O Seminário e a formação de Pastores – Parte 21

7.3.3. À Procura de um Seminário

 

7.3.3.1. O Pietismo

 

No  ano  de  1675, Phillip J. Spener (1635-1705), publicou  a sua obra Pia Desideria.[1] Nesse livro, o autor manifesta  a  sua preocupação com o estado alarmante da igreja luterana da Alemanha:  Frouxidão moral, indiferença espiritual, especulação em lugar  da piedade. Ele propõe a “Reforma das escolas e universidades”, manifestando especial atenção para com  a formação dos pastores:

Uma vez  que  os pastores levam sobre seus ombros a maior parte  da carga da reforma da Igreja, é extremamente importante  que  o  pastorado seja, acima de tudo exercido por homens, verdadeiros  cristãos, com sabedoria divina, para guiar cuidadosamente  outras  pessoas nos caminhos do Senhor (…). Grande parte  das causas do fracasso da Igreja acontece por causa dos enganos acontecidos no chamamento dos pastores.

As  pessoas  vocacionadas para o pastorado devem tornar-se disponíveis  e  serem encaminhadas para as nossas escolas e universidades, para receberem seu treinamento.[2]

Spener  acreditava  corretamente, que se os maus exemplos fossem  corrigidos, “as escolas passariam a ser reconhecidas através da  vida de seus estudantes, como laboratório do Espírito Santo e berçário da Igreja….”.[3]

Cabe aqui uma observação: Para quem sustenta uma ideia simplista de que o Pietismo se opõe ao Escolasticismo Protestante,  constatamos que em sua  argumentação, Spener recorre a autores representantes  do chamado Escolasticismo Protestante, tais como Johann Gerhard  (1582-1637),[4] tido como um dos maiores teólogos luteranos da ortodoxia. Spener o chama de “piedoso teólogo”.[5]

 

Escolasticismo Protestante: Erudição e piedade

O período entre a Reforma e o Iluminismo ou, mais precisamente, o século XVII, é conhecido na História da teologia protestante, como  “Escolasticismo Protestante”,[6] “Ortodoxia Protestante” ou “Confessionalista”, que se caracterizou por uma preocupação profunda e sistemática pelo rigor doutrinário, elaborando com riqueza de detalhes os posicionamentos teológicos da igreja, conforme a compreensão da amplitude da revelação bíblica.

Podemos dizer que este período consistiu na sistematização das doutrinas da Reforma.  Normalmente a Ortodoxia Luterana é colocada a partir do Livro da Concórdia (1580), livro que contém todos os símbolos aceitos pela Igreja Luterana; e a Ortodoxia Reformada, como tendo sido arquitetada a partir dos escritos de Teodoro de Beza (1519-1605), e H. Zanchi (1516-1590).[7]

Retornando ao uso que Spener faz dos escritos de teólogos da Ortodoxia, destaco que  mais surpreendente ainda, é a citação da obra de Gerhard, Harmonie Evangelistarum (1627), feita por Spener:

Aqueles que não têm o verdadeiro amor a Cristo e negligenciam a prática da piedade, esses não alcançam o pleno conhecimento de Cristo e a mais rica concessão do Espírito Santo. Para se obter o verdadeiro, vivo, ativo e salutar conhecimento das coisas divinas, não é suficiente ler e estudar as Escrituras. Aí é preciso que se acrescente o amor de Cristo, ou seja, que haja o cuidado de não pecar contra a consciência – do contrário, levanta-se uma barreira contra o Espírito Santo – e que se busque com afinco a vida piedosa.[8]

Spener  dá  tratamento semelhante a outro teólogo luterano, um dos  principais  representantes  do Escolasticismo luterano do século  XVII, Abraão Calovius (1612-1686), conhecido por sua piedade, bem como por um espírito polêmico e exclusivista.[9] Spener faz  uma  extensa  citação de sua obra, Paedia Theologica de Methodo  Studdi  Theologici (1652), aconselhando os  estudantes de teologia a seguirem a orientação de Calovius.[10]

Spener conclui que:

Um  jovem  que  ama  a Deus, ainda que desprovido de muitos talentos  intelectuais,  é mais útil à Igreja de Deus com seus  minguados  recursos e limitações acadêmicas do que um mundano,  com  duplo  doutoramento,  muito  sábio,  mas não ensinado por   Deus.  O  trabalho do primeiro é abençoado, pois ele é ajudado  pelo  Espírito  Santo. O último tem apenas o conhecimento carnal, com o tal fará mais mal do que bem.[11]

Portanto, é importante  que não nos precipitemos em julgar a perspectiva de  Spener. Acredito que a sua ênfase quase exclusiva à piedade é devido  aos  problemas que ele combatia. Cada sistema deve ser analisado dentro de seu contexto para se poder entender a questão tratada e os perigos percebidos por quem escreve. Isso não significa que o contexto vá determinar a veracidade ou importância do que sustentamos porém, para poder avaliar um sistema com responsabilidade, temos de primeiramente contextualizá-lo.

