Sermão puritano – um novo modelo de exposição

Por Joseph Pipa

 

A multidão estava emocionada na Igreja de Santa Maria quando John Cotton subiu ao púlpito para pregar. Ele era tão famoso que muitos vieram para ouvi-lo pregar aquele sermão para a Universidade, pois mesmo ainda jovem já demonstrava muita habilidade e conhecimento. Já havia demonstrado que era um orador poderoso. No seu sermão anterior, pregado na Universidade, tinha deixado o povo “eletrificado” através de seu estilo e da sua eloquência. Por isso, muitos tinham vindo ouvi-lo com aquela expectativa de ver “fogos de artifício” de eloquência. Mas, quando ele começou a pregar, uma onda de desapontamento começou a varrer a multidão presente porque este mestre em retórica estava pregando no estilo simples e direto dos puritanos.

O que havia acontecido com John Cotton? No período entre estas suas duas pregações John Cotton havia se convertido através da pregação do grande puritano Richard Sibbes. Sua conversão afetou sua forma de pregar. Seu biógrafo, Cotton Mather, da Nova Inglaterra, diz o que aconteceu com John Cotton: “Mr Cotton, após sua conversão, resolveu que sempre pregaria de forma direta um sermão que, de acordo com sua consciência, fosse o mais agradável a Cristo”. Esta não foi uma decisão fácil, pois se ele pregasse como os puritanos estaria, supostamente, trazendo vergonha para a causa de Deus. Existe este ditado de que a religião faz com que os estudiosos se transformem em tolos, o que, pela graça de Deus, esperamos que não ocorra. Por outro lado, John Cotton sentiu que era sua obrigação pregar de forma direta como convinha aos oráculos de Deus. Pois o propósito da Bíblia era converter os homens e não simplesmente fazer ostentação teatral. Este conflito que John Cotton passou nos permite analisar a filosofia da pregação dos puritanos.

Quando Cotton pregou este segundo sermão em 1610, a pregação puritana já havia sido caracterizada e marcada com seu estilo bem definido. Este estilo de pregação não era apenas a marca característica de um grupo, mas havia sido resultado de convicções essencialmente teológicas – pregar de forma direta a Palavra.

Os puritanos usavam o novo método reformado e direto de pregar. Este novo método reformado era um tipo especial de estrutura, de esboço de sermão. Quando lemos os sermões dos puritanos ou o sermão de Jonathan Edwards, “Pecadores nas Mãos de um Deus Irado”, percebemos sua estrutura. O sermão começa com uma análise do contexto, seguida de uma breve explicação exegética e, desta exegese, o pregador extrai as doutrinas que ele vai pregar. Logo ele desenvolve estas doutrinas com provas e argumentos. Finalmente faz a aplicação à congregação, o que chamavam de “usos”. Além disso, na forma da pregação, eles usavam o estilo de comunicação que era muito diferente dos demais pregadores britânicos da época.

Muitos hoje concebem o estilo de pregação puritano como sendo cheio de muitas palavras, monótono e escolástico. Entretanto, apesar disso, nos seus próprios dias, a pregação puritana com todo esse estilo revolucionou a Inglaterra.

Para que compreendamos este novo método reformado, vamos inicialmente entender o estado ou a forma como se pregava na segunda parte do século XVI. Na época da Reforma havia basicamente dois tipos de sermão em uso. Muitos, como Calvino, usavam aquilo que se chama de forma antiga. É chamada de antiga porque historicamente se liga até aos primeiros grandes pregadores da história da Igreja como João Crisóstomo. A forma antiga de pregação não tinha nenhuma estrutura elaborada de organização. Se lermos os comentários de Calvino perceberemos que ele simplesmente segue a ordem do texto fazendo a exegese e trazendo a aplicação. Outros usavam uma forma semelhante à moderna, o que se vê hoje. Na verdade, o que chamamos de forma “moderna” vinha desde a Idade Média. Era um estilo de pregação que se desenvolveu com base na oratória de Cícero e, nas mãos dos pregadores da Idade Média, havia se tornado uma forma muito laboriosa e florida de se pregar. Mas os reformadores tomaram esta forma de pregação e eliminaram toda sua ornamentação, e passaram a usar aquele tipo de sermão clássico, muito próximo ao sermão que encontramos nos clássicos livros de homilética. Ou seja, introdução, divisão do texto, pregação de pontos em sucessão e a conclusão. Para alguns pregadores ingleses esse tipo de pregação se tornou uma arma potente em suas mãos. Mas, muitos dos pregadores ingleses daquela época haviam voltado ao método escolástico de pregação. Estavam tão influenciados pela retórica e dialética de Aristóteles que o sermão em suas mãos se tornou simplesmente uma dissecação minuciosa, fria e sem vida do texto, além de não ter aplicação prática à vida. O problema foi que eles, ao invés de desenvolverem uma filosofia própria de pregação, consideraram a pregação como uma subdivisão da retórica e dialética clássica. Nos dias de hoje se faz algo muito parecido. Mas os reformadores insistiram que a homilética, a arte de pregar, deveria ser uma ciência que tivesse existência própria. Sem dúvida ajudada pela retórica e dialética, mas não baseada nestas coisas.

