O “Auto da Compadecida” e a nossa fé

Por Ageu Magalhães

 

Há pouco mais de dois meses faleceu no Recife, Ariano Suassuna, dramaturgo, romancista e poeta brasileiro. Autor de obras como “A História do Amor de Fernando e Isaura” (1956), “O Romance d’A Pedra do Reino” (1971) e “História d’O Rei Degolado nas Caatingas do Sertão / Ao Sol da Onça Caetana” (1977), foi com a adaptação para televisão da peça “Auto da Compadecida” que Ariano Suassuna tornou-se conhecido nacionalmente.

O presente artigo faz uma análise da obra, seus personagens e a construção do pensamento de Ariano nesta produção. Veremos como a história de vida do autor, sua infância, traumas e religiosidade influenciaram a obra. Observaremos o importante fato de Ariano ser filho e neto de presbiterianas e a influência disso na construção de uma de suas personagens.

 


  1. DESCRIÇÃO PANORÂMICA DA OBRA

 

A peça teatral “Auto da Compadecida” foi escrita por Ariano Vilar Suassuna em 1955 e encenada pela primeira vez em 11 de Setembro de 1956, no Teatro Santa Isabel, em Recife, Pernambuco, pelo grupo “Teatro Adolescente do Recife”.[1] Em Janeiro de 1957 o mesmo grupo representou a peça no 1º Festival de Amadores Nacionais, no Teatro Dulcina, no Rio de Janeiro, sob a direção de Clênio Wanderlei. Vinte grupos de teatro, de todo o Brasil, concorreram e “Auto da Compadecida” venceu o festival, recebendo a medalha de ouro do espetáculo.[2]

A obra foi baseada em romances e histórias populares do Nordeste e o estilo de apresentação sugerido pelo autor, aos futuros diretores, foi o da simplicidade, em atmosfera circense.

No título, a designação “auto” refere-se a uma peça de teatro com apenas um ato, de tema religioso e caráter alegórico. Os autos foram muito comuns na Idade Média. Um autor que se destacou neste gênero foi o português Gil Vicente, tendo escrito, dentre outros, o “Auto da Barca do Inferno”[3]. Quanto ao “Compadecida”, que completa o nome, refere-se à Maria, mãe de Jesus, conhecida no Catolicismo Romano como “Nossa Senhora”.

A peça teatral, objeto desta análise, foi adaptada para televisão em 1999, em formato de minissérie, transmitida pela Rede Globo de Televisão com o nome “O Auto da Compadecida”, adicionando-se o artigo “o” ao título original. Em 2000 a obra foi adaptada para o cinema, como mesmo nome criado para a televisão.

Quando “Auto da Compadecida” foi escrita, em 1955, o clima no mundo era de atenção. A segunda guerra mundial terminara havia menos de 10 anos, em 1945, e uma nova configuração mundial se estabelecia tendo como polos distintos os Estados Unidos da América e a União Soviética. Era o início da guerra fria, com muita ação das redes de espionagem universal – CIA (USA) e KGB (URSS). Este período também foi marcado pela corrida armamentista, com a explosão da primeira bomba de Hidrogênio (bomba H) em 1952. A década de 50, portanto, marcou a transição entre o período das grandes guerras e o período do desenvolvimento tecnológico da segunda metade daquele século.[4]

No Brasil, este período também foi de turbulência. Com a vitória dos aliados, o país teve que decidir de qual lado ficaria. Optou pelos EUA, rompendo relações diplomáticas com a União Soviética em 1947.[5] No campo político, o período foi de instabilidade. Ocupando a presidência da República o Brasil teve Getúlio Vargas (PTB), iniciando seu segundo mandato em 31 de Janeiro de 1951 e indo até 24 de Agosto de 1954, quando diante de uma forte crise política cometeu suicídio. Assumiu o comando do país o Vice-Presidente João Café de 24 de Agosto de 1954 a 9 de Novembro de 1955, e, interinamente, Carlos Coimbra da Luz, de 9 a 11 de Novembro de 1955 e Nereu de Oliveira Ramos, de 11 de novembro de 1955 a 31 de Janeiro de 1956. Em 31 de Janeiro de 1956 assumiu a presidência Juscelino Kubitschek, ficando no cargo até 31 de Janeiro de 1961.[6]

Com o forte desenvolvimento industrial impulsionado pelos governos de Vargas e de Kubitschek, o êxodo rural atingiu níveis nunca vistos antes. A construção de Brasília atraiu muita gente, de todas as partes do país. A cidade de São Paulo, apenas nesta década, passou de 2,2 para 3,8 milhões de habitantes.[7]

É neste cenário de agitação política e de mudanças sociais que “Auto da Compadecida” é escrita. As dificuldades da vida no sertão nordestino por conta do clima adverso e da falta de investimentos governamentais são retratados na obra. Ariano Suassuna, criado no sertão da Paraíba, na Fazenda Acauhan, município de Taperoá, conheceu bem a vida sertaneja e imprimiu de forma vívida este conhecimento em suas obras. Em uma entrevista concedida ao Jornal Folha de São Paulo, em Julho de 2012, questionado sobre a importância do sertão em sua obra, ele respondeu: “Todo universo de um escritor se forma na infância e na adolescência. E tudo na minha obra se passa dentro dos valores, das histórias e dos personagens que conheci até os 20 anos.”[8] Em outra entrevista ele declarou: “… foi a infância que me deu, digamos assim, o território poético no qual toda a minha obra se desenvolve. Todos os livros que escrevi até hoje são passados no sertão, foi onde passei a infância.”[9]

Além das marcas sertanejas que trouxe da infância e adolescência, Suassuna teve outras influências importantes em sua vida:

Seu pai. João Suassuna, político, governador da Paraíba, foi assassinado quando Ariano tinha apenas 3 anos de idade. Todavia, Suassuna atribui à biblioteca de seu pai, repleta de bons livros, e ao seu tio Manuel Dantas Villar, irmão de sua mãe, o gosto pela literatura brasileira. Em uma entrevista ele declarou:

Na infância e na adolescência aconteceram coisas que foram muito importantes para mim, no meu processo criador. Na própria formação literária… tive a sorte de ter herdado uma biblioteca muito importante, que foi a biblioteca de meu pai, que gostava muito de ler, era um grande interessado em literatura e herdei essa biblioteca. Eu, menino, peguei na biblioteca dele alguns dos livros que foram muito marcantes na minha vida. Por exemplo, ele era um grande admirador de Euclides da Cunha, que é uma grande admiração literária brasileira minha. Se tiver que escolher um patrono é Euclides da Cunha. Além disso, esse tio de quem falei a propósito do fato dele ocupar o papel de meu pai… a influência literária de meu pai em mim foi pela biblioteca, porque quando ele morreu eu tinha três anos, não dava para ele… e também foi uma influência indireta através desse tio, porque esse tio já tinha sido formado por meu pai, ele era bem mais novo – era o irmão mais novo de minha mãe. Quando meu avô e minha avó morreram, ele ficou muito pequeno e ele foi terminado de criar por minha mãe que era mais velha e por meu pai, de maneira que meu pai foi quem o formou literalmente. Meu pai transmitiu a ele a admiração por Euclides da Cunha, por Eça de Queiroz, por uma porção de escritores e ele me transmitiu indiretamente, quer dizer, me transmitiu diretamente a dele e indiretamente a do meu pai, o nome dele era Manuel Dantas Villar. E eu admirava tanto esse meu tio que botei o nome desse meu filho que é pintor de Manuel Dantas Villar Suassuna. Eu só acrescentei o Suassuna meu. Esse tio exerceu um papel muito importante na minha formação literária e depois vim aqui para o Recife, aí já foi na minha adolescência, e tive a sorte de pegar duas boas bibliotecas nos colégios onde estudei, o Colégio Americano Batista e o Ginásio Pernambucano.”[10]

Sua mãe. Com a morte do marido, Rita de Cássia Dantas Villar Suassuna, aos 34 anos de idade, cuidou sozinha de Ariano e mais 8 irmãos. Nota-se que seu exemplo teve forte influência sobre a obra de Suassuna. Ele a admirava muito, como transparece em uma de suas entrevistas à obra Cadernos de Literatura Brasileira:

“Minha mãe foi uma figura excepcional. Vocês vejam, ela ficou viúva aos 34 anos com nove filhos e assumiu a família de tal maneira que ninguém discordava dela. Todos nós tínhamos consciência da situação que ela enfrentava com coragem e, se quisesse dar um desgosto a minha mãe, era só chegar perto dela se lamuriando da vida. Ela foi muito forte. Mamãe era nordestina, profundamente enérgica e profundamente meiga. Vou dizer uma coisa e vocês me entenderão melhor. Minha mãe usou luto a vida inteira, mas nunca deixou a gente usar. Ela dizia que se vestia de preto como uma forma de protesto, mas não queria alimentar aquilo na gente. (…) Meu pai estava saindo, de manhã, com um amigo – Caio Gusmão -, do hotel onde se hospedava, na Rua Riachuelo, no centro do Rio. Ia para uma sessão na Câmara. Miguel atirou pelas costas. Foi preso um ou três dias depois, mas se livrou da cadeia em menos de um mês e foi para a Paraíba. Minha mãe denunciou a Getúlio Vargas e o pistoleiro foi preso de novo e condenado em 1931. Pegou quatro anos, mas ganhou liberdade depois de cumprir metade da pena e voltou para o Rio. Quando eu soube que ele estava vivo, perguntei a minha mãe: “a sra. dizia pra gente que o Miguel tinha morrido, por quê?” ela respondeu: “é verdade, meu filho, eu menti. Precisava tirar esse peso de vocês.”[11]

Escritores nacionais. A boa biblioteca de seu pai proporcionou a Ariano leituras seletas. Entre os seus autores preferidos estão Leonardo Mota[12], Guimarães Rosa, Eça de Queiroz e Euclides da Cunha, especialmente a obra “Os Sertões”.

