Pressupostos falsos

Por Onezio Figueiredo

 

Falsa Interpretação de Daniel

A doutrina adventista da expiação procede de uma falsa compreensão de Daniel 8.14. O fundador da seita, senhor William Miller, supondo ter interpretado corretamente a profecia, previu o retorno de Cristo para 22 de outubro de 1844. Cristo não veio. A decepção foi, para ele e seus seguidores, traumatizante e constrangedora. A senhora Ellen White, para que a “profecia” do “mestre” prevalecesse, usando a habilidade que lhe era peculiar, “fez a Bíblia comprovar” que o vaticínio de Miller era verdadeiro, pois o que predisse Daniel (Dn 8.14) real e literalmente se cumpriu, pois lá se declara que, depois das duas mil e trezentas tardes e manhãs, “o santuário será purificado”. Ela conclui, por “revelação direta”, não por exegese, que o santuário de que falou Daniel era o do Céu, não o da terra, contrariando os propósitos da profecia e a lógica interpretativa, além de não perceber que duas mil e trezentas tardes e manhãs referiam-se a dois mil e trezentos sacrifícios, dois em cada dia, que deixariam de ser oferecidos a Javé, perfazendo um total de 1.150 dias.

 

Transferências arbitrárias

A primeira inconsequência foi transformar um dia de sacrifício, ofertas matutinas e vespertinas, em dois dias. A Segunda, converter arbitrariamente dias em anos. A terceira, tomar a data do retorno de Esdras como ponto de partida dos cálculos. A conclusão é falsa, quando parte de premissas falsas. É o que acontece com o adventismo. Verifica-se, pois, que: a- Duas mil e trezentas tardes e manhãs são, na verdade, 1.150 dias. b- Dois mil e trezentos dias não são dois mil e trezentos anos. c- A contagem, a partir do decreto de Artaxerxes, que autorizou o regresso de Esdras à Palestina (457 a.C), não é segura, porque há dois reis sucessivos com o mesmo nome: Artaxerxes I e Artaxerxes II. Se foi no sétimo ano do reinado de Artaxerxes I, o decreto deve datar-se, aproximadamente, de 458 a.C.; se ocorreu no reinado de Artaxerxes II, a data provável é 398 a.C.(1), a mais aceita por Albright e H. H. Rowley (2) . Parece certo que o “último tempo da ira”( Dn 8.19) é o fim do cativeiro babilônico, onde começa a visão, pois Dn 8.20 fala do poder medo-persa, destruidor do império babilônico. Segue o “poderoso bode”, o império grego (Dn 8.21; cf. 8.5), que derrotou a Pérsia em 480 a. C. No final do império helênico “nasceu um chifre pequeno”, Antíoco Epifânio, déspota helenizante, que marchou contra a “terra gloriosa”, a Palestina (Dn 11.16,41) massacrando, em três dias, 40.000 judeus, profanando o Santo dos Santos, erguendo um altar a Zeus e oferecendo sobre o Altar das ofertas queimadas uma enorme porca. A inominável profanação fez, não somente cessar o sacrifício no templo, mas estabelecer a sua inviabilidade posterior (3).

O cumprimento da profecia de Dn 8.14 verificou-se com exatidão. Antíoco ofereceu a porca em sacrifício no Altar Sagrado em 25 de dezembro de 168 a.C. No dia 25 de dezembro de 165 a.C., vitoriosa a revolução macabaica, ofereceu-se o sacrifício sobre um altar novo, não profanado, sendo o “Altar purificado”, depois de três anos de profanação, isto é, depois de 2.190 tardes e manhãs de sacrifícios não realizados. Como os sacrifícios, diante da iminência de invasão e das impossibilidades criadas pelos conflitos bélicos, já haviam sido suspensos tempos antes, as 2.300 omissões sacrificais completaram-se (4). Isto é o que realmente aconteceu; o resto é fantasia de mentes fanatizadas e, por isso mesmo, delirantes.

 

Conclusão

Miller, subtraindo a data incerta de 457 a.C. dos supostos 2.300 anos, chegou à conclusão de que a marca do retorno de Cristo apontava, invariavelmente, o ano de 1843. Cristo, contudo, não veio, como matematicamente previra o “profeta”. Ele descobriu que o Messias não retornara porque havia calculado erradamente, mas que poderiam esperá-lo porque, com certeza, apareceria no dia 22 de outubro de 1844. Não apareceu. A profetisa Ellen White, tomando os dados falsos do “profeta” Miller, “inspirada”, dogmatizou que Cristo realmente voltou, não para o altar terreno, projeção do celeste, mas para o próprio altar dos céus, o Santo dos Santos. Em cima do advento por ela imaginado e convertido em dogma doutrinário, o adventismo, estabeleceu a “sua” antibíblica teologia da expiação, que estudaremos a seguir.

 

NOTAS:

(1)- Esdras, Dic. Enciclopédico da Bíblia, Ed. Vozes, trad. da 3ª Ed. Holandesa, Petrópolis, RJ, 1992.

(2)- Smuel Schultz em Hist. De Israel, Ed Vida Nova, SP,1980, pág. 251-rodapé.

(3)- J. K. Van Baalen, “O Caos das Seitas”, Imp. Batista Regular, SP, 1974, pág. 153.

(4)- J. K. Van Baalen, obra citada, págs. 152, 153.

 
 
 
 

 

 

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