Nos dias modernos, teorias de comunicação têm tomado o lugar da retórica. Cada vez mais os seminários estão falando de formas como comunicar em lugar de como pregar. Aqui existe uma diferença profunda. Hoje perdemos a ciência, a arte bíblica da homilética. A pregação pública perdeu a sua dimensão bíblica e o seu poder bíblico. Nas mãos dos pregadores ingleses este estilo se tornou um instrumento que fazia com que as convicções retóricas do pregador fossem inseridas nos seus sermões, o que naturalmente afetava e alterava o sentido do texto. Mas isso não os preocupava pois seguiam as idiossincrasias da igreja primitiva em termos de exegese. Seus sermões eram cheios de alegorias. Cito um exemplo de um pregador britânico. Seu texto era Lucas 23:28 quando há o relato das mulheres chorando quando Jesus levava a cruz. Ele começa descrevendo os 4 tipos de mulheres que estavam ali chorando. Após fazer a introdução à sua passagem, divide o texto em 8 partes como segue: Nesta passagem podemos observar tantas palavras se referindo a tantos lugares. São oito expressões com oito partes. A primeira expressão: “não chores”; a segunda: “chorai”; a terceira: “não chore, mas chore”; a quarta: “por mim”; a quinta: “por vós mesmas”; a sexta: “por mim e por vocês mesmas”; a sétima: “não chorai por mim”; a oitava: “chorai por vocês mesmas”. É patético, mas esta era a divisão do sermão. Isso é apenas uma ilustração de como os pregadores ingleses daquela época estavam dividindo e fazendo o esboço de seus sermões.

Naturalmente, além de usar esta forma, este método de esboço, eles usavam muito pouca aplicação. E quando faziam uma aplicação, era mais de uma maneira genérica. Esta perspectiva nasceu da sua filosofia de pregação. Eles não criam que o sermão era o meio principal de graça. Não criam na centralidade da pregação no culto. Na opinião deles a celebração dos sacramentos deveria ter tanto efeito na mente das pessoas quanto o sermão. Assim, a teologia deles influenciava o esboço, a estrutura do sermão e o estilo de suas pregações. O sermão de pessoas com estas convicções são exemplos de fantasias poéticas. A eloqüência artificial que eles demonstravam era conseguida através da rima que faziam nas palavras e frases. Faziam jogo de palavras; usavam palavras com duplo sentido. Seus sermões estavam cheios de citações de grego e latim para demonstrar erudição. O propósito destes pregadores era eletrizar a sua audiência, não com a verdade da Palavra de Deus, mas com sua eloqüência. O paralelo moderno deste tipo de sermão é aquela pregação cheia de piadas e estórias, anedotas, ilustrações humorísticas. Nos Estados Unidos temos pregadores que a cada ponto do seu sermão contam dez estórias diferentes. Mas na realidade o que está por trás é esta visão do sermão: a teoria da comunicação.

Estou falando sobre isto porque acredito que é muito relevante estes exemplos que tiramos da história da pregação. Precisamos ver isto para podermos localizar e entender de que forma os puritanos viam a pregação. Sem dúvida alguma os puritanos estavam completamente insatisfeitos com a forma e o estilo do sermão dos anglicanos. Por isso citei a experiência de John Cotton. Os puritanos rejeitaram o estilo anglicano de pregação e no seu lugar introduziram o novo método reformado com seu estilo direto de pregar.