Escritores estrangeiros. Dentre os escritores estrangeiros, seus preferidos são Rafael Sabatini, Miguel de Unamuno, Alexandre Dumas, Miguel de Cervantes, Calderon de La Barca, Gogol e Dostoiéviski, principalmente a obra “Os Irmãos Karamazov” que foi marcante para seu retorno à crença em Deus. Acresça-se à lista Tolstoi, pelo livro “Guerra e Paz”.

Personalidades religiosas: Gandhi, São Francisco de Assis, Santa Tereza de Ávila e Maria, mãe de Jesus.

A peça “Auto da Compadecida” narra a história das peripécias de João Grilo, um herói do sertão nordestino, trapaceiro, e seu amigo Chicó, um indivíduo mentiroso. Cada personagem simboliza um pecado e, como é um auto, no final da peça há a representação do julgamento final. A obra começa com Chicó, amigo de João Grilo, contando a estória do “cavalo bento”, um animal que correu atrás de uma garrota e um boi durante todo o dia, indo de Taperoá, Paraíba, até Propriá, no Sergipe. Depois, João Grilo e Chicó enganam o padre para que ele benza o cachorro da mulher do padeiro. A seguir, Chicó conta a estória do peixe pirarucu que o arrastou no rio Amazonas durante três dias e três noites e, com a morte do cachorro da mulher do padeiro, João Grilo convence o sacristão e o padre a fazerem o sepultamento do animal. Mal morreu o cachorro, e João Grilo, por quinhentos mil réis, vende um gato que “descome dinheiro” para a mulher do padeiro. Severino, o temido cangaceiro entra em cena, acompanhado de outro cangaceiro, gerando pavor em todos. A última parte da peça se dá no julgamento final, com a maioria dos personagens. O julgamento tem como promotor o diabo (na obra com o nome de Encourado), Jesus Cristo (Manuel na peça) presidindo o julgamento e Maria (Compadecida) como advogada de defesa. Após o julgamento, com a intercessão de Maria, nenhum deles é condenado e João Grilo volta à vida na terra. Os personagens da peça são: Palhaço (o apresentador), João Grilo, Chicó, Padre, Antônio Morais, Mulher do padeiro, Padeiro, Sacristão, Bispo, Frade, Severino, Cangaceiro, Demônio, Encourado, Manuel e A Compadecida.

 

  1. COSMOVISÕES SUBJACENTES

A partir da análise da obra, identificamos alguns elementos que podem nos ajudar a perceber qual a cosmovisão de Ariano Suassuna.

  1. Relativismo religioso

A questão religiosa é bem presente nas obras de Ariano Suassuna e, de modo marcante, em “Auto da Compadecida”. Todavia, percebe-se que religião, para este autor, é questão de gosto pessoal e não de submissão a um sistema. Isso pode ser observado em alguns pontos da peça:

  1. Na crítica aos religiosos

Embora se declare católico, Ariano lança duras críticas aos religiosos em sua peça. Na primeira fala o palhaço anuncia: “Auto da Compadecida! O julgamento de alguns canalhas, entre os quais um sacristão, um padre e um bispo…”[13] Um pouco adiante, na história do benzimento do cachorro, o Padre João se nega a benzer o animal, mas quando João Grilo diz que o cachorro é do major Antônio Morais, um poderoso proprietário de terras, o padre, interesseiro, imediatamente muda de ideia:

“JOÃO GRILO: É. Eu não queria vir, com medo de que o senhor se zangasse, mas o major é rico e poderoso e eu trabalho na mina dele. Com medo de perder meu emprego, fui forçado a obedecer, mas disse a Chicó: o padre vai se zangar. PADRE, desfazendo-se em sorrisos: Zangar nada, João! Quem é um ministro de Deus para ter direito de se zangar? Falei por falar, mas também vocês não tinham dito de quem era o cachorro! JOÃO GRILO, cortante: Quer dizer que benze, não é? PADRE, a Chicó: Você o que é que acha? CHICÓ: Eu não acho nada de mais. PADRE: Nem eu. Não vejo mal nenhum em abençoar as criaturas de Deus.”[14]

Em outro momento da peça, o Padre João se recusa a fazer o sepultamento do cachorro da mulher do Padeiro, mas quando ouve João Grilo dizer que o cachorro tinha um testamento que destinava dinheiro para o Padre e o Sacristão, e que este testamento não seria cumprido se não houvesse o sepultamento, o Padre muda de opinião:

“PADRE: Mas que testamento é esse? SACRISTÃO: O testamento do cachorro. PADRE: E ele deixou testamento? PADEIRO: Só para o vigário deixou dez contos. PADRE: Que cachorro inteligente! Que sentimento nobre! JOÃO GRILO: E um cachorro desse ser comido pelos urubus! É a maior das injustiças. PADRE: Comido, ele? De jeito nenhum. Um cachorro desse não pode ser comido pelos urubus.”[15]

O Bispo, maior autoridade eclesiástica na peça, é retratado como “um personagem medíocre, profundamente enfatuado” e arrogante.[16] Ele também é convencido por João Grilo, em troca de dinheiro, a não punir o Padre e o Sacristão pelo enterro, em latim, do cachorro:

 “JOÃO GRILO: É mesmo, é uma vergonha. Um cachorro safado daquele se atrever a deixar três contos para o sacristão, quatro para o padre e seis para o bispo, é demais. BISPO, mão em concha no ouvido: Como? JOÃO GRILO: Ah! E o senhor não sabe da história do testamento ainda não? BISPO: Do testamento? Que testamento? CHICÓ: O testamento do cachorro. BISPO: Testamento do cachorro? PADRE, animando-se: Sim, o cachorro tinha um testamento. Maluquice de sua dona. Deixou três contos de réis para o sacristão; quatro para a paróquia e seis para a diocese. BISPO: É por isso que eu vivo dizendo que os animais também são criaturas de Deus. Que animal interessante! Que sentimento nobre!”[17]

Embora se declare católico praticante, Ariano Suassuna tem seu próprio modo de ser católico. Em uma entrevista publicada nos Cadernos de Literatura Brasileira, ele diz:

“Quando li os irmãos Karamazov, de Dostoiévski, encontrei uma frase que foi decisiva para mim. Lá estava escrito que se Deus não existisse tudo era permitido. Eu achava que nem tudo era permitido, então, pensei, isso quer dizer que Deus existe. Comecei a olhar Deus de outro modo e, ao conhecer a obra de Miguel de Unamuno, me tomei de admiração por ele, que era um católico heterodoxo, exatamente como eu precisava (pois Dostoiévski era um católico ortodoxo).”[18]

Em outra entrevista, agora aos alunos do departamento de Jornalismo Impresso da Universidade Federal do Ceará, ele declara:

“… recebi duas grandes influências dessa época, do grande romancista russo Dostoiévski e de Unamuno. Porque, veja bem, nunca fui protestante, mas fui criado num ambiente de profunda simpatia à Igreja Católica. E outra coisa, as pessoas de quem eu gostava, minha mãe, minha tia, que ajudou mamãe a nos criar, era protestante. Eu tenho uma simpatia à Igreja. É por isso que essa época foi fundamental pra mim estar em contato com Unamuno e Dostoiévski, porque nenhum dos dois era católico ortodoxo, tá entendendo? Eles não simpatizavam com a Igreja Romana. Ao mesmo tempo que todos dois eram profundamente fascinados pela figura do Cristo. Havia uma personagem de Dostoiévski, em que dizia que se um dia descobrisse que a verdade era uma coisa e Cristo outra, preferia ficar com Cristo, entendeu?”[19]

Ao escolher seu próprio modo de ser católico (não ortodoxo), Suassuna apresenta a tendência dos nossos dias de escolher na religião apenas aquilo que lhe é do agrado, não atentando para suas formas, hierarquias e estruturas, mas tomando dela apenas o que lhe serve e lhe agrada. Isso ficará mais evidente no próximo ponto.

