5 erros comuns nas pregações expositiva

Por Ewerton B. Tokashiki

 

Quando estamos no exercício do ministério pastoral corremos o risco de errar achando que sabemos o suficiente sobre pregação. A rotina tende a criar manias ruins, quando não prejudiciais. Tudo ocorre quando maus hábitos se desenvolvem por esquecermos das comuns advertências dos manuais de homilética. Tive a ideia de escrever algo, após ler um breve artigo, que pudesse auxiliar meus irmãos envolvidos na tarefa da pregação expositiva.[1] Isso não significa que estou livre dos erros que advirto aqui, mas percebendo as minhas falhas é que levanto o alarde do constante perigo a todos.

Aprendi homilética em 1994, quando fiz o curso básico de teologia. O conselho da igreja atendendo ao meu pedido de treinamento para o ministério, enviou-me para estudar num instituto bíblico. Ali aprendi o método de pregação temática. Confesso que ele é fácil e cômodo, mas exige mais imaginação do que fidelidade exegética. Este é o seu maior perigo. Não estou com isso afirmando que quem prega usando o método temático não seja fiel, ou que não se esmera na apresentação da verdade bíblica. Entretanto, sabemos que este método propicia, pela sua facilidade, mais arranjos frasais, do que extração da ideia exegética do texto.

Durante os meus estudos no Seminário Presbiteriano JMC conheci o método expositivo. Entretanto, a prática dominical somente veio cerca de dois anos após ingressar efetivamente no pastorado. E desde que decidi pregar expositivamente dedico-me a ler sobre o assunto, ou atentamente a aprender com pregadores mais experientes sobre a prática da exposição. Sempre que possível, dentro dos meus limites, exerço uma autocrítica, e confesso que essa avaliação não é das melhores. Mas, graças à Deus, minha esposa e filhos ajudam-me a melhorar como pregador, examinando-me em todos os aspectos. A minha companheira tece proveitosas críticas para as minhas pregações, e essas observações têm-me auxiliado no melhoramento do preparo e entrega dos sermões.

Há excelentes pregadores, metodologicamente falando, mas mesmo os melhores estão sujeitos a falhas. É proveitoso observar como pregam, desde a sua compostura diante dos seus ouvintes, passando pela argumentação e análise do texto, o modo quando extraem os princípios e aplicam demonstrando a sua praticidade, e indo até a conclusão, sem fugir do texto bíblico. A exposição tem a aplicação distribuída em todo o sermão, em diferentes momentos, com proporção, conveniência e preocupação pastoral.

Apesar de tanto tempo pregando, ainda me considero um expositor em aprendizado. Por vezes, desço do púlpito numa sensação de fracasso e incompetência, e sou convencido de que expor as Escrituras é uma tarefa grandiosa demais para mim. Aqui estão da percepção que tive das minhas falhas, das críticas da minha esposa e de alguns irmãos que pastoreei, e da observação de pregadores que ouvi nos últimos vinte anos, compartilho alguns erros comuns que precisam, tanto quanto possível, serem evitados para que não afetem negativamente a beleza, a riqueza e a fidelidade da exposição bíblica.

 

Erro 1: ignore a estrutura homilética.

Há pregadores que pensam que o sermão expositivo é apenas seguir a análise verso a verso do texto bíblico. E, talvez, por isso, eles abandonam a estrutura homilética, como se fosse algo dispensável, ou um empecilho ao seu sermão. Mas, quem disse que pregação expositiva não necessita de estrutura homilética? Quem sugeriu que a exposição sequenciada do texto não exige o esforço do pregador de colocar esboçado didaticamente o seu sermão? Você não pode ignorar que o autor usou a lógica, proposições, e um raciocínio inspirado em sua argumentação. Recorra a esta estrutura inspirada e faça o seu esboço homilético.

Segue abaixo uma sugestiva estrutura simples de expor o texto bíblico:

  1. Expondo

I.1. O contexto histórico

I.2. O problema/necessidade que afetava os leitores

I.3. A preocupação do autor

  1. Extraindo

II.1. As expressões chaves: como algumas frases clareiam a ênfase do autor.

