Tentando pensar e viver como um Reformado: Reflexões de um estrangeiro residente – Parte 19

B. A Reforma: Suas origens

Um dos pontos cruciais da Reforma, herdado dos pré-reformadores, foi a supremacia de Cristo sobre a Igreja. A Igreja não pertence a homens. Ela deve ser governada por Cristo que o faz por meio de sua Palavra.

A igreja como Corpo de Cristo deve ser seu agente na história, evidenciando a supremacia dele em sua fé, ensinamentos e atitudes. O pré-reformador João Huss (c. 1369-1415)[1] morreu por esta verdade, sendo queimado vivo em 1415. Outros irmãos morreram por sustentarem essa verdade, permanecendo firmes, amparados na autoridade das Escrituras.[2]

A igreja não tem outra cabeça além de Cristo. Portanto, o papado representa um ultraje ao governo de Cristo sobre a Igreja. Esse é, de fato, o espírito de um anticristo. Cristo comprou a igreja com o seu próprio sangue (At 20,28; 1Co 6.20; 1Pe 1.18-21). Ele, somente Ele é o Senhor que edificar, preserva e governa a sua igreja (Mt 16.18).[3]

A igreja como Corpo de Cristo tem sido fortalecida na força de seu poder e, é por isso que ela ultrapassa em muito a nossa capacidade de compreensão e explicação. Ela é o povo de Deus, os ramos da videira, o edifício fundamentado em Cristo, as ovelhas, sob a direção e cuidado do Sumo Pastor.[4] Somos o povo de Deus, propriedade exclusiva dele (1Pe 2.9-10). Ninguém poderá nos destruir. O Senhor reina sobre todas as coisas e a Igreja é o seu corpo presente na história que está sendo formado e aperfeiçoado até a consumação vitoriosa de sua obra.

Essas convicções conflituam com a igreja como era percebida pelos pré-reformadores e reformadores.

O que viam na igreja romana era, entre outras coisas:

  • O papado era uma potência religiosa e política e, grande parte da vida econômica girava em torno das igrejas paroquiais, ocasionando uma insatisfação por parte das autoridades civis, devido à ingerência do papa em seus negócios.
  • Havia uma corrupção política, econômica e moral generalizada na “igreja” e no clero, contribuindo para um sentimento anticlerical, não necessariamente contra a fé cristã.[5]
  • Uma profunda carência espiritual que se manifestava, também, na procura de leituras de obras que enfatizavam uma piedade pessoal:[6] A igreja tornara-se extremamente meticulosa no confessionário e, ao mesmo tempo, induzia os fiéis a realizarem boas obras que, como não poderiam deixar de ser, eram sempre insuficientes para eliminar o sentimento de culpa latente.[7]

Tillich (1886-1965), resume:

Sob tais condições jamais alguém poderia saber se seria salvo, pois jamais se pode fazer o suficiente; ninguém podia receber doses suficientes do tipo mágico da graça, nem realizar número suficiente de méritos e de obras de ascese. Como resultado desse estado de coisas havia muita ansiedade no final da Idade Média.[8]

  • As tentativas reformistas[9] eram cruelmente eliminadas pela Inquisição e, algumas vezes, onde não se podiam achar culpados, queimavam-se os inocentes.[10]
  • O culto há muito que se tornara apenas num ritual meramente externo, repleto de superstições, consistindo em grande parte na leitura da vida dos santos.[11]

Pereira, resume:

Os deuses, deusas e semideuses do Paganismo, as suas imagens e estátuas sagradas, transformaram os heróis do Cristianismo e as suas supostas efígies, em objetos de culto idólatra, em padroeiros, protetores e medianeiros. O politeísmo e a idolatria inundaram a Igreja.[12]

O nome protestantismo aplicado à Reforma surgiria alguns anos depois, tendo sua origem na Segunda Dieta de Spira (19 de abril de 1529), quando, cristãos imbuídos do mesmo espírito de Lutero, protestaram quanto à decisão unilateral de Carlos V, de eliminar as decisões moderadas da Primeira Dieta de Spira (1526) – que respeitava as questões de consciência: “em questão de consciência a maioria não tem poder” −, restabelecendo o Édito de Worms (1521) – Quando Lutero foi excomungado −, impondo o catolicismo sobre o luteranismo no Sacro Império Romano-Germânico.