 

Teologia Puritana da Pregação

Os puritanos consideravam a pregação como a função principal do pastor e fundamentavam esta convicção no fato de a pregação ter sido o trabalho principal de Cristo e dos apóstolos. Portanto, aderiram firmemente ao princípio da centralidade da pregação no culto. Para os puritanos, durante a pregação uma “transação” especial estava ocorrendo. Seguindo a tradição dos apóstolos e João Calvino, os puritanos acreditavam que quando um homem ordenado (pela Igreja) para pregar, expunha a Palavra de Deus, Cristo estava falando através dele. Pela pregação, a Palavra escrita se torna a Palavra viva de Deus. O puritano William Perkins escreveu: “Porque quando as promessas da misericórdia de Deus são oferecidas ao Seu povo através da pregação da Palavra por um ministro ordenado, é como se o próprio Cristo, em pessoa, estivesse falando através das Suas ordenanças”.

Este é um ensino claramente expresso no NT. Isso precisa ser redescoberto nos nossos dias. É a base teológica pela qual podemos entender porque a pregação tem de ser central no culto. Tudo que fazemos no culto é importante, e quando estamos adorando no culto estamos falando a Deus. Mas o nosso culto atinge o clímax quando Deus em resposta nos fala. Por isso a pregação era algo tão importante para os puritanos e deve ser, pela mesma razão, importante para nós. Baseados nesta compreensão que eles tinham da natureza da pregação os puritanos consideravam a pregação como o meio principal de graça. Para eles, era através da pregação que Deus primariamente haveria de converter e santificar os pecadores. Eles pregavam com este propósito em mente. O grande alvo dos puritanos era mudar as pessoas e equipar o povo de Deus para trabalhar para a glória de Deus. Eles queriam que o povo percebesse o quanto precisavam de pregação.

Um grande pregador puritano chamado Henry Smith, disse: “Queridos, se vocês considerarem que não podem ser nutridos para a vida eterna senão pelo leite da Palavra de Deus, vocês prefeririam que seus corpos estivessem sem alma do que ter as suas igrejas sem pregadores”. Em outro sermão, para enfatizar a importância do pregador, ele disse: “Vocês precisam que lhes ensine porque Paulo fazia tanta questão de ter pregadores. É porque os pregadores são como lâmpadas (candeeiros) que se consomem a si mesmos para dar luz aos outros e se consomem para trazer luz até vocês; eles são como a galinha que protege os seus pintinhos contra os gaviões; também eles nos protegem da serpente enganadora; e porque eles são como um grito que derrubou as muralhas de Jericó, assim também derrubam as muralhas do pecado; porque são como aquela coluna de fogo que conduzia os israelitas até a terra da promessa, da mesma forma os pregadores vão adiante de vocês levando-os à terra da promessa; porque os pregadores são como André que chamou seu irmão para verem o Messias, assim também eles chamam vocês para venham ver o Messias; portanto, tenham os pregadores em alta estima”.

Com base na compreensão puritana da natureza teológica da pregação foram desenvolvidas o que podemos classificar como sendo as cinco marcas do verdadeiro sermão.

 

  1. Se Cristo vai nos falar através do sermão, ele tem de ser bíblico.

A Diretório de Culto de Westminster nos diz: “De forma geral, o tema de um sermão tem de ser um texto da Escritura expondo alguns princípios básicos da religião e que são adaptados ou que são úteis a determinadas ocasiões, ou então o pregador pode pregar expositivamente através de um capítulo, de uma parte de um livro ou de um salmo da Escritura”. A primeira coisa que notamos aqui é que para os puritanos o conteúdo da pregação deveria ser primeiramente a Palavra de Deus. E mesmo que seja um sermão tópico seu objetivo deve ser expor o conteúdo da Escritura. Qualquer parte de um sermão tem de ser baseado na Palavra de Deus. Cada pregador deve perguntar: Será que posso dizer que meus sermões são bíblicos? Com relação ao método, os puritanos recomendavam e praticavam, em termos gerais, a pregação expositiva.