 

  1. No papel da Compadecida

A figura feminina exerceu papel importantíssimo na obra e na vida de Suassuna. Sua mãe ficou viúva, de modo trágico, aos 34 anos de idade e cuidou sozinha de Suassuna e de seus oito irmãos. Como já vimos, ela usou luto a vida inteira, mas nunca deixou que os filhos usassem, para que não ficassem amargurados ou com sentimento de vingança. Durante sua vida, possivelmente na conversão ao Protestantismo, ela perdoou o assassino de seu marido. A beleza deste forte caráter e de sua resignação produziu em Suassuna admiração e influenciou algumas escolhas em sua vida. Primeiro, a religião. Em entrevista aos Cadernos de Literatura Brasileira ele diz:

“… deixa eu voltar para a questão que levantou tudo isso, a presença feminina na minha obra. Eu não sei se vocês repararam, mas eu acho que o Deus dos calvinistas é excessivamente parecido com o Deus dos judeus, quer dizer, é um Deus muito masculino e paterno. E eu sentia a falta da presença feminina e materna, da virgindade, está certo? Foi isso que eu procurei na Igreja Católica através da figura de Nossa Senhora – é aí que eu digo a vocês que, numa peça como Auto da Compadecida, a presença feminina é fundamental. Ela está lá, bastante marcada, para dar o equilíbrio, entende? Pronto. Agora vou lhes dizer outra coisa: quando eu comecei a me reaproximar da figura do Deus Criador, me faltava uma coisa – me faltavam as mulheres…”[20]

Em segundo lugar, a admiração quanto a sua mãe também influenciou o papel dado à Compadecida na peça. Na mesma entrevista aos Cadernos de Literatura Brasileira, diante da perspicácia do jornalista, ele revela algo surpreendente:

“CADERNOS: Sua família está no centro de alguns capítulos importantes da História do Brasil. E eles se referem a coisas arcaicas. A dívida de sangue, por exemplo, é um padrão arcaico e universal. Veja o caso do albanês Ismail Kadaré, um estudioso da Grécia – tem, inclusive, um livro sobre Ésquilo. Kadaré escreveu Abril Despedaçado, que trata do círculo fechado da vingança, um assunto presente na Europa e no Nordeste brasileiro. Tanto que uma adaptação do romance está sendo filmada por Walter Salles. ARIANO: É verdade. Essas dívidas de sangue de que você fala muito bem estão presentes nas sociedades fechadas rurais e arcaicas. No município onde meu pai nasceu, Catolé do Rocha, existem duas famílias, os Suassuna e os Maia, que brigam a vida toda, desde o século XIX. É o arcaico que permanece. O conflito dos Kennedy, católicos irlandeses, com a sociedade protestante anglo-saxônica, o que é aquilo? e olhe, acontecendo num país considerado o “padrão da modernidade”. Mas o arcaico está lá, não é verdade? Por sorte ou por azar, eu tive tudo isso dentro de casa. Tudo isso dentro de casa, antes de fazer qualquer opção. E vejam, de novo, a sabedoria de mamãe. Ela não permitiu que a gente se alimentasse daquele ódio: tirou a gente de lá. Mamãe se mudou para o Recife para tirar a gente daquele círculo de vingança. CADERNOS: Para interromper o ciclo da dívida de sangue. ARIANO: Exatamente. E ela fez isso tão bem que, até os meus 50 anos, eu não sabia que o assassino do meu pai estava vivo. Ela dizia que ele tinha morrido. CADERNOS: É a mulher compassiva do Auto da Compadecida? ARIANO: Isso, pronto.”[21]

É certo que a função de Maria retratada no Catolicismo não difere muito da Compadecida apresentada na peça. A expressão romanista “Peça à mãe que o Filho atende” é bem conhecida. O Catecismo da Igreja Católica assevera: “Por sua adesão total à vontade do Pai, à obra redentora de seu Filho, a cada moção do Espírito Santo, A Virgem Maria é para a Igreja o modelo da fé e da caridade. (…) Por isso, a bem-aventurada Virgem Maria é invocada na Igreja sob os títulos de advogada, auxiliadora, protetora, medianeira”[22]

Todavia, não é possível desconsiderar a afirmação do próprio Suassuna de que a Compadecida, com toda sua bondade e misericórdia, aponta para a sua mãe. Brincando, podemos dizer que a Compadecida criada por Suassuna era presbiteriana…

  1. Na concepção particular de sua religião

É necessário observar, primeiramente, que Suassuna teve alguma influência do Protestantismo em sua vida. Primeiro em casa, com a conversão de sua avó e de sua mãe ao Presbiterianismo e, depois, com sua passagem no Colégio Americano Batista, em Recife. Em uma de suas entrevistas ele relata como foi este processo:

“Meus pais eram católicos, tanto que se casaram na igreja. Mas minha avó, quando adoeceu – acho que ela teve um câncer, naquela época falava-se em tumor, mas hoje acredito que tenha sido um câncer -, foi operada por um médico americano, um tal de Dr. Butler, que era protestante. Com isso, ela acabou se convertendo ao protestantismo. Minha mãe a acompanhou nessa crença e eu acabei sendo educado num colégio protestante. Na adolescência, rompi com tudo. Quando li Os Irmãos Karamazov, de Dostoiévski, encontrei uma frase que foi decisiva para mim. Lá estava escrito que se Deus não existisse tudo era permitido. Eu achava que nem tudo era permitido, então, pensei, isso quer dizer que Deus existe.”[23]

Em outra entrevista ele deixa claro que, embora tenha recebido certa influência do Protestantismo, nunca foi protestante:

“ENTREVISTA: Ariano, agora eu queria saber a influência da religião, você mudou de religião, do protestantismo para o catolicismo…
Ariano – Não. O pessoal diz muito isso. Não cheguei a mudar não porque nunca fui protestante, certo? Na minha família, havia uma divisão. Minha mãe era católica a princípio e o meu pai também. E casaram na igreja e tudo. Mas acontece que a minha mãe era profundamente apegada à mãe, minha avó materna, e ela, essa minha avó, adoeceu, teve uma doença grave, um tumor, qualquer coisa do tipo, eu não sei… imagino hoje que seria câncer, não é? Mas na época não… E ela veio se operar aqui em Pernambuco. E o cirurgião que operou minha avó era um missionário protestante chamado Butler, Samuel Buttler [Sic]. E ele operou e minha avó ficou de tal maneira grata a ele, que por influência dele, minha avó se converteu ao protestantismo. Minha mãe então acompanhou, já depois de casada. Então minha mãe era protestante, meu pai não. Então mamãe nos colocou no colégio Americano Batista, que era um colégio evangélico, protestante. Mas nunca fui não. Recebi uma instrução religiosa no colégio Americano, mas com a rebeldia natural da adolescência, da juventude, não aceitei. Então, houve um tempo em que neguei tudo. Eu não aceitava coisa nenhuma.”[24]

O Rev. Butler citado nas duas entrevistas foi George William Butler, missionário da Igreja Presbiteriana do sul dos Estados Unidos, pastor e médico, com grande atuação em Recife, São Luis do Maranhão e Garanhuns. Nesta última cidade, em uma epidemia de febre amarela, Dr. Butler atendeu dezenas de pessoas e tornou-se um pastor muito querido e respeitado por todos.[25]

Não obstante ter tido acesso a tão querido pastor e à influência do Colégio Americano Batista, Suassuna optou pelo Catolicismo. E nesta religião ele criou a sua própria religiosidade. A particularização de sua religião pode ser vista nas concepções próprias que ele apresenta na peça, nas falas de seus personagens. Observa-se que as falas e as funções atribuídas no enredo não correspondem aos personagens bíblicos. Isso se deve ao fato de Suassuna não ter em mente aquele catolicismo ortodoxo ensinado pelos padres, mas sim, sua própria concepção de catolicismo e religiosidade.

Eis alguns personagens da peça e suas caracterizações particulares:

– O Encourado (diabo): é o acusador no Julgamento Final. Suassuna diz que, “segundo uma crença do sertão do Nordeste, é um homem muito moreno, que se veste como um vaqueiro”[26] Não consegue olhar diretamente para Manuel (Jesus) e para a Compadecida (Maria). É caracterizado por Suassuna como um sujeito sério. Em um momento do julgamento, ele diz: “Protesto contra essas brincadeiras. Isso aqui é um lugar sério.”[27] Em outro momento: “É, você está muito engraçado agora, mas Manuel é justo e quando ele me entregar vocês, há de ver que com o diabo não se brinca.”[28] e “… tem razão, porque o que vai lhe acontecer é coisa muito séria.”[29] Duas vezes ele pede respeito aos interlocutores: “Homem, dê-se a respeito!”[30] e “Vá vendo a falta de respeito, viu?”[31] E reclama da intercessão da Compadecida: “Grande coisa esse chamego que ela faz para salvar todo mundo! Termina desmoralizando tudo.”[32]

Manuel (Jesus): é quem dirige o julgamento. É caracterizado por Suassuna como “um preto retinto, com uma bondade simples e digna nos gestos e nos modos.” Ao contrário do Encourado, que é sério, Manuel tem certa irreverência. No julgamento ele faz algumas piadas. Em um momento, quando João Grilo estranha o fato dele ser negro, responde: “Vim hoje assim de propósito, porque sabia que isso ia despertar comentários. Que vergonha! Eu Jesus, nasci branco e quis nascer judeu, como podia ter nascido preto. Para mim, tanto faz um branco como um preto. Você pensa que eu sou americano para ter preconceito de raça?” Sobre a questão do racismo, trataremos adiante. O que deve ser ressaltado aqui é a imagem de irreverência atribuída a Jesus.

