Aperfeiçoado (2ª Parte)

Por Fôlton Nogueira

 

Hoje tradicionalmente relembramos o dia da circuncisão do Senhor, e Lucas a descreve, atestando sua participação neste sacramento da Antiga Aliança, assim: “Completados oito dias para ser circuncidado o menino, deram-lhe o nome de JESUS, como lhe chamara o anjo, antes de ser concebido” (Lc 2.21). Porém, Lucas dá mais ênfase a um acontecimento posterior: Seus pais o perderam em uma peregrinação à Jerusalém.

Todo judeu devia comparecer a uma das três grandes festas anuais: Páscoa, Pentecostes ou Tabernáculos e Lucas diz: “anualmente iam seus pais a Jerusalém, para a Festa da Páscoa. Quando ele atingiu os doze anos, subiram a Jerusalém, segundo o costume da festa.” (Lc 2.41-42).

No sabath imediatamente posterior à data em que o rapaz fazia 13 anos e um dia, lhe era – e ainda é – concedido o privilégio de ler, na sinagoga, a Torah (o que nós protestantes chamamos de Pentateuco). Quando isso acontecia, aquele adolescente passava a ser considerado um “Filho do Mandamento” (em hebraico um Bar Mitzvah). Ao fim da leitura o pai erguia os braços e dizia “Bendito és tu Senhor do céu e da terra que tiraste de mim a responsabilidade deste menino”. A partir de então o garoto já era considerado homem e tinha quase todos os direitos e deveres de um adulto, especialmente de compor o miniam (quórum de 10 pessoas necessário a uma reunião judaica).

Então, era comum o pai levar seu filho às páscoas precedentes para que ele se acostumasse. Provavelmente foi o que aconteceu a Jesus.

As conversas com outros garotos devem ter atraído a atenção de rabinos que buscavam alunos e ele logo se envolveu em debates com os doutos na lei. Enquanto isso seus pais voltavam supondo que ele estivesse com amigos.

Não é difícil imaginar o desespero de Maria ao perceber sua falta. Primeiro procurou entre “os parentes e conhecidos; e não o tendo encontrado voltaram a Jerusalém”. Foi a primeira vez em que Maria o perdeu por três dias.

Encontraram-no assentado no meio dos rabinos, doutos na Lei, ouvindo, interrogando, respondendo e causando admiração por sua inteligência. A admiração, causada também nos pais, foi superada pela indignação de Maria: – Por que fizeste assim conosco? Teu pai e eu, aflitos estávamos a tua procura.

E Jesus mostrou que já tinha conhecimento de quem era e da missão que tinha, pois refere-se, na frente de seu Pai José, ao outro Pai: – Por que me procuráveis? Não sabíeis que me cumpria estar na casa de meu Pai?

Lucas encerra este episódio – que certamente ouviu de Maria – com as seguintes palavras: “Não compreenderam, porém, as palavras que lhes dissera. E desceu com eles para Nazaré; e era-lhes submisso. Sua mãe, porém, guardava todas estas coisas no coração. E crescia Jesus em sabedoria, estatura e graça, diante de Deus e dos homens” (2.50-52). 

Esta é a última vez que ouvimos falar de José. Mas ele deve ter vivido tempo suficiente para ensinar-lhe o ofício de construtor (como eu prefiro traduzir tekton). Tenho a impressão de que, à exemplo do que ocorreu na cruz – quando Jesus cortou seus vínculos filiais com Maria entregando-a aos cuidados de João – os laços de paternidade humana com José foram quebrados nessa ocasião. Sendo essa uma das razões para Lucas narrar tal episódio, já que o Bar Mitzvah de Jesus aconteceria um ou dois anos depois.

Quando me perguntam por que os Evangelhos deixam lacunas tão grandes na biografia de Jesus, geralmente eu respondo: por que a vida dele foi normal. Tirando esses pequenos episódios, foi corriqueira (aquela que todos vivemos e que aperfeiçoa nosso caráter) ao ponto de, mais tarde, espantar seus vizinhos: “Não é este o filho do carpinteiro? Não se chama sua mãe Maria, e seus irmãos, Tiago, José, Simão e Judas? Não vivem entre nós todas as suas irmãs? Donde lhe vem, pois, tudo isto?” (Mt 13.55-56).

 

Revisado por Ewerton B. Tokashiki

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