 

  1. A pregação deve atingir a mente. Deve ser lógico.

Os puritanos estavam convencidos que o pregador deve se aproximar do coração de sua audiência através de suas mentes. Portanto, o sermão devia ser intensamente lógico, expondo a verdade, linha por linha, preceito por preceito. Por causa disso os sermões puritanos eram cheios de argumentos, provas e demonstrações que partiam das Escrituras. Eles eram “experts” na persuasão e, talvez o maior de todos eles tenha sido Jonathan Edwards.

 

  1. A pregação deve ser de fácil memorização.

O povo deve ser capaz de lembrar-se do que o pastor pregou. De acordo com a maneira puritana de pensar, embora o sermão devia operar quando no próprio ato da pregação, ele deveria continuar a sua obra de edificação à medida que o povo levava o sermão para casa. Portanto, os pregadores puritanos encorajavam as pessoas para que elas meditassem em casa sobre o sermão pregado, sobre o que se havia dito. Encorajavam as pessoas a tomarem nota e decorarem os pontos principais do esboço do sermão; que não somente no culto doméstico, mas também na escola, a congregação deveria repetir o sermão do domingo. Se o povo fizesse tudo isso precisava de alguma coisa sólida em que se firmar.

O tipo de pregação que encontramos hoje e que exerce uma pressão apenas sobre a consciência não é passível de memorização. Se o sermão vai ser decorado pela congregação deve ter uma estrutura clara que facilite esta memorização e a estrutura do sermão puritano capacitava o povo a memorizar. Isso ainda é verdade hoje. Quando acabamos de pregar nos dias de hoje, a nossa congregação deveria ser capaz de ir para casa levando em suas mentes pelo menos o esboço do que foi dito. No último dia do Senhor tive uma experiência singular com respeito a esta verdade. Às margens do rio Amazonas, em uma fazenda, tive o privilégio de pregar pela manhã daquele domingo através de um intérprete a muitos que não sabiam ler. Mas, porque o sermão foi claro e direto, muitos puderam compreender e memorizar. No culto da noite um motorista de caminhão ficou de pé e recitou o meu sermão para a congregação, apenas porque a estrutura do sermão tinha sido simples, fácil de memorizar.

Lembremos: o sermão deve ser bíblico, lógico e fácil de memorizar.

 

  1. Mas o sermão deve ser claro.

Não deve haver nada no sermão que faça com que as pessoas se desviem da verdade, que distraia a atenção para outra coisa além da verdade. O sermão deve ter uma linguagem popular, com um vocabulário simples e “crucificado”, sem chamar atenção para o ego. Naturalmente que nem todos irão compreender a verdade, mas de qualquer forma a verdade deve ser proclamada numa linguagem de todos.

 

  1. O sermão deve ser transformador.

O grande propósito do sermão puritano era transformar a vida das pessoas e equipá-las para viver para a glória de Deus. Portanto deveria ser apresentado com aplicação e ajuda.

Este é um breve sumário da teologia da pregação puritana. Começamos dando uma olhada no estado geral da pregação na segunda metade do século XVI e a reação puritana contra essa situação que se expressa na sua própria teologia da pregação.

 

Método Puritano de Pregação.

Este método chegou a ser conhecido como novo método reformado, e o mentor deste tipo de pregação e que o desenvolveu foi William Perkins. Perkins “encarnava” toda a teologia puritana em seu pastorado e pregação. Era um pregador poderoso e fiel. John Cotton disse que no dia que ouviu as badaladas do sino da igreja chamando para o funeral de William Perkins, secretamente ele vibrou de alegria. Por quê? Porque a sua consciência havia sido severamente ferida debaixo da pregação poderosa de Perkins. Ele disse: “Agora que o atormentador morreu, posso escapar desta convicção de pecado que sempre vinha de seus sermões”. Mas a experiência de John Cotton não é um evento isolado. A pregação de Perkins teve uma influência incalculável em muitas pessoas nos seus dias. Seu biógrafo diz que ele era capaz de se comunicar com pessoas de todos os níveis sociais, desde o operário e o comerciante até o professor de Universidade. Ele podia pregar de forma eficaz e não somente aos perdidos, mas aos crentes. William Ames nos diz que quando ele foi a Cambridge, dez anos depois da morte de Perkins, a cidade ainda estava cheia de referências a William Perkins.

