Um patrimônio da Igreja
Os credos, confissões de fé e catecismos constituem um importante patrimônio histórico e teológico da Igreja. Eles nasceram da necessidade de a comunidade cristã confessar, de modo claro, ordenado e público, aquilo que recebeu das Escrituras. Por isso, não devem ser vistos como documentos meramente antigos, destinados a permanecer nas estantes ou nos arquivos da Igreja. São testemunhos da fé da Igreja ao longo da história e instrumentos de ensino, unidade e preservação doutrinária. Ao condensarem de forma sistemática os principais ensinos bíblicos, ajudam a Igreja a saber no que crê e por que crê.
Não somos os primeiros a ler a Bíblia
Sua relevância torna-se ainda mais evidente quando lembramos que ninguém lê a Escritura a partir de um vácuo. Todos nos aproximamos da Bíblia trazendo pressupostos, experiências e tradições interpretativas. Nesse sentido, os credos oferecem à Igreja o benefício de séculos de reflexão sobre a Palavra. Eles nos ajudam a reconhecer erros já enfrentados e a não imaginar que nossas questões são inteiramente novas.
Além disso, preservam a memória da Igreja e nos colocam em contato com a sabedoria de irmãos que nos precederam. Desprezá-los é privar-nos, deliberadamente, de uma parte significativa da herança que recebemos. A Igreja não pode viver adequadamente no presente se perder a consciência do que recebeu no passado.
Os credos não estão acima das Escrituras
Isso não significa, entretanto, atribuir aos credos uma autoridade que pertence exclusivamente às Escrituras. Para a tradição Reformada, a Bíblia é a única autoridade infalível; a autoridade dos credos é derivada e subordinada à Palavra de Deus. Eles são uma exposição da verdade revelada, não a própria revelação.
Por isso, devem ser examinados à luz da Escritura e, quando demonstradamente necessário, revistos ou reformulados. Os credos não determinam os limites da Palavra, mas procuram oferecer uma síntese fiel dela e orientar a Igreja em sua compreensão doutrinária. O juiz supremo continua sendo o Espírito Santo falando nas Escrituras.
Dois erros que devemos evitar
Há, portanto, dois erros que precisam ser evitados. O primeiro é desprezar os credos como se fossem obstáculos à liberdade cristã ou incompatíveis com o Sola Scriptura. O segundo é transformá-los em uma autoridade final, como se a Igreja não pudesse mais voltar às Escrituras para examinar suas formulações.
Nem a rejeição nem a absolutização fazem justiça à natureza dos símbolos de fé. Eles devem ser recebidos com respeito, examinados com submissão à Escritura e utilizados para a edificação da Igreja.
Uma herança que precisa ser recebida
Os credos, afinal, não são propriedade de uma geração, de um teólogo ou de um grupo particular. São patrimônio da Igreja. Recebemo-los de nossos pais como uma herança preciosa, não para substituir a Escritura, mas para sermos ajudados por aqueles que antes de nós lutaram pela fé, ensinaram a verdade e procuraram transmiti-la às gerações seguintes.
Considerações finais
A Igreja de nossos dias precisa recuperar essa consciência. Em uma época marcada por instabilidade doutrinária, individualismo interpretativo e desprezo pela memória cristã, temos muito a aprender com essa herança. Precisamos conhecê-la, examiná-la biblicamente e apropriar-nos dela com gratidão, humildade e responsabilidade. Recebemos um tesouro; não temos o direito de enterrá-lo. Cabe-nos conhecê-los, viver a fé que confessam e transmiti-los fielmente às próximas gerações.
São Paulo, 16 de setembro de 2026.
Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa
