Tentando pensar e viver como um Reformado: Reflexões de um estrangeiro residente – Parte 37

C) Desafio e Serviço: uma reflexão embrionária

Reflitamos um pouco sobre a palavra desafio e, algumas ideias que podem estar contidas em seu conceito.

Só há desafio onde existe a perda de fé em algo ou alguém. O desafio pode ser feito para justamente provar que há razão para a fé apesar da descrença considerada por quem assim crê, infundada. Deste modo, podemos ilustrar:

a) Desafio porque não mais acredito que você possa fazer ou provar: “Desafio você a me provar isso”; “Desafio a fazer o que disse”; duelo. Em síntese: pago para ver…

b) Desafio você ou a mim mesmo para provar que somos capazes. Nesse caso, buscamos ou criamos estímulo para demonstrar o quanto a falta de fé do outro era infundada. Na realidade a falta de fé do outro pode ser um desafio para que eu mostre que sou capaz.

Chesterton (1874-1936), por exemplo, inicia o seu livro Ortodoxia (1908) assim: “A única desculpa possível para este livro é que se trata de uma resposta a um desafio”. Ele se refere à crítica feita pelo jornalista e romancista britânico, George S. Street (1867-1936), ao seu livro anterior, Hereges (1905).[1] Continua: “Talvez tenha sido uma sugestão incauta, dirigida como foi a alguém sempre mais que disposto a escrever um livro diante da mais ligeira provocação”.[2]

c) Alguém me desafia porque acredita que tenho potencial para realizar determinada tarefa enquanto eu mesmo esteja descrente e inseguro quanto a isso.

d) Posso também participar de um desafio, por exemplo, musical onde nos desafiamos com o intuito de criar situações embaraçosas para o outro a fim de testar a sua superação e vice-versa (“partido-alto”[3] ou “canto ao desafio”).

e) Posso também, de forma amena, dizer que tais pratos desafiam a minha dieta. Sinto-me instigado a quebrá-la. No caso, eu como desafiante e desafiado estou sem fé em minha capacidade de resistência… a dieta começará amanhã…

f) Considerando-me capaz, “desafio o perigo”; não acredito que ele seja tão perigoso assim…

O desafio sempre pressupõe a fé e a falta de fé; ambas caminham juntas, ainda que não concomitantemente, na mesma direção. Curiosamente, o verbo “desafiar” (latim: Disfidare) traz em si o sentido de perda da fé, da confiança.

 

Desafio absoluto e suas configurações relativas

Conduzindo a questão ao nosso tema, podemos dizer que o nosso desafio absoluto como cristãos – o desafio existe porque, usando a expressão de Lutero (1483-1546) [4] somos, simultaneamente, justo e pecador (“Simul justus et peccator”) (“justo – aceito e tratado como uma pessoa reta por Deus – embora ainda um pecador”) – é de obedecer a Deus.

Este é o nosso desafio absoluto, a nossa luta, o nosso bom combate da fé. Esta luta sempre vale a pena. No entanto, como seres contingentes que somos devido ao nosso pecado e pela condição de “criatura”, os absolutos assumem configurações próprias, relativas, conforme a nossa percepção da realidade no mundo onde vivemos.

Com a relatividade do absoluto, não estou negando a sua condição de imperativo categórico, antes, estou afirmando a nossa contingência que faz com que de acordo com a relação que estabelecemos com o nosso meio, aliada à necessidade imperiosa e fundamental de sermos fiéis a Deus, nos sintamos desafiados a interpretar e agir conforme a nossa fé diante daquelas circunstâncias.

Exemplifico: Um pastor de uma igreja em bairro da periferia, observando a pobreza e carência de sua região, pode sentir-se desafiado a desenvolver um intenso trabalho social, partilhando dos benefícios da fé cristã com o seu próximo, por intermédio de escolas, creches, cursos de orientação sobre higiene, prevenção de drogas, cidadania, etc. Nesse caso, esse pastor sentiu-se desafiado pela condição social de seus vizinhos, a manifestar a sua fé dessa maneira: o absoluto se relativizou nessa prática, nesta relação com o seu habitat.

