O sono e o despertar

Por Fôlton Nogueira

 

Mais uma manhã. Os primeiros sons que eu percebo são de passos femininos, curtos e secos, de saltos contra o asfalto da rua. A seguir passos pesados e abafados denunciam o pequeno grupo de operários da construção próxima que logo me atualizarão sobre o mundo do futebol, mesmo que nenhum time tenha jogado na noite anterior.

Os primeiros clarões, que já invadiram a janela, da qual as alergias me roubaram a cortina, ameaçam gradualmente meus olhos, que tentam se proteger debaixo de um edredom – verdade! As manhãs estão frias o suficiente para um edredom fininho – e o cansaço do sono iniciado bem depois de meia noite me convida a virar pro outro lado. Mas, aí já é tarde: Junto com o trinado de dezenas canários e a algazarra dos pardais, chega o aroma forte e bem-vindo do café. Há sono que resista?

Antes de me levantar agradeço ao Senhor, por mais um dia em que suas misericórdias se renovaram. E se renovaram mesmo! A preocupação com tantas coisas feitas pela metade ou por fazer; com a distância que divide a família; com o sofrimento de ovelhas doentes ou aflitas; deu lugar à confiança, e o sono que chegou agitado foi se acalmando pela certeza de que é “inútil se levantar de madrugada, trabalhar até tarde, comer o pão de lágrimas, pois aos seus amados, Deus dá enquanto dormem”. Foram poucas horas de sono, mas foi um sono profundo e sem sonhos: reparador.

Os problemas de ontem não desapareceram, mas ganharam novas abordagens. Suas soluções podem agora ser examinadas sob novas perspectivas.

Quantas vezes fui dormir com um “problema insolúvel” e pela manhã ele parecia algo tão banal que se desfez com um simples telefonema.

Com um sono profundo Deus trouxe a nosso pai sua companheira. A bendita Jael libertou seu povo do jugo de Sísera depois dele cair em profundo sono. E por não conseguir conciliar o sono Nabuconozor conheceu a Daniel. Por não conseguirem segurar o sono os apóstolos do Senhor não conseguiram vigiar em oração com ele no Getsêmani. Vencido pelo sono Êutico caiu do apartamento no terceiro andar em que a Igreja de Trôade estava reunida.

Mas, de tudo o que as Escrituras falam sobre o sono, o que mais me impressiona é compará-lo à morte dos remidos. Sabemos muito bem que eles morreram mesmo. Mas como breve ressuscitarão, as Escrituras chamam a morte de sono. Como se da morte acordassem.

E, especulo eu, do que primeiro teremos consciência? Dos passos dos transeuntes? Da claridade do dia? Do canto dos pássaros? Do aroma do café? Não! Creio que será da bendita voz – aquela que já foi ouvida por Lázaro – “vem para fora”!

Eu irei.

 

Revisado por Ewerton B. Tokashiki

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