Devemos recordar também, que ele conhecia  bem  os teólogos “Ortodoxos”. Estudou em Estrasburgo,  Basiléia e Genebra. Manteve ampla correspondência com o genial  filósofo  protestante G.W. Leibniz (1646-1716), o qual, por  sua  vez,  estava  interessado na união entre os Católicos e Luteranos  na  Prússia.[12]

Spener também, no período de 1686-1690, lecionou  nas  Universidades  de Wittenberg e Leipzig. Em outras palavras,  o  que  pretendo salientar, é que Spener estava longe  de  ser um homem ignorante, expressando apenas uma suposta frustração  acadêmica;  ele  sabia  o que dizia nesse particular. Por  isso, parece-me embutida em sua concepção a formação de pastores  piedosos  e competentes. A.H. Francke (1663-1727), da universidade de Halle personificou bem esse ideal de Spener, desenvolvendo um trabalho de alcance missionário e de assistência aos órfãos.[13]

 

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

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[1]Este livro foi escrito primariamente como prefácio à reedição do “Sermonário” de Johann Arndt (1555-1621), Auslegung der Sonntagsevangelien (Exposição do Evangelho do Senhor). Todavia, devido a diversos pedidos, Spener permitiu que ele fosse publicado separadamente poucos meses depois. (Veja-se: Ph. J. Spener, Mudança para o Futuro: Pia Desideria, Curitiba, PR.; São Bernardo do Campo, SP.: Encontrão Editora; Instituto Ecumênico de Pós-Graduação em Ciências da Religião, 1996, p. 16-21).

[2] Philipp  J. Spener, Mudança para o Futuro: Pia Desideria, p. 67.

[3]Philipp  J. Spener, Mudança para o Futuro: Pia Desideria,  p. 68.

[4] Johann Gerhard, teólogo luterano que lecionou em Jena de 1616 até a sua morte em 1637. Gerhard é conhecido por sua piedade e erudição, sendo considerado o maior teólogo luterano depois de Lutero e Martin Chemnitz (1522-1586). Gerhard sentiu a necessidade de apresentar de forma sistematizada a Teologia Luterana em oposição à Calvinista. (Cf. Alister E. McGrath, Christian Theology: An Introduction, Cambridge, Massachusetts: Blackwell Publishers, 1994, p. 72). Assim, ele escreveu uma obra de nove volumes, publicada em Jena, intitulada Loci Communes Theologici (1610-1622) (Lugares Comuns da Teologia), (reeditada em Leipzig (1863-1876) em 10  volumes). Ela foi considerada a principal obra sistemática luterana, permanecendo durante muitos anos como um clássico da teologia luterana.  Berkhof (1873-1957)  diz que, o trabalho de Gerhard “é uma obra de primeira importância, notável por seu desenvolvimento filosófico e pelo arranjo sistemático de seu conteúdo” (L. Berkhof, Introduccion a la Teologia Sistematica, Grand Rapids, Michigan: T.E.L.L., 1932, p. 80). A  obra de Gerhard moldou a Teologia Luterana do século XVIII, permanecendo por muitos anos como uma exposição clássica da Teologia Luterana. Rudolf Otto (1869-1937), diz que a partir de Gerhard a teologia luterana tornou-se mais racionalista. (Rudolf Otto, O Sagrado, São Bernardo do Campo, SP.: Imprensa Metodista; Programa Ecumênico de Pós-Graduação em Ciências da Religião, 1985, p. 108). Quistorp (1871-1958) o denomina de “o grande arquiteto da ortodoxia Luterana” (H. Quistorp,  Calvin’s Doctrine of the Last Things,  Eugene, Oregon: Wipf & Stock, © 1955, 2009, p. 193).

[5]Philipp  J.  Spener,  Pia  Desideria, p. 70.

[6] Como sabemos, a palavra “Escolasticismo” fora empregada de forma depreciativa pelos humanistas para designar a filosofia medieval. A palavra “escolástica”, provém do grego “sxolastiko/j” (desocupado, vagaroso, dedicar todo o tempo ao aprendizado) que é derivado de “sxola/zw” (estar ocioso, consagrar o seu descanso a, ser discípulo, etc.) e “sxolh/” (descanso, repouso, estudo). A palavra foi usada pelos humanistas de forma imprecisa e pejorativa (Veja-se: Alister McGrath, Teologia sistemática, histórica e filosófica: uma introdução à teologia cristã, São Paulo: Shedd Publicações, 2005, p. 70-71).