II.2. A análise etimológica das palavras [sem citar detalhes técnicos gramaticais]

III. Argumentando

III.1. Afirmando resumidamente a ideia do autor

III.2. Mantendo a sequência lógica do argumento do autor [o que ele segue declarando antes e depois]

III.3. Indique como Cristo está presente no texto

III.4. Traduzindo as ideias por meio de ilustrações

  1. Aplicando

É óbvio que este não é o único modelo de se estruturar um sermão. Inclusive Joseph Pipa Jr explica que os puritanos [especialmente os não-anglicanos], geralmente, seguindo a “forma antiga” expunham de modo mais direto e simples o texto bíblico.[2]

 

Erro 2: falhe em vincular o texto ao evangelho

Infelizmente é possível expor o texto bíblico e esvaziá-lo do evangelho. Não é preciso ser inteligente pra cometer esse pecado. Pelo contrário, qualquer pregador corre esse risco em todo sermão. Confesso que já cometi esse pecado, e tenho vergonha disso …

Há pregadores que confundem moralismo com pregação. Este é um perigo comum a todos. Denunciar o erro, apresentar as suas consequências, e como é odioso, é algo que faz parte do evangelho, todavia, é possível fazê-lo por mero moralismo e convenção social. Se a pregação não explica como o pecado ofende a Deus, não esclarece no que desobedece ao decálogo, não exige desprezo pelo pecado, omitindo um autoexame sincero diante da santidade de Deus, não ordena o arrependimento e contrição, nem encaminha para uma confissão e abandono do pecado, confiando no suficiente perdão de Cristo, é possível que este sermão apenas fabrique remorso diante das consequências do prejuízo do pecado.

A abordagem hermenêutica exemplarista tende ao moralismo. Obviamente a ocorrência deste desacerto é mais comum em sermões que se baseiam textos narrativos. Além do erro de isolar o personagem e o evento da estrutura da história da redenção, o pregador focaliza [quase] arbitrariamente nos detalhes morais da narrativa, apontando os casos de “faça” e “não faça” a partir dos pecados ou dos acertos dos personagens.

Também há quem apresente autoajuda como se fosse evangelho. Engana-se quem pensa que esta falha só ocorre entre pregadores de confissão positiva. Horrível ainda é quando o pregador sugere aos seus ouvintes: “diga ao irmão que está ao lado …”. Sinceramente a última vez que isso ocorreu, minha esposa me agarrou pelo braço para que suportasse todo o “sermão”, e não saísse antes do término do culto. Naquele dia percebi que minha tolerância tem limite muito definido.

Mas o que também é estranho nalguns sermões é a incapacidade do expositor de apresentar o vínculo do texto com a mensagem do evangelho. Talvez esta falha revele a sua incompreensão da teologia bíblica, isto é, o pregador precisa ter em sua mente “todo o desígnio de Deus”. Ele precisa ter com clareza a história da redenção, a teologia do pacto, o tema unificador e suas correlações com os momentos históricos e como estes eventos apontam para o Redentor. Toda a Escritura possuí a mensagem do evangelho! Falhar em apresentar como Deus graciosamente redime o seu povo por meio do Redentor, estabelecendo uma aliança, e dominando sobre o seu reino, é muito mais do que empobrecer o sermão, é falhar em apresentar o evangelho.

Remediando este problema, recomendo a leitura:

  1. Sidney Greidanus, O pregador contemporâneo e o texto antigo (São Paulo, Editora Cultura Cristã).
  2. Sidney Greidanus, Pregando Cristo a partir do Antigo Testamento (São Paulo, Editora Cultura Cristã).
  3. Bryan Chapell, Pregação Cristocêntrica (São Paulo, Editora Cultura Cristã).

 

Erro 3: faça excessivos comentários técnicos da exegese.

Era comum ouvir os professores advertindo aos alunos, durante os meus dias de seminarista, no momento da crítica do sermão de prova: “não leve as panelas para o púlpito!” A ideia era repreender o aluno de apresentar os detalhes técnicos gramaticais, minúcias exegéticas que mais delongavam o sermão e, consequentemente, tornavam a pregação cansativa, ocasionando a dispersão da atenção dos ouvintes.

Mesmo de pastores experientes é comum ouvir citações sem finalidade esclarecedora das expressões das línguas originais. Acho que não é um erro homilético citá-las, mas tenha a absoluta certeza de que é necessário fazê-lo. O sermão não é uma aula de gramática onde se explica a etimologia, a morfologia e a sintaxe do texto. Não cometa o pecado de entediar os seus ouvintes com detalhes técnicos desnecessários, e pior, sem o objetivo de revigorar o seu argumento.