Os discordantes dessa decisão, se posicionaram. Narra McGrath:

Seis príncipes alemães e quatorze  representantes de cidades imperiais, indignados, mas em última instância, sem nenhum poder para mudar coisa alguma, deram entrada em um protesto formal, contra essa diminuição inesperada e radical da liberdade religiosa. O termo latino protestantes  foi imediatamente aplicado a eles e ao movimento que representavam.[13]

Mas, ainda que não conseguiram ser ouvidos no plenário, declaram o seu protesto, reafirmando o seu apego à Bíblia e à necessidade de pregá-la contínua e exclusivamente.

Nós protestamos, por meio das presentes, diante de Deus, nosso único Criador, Conservador, Redentor e Salvador, e que será, um dia, nosso juiz, assim como diante de todos os homens e de todas as criaturas, que não consentimos nem aderimos, de nenhuma maneira, nem quanto a nós nem quanto aos nossos, ao decreto proposto em todas as coisas que são contrárias a Deus, à sua santa Palavra, à nossa boa consciência, à salvação de nossas almas e ao último decreto de Spira.[14]

Desse modo, mais do que um simples protesto, a palavra foi usada no sentido de testemunho positivo a respeito da supremacia da Escritura.[15] A ideia de protestar é praticamente a mesma de confessar. “O ‘protesto’ era, ao mesmo tempo, uma objeção, um apelo e uma afirmação”, comenta Wright.[16]

 

 

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

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[1]Huss, pregador da Capela de Belém e professor e Reitor da Universidade de Praga, fora excomungado em 1412 por ter aderido às ideias de Wycliff, tendo pregado contra as indulgências, desafiado a autoridade do papa e enfatizado a autoridade das Escrituras. Em 1415 compareceu no Concílio de Constança (1414-1418), na Alemanha, sendo supostamente protegido por um salvo-conduto do Imperador, que terminou por ser suspenso pelo papa, sob a alegação de “não era necessário manter a palavra dada a um herege” e de que “ele jamais concedera qualquer salvo-conduto, e que não estava obrigado a seguir aquele que fora emitido pelo imperador alemão”. Foi queimado vivo. Fox narra as suas palavras ditas ao carrasco: “Vais assar um ganso (pois o nome Huss significa ganso na língua Boêmia), porém dentro de um século surgirá um cisne que não poderão nem assar e nem ferver”. Fox interpreta: “Se Huss neste momento disse uma profecia, deve ter se referido a Martinho Lutero, que apareceu ao final de aproximadamente cem anos, e em cujo escudo de armas tinha a figura de um cisne” (John Fox, O Livro dos Mártires, 4. ed. Rio de Janeiro: CPAD., 2002, p. 166). Antes de morrer, recitou diversos salmos, principalmente o 51 e 53 (Cf. John Ker, Psalms in History and Biography, Edinburgh: Andrew Elliot, 1886, p. 54-55.  https://archive.org/details/psalmsinhistoryb00kerj/).(Consulta feita em 12.09.2023). (Vejam-se: Mark A. Noll, Momentos Decisivos na História do Cristianismo, São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2000, p. 192; André Biéler, O Pensamento Econômico e Social de Calvino, São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1990, p. 39; Robert G. Clouse, Richard V. Pierard e Edwin M. Yamauchi, Dois Reinos – A Igreja e a Cultura interagindo ao longo dos séculos, São Paulo: Cultura Cristã, 2003, p. 216; John Fox, O Livro dos Mártires, p. 162-166; John MacArthur, Por que ainda prego a Bíblia após quarenta anos de ministério: In: Mark Dever, ed., A Pregação da Cruz, São Paulo: Cultura Cristã, 2010, p. 142-143; John MacArthur, Escravo: A verdade escondida sobre nossa identidade em Cristo, São José dos Campos, SP.: Fiel, 2012, p. 65-75.

[2]Veja-se o excelente e ilustrativo capítulo sobre tais perseguições e o arrefecimento de muitas igrejas em relação à autoridade suficiente das Escrituras, in: Iain Murray, Como a Escócia perdeu sua firmeza na Palavra: In: John F. MacArthur, org.,  A Palavra Inerrante, São Paulo: Cultura Cristã, 2018, p. 149-171.

[3] Veja o excelente capítulo escrito por MacArthur. John F. MacArthur, Boas Novas: o Evangelho de Jesus Cristo, São José dos Campos, SP.: Fiel, 2019, p. 133-155.

[4] “Ele não pode ser nossa Cabeça a não ser que também seja simultaneamente nosso Pastor, tendo sobre nós toda autoridade” (João Calvino, Sermões em Efésios, Brasília, DF.: Monergismo, 2009, p. 183).

