Tentando pensar e viver como um Reformado: Reflexões de um estrangeiro residente – Parte 33

B) A Perspectiva de Calvino (Continuação)

3) O Comportamento Cristão na Riqueza e na Pobreza

 

O trabalho [é] algo bom por causa do que ele é, e não por causa do que nos proporciona. Assim como Deus se deleita em sua obra, os portadores de sua imagem devem se deleitar em suas vocações. (…) Nossas vocações devem ser vistas no contexto da glória de Deus, a qual é o seu soberano propósito para o mundo. (…) O bom trabalho contribuirá para a glória de Deus e o bem estar de nosso próximo. Então, o trabalho será parte de nossa adoração. – Ray Pennings.[1]

Calvino, interpretando Hebreus 13.16, entende que os benefícios que prestamos aos homens se constituem parcialmente em culto a Deus, sendo isso uma grande honra que Deus nos concede. Não amar ao nosso próximo constitui-se numa ofensa a Deus e às pessoas. Por outro lado, o nosso auxílio recíproco revela a unidade do Espírito em nós.

Embora Deus não possa receber de nós nenhum benefício, no entanto considera nosso ato de invocar seu Nome como Sacrifício; aliás, como o principal dos sacrifícios, que supre a falta de todos os demais. Além disso, sejam quais forem os benefícios que façamos pelos homens, Deus os considera como feitos a Ele próprio, e lhes imprime o título de sacrifício, para que fique evidente que os elementos da lei são agora não apenas supérfluos, mas até mesmo nocivos, uma vez que nos desviam da genuína forma de sacrificar.

Em suma, o significado consiste em que, se porventura queremos oferecer sacrifício a Deus, então devemos invocar seu Nome, fazer conhecida sua munificência por meio de ações de graça e fazer o bem aos nossos irmãos. Esses são os verdadeiros sacrifícios com os quais os verdadeiros cristãos devem comprometer-se; e não sobra nem tempo nem lugar para qualquer outro.[2]

Não é uma honra trivial o fato de Deus considerar o bem que fazemos aos homens como sacrifício oferecido a Ele próprio, e o fato de valorizar tanto nossas obras, que as denomina de santas. Portanto, onde nosso amor não se manifesta, não só despojamos as pessoas de seus direitos, mas também a Deus mesmo, o qual solenemente dedicou a Si o que ordenou fosse feito em favor dos homens.[3]

“Repartir com os outros” tem uma referência mais ampla do que fazer o bem. Inclui todos os deveres pelos quais os homens se auxiliam reciprocamente; e é um genuíno distintivo do amor que os que se encontram unidos pelo Espírito de Deus comunicam entre si.[4]

Seguem alguns princípios apresentados e vivenciados por Calvino, concernentes ao uso dos bens concedidos por Deus. Pode-se perceber em suas orientações a fundamentação teológica de sua prática.

Sobre a vida exemplar de Calvino, escreve Biéler:

A pregação do reformador é o prolongamento de sua ação. A modéstia em que vive com seus colegas é proverbial e toca as raias da pobreza.[5] Suas providências em favor dos deserdados são constantes. Importuna persistentemente os conselheiros da cidade para que tomem medidas de atendimento aos pobres. Depois da chacina dos protestantes em Provence, em 1545, organiza pessoalmente uma coleta geral, subindo as escadarias dos edifícios repletos de refugiados[6] para recolher a esmola de todos.[7]

Vejamos, agora, alguns dos princípios estabelecidos nas Institutas.

 

A. Em tudo devemos contemplar o Criador e dar-Lhe Graças

Assim também não deixemos passar nenhum tipo de prosperidade que nos beneficie, ou que beneficie a outros, sem declarar a Deus, com louvor e ação de graças, que reconhecemos que tal bênção provém do Seu poder e da Sua bondade. − João Calvino.[8]

Ao executarem o que Deus lhes determinou, os homens devem começar sempre com oração, invocando o nome de Deus e oferecendo-Lhe seus labores, para que Ele os abençoe. − João Calvino.[9]

A ingratidão para com Deus é resultado, em parte, de nossa não consideração de seus feitos:[10]

A desconsideração quase universal leva os homens a negligenciarem os louvores a Deus. Por que é que tão cegamente olvidam as operações de sua mão, senão justamente porque nunca dirigem seriamente sua atenção para elas? Precisamos ser despertados para este tema.[11]

Portanto, devemos cultivar o tipo de sensibilidade espiritual que nos faça enxergar com gratidão e louvor os atos de Deus em nossa existência, a fim de não sermos injustos para com Ele:

Quando Deus, em qualquer tempo, nos socorre em nossa adversidade, cometemos injustiça contra seu nome se porventura esquecermos de celebrar nossos livramentos com solenes reconhecimentos.[12]

Deus é o autor de todo bem, segue-se que devemos receber tudo como vindo de sua mão, e com incessante ação de graças. Reconheçamos igualmente que não haverá nenhuma boa maneira de fazer uso dos benefícios que generosa e abundantemente Ele derrama sobre nós, se não Lhe estivermos dando constante louvor, com ações de graças.[13]

A gratidão, portanto, é resultado da compreensão de que tudo que temos, foi criado por Deus a fim de que reconhecêssemos o seu autor, rendendo-lhe, assim, graças. A nossa resposta à graça, deve ser gratidão. Gratidão é graça em resposta às bênçãos de Deus em nossa cotidianidade.