Com o propósito de reformar a Igreja e levá-la para dentro daquele programa puritano de reforma, Perkins escreveu um livro: “A Arte de Profetizar”. Ele usava a palavra profetizar no sentido de pregar. O propósito era dar aos pregadores ingleses um livro de Homilética para usarem no preparo dos seus sermões. É interessante que desde a Reforma até a publicação deste livro (1592), nenhum livro havia sido publicado dentro da igreja da Inglaterra a respeito de pregação. Perkins havia procurado suprir esta necessidade. Ele percebia que os pastores não tinham treinamento apropriado para pregar. Seu livro tem duas partes principais. Depois de dar o contexto inicial, ele trata da estrutura do sermão e a proclamação deste sermão. Nesta primeira parte ele falava do esboço do sermão e tratava dos seus princípios teológicos. Ele tem um capítulo final onde trata da questão de como o pastor deve dirigir a congregação em público.

É verdade que Perkins desenvolve a estrutura do sermão baseado numa teoria de comunicação. Isto é importante para nós, pois ele acreditava que a maneira de alcançar as emoções e a vontade das pessoas era indo através do intelecto. Ele estava aplicando as teorias e os métodos pedagógicos de Tirano. Perkins acreditava que o pregador se dirigia primeiro ao intelecto usando verdades irrefutáveis, princípios irrefutáveis da exegese e, se houvesse necessidade, estes princípios poderiam ser repetidos através de demonstração e argumentação. Uma vez que a pessoa havia aceito a verdade que estava sendo proclamada, ela estava em condições de aplicar à sua vida e ao seu pensamento aquilo que o pastor estava falando. Não é somente se dirigir ao intelecto da congregação, mas persuadir as pessoas intelectualmente da verdade da Escritura. Sobre este fundamento ele partia para a aplicação. Isso está bem colocado nas cinco marcas que apresentamos acima.

O centro da estrutura do sermão é chamado de o “esquema triplo”, que consistia de (a) doutrina, (b) demonstração e (c) usos. Na doutrina o pastor declarava a verdade doutrinária que se encontrava na passagem. A demonstração consistia em trazer de outras partes da Escritura textos que reforçassem aquilo que o pastor havia falado para que a verdade exposta se tornasse irrefutável. Finalmente, os usos eram as aplicações que se fazia à congregação à partir da doutrina que tinha acabado de ser estabelecida. Algumas vezes poderia haver uma ou mais doutrinas e nesse caso, cada doutrina seria desenvolvida e conseqüentemente aplicada. Ele partia de uma doutrina e continuava na próxima. Mas, em geral havia no desenvolvimento do sermão apenas uma doutrina.

Não foi Perkins que inventou este estilo de pregação, mas estava convencido de que esta era a melhor maneira de se ter a pregação ideal. Por causa de seu próprio exemplo como pregador e do livro que escreveu, ele acabou transformando o estilo de pregação da época. No fim do século XVI era a única maneira que os puritanos conheciam de pregar.

 

Doutrina e demonstração.

No fim do seu livro, Perkins dá a ordem e o sumário de seu método.

  1. O pastor tem de ler o texto diretamente das Escrituras Canônicas.
  2. Dar o sentido e a compreensão do que está sendo lido pela própria Escritura e tirar do texto o seu sentido natural, retirando alguns pontos úteis da doutrina e aplicá-los à vida das pessoas numa forma simples e direta.

Se você já leu algum sermão puritano, espero que esteja agora em condições de reconhecer o que ali está presente.

A primeira coisa que o pregador puritano nos dá é o contexto da passagem.

A segunda coisa é nos dar uma breve exposição exegética do texto escolhido. Geralmente divide o texto fazendo um esboço exegético e, a partir daí ele expõe a doutrina ali contida.

Seguindo este método o puritano mostra de forma clara à sua congregação, que a doutrina que está pregando vem diretamente de uma exegese da Escritura. Então, desenvolve a doutrina que extraiu da Escritura através de demonstrações e argumentos.

Finalmente ele leva tudo isso às consciências dos ouvintes através de uma aplicação direta.

Portanto, segundo Perkins, a doutrina a ser demonstrada no sermão deveria partir de uma exegese da Escritura. Como Calvino e os demais reformadores, eles acreditavam que um texto tem apenas um único sentido. Perkins continua procurando mostrar e dar algumas regras de interpretação úteis ao pregador. Dá os seguintes métodos que acredita serem necessários para se interpretar a Bíblia corretamente.

