the King Comes Back, pp. 13-14, citado por W.E. Cox, op. cit., p. 1.

[13] Ibid., p. 2

[14] Cf. C. C. Ryrie, Dipensationalism Today, citado por G.E. Gunn, op. cit., p. 13.

[15] Cf. G.E. Gunn, op. cit., p. 136.

[16] C.I. Scofield, Manejando Bem a Palavra da Verdade (São Paulo: Imprensa Batista Regular, 1959), pp. 7-9,13.

[17] Dr. C.I. Scofield’s Question Box (Chicago: Moody Press, 1917), p. 70, citado por G.E. Gunn, op. cit., p. 137

[18] L.S. Chafer, Teologia Sistematica (Dalton: Publicaciones Españolas, 1974, Tomo II), pp. 253-254.

[19] L.S. Chafer, op. cit., p. 31.

[20] C.C. Ryrie, Dispensationalism Today, p. 144, citado por G.E. Gunn, op. cit., p. 138.

[21] J.D. Pentecost, Things to Come, p. 227, citado por G.E. Gunn, op. cit., p. 139.

[22] Se Chafer lesse mais atentamente essa passagem veria que ela associa o cumprimento de uma promessa do VT, a reedificação do tabernáculo de Davi, à Igreja, o que é exatamente o que ele pretende negar.

[23] C.S. Chafer, op. cit., pp. 41-42.

[24] C.C. Ryrie, The Basis of the Premillennial Faith, p. 136, citado por G.E. Gunn, op. cit., p. 135.

[25]The Scofield Reference Bible (New York: Oxford University Press, 1945),  p. 5, nota 4.

[26] C.I. Scofield, Manejando Bem…, p. 18.

[27] G.E. Gunn, op. cit., p. 351.

[28] C.C. Ryrie, Dispensationalism Today, p. 207, citado por G.E. Gunn, op. cit., pp. 348-349.

[29] L.S. Chafer, Systematic Theology (Dallas: Dallas Seminary Press, 1948), v. 7,  p. 219, citado por G.E. Gunn, op. cit., p. 345.

[30] Ibid., v. 4, p. 211; ibid., p. 346.

[31] Ibid., v. 4, p. 215; ibid., p. 346.

[32] Ibid., v. 4, pp. 215-216; ibid., p. 347.

[33] Ibid., v. 4, p. 219; ibid., p. 347.

[34] Ibid., v, 4, p. 222; ibid., p. 347.

[35] Ibid., v. 5, p.101; ibid., pp. 347-438.

[36] Ibid., v. 5, pp. 110-11; ibid., p. 348.

[37] Ibid., v. 4, p. 225; ibid., p. 348.

[38] Cf. G.E. Gunn, op. cit., p. 348.

[39]The Scofield Reference Bible, p. 1115, nota 2.

[40] J.F. Walvoord, The Millennial Kingdom, pp. 199,200,203, citado por G.E. Gunn, op. cit., p. 325.

[41]The Scofield Reference Bible, p. 13.

[42] Ibid., p. III.

[43] Cidade de Deus, XX 6-10.

[44] S.C. Ladeira, Pequenos Estudos Bíblicos sobre Profecias e Dispensações, p. 21.

[45] M.R. DeHaan, 15 Regras Simples sobre Como Estudar a Sua Bíblia (São Paulo: Imprensa Batista Regular), pp. 44-45.

[46] Cf. W.E. Cox, op. cit., p. 23.

[47] W.L. Pettingill, Bible Questions Answered, p. 112, citado por W.E. Cox, op. cit., p. 23.

[48] Cf. W.E. Cox, op. cit., p. 23.

[49] C.C. Ryrie, Dispensationalism Today, pp. 86-87, citado por G.E. Gunn, op. cit., p. 10.

[50] M.R. DeHaan, op. cit., p. 18.

 

fonte://www.ipcb.org.br/Publicacoes/o_dispensacionalismo.htm

Revisado por Ewerton B. Tokashiki

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