Eis outros momentos de piada, de Manuel: “É brincadeira minha, mas, depois que João chamou minha atenção, notei que o diabo tem mesmo um jeito assim de sacristão.”[33] (…) “Calma, rapaz, você não está no inferno. Lá, sim, é um lugar sério. Aqui pode-se brincar. Faça a acusação do sacristão.”[34] (…) “Pois desanote. Não está vendo que é brincadeira? João sabe lá o que é livre arbítrio, homem?”[35] (…) “É besteira do demônio. Esse sujeito é meio espírita e tem mania de fazer mágica.”[36] (…) “Deixe de chicana, João, você pensa que isso aqui é o palácio da justiça? Pode acusar.”[37] (…) “Esse respeito de que você fala, foi coisa que eu nunca soube impor, graças a Deus.”[38] (…)  “Eu já sei que você protesta, mas não tenho o que fazer, meu velho. Discordar de minha mãe é que não vou.”[39] “Que é que eu posso fazer? Esse aí era um bispo avarento, simoníaco, político…”[40] (…) “Não. Vou deixar que você volte, porque minha mãe me pediu, mas só deixo com uma condição. Você me fazer uma pergunta a que eu não possa responder. Pode ser?”[41] (…) “Eu sei, mas para que você não fique cheio de si, vou lhe confessar que já sabia que você ia-se sair bem. Minha mãe já tinha combinado tudo comigo, mas você estava precisado de levar uns apertos. Estava ficando muito saído.”[42] (…) “Se a senhora continuar a interceder desse jeito por todos, o inferno vai terminar como disse Murilo: feito repartição pública, que existe mas não funciona.”[43] E, para terminar: “JOÃO GRILO: Isso é que é conhecer a Bíblia! O Senhor é protestante? MANUEL: Sou não, João, sou católico.”[44]

Na avaliação de Oscar Henrique “esses e outros trechos do Cristo e de Nossa Senhora dão uma concepção da religião como algo simples, agradável, doce e não como uma coisa formal, solene, difícil e mesmo penosa.”[45]

Outro aspecto a ser notado é que, na cabeça de Suassuna, Jesus não é tão humano, tão próximo quanto Maria:

 “MANUEL: E por quem eles iriam gritar? JOÃO GRILO: Por alguém que está mais perto de nós, por gente que é gente mesmo. MANUEL: E eu não sou gente, João? Sou homem, judeu, nascido em Belém, criado em Nazaré, fui ajudante de carpinteiro… Tudo isso vale alguma coisa. JOÃO GRILO: O senhor quer saber de uma coisa? Eu vou lhe ser franco: o senhor é gente, mas não muito não. É gente e ao mesmo tempo é Deus, é uma misturada muito grande. Meu negócio é com outro.”[46] (…) “Não é o que eu digo, Senhor? A distância entre nós e o Senhor é muito grande. Não é por nada não, mas sua mãe é gente como eu, só que gente muito boa, enquanto que eu não valho nada.”[47]

– A Compadecida (Maria): é a intercessora que defende todos os acusados. Sua característica predominante é a misericórdia. Na segunda fala da peça, o Palhaço anuncia: “A intervenção de Nossa Senhora no momento propício, para triunfo da misericórdia.”[48] De mesma forma que Manuel, a Compadecida aprecia a alegria, ao contrário do Encourado. Respondendo a um gracejo de João Grilo ela diz: “Tem umas graças, mas isso até a torna alegre e foi coisa de que eu sempre gostei. Quem gosta de tristeza é o diabo”.[49] Esta crítica à formalidade e à reverência também ficam evidentes nesta fala da Compadecida ao Encourado: “É máscara dele, João. Como todo fariseu, o diabo é muito apegado às formas exteriores. É um fariseu consumado.”[50]

Ela é chamada também, por João Grilo de “mãe da justiça”[51] e “grande advogada”[52]. Na concepção de Suasuna, Maria tem tanto poder (ou mais) que Jesus Cristo. No roteiro da peça, nas anotações ao diretor, encontramos estas instruções: “O Encourado, furioso, volta-se para João, mas nesse momento, ou dá um grande grito e corre para o inferno, ou deita-se no chão e rasteja até onde está a Virgem para que ela lhe ponha o pé sobre a nuca (cf. Gênesis, 3, 15), saindo após.”[53] Suassuna atribui o pisar na cabeça da serpente a Maria e não à semente da mulher, Jesus, como é claramente descrito na Escritura. Quanto à defesa que Maria faz de todos os acusados no Julgamento Final, veremos adiante.

 

  1. Relativismo ético

A peça “Auto da Compadecida” revela uma moral relativa, circunstancial e tolerante. Os personagens são praticantes de vários pecados do Decálogo e estes pecados são evidentes na peça. O de João Grilo, a falsidade; o de Chicó, a mentira; o do Padeiro, a avareza; o da sua Mulher, o adultério; os pecados do Padre, a cobiça e a preguiça; do Sacristão, a cobiça; do Bispo, a cobiça e orgulho; o pecado de Severino e seu amigo Cangaceiro, o furto e o homicídio. Porém, se há apontamento de pecados há também tolerância e justificativa para os delitos.

  1. A crítica moral

Antes do momento final da peça, o narrador, o Palhaço, torna explícito o tom da crítica moral:

“Muito bem, com toda essa gente morta, o espetáculo continua e terão oportunidade de assistir seu julgamento. Espero que todos os presentes aproveitem os ensinamentos desta peça e reformem suas vidas, se bem que eu tenha certeza de que todos os que estão aqui são uns verdadeiros santos, praticantes da virtude, do amor a Deus e ao próximo, sem maldade, sem mesquinhez, incapazes de julgar e de falar mal dos outros, generosos, sem avareza, ótimos patrões, excelentes empregados, sóbrios, castos e pacientes. E basta, se bem que seja pouco. Música.”[54]

Severino, o cangaceiro, em pleno roubo, torna-se confrontador de pecados. Primeiro do Padre:

“PADRE: Tenho, não vou negar. Aqui estão dois contos, Senhor Severino. É o que posso lhe dar, no momento. SEVERINO, irônico: É mesmo, padre? Não é possível! Numa terra em que o bispo tem seis contos, o padre deve ter no mínimo uns três. (Severo.) Deixe ver os bolsos. Olhe lá, eu não disse? Fazendo jogo sujo, hem, padre? Quem diria, um ministro de Deus! Enfim, isso é um fim de mundo.”[55]

Depois, Severino confronta o comportamento adúltero da mulher do padeiro:

 “MULHER sedutora: Então venha trabalhar comigo na padaria. Garanto que não se arrepende. SEVERINO, severo: Mostre a mão esquerda. MULHER, cariciosa: Pois não, com muito gosto. SEVERINO: É uma aliança? MULHER: É, sou casada com essa desgraça aí, mas estou tão arrependida! Só gosto de homens valentes e esse é uma vergonha. SEVERINO: Vergonha é uma mulher casada na igreja se oferecer desse jeito. Aliás, já tinha ouvido falar que a senhora enganava seu marido com todo mundo.”[56]

Na sequência, confronta a avareza do Padeiro:

“PADEIRO: Não ligue ao que ela diz, mas o senhor podia vir mesmo trabalhar comigo na padaria. Não se ganha muito, mas dá para viver. SEVERINO: Então ganha-se pouco na padaria? PADEIRO: Muito pouco, eu mesmo não tenho aqui, veja. SEVERINO: Não preciso, eu acredito. O que você tinha deixou no cofre e eu tirei tudo, de passagem por lá. PADEIRO: Ai!”[57]

  1. O relativismo tolerante

A crítica ao pecado e repreensão ao comportamento imoral perdem a força no momento último da peça, o Julgamento Final. Ali todos os pecados são minimizados e justificados diante do sofrimento existencial dos personagens.

Já no início da peça o Palhaço anuncia:

“Ao escrever esta peça, onde combate o mundanismo, praga de sua igreja, o autor quis ser representado por um palhaço, para indicar que sabe, mais do que ninguém, que sua alma é um velho catre, cheio de insensatez e de solércia. Ele não tinha o direito de tocar nesse tema, mas ousou fazê-lo, baseado no espírito popular de sua gente, porque acredita que esse povo sofre, é um povo salvo e tem direito a certas intimidades.”[58]

Observe que o autor anuncia a denúncia do pecado da Igreja, o mundanismo; reconhece seu comportamento pecaminoso, na frase “sua alma é um velho catre, cheio de insensatez e de solércia”; mas justifica estes comportamentos com base nas crises existenciais do povo: “porque acredita que esse povo sofre, é um povo salvo e tem direito a certas intimidades”.

Na cena do Julgamento Final, a Compadecida, justifica a todos os pecados:

 “A COMPADECIDA: É verdade que não eram dos melhores, mas você precisa levar em conta a língua do mundo e o modo de acusar do diabo. O bispo trabalhava e por isso era chamado de político e de mero administrador. Já com esses dois a acusação é pelo outro lado. É verdade que eles praticaram atos vergonhosos, mas é preciso levar em conta a pobre e triste condição do homem. A carne implica todas essas coisas turvas e mesquinhas. Quase tudo o que eles faziam era por medo. Eu conheço isso, porque convivi com os homens: começam com medo, coitados, e terminam por fazer o que não presta, quase sem querer. É medo.”[59]

O elemento motivador e justificador do pecado é o medo:

“ENCOURADO: Medo? Medo de quê? BISPO: Ah, senhor, de muitas coisas. Medo da morte… PADRE: Medo do sofrimento… SACRISTÃO: Medo da fome… PADEIRO: Medo da solidão. Perdoei minha mulher na hora da morte, porque a amava e porque sempre tive um medo terrível da solidão. MANUEL: E é a mim que vocês vêm dizer isso, a mim que morri abandonado até por meu pai! A COMPADECIDA: Era preciso e eu estava a seu lado. Mas não se esqueça da noite no jardim, do medo por que você teve de passar, pobre homem, feito de carne e de sangue, como qualquer outro e, como qualquer outro também, abandonado diante da morte e do sofrimento. JOÃO GRILO: Ouvi dizer que até suar sangue o senhor suou. MANUEL: É verdade, João, mas você não sabe do que está falando. Só eu sei o que passei naquela noite. A COMPADECIDA: Seja então compassivo com quem é fraco.”[60]

Este medo e sofrimento são usados pela Compadecida para livrar a todos da condenação. A Mulher do Padeiro é justificada de seus adultérios por ter sofrido nas mãos do marido, no início do casamento. Severino e o Cangaceiro são justificados por terem enlouquecido, depois que a polícia matou a família deles. João Grilo, o de situação mais complicada no julgamento, recebe a chance de voltar à vida, tendo seus pecados perdoados com base em seu sofrimento: “A COMPADECIDA: João foi um pobre como nós, meu filho. Teve de suportar as maiores dificuldades, numa terra seca e pobre como a nossa. Não o condene, deixe João ir para o purgatório.”[61]

Na impossibilidade de ir ao purgatório, A Compadecida pede a Manuel outra chance para João Grilo e lhe é concedido o direito de ele voltar à vida na terra.