  1. Ter um conhecimento geral de toda doutrina bíblica. Por isso o pregador necessita da Confissão de Fé e dos Catecismos. Calvino enfatizou que, se alguém tem um conhecimento claro da verdade, ele está habilitado a ser um intérprete fiel da Palavra de Deus. Se ele conhece o todo pode interpretar parte.
  2. Em segundo lugar, Perkins recomendava que se lesse a Escritura numa seqüência especial usando análise gramatical, retórica e lógica para entender o texto.
  3. Fazer uso de comentários escritos por exegetas ortodoxos. Por isso devemos sempre indicar bons livros.
  4. Manter um registro do que está lendo. Os puritanos chamavam a isto de “livro de registro de leitura” (dos textos). Era um livro que registrava as passagens lidas, os pontos principais e um esboço do que pregavam.
  5. Não esquecer que toda interpretação bíblica deve ser feita em oração. Isso, porque o Espírito Santo é o interprete da Palavra de Deus.

Havendo estabelecido estes princípios de interpretação básicos ele vai mais adiante e coloca mais três princípios específicos que são baseados naquele maior de que a Escritura interpreta a Escritura:

  1. Analogia da fé. A Bíblia é uma unidade. Uma vez que você conhece toda doutrina bíblica percebe que não há nenhuma contradição. Portanto, não se pode interpretar o texto de forma a contradizer o que a Bíblia diz em outro lugar.
  2. O texto deve ser interpretado à luz do seu próprio contexto.
  3. Comparar Escritura com Escritura.

Todos estes princípios estão operando por detrás da maneira como os puritanos desenvolvem sua exegese do texto. Tudo está sumariado no Diretório de Culto de Westminster. Se o texto escolhido para a pregação é longo como em histórias ou parábolas o pastor deve dar um breve resumo dele. Se, ao contrário, o texto é curto, o pastor deve fazer uma paráfrase do texto. O propósito é que, de uma forma ou de outra, se possa olhar e compor o contexto do texto e demonstrar as doutrinas principais que devem ser extraídas daquele texto. Fazendo a análise e organização do texto escolhido, deve-se levar mais em consideração a ordem do assunto do que a ordem das palavras.

Assim feito, os puritanos passavam para a exposição da doutrina. Como dissemos, a doutrina nada mais é do que a verdade extraída do texto e exposta de uma forma adaptada à edificação do povo de Deus. O pregador deveria falar de forma tão clara que aqueles que ouvissem, com prazer recebessem a Palavra de Deus.

William Perkins sempre falava de “extrair” uma verdade de um texto. Havia dois métodos de se fazer isto.

1) Anotação e 2) Coleção (ajuntamento).

2) Anotação é usado quando a doutrina está claramente explícita no texto. O que o pregador faz é simplesmente observar aquilo que o texto está dizendo de forma clara. Um exemplo é o Sermão do Monte, quando Cristo diz que aquele que olhar para uma mulher com uma intenção impura, no seu coração comete adultério com ela. Daí Perkins extrai a seguinte verdade: O texto não somente está afirmando isto, mas dele se deriva a verdade de que o sentido daquele ensino é proibir toda ocasião para o adultério.

3) Coleção (ajuntamento) é o método usado quando a doutrina está implícita no texto. Neste caso a verdade tem de ser deduzida por inferência. Ou seja, a verdade quando não é declarada explicitamente pode estar obviamente contida na passagem. Como exemplo temos a passagem de Sofonias 2:2, quando encontramos a expressão “examinai-vos a vós mesmos”. Baseado nesta expressão Perkins desenvolve a doutrina da necessidade de arrependimento. Isso, porque todo arrependimento deve começar com auto-exame e todo auto-exame deve levar a arrependimento. Uma vez que a doutrina é derivada do texto ela deve ser demonstrada. No desenvolver da doutrina a verdade deve ser claramente demonstrada. Uma vez que isso é feito, os ouvintes estarão prontos para ouvir a aplicação.

Esta é uma ideia do método puritano de preparar um sermão, não somente por causa do contexto histórico, mas porque nos traz lições importantes.

Agora vamos ver algumas implicações práticas.