[5]Veja-se: Jacques de Senarclens, Herdeiros da Reforma, São Paulo: ASTE, 1970, p. 103.

[5]Alister E. McGrath, Origens Intelectuais da Reforma, São Paulo: Cultura Cristã, 2007, p. 23-24. Os reformadores “consideravam o papado como colossal falsificação da crença de que professava ser o expoente autorizado” (John T. McNeill, A Reforma Era Necessária?: In: William K. Anderson, dir. Espírito e Mensagem do Protestantismo, São Paulo: Junta Geral de Educação Cristã da Igreja Metodista do Brasil, 1953, p. 13).

[6] Veja-se: Alister E. McGrath, Origens Intelectuais da Reforma, São Paulo: Cultura Cristã, 2007, p. 24-25.

[7]Ainda que Erasmo (1466-1536) pudesse declarar de forma ambígua: “Por certo são numerosos e fortes os argumentos contra a instituição da confissão pelo próprio Senhor. Mas como negar a segurança em que se encontra aquele que se confessou a um padre qualificado?” (Erasmo, Opera Omnia, Leyde, 1704, v, col. 145-6. Apud Jean Delumeau, A Confissão e o Perdão: As Dificuldades da Confissão nos Séculos XIII a XVIII, São Paulo: Companhia das Letras, 1991, p. 37). Este sentimento não parece ser generalizado: “Depois de tal confissão ser feita, ainda era preciso realizar obras de reparação, antes que a absolvição pudesse ser solicitada. Daí o ativismo febril da religião no fim da Idade Média: a construção de novas igrejas, o comércio de indulgências, o esforço incessante para obter méritos” (Timothy George, Teologia dos reformadores, p. 30).

A experiência de Lutero durante o seu noviciado e depois como monge Agostiniano, se constitui num bom exemplo de que a confissão auricular, os jejuns e as penitências – os quais ele praticava com frequente rigor – , não lhes proporcionava a paz esperada, daí ele se exceder cada vez mais aos da sua ordem – que a partir da reforma de 1503 feita por João von Staupitz (c. 1469-1524), era ainda mais severa –, em penitências, buscando encontrar a paz com Deus e a certeza da salvação de sua alma. (Vejam-se: Vicente Themudo Lessa, Lutero, 3. ed. São Paulo, Casa Editora Presbiteriana, 1956, p. 30ss.; Albert Greiner, Lutero: Ensaio Biográfico, 2. ed. São Leopoldo, RS.: Sinodal, 1983, p. 25ss.). O mesmo pode ser dito pelo ex-padre, José Manoel da Conceição. (Veja-se: José Manoel da Conceição, Sentença de Excomunhão e Sua Resposta, Rio de Janeiro: Typographia Perseverança, 1867, p. 8).

[8]Paul Tillich, História do Pensamento Cristão, São Paulo: ASTE., 1988, p. 210.

[9]Paul Tillich, História do Pensamento Cristão, São Paulo: ASTE., 1988, p. 210.

[10]Paul Tillich, História do Pensamento Cristão, São Paulo: ASTE., 1988, p. 210.

[11]Sintomas de mudança, contudo são identificáveis já no final do século XV, conforme aponta McGrath (Veja-se: Alister E. McGrath, Origens Intelectuais da Reforma, São Paulo: Cultura Cristã, 2007, p. 22-23).

[12] E. Carlos Pereira, O Problema Religioso na América Latina, São Paulo: Empresa Editora Brasileira, (1920), p. 16.

[13]Alister McGrath, A Revolução Protestante, Brasília, DF.: Palavra, 2012, p. 15.

[14] Apud Jean Boisset, História do Protestantismo, São Paulo: Difusão Europeia do Livro, 1971, p. 15.

[15] Vejam-se: Philip Schaff; D.S. Schaff, History of the Christian Church, Peabody, Massachusetts: Hendrickson Publishers, 1996, v. 7, p. 690ss.; Roland H. Bainton, The Reformation of the Sixteenth Century, Boston, Massachusetts: Beacon Press, 1985 (Enlarged Editon), p. 149.

[16] D.F. Wright, Protestantismo: in: Walter A. Elwell, ed. Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã, v. 3, p. 194. Para mais detalhes, incluindo o sentido vago e conotativamente amplo que a expressão tomou, veja-se: Alister McGrath, A Revolução Protestante, Brasília, DF.: Palavra, 2012, p. 13-15.

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