“Escolástica” como “filosofia cristã da Idade Média” (Escolástica: In: N. Abbagnano, Dicionário de Filosofia, 2. ed. São Paulo: Mestre Jou, 1982, p. 326a) era empregada na Idade Média para se referir à “filosofia da escola”, a qual se esmera por sua precisão. O seu maior representante é indiscutivelmente S. Tomás de Aquino (1225-1274). O pensamento escolástico, com suas variáveis, permaneceu do século IX até o XV-XVI. O termo “Escolástica”, é usado por derivação para “toda filosofia que assuma a tarefa de ilustrar e defender racionalmente uma determinada tradição ou revelação religiosa” (Escolástica: In: N. Abbagnano, Dicionário de Filosofia, p. 326b). Por outro lado, a palavra as vezes é empregada de forma pejorativa. No caso da designação “Escolasticismo Protestante”, creio ser este o espírito. No entanto, devemos estar sempre atentos ao sentido real de precisão, coerência e consistência que o adjetivo envolve. (Veja-se: John H. Leith, A Tradição Reformada: Uma maneira de ser a comunidade cristã, São Paulo: Pendão Real, 1997, p. 172-173). Lalande (1867-1963) comenta: “No sentido pejorativo, diz-se quer daquilo que apresenta um caráter exagerado de formalismo (excesso de divisões, de distinções, de raciocínio in verbis); quer do que manifesta um ar de espírito escolar, uma tendência para se fechar em teses ou questões tradicionais formuladas de uma vez por todas, em vez de se renovar pelo contato imediato da observação e da vida” (Escolástica: André Lalande, Vocabulário Técnico e Crítico da Filosofia, São Paulo: Martins Fontes, 1993, p. 318). (Veja-se: Alister E. McGrath, Reformation Thought: An Introduction, 2. ed. Cambridge, Massachusetts, Blackwell Publishers, 1993, p. 67ss.).

A despeito da visão depreciativa desse período por autores tais como: Mackintosh (1870-1936) (Hugh R. Mackintosh, Corrientes Teológicas Contemporáneas: De Schleiermacher a Barth, Buenos Aires: Methopress Editorial, 1964, p. 20); Ladd (1911-1984) (George E. Ladd, Teologia do Novo Testamento, Rio de Janeiro: JUERP., 1985, p. 14) e  Niebuhr (1892-1971) (Reinhold Niebuhr, The Nature and Destiny of Man, New York: Charles Scribner’s Sons, 1964, v. 2, p. 188), como  se dentro dessa linha de pensamento houvesse apenas ênfase à doutrina, podemos considerar  esse aspecto como um desvio, não como uma característica do período.

Certamente a ênfase acentuada e por vezes isolada na teologia, trouxe algumas anomalias que geraram uma atitude perniciosa, que consiste em separar a doutrina da piedade individual ou, em confundir a fé em Cristo com o mero assentimento intelectual a determinadas doutrinas tidas como fundamentais à fé Cristã.

Todavia, se isso ocorreu, não foi porque os teólogos dessa época ensinaram tal prática, mas sim devido a um desvirtuamento da ênfase apresentada. Não podemos simplesmente identificar a ênfase num ponto, como se significasse a exclusão dos demais. Em outras palavras, a ênfase na fidelidade doutrinária não equivale a um desmerecimento da piedade cristã. Por outro lado, devemos estar atentos ao fato de que a visão preconceituosa desse período, tem feito com que não consigamos enxergar as contribuições positivas da teologia sistematizada nessa época, das quais somos herdeiros diretos ou indiretos. Godfrey, observa acertadamente, que “o desenvolvimento da teologia escolástica não pode ser caricaturizado como um exercício acadêmico, árido e irrelevante, em conflito com a vida e a piedade da Igreja” (W. Robert Godfrey, Calvino e o Calvinismo nos Países Baixos: In: W. Stanford Reid, (ed.). Calvino e Sua Influência no Mundo Ocidental,  São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1990, [p. 111-145], p. 133).

Para uma visão mais positiva do período, vejam-se: Paul Tillich, História do Pensamento Cristão, São Paulo: ASTE., 1988, p. 251; Paul Tillich, Perspectivas da Teologia Protestante nos Séculos XIX e XX, São Paulo: ASTE., 1986, p. 36; Bernhard Lohse, A Fé Cristã Através dos Tempos, 2. ed. São Leopoldo, RS.: Sinodal, 1981, p. 231 e John H. Leith, Creeds of the Churches, New York: Anchor Books, 1963, v. 1, p. 308-309).

[7] Veja-se: Hermisten M.P. Costa, Raízes da Teologia Contemporânea, 2. ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2018,  p. 311-331.