Às vezes pensamos que podemos alcançar facilmente as riquezas e as honras com nossos próprios esforços, ou por meio do favor dos demais; porém, tenhamos sempre presente que estas coisas não são nada em si mesmas, e que não poderemos abrir caminho por nossos próprios meios, a menos que o Senhor queira nos prosperar.[14]

Os recursos de que dispomos devem ser um estímulo a sermos agradecidos a Deus por sua generosa bondade:

À luz desse fato aprendemos, também, que os que são responsáveis pelo presunçoso uso da bondade divina, se aproveitam dela para orgulhar-se da excelência que possuem, como se a possuíssem por sua própria habilidade, ou como se a possuíssem por seu próprio mérito; enquanto sua origem deveria, antes, lembrá-los de que ela tem sido gratuitamente conferida aos que são, ao contrário, criaturas vis e desprezíveis e totalmente indignas de receber algum bem da parte de Deus. Qualquer qualidade estimável, pois, que porventura virmos em nós mesmos, que ela nos estimule a celebrarmos a soberana e imerecida bondade que a Deus aprouve conceder-nos.[15]

 

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

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[1] Ray Pennings, Trabalhando para a Glória de Deus. In: Joel R. Beeke, Vivendo para a Glória de Deus: Uma introdução à Fé Reformada, São José dos Campos, SP.: Fiel, 2012 (reimpressão), p. 378.

[2]João Calvino, Exposição de Hebreus, São Paulo: Paracletos, 1997, (Hb 13.16), p. 394.

[3]João Calvino, Exposição de Hebreus, (Hb 13.16), p. 394.

[4]João Calvino, Exposição de Hebreus, (Hb 13.16), p. 395.

[5] Vejam-se André Biéler, O Pensamento Econômico e Social de Calvino, p. 229-230. O testemunho de Farel também é elucidativo. Ver: André Biéler, O Pensamento Econômico e Social de Calvino, p. 229.

[6] A grande quantidade de refugiados abrigados em Genebra, contribuiu para modelar determinadas ênfases em sua vida econômica e enriquecimento de diversas profissões. (Vejam-se alguns exemplos in: André Biéler, O Pensamento Econômico e Social de Calvino, p. 216ss.).

[7]André Biéler, O Humanismo Social de Calvino, p. 45; André Biéler, O Pensamento Econômico e Social de Calvino, p. 230.

[8] João Calvino, As Institutas da Religião Cristã: edição especial com notas para estudo e pesquisa, São Paulo: Cultura Cristã, 2006, v. 3, (III.9), p. 136.

[9] João Calvino, Salmos, São José dos Campos, SP.: Editora Fiel, 2009, v. 4, (Sl 127.2), p. 377.

[10] “Pois jamais somos devidamente sensibilizados do quanto somos devedores a Cristo nem avaliamos suficientemente sua munificência para conosco, até que a extrema infelicidade de nosso estado seja por ele posta diante de nossos olhos” (João Calvino, Efésios, São Paulo: Paracletos, 1998, p. 16).

[11] João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Paracletos, 1999, v. 2, (Sl 66.5), p. 624.

[12] João Calvino, O Livro dos Salmos, v. 2, (Sl 66.13), p. 630.

[13]João Calvino, As Institutas da Religião Cristã: edição especial com notas para estudo e pesquisa, São Paulo: Cultura Cristã, 2006, v. 3, (III.9), p. 110.

[14]João Calvino, A Verdadeira Vida Cristã, São Paulo: Novo Século, 2000, p. 40-41.

[15] João Calvino, O Livro dos Salmos, v. 1, (Sl 8.4), p. 165-166. Em outro lugar: “Devemos sempre tomar nota que ele faz uso de ações de graça em vez de congratulação, pelas quais nos ensina que em todas as nossas alegrias devemos prontamente evocar à lembrança a bondade divina, visto que tudo o que nos é aprazível e agradável procede da bondade que ele nos confere. Além disso, ele nos admoesta, por seu exemplo, a que reconheçamos com gratidão não meramente aquelas coisas que o Senhor nos confere, mas também aquelas coisas que ele confere a outrem. Mas, por quais coisas ele rende graças ao Senhor? Pela fé e o amor dos colossenses. Portanto, ele reconhece que ambos são conferidos por Deus; do contrário, a gratidão seria mera pretensão. E o que possuímos de outra maneira fora de sua liberalidade? Não obstante, se mesmo os mínimos favores nos provêm dessa fonte, quanto mais se deve demonstrar este mesmo reconhecimento em relação a essas duas dádivas nas quais consiste a soma total de nossa excelência!” (João Calvino, Gálatas, Efésios, Filipenses e Colossenses, São José dos Campos, SP.: Fiel, 2010, (Cl 1.3), p. 493).

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