Nota-se a incoerência de Suassuna nesta área. Em uma entrevista ao Almanaque Folha de São Paulo, em 1991, ele criticou a obra “Macunaíma” por retratar um herói sem caráter. Em defesa de “um herói com caráter”, Suassuna citou João Grilo:

“Eu tenho uma hostilidade especial a essa maneira de ver o povo brasileiro. Um camarada que vence a fome, a injustiça, a opressão, enfrenta os poderosos na pessoa de Antônio Moraes, enfrenta a aristocracia rural sertaneja, enfrenta a burguesia urbana sertaneja, através do padeiro, enfrenta a Igreja, enfrenta o padre, enfrenta o bispo, o sacristão e enfrenta até as potências celestes, com quem ele dialoga de igual para igual. Então, se ele é sem caráter, eu não sei quem é que tem caráter não.”[62]

De modo perspicaz o jornalista da Folha pergunta: “Folha – Mas João Grilo enfrenta tudo isso com a mentira, não é?”[63] Ao que Suassuna responde: “Ele enfrenta com o que quiser, ele enfrenta com o que tiver na mão. Aqui no Nordeste existe um ditado que para mim é o que retrata João Grilo. É um ditado que diz: a astúcia é a coragem do pobre.”[64] Fica evidente que, para Suassuna, a pobreza financeira absolve os erros da esfera moral.

 

III. MOMENTOS DE VERDADE

Apesar das cosmovisões equivocadas, “Auto da Compadecida” apresenta alguns momentos de verdade. Senão, vejamos:

  1. Compaixão pelos que sofrem

A ambientação da peça no sertão nordestino, tendo como personagens principais João Grilo e Chicó, dois jovens sofredores que passam fome e necessidade por conta das condições difíceis da sua região revelam um traço bem humanístico na obra de Suassuna. Embora o autor tenha tido dificuldades em sua vida com a morte de seu pai aos 3 anos de idade, não se verifica na bibliografia dele algum tipo de sofrimento com relação ao dinheiro. Sua mãe, viúva de um político influente, governador do Estado da Paraíba, com ligação direta ao presidente Getúlio Vargas, dificilmente teria ficado desamparada, do ponto de vista financeiro. Na ocasião, ela vendeu as terras e o gado do marido e arrendou uma fazenda para ter recursos para criar os filhos.[65] Isso aumenta o mérito de Suassuna, ao retratar as condições de pobreza de seus conterrâneos sem experimentar na pele estas condições.

Sua compaixão estende-se aos animais. Em “Auto da Compadecida” a presença deles é marcante nos vários contos que o autor trouxe do repertório popular. Alguns destes antigos contos foram publicados no livro “Cantadores” de Leonardo Mota e Suassuna os utilizou na peça. Em entrevista ao Almanaque Folha de São Paulo, Suassuna torna explícita a compaixão que tem pelos animais:

“Folha – Que incidente foi esse que levou a desistir de caçar? Suassuna – Um dia um amigo meu foi me contar um incidente que tinha acontecido com ele. Disse que vinha no mato e de repente apareceu um preá, um roedor desses, correndo assim… e entrou de baixo de umas macambiras, que é uma planta xerófita, da raça de abacaxi, sisal. Meu amigo se abaixou então para atirar no preá. Quando ele se abaixou e começou a procurar uma posição melhor, de repente entrou uma cobra, que já tinha picado o preá e que vinha atrás do preá, vinha no rastro dele. Meu amigo disse: ‘Ariano, quando a cobra avistou o preá ela se enroscou toda e abriu a boca. Parecia a imagem do demônio. Aí eu baixei fogo nela, matei’. Foi então que eu percebi e me perguntei: a imagem do demônio era a cobra ou era ele? Desse dia em diante eu nunca mais cacei. Eu não tenho simpatia por esses exageros ecológicos que está havendo agora por aí não, mas nesse dia eu parei de caçar”[66]

Em toda a Bíblia encontramos base para nos compadecermos dos que sofrem. A começar do Pentateuco, onde Deus instituiu leis para proteção dos pobres (Êx 22.25-27, Lv 25, Dt 15.1-11) até o exemplo de nosso Senhor Jesus se compadecendo dos que sofriam (Mt 4.23-25; 9.35-38; 14.14; 15.32) passando pela instituição dos diáconos para assistência das viúvas (At 6.1-7) e chegando à coleta de Paulo para benefício dos cristãos carentes de Jerusalém (At 24.17; Rm 15.25-33; 1Co 16.1-4; 2Co 8 e 9).

 

  1. Repudio à opressão

Assim como é perceptível a compaixão de Suassuna pelos pobres, é evidente a crítica feita em “Auto da Compadecida” aos ricos opressores. Estes opressores aparecem nos personagens do Padeiro e sua mulher, do major Antônio Morais e na figura dos religiosos, o Bispo, o Padre e o Sacristão.

A mulher do Padeiro, por exemplo, gosta mais de bichos de estimação do que de pessoas: “Ai, João, traga para eu ver! Chega a me dar uma agonia. Traga, João, já estou gostando do bichinho. Gente, não, é povo que não tolero, mas bicho dá gosto.”[67] E trata melhor os animais do que os pobres. Em certo momento da peça João Grilo se queixa dela a Chicó:

“Está esquecido da exploração que eles fazem conosco naquela padaria do inferno? Pensam que são o cão só porque enriqueceram, mas um dia hão de me pagar. E a raiva que eu tenho é porque quando estava doente, me acabando em cima de uma cama, via passar o prato de comida que ela mandava para o cachorro. Até carne passada na manteiga tinha. Para mim, nada, João Grilo que se danasse. Um dia eu me vingo.”[68]

A Bíblia também nos ensina a ter uma atitude de repúdio à opressão. No Pentateuco toda injustiça contra os pobres era condenada (Êx 23.3-6; Dt 24.12-15). Nos livros proféticos há inúmeras denúncias contra a opressão dos estrangeiros, pobres, órfãos e viúvas (Is 10.1; Jr 7.5,6; 22.3,13; Ez 22.29; Zc 7.9,10; Ml 3.5). No Novo Testamento, em 1 Coríntios 11.17-34 encontramos Paulo repreendendo a Igreja de Corinto pela opressão dos mais ricos aos mais pobres, em plena Ceia do Senhor. Os muito pobres (no texto “os que nada tem” – v. 22), estavam sendo preteridos na Ceia. Na epístola de Tiago, o líder da Igreja de Jerusalém ensina os crentes a não fazerem acepção de pessoas, no que diz respeito à classe social (2.1-13) e condena a atitude dos ricos que oprimem os trabalhadores fraudando seus salários (5.1-6).

 

  1. Crítica ao racismo

O tema do racismo é levantado em “Auto da Compadecida”. Manuel, o Jesus da peça, é negro. Depois da admiração de João Grilo e de todos por sua cor, ele explica:

“Muito obrigado, João, mas agora é sua vez. Você é cheio de preconceitos de raça. Vim hoje assim de propósito, porque sabia que isso ia despertar comentários. Que vergonha! Eu Jesus, nasci branco e quis nascer judeu, como podia ter nascido preto. Para mim, tanto faz um branco como um preto. Você pensa que eu sou americano para ter preconceito de raça?”[69]

Na opinião de Henrique Oscar, que prefacia a edição ora utilizada, a frase se deve ao contato que brasileiros tiveram com os americanos quando, na segunda guerra mundial, estabeleceram bases no Nordeste:

“Ora, em primeiro lugar, durante a guerra houve bases americanas no Nordeste, cujo ambiente e mentalidade a peça evoca. Possivelmente seus ocupantes, com a inabilidade característica que manifestam no trato com outros povos, deram abundantes provas desse seu lamentável sentimento. Portanto, a repulsa pode ali ser suficientemente forte, para que o autor se sentisse levado a trazê-la para sua peça.”[70]

Muito tempo depois, o próprio Suassuna arrependeu-se de ter incluído esta fala na peça. Ele explicou o porquê em uma entrevista a alunos do departamento de Jornalismo Impresso da Universidade Federal do Ceará:

“Tem um protesto lá contra o preconceito de raça, contra a discriminação racial. E tem uma frase que o Cristo diz assim, o Cristo reclamando contra João Grilo diz a ele: ‘Você pensa que eu sou americano para ter preconceito de raça?’. Olhe, isso mostra de minha parte uma visão totalmente falsa do Brasil, eu estava certo naquele tempo que nós estávamos muito na frente dos Estados Unidos nisso, e não é verdade, o preconceito de raça no Brasil é profundamente enraizado, só que disfarçado. Então isso é um dos erros que cometi no decorrer da minha obra.”[71]

Na tentativa de se redimir deste erro, Suassuna chegou a ingressar no movimento negro:

