Mas, isso é bíblico?

Por R. Scott Clark

 

Anthony Bradley postou um ensaio provocativo argumentando que a plantação de igrejas é insuficiente para a mudança social. Ele apela à sua própria experiência e à história da educação e da Cristandade. O seu texto levanta algumas questões e faz outras. Primeiro, ele assume que os cristãos são chamados a mudar a sociedade. Pode ser Depende, suponho, de como definimos “mudança”. A igreja apostólica “mudou” a sociedade greco-romana do primeiro século? Bem, a turba que assaltou a casa de Jasom (Atos 17) alegou que os cristãos estavam virando “o mundo de cabeça para baixo” (v. 7). Isso era literalmente verdadeiro? Mais uma vez, isso depende de algumas definições.

Os cristãos estavam mudando o governo romano? Não. Eles estavam revolucionando a educação? Não. Eles estavam transformando a arte? Não. Eles estavam afetando música ou literatura? Não de forma perceptível. Não há evidências de que eles usaram música em seus serviços. Eles usaram os gêneros literários e convenções existentes em suas epístolas e sermões.1 Nós derrubamos a escravidão greco-romana? Não.2 Eles eram ativos no serviço público, mas trabalhavam dentro das estruturas existentes. Eles estabeleceram escolas, mas seguiram os padrões existentes. Além disso, o que eles estavam fazendo quando foram acusados ​​de fomentar mudanças sociais radicais? Pregação e plantação de igrejas. Isso é praticamente tudo que o apóstolo Paulo fez. Isso é tudo que o apóstolo Pedro fez e isso é tudo o que os outros apóstolos fizeram. Eles estabeleceram um sistema de alívio da pobreza entre os cristãos, mas há pouca evidência de que eles criaram organizações de assistência social para aliviar a pobreza além da igreja visível (por exemplo, Atos 11:29). Pode-se extrair inferências que levam a conclusões diferentes, mas não há evidências inequívocas do contrário.

Assim, devemos questionar a premissa do post que os cristãos são chamados, como cristãos, a promover e avançar a mudança social. Que tipo de mudança? De quê? Pode até ser o caso, mas não pode simplesmente ser afirmado. Deve ser demonstrado. Há boas razões para suspeitar do “Evangelho social” ou dos grandes planos sociais em nome do Reino de Deus. Herman Ridderbos diz que a vinda do Reino

consiste inteiramente na ação de Deus e é perfeitamente dependente de sua atividade. O Reino de Deus não é um Estado ou condição, não uma sociedade criada e promovida por homens (a doutrina do “Evangelho social”). Ele não virá através de uma evolução terrena imanente, nem através da ação moral … .

Se examinarmos a forma como Lucas usa a expressão “Reino de Deus” (βασιλεία τοῦ θεοῦ), assim como eu escrevi anteriormente, não há evidência óbvia de qualquer agenda política ou cultural associada ao “βασιλεία τοῦ θεοῦ” em Atos. Em cada momento em que os apóstolos tiveram oportunidade de “falar a verdade aos poderosos”, para desafiar o status quo socioeconômico, político ou cultural, eles se recusaram. Segundo as muitas concepções modernas do Reino de Deus, os discípulos teriam falhado ao fazer tão pouco para “trazer o Reino” ou restaurá-lo. Em vez disso, Paulo insistiu em pregar a tolice do Messias crucificado e a tolice de sua ressurreição.

Assim, se os cristãos vão exigir que outros crentes não apenas se envolvam com o mundo ao seu redor – assunto sobre o qual não tenho nenhuma objeção – mas também o transformem, eles têm a obrigação de demonstrar a partir das Escrituras, de forma inequívoca, que esse é um dever moral dos crentes. Posso demonstrar que devemos estar em sujeição às autoridades (Rm 13.1), orar pelo rei (1Tm 2.2), e que devemos viver vidas piedosas e pacíficas (Idem.). Este parece ter sido o padrão dos primeiros cristãos pós-apostólicos, pré-Constantino, incluindo a família do nosso Senhor. Pedro escreveu aos cristãos (muitos dos quais eram escravos) na Ásia menor no início dos anos 60:

11 Amados, exorto-vos, como peregrinos e forasteiros que sois, a vos absterdes das paixões carnais, que fazem guerra contra a alma, 12 mantendo exemplar o vosso procedimento no meio dos gentios, para que, naquilo que falam contra vós outros como de malfeitores, observando-vos em vossas boas obras, glorifiquem a Deus no dia da visitação. 13 Sujeitai-vos a toda instituição humana por causa do Senhor, quer seja ao rei, como soberano, 14 quer às autoridades, como enviadas por ele, tanto para castigo dos malfeitores como para louvor dos que praticam o bem. 15 Porque assim é a vontade de Deus, que, pela prática do bem, façais emudecer a ignorância dos insensatos; 16 como livres que sois, não usando, todavia, a liberdade por pretexto da malícia, mas vivendo como servos de Deus. 17 Tratai todos com honra, amai os irmãos, temei a Deus, honrai o rei. 18 Servos, sede submissos, com todo o temor ao vosso senhor, não somente se for bom e cordato, mas também ao perverso; 19 porque isto é grato, que alguém suporte tristezas, sofrendo injustamente, por motivo de sua consciência para com Deus. 20 Pois que glória há, se, pecando e sendo esbofeteados por isso, o suportais com paciência? Se, entretanto, quando praticais o bem, sois igualmente afligidos e o suportais com paciência, isto é grato a Deus. 21 Porquanto para isto mesmo fostes chamados, pois que também Cristo sofreu em vosso lugar, deixando-vos exemplo para seguirdes os seus passos, 22 o qual não cometeu pecado, nem dolo algum se achou em sua boca; 23 pois ele, quando ultrajado, não revidava com ultraje; quando maltratado, não fazia ameaças, mas entregava-se àquele que julga retamente, 24 carregando ele mesmo em seu corpo, sobre o madeiro, os nossos pecados, para que nós, mortos para os pecados, vivamos para a justiça; por suas chagas, fostes sarados. 25 Porque estáveis desgarrados como ovelhas; agora, porém, vos convertestes ao Pastor e Bispo da vossa alma (1Pe 2.11-25).

