Qual o significado da palavra “concílio”

Por Fôlton Nogueira

 

Durante a reunião do Supremo Concílio em Brasília, durante o impasse sobre o que fazer com o restante dos papéis que ainda não tinham sido lidos em plenário, nasceu a idéia de uma auto-convocação extraordinária, que ocorreu em Recife, pois havia certo receio de deixar assuntos muito importantes para a Comissão Executiva.

Foi nesse clima que um dos mais destacados dirigentes daquela reunião apelou ao bom senso de todos os conciliares, a que houvesse maior boa vontade, “pois, até mesmo a palavra ‘concílio’ já pressupõe um ‘conciliação’, e se há conciliação é por que há interesses diversos que devem ser conciliados”.

Fiquei assustado com o argumento, pois, embora meu pouco conhecimento de filologia levava-me a acreditar na premissa que orientava seu raciocínio, isso desdizia tudo o que eu havia aprendido em eclesiologia como missão da Igreja.

Pois bem: Os anos passaram e essas palavras acompanharam-me em diversos cursos relacionados a linguística. Hoje posso afirmar, que tal argumento não é verdadeiro, e, para mim, inspira-se mais na idéia de convivência plural.

A palavra ‘concílio’, pelo som parece muito com o que deveria ser a raiz da palavra conciliação, mas, embora guarde alguns traços de semelhança semântica, não tem o mesmo significado, sequer refere-se a mesma coisa. Ela teve sua origem no latim do Século 12 e, referia-se a um ato convocatório, para que convocados tomassem assento (silla) juntos (cum).

O primeiro registro dela em português aconteceu em 1813, referindo-se a jurisdição imediatamente inferior ao distrito, que no latim da idade média (districtus: literalmente preso ou ligado), referia-se ao território dependente da cidade.

Aqueles que “tomavam assento juntos” deliberavam sobre os problemas que, pela lei, lhes estavam afetos. Ao passo que o outro sentido, fazer acordo, ou, conciliar, tem sua origem direta no verbo latino ‘conciliare’ e seu primeiro registro data de 1572.

Muito provavelmente o que aconteceu foi uma “proposital confusão semântica”, à medida que se percebeu que os ‘conciliares’, em vez de “tomar assento juntos”, para deliberar conforme as leis a que estavam sujeitos, reuniam-se para ‘conciliar’ interesses.

Uma verdadeira “reprimenda linguística”, semelhante ao que aconteceu com a palavra ‘conclave’ que deu origem a palavra ‘conchavo’.

Espero, do fundo do coração, que o resgate do sentido original da palavra, comece pelos concílios da IPB, e que jamais sejamos instados à conciliar interesses, pois correremos o risco de merecer a palavra conchavo.

 

Revisado por Ewerton B. Tokashiki

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