“Quando eu vi isso, depois que eu fiz aquela carta [carta em que declara estar abandonando a literatura, escrita em 1981] uma das coisas que fiz foi entrar no movimento negro. Eu entrei para o movimento negro… Para você ver, as coisas são tão estranhas no Brasil, que eu fui lá no local onde eles se reuniam, e era um lugar assim coletivo, era num prédio da universidade, e além do… o movimento negro ocupava uma sala e outras coisas ocupavam outras salas, aí quando eu cheguei lá que entrei, por acaso estava havendo uma conferência do outro lado, quando eu entrei eles mesmo disseram para mim: “não, a conferência é ali”. De tal maneira era estranho que um branco fosse lá – um branco na medida de que qualquer brasileiro é branco, porque eu sou branco aqui, mas se for para a Suécia serei discriminado de qualquer jeito, se for para os Estados Unidos também vou ser discriminado. Bom, aí eu disse: “não, eu vim para cá mesmo”. Depois que freqüentei vários dias, uma moça do movimento negro, que é chamada de Dausdete, perguntou a mim: “Ó Ariano, eu vi A Farça da Boa Preguiça e aquilo foi um dos dias mais importantes da minha vida, você já era consciente do problema negro?”. Eu não era, o que está certo ali, acertei na intuição, mas muita coisa é errada. Mostrei a ela essa frase que eu disse aqui, que mostra que eu não era consciente do problema. Depois me perguntaram: “o que foi que você veio fazer aqui?”. Aí eu digo: “eu vim me naturalizar negro, vim pedir perdão e vim me naturalizar negro”. Não tem esse negócio, quando o sujeito se naturaliza quando chega em outro país, não é? Então eu digo: “vim me naturalizar negro, vim pedir perdão e vim me naturalizar negro, foi isso que eu vim fazer aqui”. Depois eles acharam graça.”[72]

A Bíblia também nos ensina a não discriminarmos as pessoas. Nosso Pai Celeste não discrimina, mas “… faz brilhar o sol para os maus e para os bons, e faz cair a chuva para os maus e para os bons.” (Mt 5.45). Paulo ensina que “… não há distinção entre judeu e grego, uma vez que o mesmo é o Senhor de todos, rico para com todos os que o invocam.” (Rm 10.12) e que “… não pode haver judeu nem grego; nem escravo nem liberto; nem homem nem mulher; porque todos vós sois um em Cristo Jesus” (Gl 3.28). Somos iguais perante Deus, “no qual não pode haver grego nem judeu, circuncisão nem incircuncisão, bárbaro, cita, escravo, livre; porém Cristo é tudo em todos” (Cl 3.11).

Estes aspectos relacionados à bondade e ao senso de justiça, expressos na obra, confirmam a operação da graça comum sobre a vida de Ariano Suassuna. Como esclarece Nancy Pearcey:

“A Bíblia ensina a doutrina da graça comum. Considerando que a graça especial refere-se à salvação, a graça comum significa o cuidado providencial de Deus — o modo como Ele sustenta ativamente a totalidade da criação. Deus “faz que […] a chuva desça sobre justos e injustos”, diz a Bíblia (Mt 5.45). Quer dizer, os talentos de Deus são dados até aos não-crentes, inclusive os intelectuais. Foi por isso que Jesus disse que até os pecadores “[sabem] dar boas coisas aos [seus] filhos” (Mt 7.11) e podem ser bons pais, e pôde também repreender aos seus oponentes por não interpretarem os sinais dos tempos — considerando que sabiam interpretá-los, Ele esperava que também soubessem discernir os significados da história (Mt 16.1-4). Portanto, a própria Bíblia ensina que os não-crentes têm a capacidade de operar o mundo com eficiência, incluindo a função cognitiva.”[73]

 

  1. RESPOSTAS DAS ESCRITURAS
  2. Ativismo religioso

Ariano Suassuna demonstra em sua obra que a concepção que faz do catolicismo é mais que catolicismo popular – é seu próprio catolicismo, sua própria concepção de religião. A pergunta que devemos fazer, portanto, é: a questão religiosa está aberta para que cada pessoa monte sua própria concepção? A resposta das Escrituras é não. Religião não é algo relativo. Os absolutos de Deus normatizam tanto o funcionamento da criação quanto os relacionamentos do seu povo. E estas normas quanto ao relacionamento do seu povo estão bem expressas nas Escrituras Sagradas.

Os cinco livros que formam o Pentateuco dão a base do sistema religioso que o povo de Deus deve seguir, e faz isso de modo bastante restrito. Em outras palavras, não há liberdade para uma religiosidade flexível e variável, mas há princípios fixos, estabelecidos pelo próprio Deus, que regulam todos os atos do seu povo.

Alguns versículos apontam para este caráter fixo e restrito, por exemplo: “Nada acrescentareis à palavra que vos mando, nem diminuireis dela, para que guardeis os mandamentos do SENHOR, vosso Deus, que eu vos mando.” (Dt 4.2); “Cuidareis em fazerdes como vos mandou o SENHOR, vosso Deus; não vos desviareis, nem para a direita, nem para a esquerda.” (Dt 5.32); “Nada acrescentes às suas palavras, para que não te repreenda, e sejas achado mentiroso.”; “Tão-somente sê forte e mui corajoso para teres o cuidado de fazer segundo toda a lei que meu servo Moisés te ordenou; dela não te desvies, nem para a direita nem para a esquerda, para que sejas bem-sucedido por onde quer que andares.” (Js 1.7); “Esforçai-vos, pois, muito para guardardes e cumprirdes tudo quanto está escrito no Livro da Lei de Moisés, para que dela não vos aparteis, nem para a direita nem para a esquerda” (Js 23.6).

Outros textos mostram o castigo que alguns receberam por não atentarem às prescrições da Palavra de Deus:

“Nadabe e Abiú, filhos de Arão, tomaram cada um o seu incensário, e puseram neles fogo, e sobre este, incenso, e trouxeram fogo estranho perante a face do SENHOR, o que lhes não ordenara. Então, saiu fogo de diante do SENHOR e os consumiu; e morreram perante o SENHOR.” (Lv 10.1,2)

“Dispôs-se e, com todo o povo que tinha consigo, partiu para Baalá de Judá, para levarem de lá para cima a arca de Deus, sobre a qual se invoca o Nome, o nome do SENHOR dos Exércitos, que se assenta acima dos querubins. Puseram a arca de Deus num carro novo e a levaram da casa de Abinadabe, que estava no outeiro; e Uzá e Aiô, filhos de Abinadabe, guiavam o carro novo. Levaram-no com a arca de Deus, da casa de Abinadabe, que estava no outeiro; e Aiô ia adiante da arca. Davi e toda a casa de Israel alegravam-se perante o SENHOR, com toda sorte de instrumentos de pau de faia, com harpas, com saltérios, com tamboris, com pandeiros e com címbalos. Quando chegaram à eira de Nacom, estendeu Uzá a mão à arca de Deus e a segurou, porque os bois tropeçaram. Então, a ira do SENHOR se acendeu contra Uzá, e Deus o feriu ali por esta irreverência; e morreu ali junto à arca de Deus.” (2Sm 6.1-7)

Deus sempre condenou o “culto autônomo”, o culto feito de acordo com as preferências humanas, e não de acordo com sua Palavra. Ele condenou a idolatria dos filhos de Judá nos seguintes termos: “Edificaram os altos de Tofete, que está no vale do filho de Hinom, para queimarem a seus filhos e a suas filhas; o que nunca ordenei, nem me passou pela mente.” (Jr 7.31) A condenação se deu porque “não deram ouvidos, nem atenderam, porém andaram nos seus próprios conselhos e na dureza do seu coração maligno; andaram para trás e não para diante.” (Jr 7.24)

Deus condenou também a atitude do rei Saul em oferecer o holocausto, não sendo sacerdote:

“Mal acabara ele de oferecer o holocausto, eis que chega Samuel; Saul lhe saiu ao encontro, para o saudar. Samuel perguntou: Que fizeste? Respondeu Saul: Vendo que o povo se ia espalhando daqui, e que tu não vinhas nos dias aprazados, e que os filisteus já se tinham ajuntado em Micmás, eu disse comigo: Agora, descerão os filisteus contra mim a Gilgal, e ainda não obtive a benevolência do SENHOR; e, forçado pelas circunstâncias, ofereci holocaustos. Então, disse Samuel a Saul: Procedeste nesciamente em não guardar o mandamento que o SENHOR, teu Deus, te ordenou; pois teria, agora, o SENHOR confirmado o teu reino sobre Israel para sempre. Já agora não subsistirá o teu reino. O SENHOR buscou para si um homem que lhe agrada e já lhe ordenou que seja príncipe sobre o seu povo, porquanto não guardaste o que o SENHOR te ordenou.” (1Sm 13.10-14)

Deus não se agrada quando alguém cria em sua própria mente uma figura particular de sua Pessoa. Por boca do salmista Asafe ele repreende: “… pensavas que eu era teu igual…” (Sl 50.21).

 

  1. Relativismo ético

Assim como as Escrituras não autorizam o relativismo religioso, não autorizam também o relativismo ético. A forma como as pessoas devem viver está bem expressa na Palavra de Deus. O tom humorístico e jocoso da peça, com relação aos pecados, já dá o tom da relativização moral e ética, e prenuncia o que acontecerá no julgamento final encenado.

