Martin Bucer e a Reforma do Culto

Por Terry L. Johnson

 

Se Martin Bucer (1477-1548) não é um herói desconhecido da Reforma, certamente ele é um herói discreto. Particularmente, este é o caso quando se trata do culto público. As impressões digitais de Bucer estão em toda a obra Form of Church Prayers, de Calvino (1542), bem como sobre o Book of Common Prayer (1552, 1559, 1662). Calvino reconhece que a maior parte do seu Form foi emprestada de Bucer, enquanto a resposta de 50 páginas, que Bucer deu ao primeiro Book of Common Prayer do rei Eduardo VI (1549), intitulada Censura, levou a grandes alterações numa direção reformada sólida, porém incompleta.

Particularmente digna de nota é a publicação da obra de Bucer, de 1524, Grund und Ursach, recentemente reimpressa como Ground and Reason, a primeira grande defesa das reformas litúrgicas protestantes. Hughes Old chama Grund und Ursach de “um dos documentos mais importantes na história do culto reformado”. Ela representa a tentativa de Bucer, no lugar dos ministros protestantes de Estrasburgo, de explicar o fundamento (Grund) e a razão ou justificação (Ursach) para as reformas que aconteceram em sua cidade. Os cultos estavam sendo conduzidos em alemão, as imagens foram removidas, os relicários e as relíquias destruídas, e outras alterações substanciais foram feitas na missa medieval. Por um lado, os tradicionalistas estavam indignados e os humanistas moderados se tornaram alienados do movimento por reforma, enquanto, por outro lado, Carlstadt e os anabatistas não acreditavam que a Reforma tivesse ido longe o suficiente. Bucer se move sistematicamente, questão por questão, defendendo as mudanças no culto em Estrasburgo. Talvez seja surpreendente, mas mais do que isso, encorajador ver a continuidade no pensamento de Bucer para, diz Hughes Old, identificar os princípios fundamentais do culto reformado. O consenso reformado, de Bucer, passando por Calvino e Westminster, até hoje, é impressionante, em como ele discute a Ceia do Senhor, o batismo, os dias santos, as imagens, a música da igreja e a pregação.

 

A Ceia do Senhor

Bucer estabelece um ponto básico, mas com múltiplas implicações: a Ceia do Senhor não é um sacrifício, mas uma ceia. Ele denomina “um erro extremamente pernicioso e abominável” acreditar que, na Ceia do Senhor, o corpo e o sangue de Cristo são sacrificados. Ele demonstra que os elementos da comunhão são “comida comum” (e não a substância da carne de Cristo), e que a morte de Cristo foi “de uma vez por todas” e completa. Porque é uma ceia, ele afirma, deve ser chamada daquilo que a Bíblia a chama, a Ceia do Senhor. O que anteriormente era chamado de altar, agora passa a ser chamado de mesa. Tudo o que implica sacrifício deve ser removido do culto: a elevação do pão e do cálice, vestimentas sacerdotais (“a magnífica armadura dos amantes da Missa”), bem como todos os gestos, posturas e linguagens que não se encontram nas Escrituras, incluindo o sinal da cruz, algo saturado de superstição. Estas coisas chamadas “inovações” do protestantismo, removendo as características extra bíblicas, são, na verdade, “restaurações daquilo que é correto, antigo e eterno”, afirma Bucer. Ao todo, 70% de Grund und Ursach são dedicados à reforma da Ceia do Senhor.

 

O Batismo

Bucer insiste na reforma do batismo por abolir elementos extra bíblicos usados no batismo: crisma, óleo, sal, pão, velas e água consagrada. Estas e outras práticas não possuem “justificativa bíblica”, ele insiste, e não servem “a nenhum bom propósito”. Em vez disso, os batismos devem ser conduzidos “sem ostentação”.

 

Dias santos

Por causa das superstições religiosas em conexão com os dias santos e as “buscas carnais” em torno deles, Bucer defende a abolição de todos os dias santos que não podem ser justificados pelas Escrituras. Por que “estabelecer celebrações inúteis”, ele pergunta, que não possuem “uma única Palavra de Deus?”

 

Imagens e lugares santos

Bucer elogia a remoção de ídolos e imagens das igrejas com base no primeiro e no segundo mandamentos. Ele insiste: “Os leigos devem ser ensinados com a Palavra de Deus e não com blocos, pedras e pinturas estúpidas”. Bucer também ataca a veneração de santos, relíquias e peregrinações a lugares supostamente sagrados. Para tais práticas “não há Palavra de Deus”, não existem lugares sagrados (o auxílio de Deus não está mais disponível num lugar que em outro), e “não há quem se incline mais para ser misericordioso e para nos ajudar do que nosso Deus e Pai”.

 

Canto, oração e pregação

Tinha se tornado costume cantar músicas e oferecer orações não baseadas nas Escrituras, e fazer isso em Latim. Bucer defende canções e orações “baseadas na Sagrada Escritura” e na linguagem do povo “para que todos possam ser encorajados e edificados” (1Co 14.1-40; Cl 3.16). “Nenhum serviço sem pregações deve ser realizado para congregação reunida”, insiste Bucer. Talvez esta seja a parte mais fraca da sua apresentação. No entanto, na própria liturgia o sermão era o aspecto central, juntamente com a leitura lectio continua da Escritura.

 

Princípios orientadores

Quais foram os princípios orientadores de Bucer? Mesmo em nossa breve resenha, eles são bastante claros.

Primeiro, o culto cristão deve ser “de acordo com a Escritura”. Bucer apela repetidamente à Escritura como a base para a reforma. O que não pode ser apoiado pelas Escrituras deve ser eliminado ou alterado. O que é requerido pelas Escrituras deve ser incorporado à liturgia. Este princípio pode ser encontrado em praticamente todas as páginas de Grund und Ursach. Além disso, o culto cristão deve ser cheio da Escritura e na linguagem do povo. As orações, os cânticos e os sermões devem ser cheios de conteúdo bíblico. “Tudo é baseado nas Escrituras”, ele insiste.

Segundo, o culto cristão deve ser espiritual e simples. O culto deve estar preocupado, primariamente, com as realidades espirituais interiores. Não é primariamente uma questão de cerimônias, procedimentos, rituais e formas. Em vez disso, é fundamentado na fé e motivado pelo amor.

 

Conclusão

A obra de Bucer, Grund und Ursach, fornece um exemplo claro de como a reforma do culto promovido pela Reforma foi conduzida teologicamente. Uma vez que a suficiência e a finalidade da expiação de Cristo foram compreendidas (solus Christus), e uma vez que os meios pelos quais os benefícios da expiação foram recebidos e compreendidos (sola fide, sola gratia), o culto da igreja teve que ser reformado. O primeiro requeria a remoção de tudo o que sugeria, de maneira explícita ou implícita, sacrifício, em favor da simples observância da Ceia do Senhor, numa mesa, administrada por um ministro, vestido com uma veste simples. O último exigia a remoção de relíquias, imagens e ídolos (uma vez que a fé vem por ouvir a Palavra de Deus, não por contemplar artefatos religiosos), substituindo-os pela leitura, pregação e cântico da Palavra de Deus. O raciocínio de Bucer é tão convincente hoje como foi há quase 500 anos, e é um lembrete para os protestantes reformados do porquê fazemos o que fazemos em nossos cultos públicos.

 

FONTE: http://www.reformation21.org/blog/2018/02/martin-bucer-and-the-reform-of.php

Traduzido por Alan Rennê Alexandrino Lima

Revisado por Ewerton B. Tokashiki

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