Confessionário?

Por Solano Portela

 

Em uma lista de correspondência eletrônica alguém indicou que nada lhe causava mais medo e pavor, nos cultos, do que a expectativa de que ouviria o pastor comandar os participantes a se virarem para direita ou para esquerda e emitirem alguma declaração ao vizinho ou vizinha. Isso tem ocorrido com frequência, inclusive no seio da Igreja Presbiteriana. Essa pessoa perguntou a um dos participantes da lista, professor de seminário, se isso era algo ensinado nas aulas de homilética. Ou seja, que tipo de comunicação era essa e qual o propósito dela?

Uma outra pessoa respondeu, unindo a sua perplexidade ao desabafo da primeira missivista, que, muitas vezes, você estava no meio de duas pessoas e ambas se voltam em sua direção para proferirem suas frases enquanto que você, no meio, fica atordoado sem saber para quem se virar. Jocosamente, ela escreveu: “talvez devêssemos ensaiar um pouco antes de cada culto”.

Permita-me juntar-me ao grupo dos dissidentes que abominam as frases de efeito regurgitadas dos púlpitos em anos recentes. Nenhuma escola de teologia séria deve estar ensinando isso, mas trata-se de mais um modismo cruel. É mais uma adição às muitas que já experimentamos e que vão desviando o culto de sua finalidade primordial. Não aguento mais ouvir: “repita comigo”, ou “vire-se para seu vizinho e diga…”

Esse modismo e esses comandos emanados do púlpito, penso, são um reflexo da ideia de que “frases declaratórias” carregam, em si, algum poder mais espiritual do que a comunicação normal. Já que se prega, hoje em dia, que devemos “declarar” esta ou aquela cidade liberta; que a doença não tem mais poder sobre nós; que preso está o inimigo (para gerar eficácia de libertação); e mais isso e aquilo sobre Deus e os homens; os pregadores se acostumam a ouvir tais coisas, principalmente na mídia eletrônica e passam a macaquear dos púlpitos esse tipo de comunicação.

Para mim isso é pura manipulação de massas que não encontra exemplo nem respaldo nas Escrituras. Em vez de declarações e apelos desmedidos nos exemplos de pregações encontrados na Palavra, vemos que ela era TÃO poderosa que o clamor vinha dos ouvintes, como no caso de Pedro que chegando ao término de sua pregação ouviu: “Varões, irmãos, o que devemos fazer?”

Tenho extremo desconforto quando sou manipulado para dizer isso ou aquilo. Na maioria das vezes não digo. Fico pesando o testemunho, mas permaneço inerte. Provavelmente pensam que sou herege, especialmente quando ocorrem certos apelos, que começam conclamando a conversão de descrentes e, perante a tênue resposta, estendem o apelo a toda a igreja para vir à frente – “quem quer consertar a vida; dedicar-se mais; orar por missões; ser orado e abençoado, etc., etc”? – e eu lá no banco, carregando a pecha de ímpio insensível…

A mesma sensação tenho ao ouvir certas orações empacotadas, que o pregador manda você repetir com ele. Nada mais anticristão e antibíblico. O Eunuco lia a palavra, não entendia. Felipe foi enviado pelo Espírito Santo e o texto registra que, depois da abordagem inicial, ele “começando naquela Escritura, anunciou-lhe o Cristo”. O que temos aqui? Comunicação lúcida, racional, com a dimensão e profundidade espiritual, que nos completa como seres humanos. Tantos outros trechos existem nos quais poderíamos mostrar que não é pela conformação com este mundo, mas pela renovação de nossa mente que entregamo-nos, na realidade em sacrifício vivo e agradável ao Senhor.

Enquanto, isso, como inocentes e sinceros participantes de um culto a Deus, somos tratados por alguns ocupadores de púlpitos como deficientes mentais espirituais; como macacas de auditório cristão; como meros participantes de uma apresentação de música contemporânea. Por vezes somos intimados a compartilhar o mais íntimo de nosso ser com um estranho ao nosso lado, em uma oração forçada e demandada a partir do púlpito, como se estivéssemos inaugurando uma nova forma de confessionário, retornando à escravidão da Igreja Católico Romana.

Protesto!

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