A Bíblia não trata pecados com pouca seriedade. O pecado é real ofensa contra o caráter santo de Deus. No Salmo 7.11 lemos que “Deus é justo juiz, Deus que sente indignação todos os dias.” Esta indignação de Deus contra o pecado é retratada, muitas vezes, como sua ira santa.

Esta ira contra o pecado manifesta-se, por exemplo, quando, ainda no Éden é pronunciada a primeira sentença de morte, a terra é amaldiçoada, e o homem é expulso do paraíso (Gn 3); quando Deus decide acabar com a raça humana por meio do dilúvio, salvando apenas a família de Noé (Gn 6); quando decide confundir as línguas dos construtores da torre de Babel, pela sua atitude de rebeldia contra Ele (Gn 11); quando destrói as cidades de Sodoma e Gomorra por causa no seu nível extremo de pecaminosidade (Gn 19). Quando institui a lei cerimonial decretando que o pecado custaria a vida de um animal, pois “sem derramamento de sangue não há remissão de pecados” (Hb 9.22). E, acima de tudo, quando expia os pecados de todo seu povo entregando o próprio Filho para morrer na cruz.

Esta ira pelo pecado alcança o seu ápice no Julgamento Final. Na peça, este julgamento é jocoso, pois o pecado é relativizado e todos são inocentados. A descrição bíblica do julgamento final é bem diferente, senão vejamos: “… e nos mandou pregar ao povo e testificar que ele é quem foi constituído por Deus Juiz de vivos e de mortos.” (At 10.42); “… porquanto estabeleceu um dia em que há de julgar o mundo com justiça, por meio de um varão que destinou e acreditou diante de todos, ressuscitando-o dentre os mortos.” (At 17.31); “… no dia em que Deus, por meio de Cristo Jesus, julgar os segredos dos homens, de conformidade com o meu evangelho.” (Rm 2.16); “Porque importa que todos nós compareçamos perante o tribunal de Cristo, para que cada um receba segundo o bem ou o mal que tiver feito por meio do corpo.” (2Co 5.10). E, por fim, Mateus 25.31-34:

“Quando vier o Filho do Homem na sua majestade e todos os anjos com ele, então, se assentará no trono da sua glória; e todas as nações serão reunidas em sua presença, e ele separará uns dos outros, como o pastor separa dos cabritos as ovelhas; e porá as ovelhas à sua direita, mas os cabritos, à esquerda; então, dirá o Rei aos que estiverem à sua direita: Vinde, benditos de meu Pai! Entrai na posse do reino que vos está preparado desde a fundação do mundo.”

 

  1. FUNDAMENTAÇÃO BIBLIOGRÁFICA

 

  1. Relativismo religioso

Ariano Suassuna não está sozinho na prática de criar uma religião para si, particularizada. O relativismo de nossos dias permite que cada um tenha sua própria verdade, e isso adentra o campo religioso. Desta forma, cada qual cria seu próprio modo de relacionamento religioso, fugindo, portanto, de padrões rígidos e institucionais e preferindo aderir a uma “espiritualidade”, mais leve, menos impositiva. Sobre esta tendência, que já chegou ao Brasil, Nancy Pearcey esclarece, apresentando o exemplo norte-americano:

 ‎”Hoje, os americanos são menos propensos a usar o termo religião, preferindo o termo espiritualidade. A revista American Demographics observou que seis palavras estão se tornando o mantra do novo milênio: “Gosto de espiritualidade, não de religião”. Qual é a diferença entre os dois termos? Religião refere-se ao reino público das instituições, denominações, doutrinas oficiais e rituais formais, ao passo que espiritualidade está associada ao reino particular da experiência pessoal…”.[74]

A particularização da religião, resultante da dicotomia secular/sagrado, desloca a religião do campo público para o privado. Alija o Cristianismo da esfera pública de conhecimento para a esfera particular. Novamente Nancy Pearcey esclarece:

“Em suma, a esfera particular é levada pelas ondas do relativismo moral. Note a impressionante expressão de Berger: “preferência religiosa”. A religião não é considerada uma verdade objetiva à qual nos submetemos, mas trata-se de mera questão de gosto pessoal que escolhemos. Por conta disto, a dicotomia chega a ser denominada divisão fato/valor.”[75]

A solução para que não se particularize é percebermos que os absolutos de Deus abrangem não apenas as leis da física, mas também as leis comportamentais. Wolters diz o seguinte: “Parece que não há diferença essencial entre a palavra de comando de Deus para nevar e gear e a sua palavra de comando para o seu povo. Sejam leis da natureza ou normas, elas pertencem à lei universal para toda a criação.”[76]

 

  1. Relativismo ético

Vimos que “Auto da Compadecida” relativiza a moral e a ética ao justificar pecados e suavizar suas consequências. Vimos também a condenação bíblica de Deus sobre os pecados, tendo o seu momento mais alto na cruz de Cristo. Agora, tendo verificado o ensino bíblico sobre a questão, podemos analisar um pouco a origem cultural dessa tendência pecaminosa.

Tratando sobre relativismo e tolerância, D. A. Carson diz que a “cultura de ‘tolerância’ em que nos encontramos hoje é uma cultura na qual as pessoas não acreditam em nada, não possuem uma noção clara entre certo e errado, e são incrivelmente indiferentes a este precário estado de coisas.”[77] Esta confusão conceitual é própria de nossa época. Com a queda da verdade religiosa, caíram também as verdades éticas. Com o deslocamento da fé para o pavimento superior, de meros valores, o campo da moralidade ficou sem base.

Por isso, o cristão é aquele que tem as ferramentas para lutar contra o relativismo. Considerando que todo ser humano, via de regra, emite julgamentos morais, o cristão tem aí um bom ponto de contato para início de uma conversa. Nancy Pearcey chama a atenção para este fato:

“O dilema é que os seres humanos de forma irresistível e inevitável fazem julgamentos morais. No entanto, as cosmovisões não-bíblicas não fornecem base para eles. Quando os não-crentes agem de acordo com a natureza moral intrínseca e pronunciam que algo é certo ou errado de modo verdadeiro, eles estão sendo incoerentes com a filosofia que professam. Desta forma, a condenam por suas ações. ‘Sempre que você encontrar alguém que diz que não acredita em certo ou errado, no momento seguinte esse indivíduo voltará ao que disse’, escreve C. S. Lewis. ‘Ele pode quebrar a promessa que lhe fez, mas se você quebrar a promessa que fez para ele, num abrir e fechar de olhos ele reclama: Não é justo.’ ‘Pelo visto, somos forçados a acreditar em certo e errado’, conclui Lewis. ‘Às vezes, as pessoas se equivocam a esse respeito, da mesma maneira que as pessoas às vezes erram ao fazer contas de somar; mas não é questão de mero gosto e opinião mais do que tabuada.’ Qual é a base lógica para esta crença inevitável sobre certo e errado? A única base para uma moralidade objetiva é a existência de um Deus santo, cujo caráter fornece o fundamento básico para os padrões morais. O cristianismo explica por que somos criaturas morais, e estabelece a validade de nosso senso moral.”[78]

Além desta argumentação, é necessário que o cristão mostre com a própria vida a diferença de viver para Deus. Como assevera Henry Van Til:

“A vida do povo de Deus conforme interpretação bíblica dos calvinistas, exige um estilo de vida cristão distinto, pois é vivida pela fé no filho de Deus, por meio da graça. Essa é a razão pela qual o calvinista leva a vida ética com tanta seriedade, já que ela permanece na marca da cruz. A lei disse: “Maldito aquele que não confirmar as palavras desta lei, não as cumprindo” (Dt 27.26).[79]

Na mesma linha, Nancy Pearcey comenta:

“Em um mundo de relativismo moral, onde tudo é reduzido à escolha pessoal, dizer “não” já é um ensinamento muito difícil. Se não parece difícil, então sem perceber estamos nos conformando com o mundo. Se não estamos dizendo “não” de modo a nos colocarmos de joelhos para buscar o poder capacitante de Deus, então não estamos nos levantando contra o sistema pecador do mundo como devemos.”[80]

Em suma, o cristão deve viver a antítese do mundo. “Não ameis o mundo nem as cousas que há no mundo. Se alguém amar o mundo, o amor do Pai não está nele; porque tudo que há no mundo, a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida, não procede do Pai, mas procede do mundo.” (1Jo 2.15,16).

“Auto da Compadecida” tem seus momentos de verdade, consequentes da graça comum de Deus, todavia, relativiza o padrão moral estabelecido por Deus e ridiculariza verdades importantes do Evangelho, como a gravidade do pecado, a salvação adquirida por Cristo e a santidade do juízo de Deus sobre os povos. Recomenda-se a sua leitura, mas com as ressalvas desta análise crítica.

 

NOTAS:

[1] OSCAR, Henrique no prefácio de: SUASSUNA, Ariano. Auto da Compadecida. Rio de Janeiro: Livraria AGIR Editora, 1975, p. 9.

[2] Wanderley, Clênio (1929 – 1976) In: Enciclopédia Itaú Cultural. Disponível em: http://www.itaucultural.org.br/aplicexternas/enciclopedia_teatro/index.cfm?fuseaction=personalidades_biografia&cd_verbete=12123. Acesso em: 24 jan 2013.

[3] Auto In: Enciclopédia Universal. São Paulo: Editora Pedagógica Brasileira Ltda. 1969, Vol. 1, p. 429.