[8]J. Gerhard, Harmonie Evangelistarum, capítulo 176, p. 1333b. Apud Ph. J. Spener, Mudança Para o Futuro: Pia Desideria, p. 107.

[9]Vejam-se: S. N. Gundry, Calóvio: In: Walter  A. Elwell, (Ed.), Enciclopédia Histórico-Teológica da  Igreja  Cristã, v. 1, p. 224-225; A. Tholuck, Calovius: Philip  Schaff,  ed. A Religious Encyclopaedia: or Dictionary of Biblical,  Historical, Doctrinal,  and  Practical Theology, New York: Funk & Wagnalls Publishers, 1887  (Revised  Edition),  v. 1, p. 365.

[10]Veja-se: Ph. J. Spener, Mudança Para o Futuro: Pia  Desideria,  p. 105-106.

[11]Ph. J. Spener, Mudança para o Futuro: Pia Desideria, p. 71.

[12]Cf. K.S. Latourette, Historia Del Cristianismo, 4. ed. Buenos Aires: Casa Bautista de Publicaciones, 1978, v. 2, p. 258 e R. Eucken, Leibnitz: In: Philip  Schaff,  ed., A Religious Encyclopaedia: or Dictionary of Biblical,  Historical, Doctrinal,  and  Practical Theology, v. 2, p. 258.  Leibniz  trabalhou  em prol da união entre Luteranos e Calvinistas  na Alemanha, tendo como objetivo posterior, unir o Protestantismo  ao Catolicismo. Ele escreveu à Madame de Brinon  (1631-1701) (1701?):  “Tendes razão, senhora, de julgar-me católico de coração…  A  essência  da catolicidade não consiste em comungar,  exteriormente, com Roma; senão, os que são excomungados  injustamente  deixariam  de ser católicos e sem culpa própria.  A  comunhão  verdadeira  e  essencial, que faz que participemos  do corpo de Jesus Cristo, é a caridade” (Apud  É. Bréhier,  História  da Filosofia, São Paulo: Mestre Jou, 1977, II/1, p. 237).

Leibniz possuía uma inteligência extremamente privilegiada, sendo desde bem cedo, iniciado nas letras, aprendendo inclusive o latim sozinho. O seu pai faleceu quando ele contava com apenas 6 anos de idade (1652). Fraile (1909-1970) comenta: “Aos oito anos lhe permitiram entrar na bem provida biblioteca de seu pai (professor de Moral na Universidade), aonde encontrou abundante material para saciar sua curiosidade de saber. Se entregou com avidez à leitura de poetas, historiadores e filósofos. Antes dos treze anos compunha versos em latim e havia lido a Tito Lívio, Virgílio, Horácio, Ausônio, Aristóteles, Santo Tomás, Zarabella, Fonseca, Suarez, Rubio e folheado um pouco a Platão e Plotino. Em sua autobiografia declara haver lido os escolásticos com o mesmo interesse que uma novela. Leu também Lutero (De Servo Arbítrio) e autores tomistas, jansenistas e arminianos” (Guillermo Fraile, Historia de la Filosofia, Madrid: La Editorial Catolica, S.A. 1966, v. 3, p. 650-651).

Leibniz escreveu diversas obras, quase todas publicadas postumamente. As principais foram: Monadologia (1714); Princípios da Natureza e da Comunicação das Substâncias (1695); Discurso de Metafísica (1685-1686); Teodicéia (1710); Novos Ensaios Sobre o Entendimento Humano (1701-1709).

[13]Quanto ao método de Spener, veja-se: Phil A. Newton, Formação de Líderes na Igreja Local, São Paulo: Cultura Cristã, 2023, p. 102-107. No que concerne à influência do Pietismo e o equívoco de seu modelo e de movimentos semelhantes, veja-se:  David M. Lloyd-Jones, Os Puritanos: Suas origens e seus sucessores, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1993, p. 139-158. Vejam-se também:  G. Clouse; Richard V. Pierard; Edwin M. Yamauchi, Dois Reinos – A Igreja e a Cultura interagindo ao longo dos séculos, São Paulo: Cultura Cristã, 2003, p. 334-346; Justo L. Gonzalez, A Era dos Dogmas e das Dúvidas. São Paulo: Vida Nova, 1984, 156-186; W. Walker, História da Igreja Cristã, São Paulo: ASTE., 1967, v. 2, p. 190-215; Bruce L. Shelley, História do Cristianismo ao alcance de todos: uma narrativa do desenvolvimento da Igreja Cristã através dos séculos, São Paulo: Shedd Publicações, 2004, p. 363-368; Hermisten M.P. Costa, Raízes da Teologia Contemporânea, 2. ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2018,  p. 344-356.

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