Tomemos outro exemplo: Sou um professor universitário e observo que muitos de meus alunos estão sendo conduzidos a uma forma de ver a realidade totalmente distante de valores cristãos, e caminha dentro de um vácuo onde seus professores esforçam-se por destruir toda a sua fé, restando-lhe apenas o cinismo e sarcasmo como manifestações de discordância; atitudes inócuas e neutralizantes que nada acrescentam na compreensão e solução de seus problemas.[5]

Posso entender que o meu desafio como cristão é tentar me aproximar desses jovens, ouvi-los, criar grupos de estudo, debater questões que fundamentam a nossa perspectiva e que devem nos conduzir ao redirecionamento de nossas forças, etc.

Pois bem, em ambos os exemplos, que obviamente não esgotam a realidade, temos a aplicação de uma fé que deseja agradar a Deus sendo-lhe obediente, mas, que a direcionou, conforme sua percepção e possibilidade, para essas questões.

 

Meu desafio é maior

Um risco que corremos sempre é o de achar que o nosso desafio é maior do que o do nosso irmão, ou que ambos se excluem, como se não fosse possível ambos conviverem visto que, na realidade, não se excluem e caminham na mesma direção: obediência ao absoluto.

 

Múltiplos desafios dentro da contingência de nossa existência

Foi dentro dessa perspectiva, para citar apenas alguns exemplos, que surgiram as escolas, creches, academias, asilos, hospitais, inúmeros projetos, etc., criados pelas igrejas.

É preciso que não criemos excludências onde há apenas percepções diferentes. Aliás, essa pode ser uma forma perigosa, autoritária, ideológica e não cristã de rotular aqueles que não aderem às suas lutas. E mais: a nossa percepção, por si só, não se sustenta como paradigma da verdade. O nosso tribunal definitivo é o Espírito falando por intermédio das Escrituras. Por conseguinte, nos desafiemos com fé, certos de que, pelo Espírito, poderemos ser cada vez mais eficazes na vivência de nossa fé na sociedade.

 

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

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[1] Quanto ao artigo de Street, veja-se:  MR. CHESTERTON. By G. S. Street.  The Outlook, June 17, 1905.

[2] G.K. Chesterton, Ortodoxia, São Paulo: Mundo Cristão, 2008, p. 17.

[3] Veja-se: Nei Lopes, Partido Alto: Samba da bamba, Rio de Janeiro: Pallas Editora, © 2005, 2008, p. 17-18.

[4]“Somos em parte pecadores e em parte justos” (M. Lutero, A Epístola aos Romanos: In: Martinho Lutero: Obras Selecionadas, São Leopoldo; Porto Alegre, RS.: Sinodal; Concórdia, 2003, v. 8,  (Rm 12.2), p. 322. Vejam-se também: G.C. Berkouwer, Faith and Sanctification, Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, 1952, p. 71ss.; R.C. Sproul, A natureza forense da justificação: In: John F. MacArthur, Jr., et. al. A Marca da Vitalidade Espiritual a Igreja: Justificação pela Fé Somente, São Paulo: Editora Cultura Cristã, (2000), p. 34; Thomas R. Schreiner; M. Barret, Somente pela fé: a doutrina da justificação. São Paulo: Cultura Cristã, 2017, p. 46-48; J.I. Packer, A Redescoberta da santidade,  2. ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2018, p. 83-84; R.C. Sproul, O Mistério do Espírito Santo, São Paulo: Cultura Cristã, 1997, p.123.

[5] Posteriormente li: “A forma mais rasteira de reconhecimento intelectual que uma pessoa, que não tem profundidade em sua análise intelectual, pode apresentar, o modo mais rápido e vil para alcançar uma respeitabilidade intelectual enganosa, é o cinismo” (R.C. Sproul, Oh! Como amo a tua lei. In: Don Kistler, (org.). Crer e Observar: o cristão e a obediência, São Paulo: Cultura Cristã, 2009, p. 13).

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