1) Primeiro, o estudo do método e estrutura do sermão puritano nos ajuda a entender de que maneira a Confissão de Fé de Westminster interpreta o Velho e o Novo Testamento. Lemos no capítulo I. p. VI, desta Confissão: “Todo conselho de Deus concernente a todas as coisas necessárias para a glória dele e para salvação, fé e vida do homem, ou é expressamente declarado na Escritura ou pode ser lógica e claramente deduzido dela…”.

Portanto, quando vemos o método que Perkins usava quando organizava as demonstrações bíblicas para provar seu texto escolhido, podemos entender o mesmo tipo de exegese que encontramos na própria Confissão de Fé. Isso também explica a relação entre os textos de demonstração e a doutrina que os puritanos extraíam destes textos.

2) A segunda lição prática é que, se entendermos a estrutura do sermão puritano, poderemos ler de forma mais proveitosa estes sermões. Perceberemos onde eles querem chegar e como chegarão. Nos ajudarão, nos sermões muito elaborados e floridos, o que devemos desprezar.

3) Com tudo isso veremos a ênfase na necessidade de pregar exclusivamente a Palavra de Deus. Se o nosso povo vai ser mudado pela pregação, ele também deve ser convencido da verdade da Palavra de Deus. O seu propósito como pregador é ajudá-lo a ver qual a verdade das Escrituras e que é isso que Deus está dizendo. Existem várias opiniões sobre os propósitos do sermão: persuadir, motivar, instruir, mas sempre com aquele propósito principal, qual seja, explicar a Palavra de Deus. Quero que meu povo vá para casa, depois do sermão do Domingo, tendo uma idéia mais clara do sentido do texto usado. Provavelmente eles esquecerão o que disse, mas na próxima vez que abrirem a Bíblia naquele texto pregado, sem dúvida terão uma compreensão mais clara.

Mas este tipo de pregação que estamos defendendo exige trabalho árduo. O pastor deve ser um exegeta fiel das Escrituras. Deve trabalhar duro nos seus estudos porque somente através deste trabalho árduo e em oração, a “Bíblia se abre” para nós. Como intérpretes devemos tratar o texto de forma fiel. É vergonhoso saber que nós, que temos esta visão da Bíblia como de fato a Palavra de Deus, somos, algumas vezes, exegetas tão desleixados. João Calvino podia dizer do seu ministério que até quanto ele sabia, nunca, conscientemente, interpretou mal a Palavra de Deus. Você pode dizer isto?

Além disso devemos construir e estruturar nossos sermões de forma cuidadosa e não deixar para a última hora. Se o sermão tem de ser lógico e deve ser memorizado pela congregação, ele precisa ser elaborado com cuidado.

Uma palavra dirigida aos presbíteros. Vocês devem dar apoio e encorajamento aos seus pastores para que eles estudem; protejam os pastores! Exija deles este tipo de pregação e estudo.

Aos membros da igreja digo: Este tipo de sermão vai exigir alguma coisa de vocês. Você não vai à igreja apenas para ser entretido; deve se apropriar da Palavra de Deus através de sua mente e fazê-la descer ao coração e nele leve esta Palavra para casa e para que nele surta efeito onde estiver. Para isso tem de ser um ouvinte atencioso. Não culpe o pastor se não tirou nada de um sermão preparado zelosamente. É sua responsabilidade tirar proveito, porque não foi à igreja para se entreter ou se divertir, mas para ser instruído na Palavra e ter Deus tratando com seu coração.

Lembrem-se das cinco marcas do sermão puritano. Não vamos desenvolvê-las como os puritanos desenvolveram; algumas vezes a estrutura do sermão puritano continha muitas palavras e quando havia a tendência de derivar muitas doutrinas de um único texto, o sermão perdia sua unidade; ficava uma colcha de retalhos. Mas a lição é que não devemos seguir os puritanos como robôs, mas “pegar” a visão que eles tinham.

Lembre-se! O sermão deve ser:

1) Bíblico; 2) Lógico; 3) Fácil de ser memorizado; 4) Direto; 5) Transformador.

Amém.

 

Revisado por Ewerton B. Tokashiki

Comments

  • Fabio Campos
    Responder

    Muito esclarecedor… precisamos sempre seguir a trilha de Deus!!!