Quando Pedro diz “gentios” ele estava se referindo metaforicamente a não-cristãos, à cultura circundante. Havia cristãos gentios na Ásia menor. Sujeição. Honra. Amor. Sofrimento. Estas são as palavras operacionais em sua instrução para os cristãos. Simplesmente não há nenhuma ideia de transformação presente neste texto. A esperança aqui é que a cultura incrédula circundante veja o contraste entre a nossa conduta e deles, entre a nossa piedade, a forma como nos relacionamos uns com os outros, e a deles, e notem isso. Para Pedro é uma vergonha se agirmos da maneira que eles agem, se tivermos contato com as autoridades por causa da nossa desobediência ou do nosso pecado. É bem diferente se tivermos contato com as autoridades por causa de nossa profissão e confissão de fé.

É interessante que Bradley apela para a ascensão das universidades cristãs. Elas, é claro, desenvolveram-se no contexto da cristandade. Elas foram um grande benefício à cultura, mas desenvolveram-se gradualmente fora das instituições existentes herdadas pelos cristãos. Se elas se desenvolveram dessa maneira (de escolas catequéticas a escolas de catedral, até chegar a universidades com faculdades múltiplas) por causa da fé é muito difícil saber. A validade do arranjo de Constantino não pode simplesmente ser assumida. É um fato histórico e, na providência do Deus, muitas coisas boas vieram dele e algumas coisas terríveis (por exemplo, as cruzadas eram na maior parte falhas, mesmo de uma perspectiva militar, e serviram principalmente como arma nas mãos dos críticos modernos da fé). A igreja apostólica e a igreja primitiva pós-apostólica não se desenvolveram dentro do contexto de Constantino, mas em um contexto [paleo-] pagão. Não éramos vencedores culturais militantes sobre os pagãos no século II. Fomos exilados (deixamos a Palestina antes da destruição no 70 a.C.) e o nosso principal apelo à cultura circundante foi, em primeiro lugar: “arrependa-se e creia no Senhor Jesus Cristo para entrar no Reino de Deus”; e, em segundo lugar: “por favor, pare de nos matar. Não somos uma ameaça existencial à ordem civil vigente.”

Não há dúvida aqui se há necessidade de instituições mediadoras ou se deveriam os cristãos envolver-se nelas e engajar-se nelas. A questão é como? Deveríamos simplesmente assumir que nosso engajamento cultural deve se dar sob a categoria de redenção (por exemplo, redimir a música, arte, literatura, política, etc)? Novamente, eu gostaria de ver um caso claro e inequívoco para isto nas Escrituras. As Escrituras falam desta forma, de resgatar empreendimentos culturais? Eu entendo que alguns seguidores do grande Abraham Kuyper possam ter falado desta forma, mas as Escrituras, sendo lida cuidadosamente e no seu contexto, ensina ou implica nisso? Não há dúvida quanto à existência de uma cosmovisão cristã. Existe. Uma cosmovisão cristã adequada, no entanto, envolve a doutrina exposta de forma sonora (como aprendemos de Cornelius Van Til, que antes de defender a fé, estabeleceu um resumo abrangente da fé ortodoxa) e uma visão reformada da liberdade cristã.

Não seria melhor pensar em nosso engajamento cultural como parte de nossa cidadania no Duplo Reino de Cristo, pensar em nosso engajamento com as instituições mediadoras como parte de nosso serviço a Deus e ao próximo, ao senhorio geral de Cristo sobre a Criação? Não estaria o nosso engajamento com tais instituições debaixo da categoria de Criação, ao invés de Redenção? Não seria uma questão de fidelidade ao nosso chamado como portadores da imagem no reino temporal, ao invés de uma questão de serviço no Reino Eterno?

NOTAS:

  1. Os Evangelhos são um gênero interessante e talvez um pouco original.
  2. Paulo incentivou Filemon a libertar Onésimo mas ele pretendia proibir todas as formas de escravidão? Isto não é evidente. Isto é uma defesa da escravidão moderna? Não. Os comerciantes de escravos europeus e americanos modernos eram culpados de roubo de homens e uma violação dos direitos humanos naturais e criacionais, para o qual não se encontra defesa nas Escrituras.

 

Texto de https://heidelblog.net/2014/07/but-is-it-biblical/

Traduzido por Weinne Willan Moreira Santos

Revisado por Ewerton B. Tokashiki

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