Evangélicos incompreendidos e a morte de John Allen Chau

 

Por Thomas Kidd

 

 

As convicções centrais dos evangélicos, incluindo a necessidade de salvação através de Cristo e o mandato de compartilhar a fé, estão se tornando cada vez mais incompreensíveis para uma cultura americana pós-cristã. Não há melhor ilustração dessa incompreensibilidade na reação da mídia à trágica morte de John Allen Chau, enquanto ele tentava alcançar a sociedade isolada de caçadores da Ilha Sentinela do Norte, na distante da costa da Índia.

As leis indianas proíbem o contato com o povo da Ilha Sentinela do Norte, em parte devido à suposição de que são excepcionalmente vulneráveis a doenças epidêmicas. Reportagens da mídia sugerem que Chau (um graduado da Universidade Oral Roberts) não disse a verdade sobre suas razões para entrar na Índia.

Certamente não defenderia a quebra duma lei a fim de promover os objetivos evangelísticos. É claro que os missionários “fazedores de tendas” têm uma longa história como uma forma de contornar as proibições ao evangelismo aberto. (Eles são trabalhadores ou turistas de longo prazo e compartilham o evangelho em ambientes privados). Embora tenhamos forte apoio das Escrituras para a ideia de que quando as autoridades temporais instruem os crentes a não compartilhar a sua fé, o crente deve obedecer a Deus e não ao homem (At 5.29).

Uma das reações mais incompreensíveis à morte de Chau veio, surpreendentemente, no Wall Street Journal. Eu escrevi um artigo para eles sobre a morte do missionário Michael Riddering em Burkina Faso em 2016, de modo que o Jornal se sabe que é capaz de fazerem uma reportagem compreensiva a tais tragédias. Mas a coluna do jornalista Tunku Varadarajan demonstra desprezo por Chau e, aparentemente, não entende da mentalidade ou das motivações de Chau.

Dado o simbolismo e a óbvia tragédia de sua morte, haverá aqueles que atribuem nobreza a Chau e coragem … . Mas vá com calma no relato de Chau e no seu fim confuso e martirizado. Ele quebrou a lei indiana ao entrar no país com um visto de turista enquanto intencionava realizar uma missão evangelística. O visto de Chau seria recusado caso mencionasse as palavras “Ilha Sentinela do Norte”… .

O que tivemos no final foi o teatro fútil e fatal de um homem. Mas há uma consequência moral: o missionário encontrou o martírio, os sentineleses tiraram uma vida. Dessa tragédia virá uma nova e vigorosa consciência de quem eles são e do que eles não precisam. E isso inclui Bíblias à prova d’água.

Um atento observador perceberia que, por mais mal elaborado que fosse o plano de Chau, fazia sentido para ele determinadas suposições evangélicas sobre a salvação e a eternidade. “Deixe a Ilha Sentinela do Norte sozinha” faz todo o sentido se o que você crê sobre Deus não tem nada a ver com o seu destino eterno. Se não há vida após a morte (ou se não podemos saber nada sobre a vida após a morte), então o que Chau estava fazendo era o auge da insensatez.

Eu não sei muito sobre os detalhes da fé de Chau, e parecia que ele não estava trabalhando com uma organização missionária. Mas as suas anotações no diário sugerem que ele cria que a reconciliação com Deus através de Cristo é a coisa mais importante na vida. É uma questão de vida ou morte para todos e, portanto, algo pelo qual você daria a sua vida. Isso é lógico, se você aceitar que os evangélicos acreditam que isso é a verdade.

A resposta do Jornal à morte de Chau está em contraste com a cobertura da mídia de Jim Elliot e dos mártires do Equador em 1956. Em particular, a revista Life realizou uma reportagem muito simpática à morte de Elliot e de seus companheiros missionários num ataque de flechas pelos índios Waorani.

A diferença da reportagem certamente tem a ver com o fato de que Chau parece, à primeira vista, mais um ator trapaceiro do que Elliot. Mas o contraste também é uma medida de quanto a cultura americana mudou nas seis décadas seguintes. Uma revista nacional como a Life, em 1956, pelo menos ressoaria com a tentativa de trazer a civilização ocidental para pessoas que eles chamavam de “selvagens da Idade da Pedra”. Mas a Life também representava fielmente a agenda evangélica de Elliot, explicando que ele e seus colegas estavam sob comissão divina ao pregar o evangelho a todas as nações.

Seis décadas depois, vivemos no mundo onde as elites acadêmicas e da mídia são alérgicas à noção de que uma cultura é superior à outra. Muitos evangélicos – especialmente os missionários – aplaudiriam esse afastamento de um senso de superioridade cultural ocidental também. Mas perdura a convicção evangélica sobre a verdade transcendente do evangelho para todas as pessoas. Essa convicção leva muitos a fazerem coisas aparentemente imprudentes para compartilhar o evangelho, mesmo com aqueles que não querem ouvi-lo. Podemos esperar que alguns no mundo da observação denunciem tais evangelistas como tolos e intrometidos.

Esse tipo de desprezo nos proporciona o tipo de status cultural que as Escrituras prometem que teríamos. “Porque a palavra da cruz é loucura para os que perecem, mas para nós, que somos salvos, é o poder de Deus” (1Co 1.18).

 

Acessado em https://www.thegospelcoalition.org/blogs/evangelical-history/incomprehensible-evangelicals-death-john-allen-chau/

Traduzido por Ewerton B. Tokashiki

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