Espero que a motivação deste ato falho não seja o orgulho, porque ele estraga qualquer coisa. Por isso, cair na tentação do pecado do pedantismo é perder a aprovação de Deus. Você provavelmente ganhará a atenção, e até a admiração de algumas pessoas, mas essa será a sua única recompensa. Se o seu sermão é uma peça de retórica, e exibição de seu talento, a glória de Cristo será substituída por ídolos produzidos em seu coração.

 

Erro 5: pregue descomprometido com os seus ouvintes.

Há pregadores que dão a impressão de que são como aqueles icebergs. A sua exposição é marcada por uma perceptiva indiferença, parece que estão falando aos bancos e às paredes, porque evitam até mesmo olhar aos seus ouvintes. É como alguém que joga uma pedra ao acaso, e se acertar alguém, essa não era a intenção. Isso é horrível!

O pregador deve preparar o seu sermão preocupado com as necessidades, urgências e inquietações de seus ouvintes. Um sermão que não tem a intenção de falar diretamente aos seus ouvintes perdeu a sua essência. Se a única reação que ele produz é que os ouvintes pensem em quem deveria estar ali para ouvi-lo, porque a mensagem não os tocou, mas seria um ótimo recado aos que faltaram, então, está comprovado que o pregador fracassou em sua tarefa.

O pregador assassina o seu sermão quando ele não sai de seu compromisso de alimentar o rebanho. O sermão que fielmente apresenta o ensino da Escritura provocará reação em seus ouvintes. Mas a pregação não pode entediar, levando as pessoas a sentirem-se insensíveis com a indiferença latente do pregador. Creio que é por isso que o Catecismo Maior de Westminster questiona

Pergunta 159. Como a Palavra de Deus deve ser pregada por aqueles que para isto são chamados?

R: Aqueles que são chamados a trabalhar no ministério da palavra devem pregar a sã doutrina, diligentemente, em tempo e fora de tempo, claramente, não em palavras persuasivas de humana sabedoria, mas em demonstração do Espírito de Deus; sabiamente, adaptando-se às necessidades e às capacidades dos ouvintes; zelosamente, com amor fervoroso para com Deus e para com as almas de seu povo; sinceramente, tendo por alvo a glória de Deus e procurando converter, edificar e salvar as almas.

O modo mais eficaz de alcançar os ouvidos de seu auditório é falando-lhes ao coração. O pregador deve ter a mais sincera intenção de comunicar aos que o ouvem.

 

Erro 6: não faça aplicação prática.

A aplicação na estrutura homilética é a verdade sendo conectada com as experiências dos ouvintes. É inútil apenas dizer a uma pessoa que está se afogando que ela deve nadar! Há a necessidade de ensiná-la antes, ou de socorrê-la durante o afogamento.

Mas se você deseja não errar, sugiro algumas opções de como aplicar o seu sermão:

  1. Comece com a aplicação do autor aos primeiros leitores
  2. Instrua a doutrina presente no texto
  3. Identifique os mandamentos do Decálogo transgredidos
  4. Direcione o arrependimento do pecado denunciado
  5. Apresente a promessa de conforto no evangelho da graça
  6. Conselhos pastorais do cotidiano dos ouvintes
  7. Console sempre confiando nos méritos de Cristo
  8. Denuncie os erros imorais do presente século
  9. Refute os desvios doutrinários
  10. Exija as obrigações exigidas no texto bíblico
  11. Evidenciando provas/frutos [atos positivos] de obediência
  12. Promova a beleza da glória de Deus.

A doxologia não é apenas aquele último ato do culto solene. Todo o sermão é manifestação do poder de Deus, narrando a história dos poderosos feitos de Deus, onde a soberana graça se manifesta na providência e redenção, por meio de Cristo e sob sua autoridade, de modo que iluminados pelo Espírito, a mensagem mova os ouvintes a adorar a Deus. A pregação tem o objetivo de conduzir o crente a cumprir o objetivo de sua existência: glorificar a Deus e gozá-Lo para sempre.

Lembre-se que a aplicação não precisa ser apenas uma parte final do seu sermão. Você pode fazê-lo no desenvolvimento de toda a pregação. Na verdade, você pode apresentar a prática e aplicabilidade de cada verdade abordada no texto.

NOTAS:

[1] Recorro a algumas úteis instruções e advertências de Warren Wiersbe & David Wiersbe, The elements of preaching (Wheaton, Tyndale House, 1988).

[2] Joseph Pipa Jr., “A pregação puritana” in: Peter Lillback, org., O Calvinismo na Prática – uma introdução à herança reformada e presbiteriana (São Paulo, Editora Cultura Cristã, 2011), pp. 102-104.

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