Fato e sentimento

Por Fôlton Nogueira

 

Pode, acaso, o etíope mudar sua pele
ou o leopardo, suas manchas?
Então, poderíeis fazer o bem,
estando acostumados a fazer o mal?
(Jeremias 13.23).

Nos dias do profeta Jeremias, como em até poucos anos, era muito difícil mudar-se as características da própria raça. Até hoje só vi uma pessoa que o fez. O conheci pela televisão ainda criança cantando com seus irmãos. Quando ficou jovem afinou cirurgicamente os traços do rosto e, não sei como, clareou a pele.

Conheci muitos inconformados com a cor negra da própria pele. Vi quem a amaldiçoasse declarando entre lágrimas o desejo de ter nascido branco. Igualmente conheci brancos inconformados com o que em alguns estados do Nordeste é chamado de fogoió (e no sul branco azedo) desejando, pelo menos, terem nascidos morenos.

Negros, morenos ou brancos, por mais que se pinte a pele ou se faça algum tratamento radical, como fez o finado cantor a que me referi, jamais deixarão de ser negros, morenos ou brancos. Assim foram criados por Deus e assim se apresentarão diante dele.

Mas, voltando ao texto do profeta Jeremias, fica claro que o pecado está arraigado em nossas naturezas, como arraigada está a cor de nossa pele. Qualquer que seja o pecado. Livrar-nos de nossa natureza pecaminosa é tão difícil quanto um etíope livrar-se da cor de sua pele ou leopardo das manchas de sua pelagem. Ou seja: o pecado faz parte de quem somos.

Alguém de tendência heterossexual, que respeita os propósitos “do desenho anatômico do Criador” pode desfrutar do que o próprio Criador previu: o casamento. Pois somente dentro do casamento o sexo deve ser consumado sem ferir os propósitos estabelecidos pelo Criador.

Alguém com tendência homossexual deve pedir ao próprio Criador que mude sua tendência e se case com alguém do sexo oposto, ou lhe conceda a graça de viver em santidade. Pois tanto a concupiscência heterossexual como a concupiscência homossexual são pecados.

***

Entretanto, o texto nos leva a outras considerações.

Costumamos desdenhar de quem se envergonha de ser negro e considera os brancos membros de uma raça superior. No mínimo o julgamos digno de dó. Apoiamos as leis que garantem igualdade de tratamento e de oportunidade especialmente aos de pele negra que historicamente tiveram seus ancestrais explorados como escravos e até hoje são discriminados. Aplaudimos as leis que coagem os opressores a tratarem-nos como outro cidadão brasileiro qualquer.

Mas, paradoxalmente alguns que nascem homem e se sentem mulher, ou vice-versa, ultimamente tem exigido o direito, às vezes de modo afrontoso, que a sociedade os trate conforme eles se sentem. Vão mais longe: reivindicam que o Estado os conceda direitos próprios de seu sentimento de ser.

Se por um lado, coerente e corretamente o Estado deve garantir os direitos dos que são discriminados racialmente, até que ponto o Estado é obrigado garantir os direitos dos que se sentem discriminados sexualmente? Enfatizo o sentir.

Desde quando o que se sente pode ser comparado ao que é? A um fato que pode ser objetivamente aferido? Não bastaria ao Estado garantir os direitos individuais de qualquer cidadão independentemente do modo como ele se sente?

Dia desses vi um documentário sobre um homem que se sentia felino. Limou os dentes, aparou as unhas, cultivou o bigode e as sobrancelhas. Fez cirurgia plástica nos olhos, tratou o conjunto lábio superior e nariz para assemelhar-se mais a um felino. Bebia leite em pires. Fiquei pensando se muitos seguissem seu exemplo e resolvessem exigir tratamento de felino nos restaurantes, nas escolas, igrejas, etc.? Como se não bastasse, resolvessem criminalizar quem não os reconhecesse como felinos.

Essa é a situação que vivemos.

O Estado já assegurou o direito de se unirem com pessoas de sentimento sexual correspondente e tudo o que decorre de tais uniões, como pensão, herança, previdência e até adoção de filhos.

Teria o Estado o direito de impor seus costumes, agenda, e modus operandi a toda sociedade? Especialmente aos que se recusam a concordar com eles, ou não se sentem como eles? Teria o Estado o direito de obrigar as crianças, desde pequenas, a experimentar um pouco da vida que eles levam a fim de prevenir uma futura discriminação?

Justiça inclemente para quem os agride por se sentirem como se sentem. Justiça inclemente para quem agride a uma criança ou um idoso, ou a qualquer semelhante. Justiça, pois o efeito da justiça é sempre paz. Justiça aqui, pois esta é apenas sombra da que o Juiz de toda terra exerce.

 

Revisado por Ewerton B. Tokashiki

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