As edições das Loci Communis de Philip Melanchthon

Por Christian Preus

 

Desde a sua publicação em Dezembro de 1521, os Loci foram muito populares. A obra foi lida com entusiasmo mesmo em Roma, até que um monge franciscano percebeu quem era seu autor e cópias do livro foram banidas.[1] Para os luteranos, ela viria a destituir e substituir as Sentenças de Pedro Lombardo como o livro doutrinário para o estudo universitário da teologia sistemática. E como Melanchthon continuou a editá-lo ao longo de sua vida, ele se tornou gradativamente um livro de teologia sistemática do que o guia para as Escrituras que esta primeira edição reivindica por si mesma. Simultaneamente a essa mudança de um guia bíblico para o tratamento sistemático (ou escolástico) dos tópicos doutrinários, houve diferentes ênfases, acréscimos e alterações claras na doutrina.

Estudiosos dividem as edições dos Loci de Melanchthon em três períodos. O primeiro é de sua primeira publicação, traduzida neste volume, para sua primeira grande recensão em 1535. O segundo período inclui todas as edições da publicação de 1535 até a sua revisão final final em 1543. Esta versão final teve sua última revisão e reedição em 1559, um ano antes da morte de Melanchthon. Quando Melanchthon terminou suas revisões, os Loci tinham quase quatro vezes o tamanho das Loci Communes originais de 1521. Além disso, o nome do trabalho havia mudado. Enquanto o termo Loci permaneceu, a palavra Communes foi abandonada em favor de Praecipui (Chefe), refletindo um afastamento do objetivo retórico da primeira edição e um movimento em direção ao arranjo dialético do escolasticismo.[2]

O ensino dos reformadores radicais e anabatistas (Zwingli, Carlstadt, et al.), negando a presença corpórea de Cristo na Ceia do Senhor, e no caso de alguns anabatistas, questionando a doutrina da Trindade, forçou Melanchthon a lidar completamente com a doutrina de Deus e a criação do homem em suas últimas edições – tópicos deixados de fora no texto original de 1521. Outras grandes mudanças nas últimas edições são devidas à preocupação de Melanchthon em negar a acusação de determinismo – que o homem é predestinado por Deus para um certo fim, sem considerar o mérito ou demérito humano. Assim, enquanto Melanchthon claramente ensina a total escravidão da vontade para pecar e do diabo nesta primeira edição, em sua última edição ele ensina que deve haver alguma razão no homem por que alguém é salvo e outro condenado.[3] Essas mudanças e muitas outras, juntamente com o tratamento escolástico do assunto, tornam as edições posteriores das obras do Loci de um tipo diferente. Uma comparação entre os Loci de 1521 e os Loci de 1559 mostra a evolução no pensamento e na perspectiva de Melanchthon durante todo o curso da Reforma. Ainda assim, Lutero elogiou muito essas edições posteriores, incluindo a de 1543,[4] e Martin Chemnitz e outros importantes teólogos luteranos usaram a última edição para ensinar seus alunos, como base para as suas próprias obras dogmáticas.[5]

Apesar das contínuas revisões de Melanchthon, as Loci Communes de 1521 permanecem como uma obra completa da teologia bíblica. Destina-se como uma introdução à teologia bíblica e, portanto, como uma introdução, estudo e interpretação da Bíblia. Como tal, as Loci Communes de 1521 são o começo não só da tradição sistemática luterana, mas também da tradição hermenêutica luterana. Os princípios luteranos da interpretação bíblica – de que a Escritura interpreta a Escritura, que o sentido gramatical e literal da Escritura é a base para toda interpretação, que a Escritura está unida em sua mensagem de Lei e Evangelho, que a Escritura é clara, que é a fonte e norma de todo ensinamento cristão e do poder de formação na vida cristã – tudo isso é encontrado nesta influente e seminal obra. Ela fala conosco hoje tão vigorosamente como aos seus primeiros leitores nos turbulentos anos dos primórdios da Reforma.

 

NOTAS:

 

[1] Manschreck, Melanchthon, 88.

[2] Breen, “Loci communes,” 203.

[3] Para um tratamento completo da evolução do ensino de Melanchthon sobre a vontade ao longo de suas edições do Loci, veja Matz, Der befreite Mensch.

[4] WA TR 5:205.

[5] Veja Martin Chemnitz, Loci Theologici, trans. J.A.O. Preus (St. Louis: Concordia, 1989).

 

Extraído de Philip Melanchthon, Commom Places – Loci Communis 1521 (Saint Louis, Concordia Publishing House, trad. Christian Preus, 2014).

Traduzido por Ewerton B. Tokashiki

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