[4] Década de 50. Disponível em: http://www2.camara.leg.br/atividade-legislativa/plenario/discursos/escrevendohistoria/visitantes/panorama-das-decadas/decada-de-50. Acesso em: 21 jan 2013.

[5] Brasil In: Enciclopédia Barsa. Rio de Janeiro: Encyclopaedia Britannica Editores Ltda. 1964, Vol. 3, p. 318.

[6] Ibid., p. 315.

[7] Década de 50. Disponível em: http://www2.camara.leg.br/atividade-legislativa/plenario/discursos/escrevendohistoria/visitantes/panorama-das-decadas/decada-de-50. Acesso em: 21 jan 2013.

[8] Entrevista ao Jornal Folha de São Paulo, publicada em 28/-07/2012 – Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/1126704-no-territorio-da-arte-nao-ha-democracia-diz-ariano-suassuna.shtml – Acesso em 21 jan 2013.

[9] Entrevista concedida a alunos do Departamento de Jornalismo Impresso da Universidade Federal do Ceará em 1995, publicada apenas em 26 de Março de 2008. Disponível em: http://alagoinhaipaumirim.blogspot.com.br/2008/03/quinta-da-entrevista-ariano-suassuna.html – Acesso em 21 jan 2013

[10] Ibid.

[11] ________. Cadernos de Literatura Brasileira: Ariano Suassuna. Rio de Janeiro: Instituto Moreira Salles, nº 10, 2000. Disponível em: http://litteraturamundi.blogspot.com.br/2012/05/entrevista-com-ariano-suassuna-cadernos.html. Acesso em 21 jan 2013.

[12] Foi no livro “Cantadores”, deste escritor cearense, que Suassuna conheceu os contos “O Enterro do Cachorro” e “A História do Cavalo que Defecava Dinheiro”, ambos utilizados na peça “Auto da Compadecida”. Na peça, o cavalo foi substituído por um gato, por questões cênicas. Estas informações estão na entrevista concedida a alunos do Departamento de Jornalismo Impresso da Universidade Federal do Ceará em 1995, publicada apenas em 26 de Março de 2008. Disponível em: http://alagoinhaipaumirim.blogspot.com.br/2008/03/quinta-da-entrevista-ariano-suassuna.html – Acesso em 21 jan 2013

[13] SUASSUNA, Ariano. Auto da Compadecida. Rio de Janeiro: Livraria AGIR Editora, 1975, p. 21.

[14] Ibid., p. 32.

[15] SUASSUNA, Ariano. Auto da Compadecida. Rio de Janeiro: Livraria AGIR Editora, 1975, p. 67.

[16] Ibid., p. 72

[17] Ibid., p. 84.

[18] ________. Cadernos de Literatura Brasileira: Ariano Suassuna. Rio de Janeiro: Instituto Moreira Salles, nº 10, 2000. Disponível em: http://litteraturamundi.blogspot.com.br/2012/05/entrevista-com-ariano-suassuna-cadernos.html. Acesso em 21 jan 2013.

[19] Disponível em: http://alagoinhaipaumirim.blogspot.com.br/2008/03/quinta-da-entrevista-ariano-suassuna.html – Acesso em 21 jan 2013.

[20]  ________. Cadernos de Literatura Brasileira: Ariano Suassuna. Rio de Janeiro: Instituto Moreira Salles, nº 10, 2000. Disponível em: http://litteraturamundi.blogspot.com.br/2012/05/entrevista-com-ariano-suassuna-cadernos.html. Acesso em 21 jan 2013.

[21]  ________. Cadernos de Literatura Brasileira: Ariano Suassuna. Rio de Janeiro: Instituto Moreira Salles, nº 10, 2000. Disponível em: http://litteraturamundi.blogspot.com.br/2012/05/entrevista-com-ariano-suassuna-cadernos.html. Acesso em 21 jan 2013.

[22] _________. Catecismo da Igreja Católica. São Paulo: Edições Loyola, 2004, p. 273

[23]  ________. Cadernos de Literatura Brasileira: Ariano Suassuna. Rio de Janeiro: Instituto Moreira Salles, nº 10, 2000. Disponível em: http://litteraturamundi.blogspot.com.br/2012/05/entrevista-com-ariano-suassuna-cadernos.html. Acesso em 21 jan 2013.

[24] Entrevista concedida o Departamento de Jornalismo Impresso da Universidade Federal do Ceará em 1995, publicada apenas em 26 de Março de 2008. Disponível em: http://alagoinhaipaumirim.blogspot.com.br/2008/03/quinta-da-entrevista-ariano-suassuna.html – Acesso em 21 jan 2013

[25] George W. Butler – Disponível em: http://elescreram.blogspot.com.br/2012/10/george-w-butler.html. Acesso em: 26 jan 2013.

[26] SUASSUNA, Ariano. Auto da Compadecida. Rio de Janeiro: Livraria AGIR Editora, 1975, p. 139.

[27] Ibid., p. 154.

[28] Ibid., p. 158.

[29] Ibid., p. 141.

[30] Ibid., p. 164.

[31] Ibid., p. 169.

[32] Ibid., p. 171.

[33] SUASSUNA, Ariano. Auto da Compadecida. Rio de Janeiro: Livraria AGIR Editora, 1975, p. 154.

[34] Ibid., p. 154.

[35] Ibid., p. 157.

[36] Ibid., p. 160.

[37] Ibid., p. 161.

[38] Ibid., p. 165.

[39] Ibid., p. 170.

[40] Ibid., p. 173.

[41] Ibid., p. 185.

[42] Ibid., p. 187.

[43] Ibid., p. 189.

[44] Ibid., p. 186.

[45] OSCAR, Henrique no prefácio de: SUASSUNA, Ariano. Auto da Compadecida. Rio de Janeiro: Livraria AGIR Editora, 1975, p. 12.

[46] SUASSUNA, Ariano. Auto da Compadecida. Rio de Janeiro: Livraria AGIR Editora, 1975, p. 164.

[47] Ibid., p. 173.

[48] Ibid., p. 22.

[49] Ibid., p. 170.

[50] Ibid., p. 170.

[51] Ibid., p. 168.

[52] Ibid., p. 188.

[53] Ibid., p. 185.

[54] SUASSUNA, Ariano. Auto da Compadecida. Rio de Janeiro: Livraria AGIR Editora, 1975, p. 136.

[55] Ibid., p. 108.

[56] Ibid., p. 110.

[57] Ibid., p. 111.

[58] SUASSUNA, Ariano. Auto da Compadecida. Rio de Janeiro: Livraria AGIR Editora, 1975, p. 22.

[59] Ibid., p. 174.

[60] SUASSUNA, Ariano. Auto da Compadecida. Rio de Janeiro: Livraria AGIR Editora, 1975, p. 174.

[61] Ibid., p. 184.

[62] Disponível em: http://almanaque.folha.uol.com.br/leituras_16jun00.htm. Acesso em 21 jan 2013.

[63] Ibid.

[64] Ibid.

[65] Entrevista concedida o Departamento de Jornalismo Impresso da Universidade Federal do Ceará em 1995, publicada apenas em 26 de Março de 2008. Disponível em: http://alagoinhaipaumirim.blogspot.com.br/2008/03/quinta-da-entrevista-ariano-suassuna.html – Acesso em 21 jan 2013

[66] Disponível em: http://almanaque.folha.uol.com.br/leituras_16jun00.htm. Acesso em 21 jan 2013.

[67] SUASSUNA, Ariano. Auto da Compadecida. Rio de Janeiro: Livraria AGIR Editora, 1975, p. 92.

[68] Ibid., p. 38.

[69] SUASSUNA, Ariano. Auto da Compadecida. Rio de Janeiro: Livraria AGIR Editora, 1975, p. 148.

[70] OSCAR, Henrique no prefácio de: SUASSUNA, Ariano. Auto da Compadecida. Rio de Janeiro: Livraria AGIR Editora, 1975, p. 9.

[71] Disponível em: http://alagoinhaipaumirim.blogspot.com.br/2008/03/quinta-da-entrevista-ariano-suassuna.html – Acesso em 21 jan 2013.

[72] Entrevista concedida o Departamento de Jornalismo Impresso da Universidade Federal do Ceará em 1995, publicada apenas em 26 de Março de 2008. Disponível em: http://alagoinhaipaumirim.blogspot.com.br/2008/03/quinta-da-entrevista-ariano-suassuna.html – Acesso em 21 jan 2013

[73] PEARCEY, Nancy. Verdade absoluta: libertando o cristianismo de seu cativeiro cultural. Rio de Janeiro:

CPAD, 2006, p. 46.

[74] PEARCEY, Nancy. Verdade absoluta: libertando o cristianismo de seu cativeiro cultural. Rio de Janeiro:

CPAD, 2006, p. 133.

[75] Ibid., p. 23.

[76] WOLTERS, Albert M. A criação restaurada: base bíblica para uma cosmovisão reformada. São Paulo: Cultura Cristã, 2006, p. 31.

[77] CARSON, D. A. The Intolerance of Tolerance. Grand Rapids: William B. Eerdmans Publishing Company, 2011, p. 75.

[78] PEARCEY, Nancy. Verdade absoluta: libertando o cristianismo de seu cativeiro cultural. Rio de Janeiro:

CPAD, 2006, p. 446.

[79] VAN TIL, Henry R. O conceito Calvinista de Cultura. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2010, p. 219.

[80] PEARCEY, Nancy. Verdade absoluta: libertando o cristianismo de seu cativeiro cultural. Rio de Janeiro:

CPAD, 2006, p. 399.

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