Introdução
O Dia Internacional das Famílias, celebrado em 15 de maio e instituído pela ONU em 1993 (Resolução A/RES/47/237), reflete a importância que a comunidade internacional atribui às famílias como núcleo fundamental da sociedade. A proclamação reconhece que a família é o espaço primário de socialização, educação e proteção.
Essa visão dialoga diretamente com a tradição judaico-cristã, que sempre considerou a família como esteio da sociedade e guardiã da fé. No Antigo Testamento, os pais eram responsáveis por transmitir aos filhos os grandes feitos de Deus: “Estas palavras que hoje te ordeno estarão no teu coração; tu as inculcarás a teus filhos” (Dt 6.6-7). Essa prática tornou-se fundamento da cultura ocidental, moldando valores e estruturas sociais.
1. O Cristianismo e o matrimônio
Os reformadores protestantes reafirmaram o matrimônio como instituição sagrada, monogâmica e indissolúvel. Calvino (1509-1564) denunciou a proibição do casamento aos pregadores como obra diabólica, afirmando que negar o matrimônio era “blasfêmia infernal”.[1] Para ele, o casamento é vínculo sagrado, repudiando a poligamia como “vil e detestável”.[2]
Cristo, ao honrar uma festa de núpcias com sua presença e realizar ali seu primeiro milagre (Jo 2.1-11), referendou de forma contundente o casamento. Essa perspectiva reformada não apenas resgatou o valor bíblico do matrimônio, mas também estabeleceu um paradigma social que influenciou profundamente a cultura ocidental, moldando leis, costumes e práticas familiares.
O casamento, como reflexo da união entre Cristo e a Igreja (Ef 5.25-32), possui caráter espiritual e social. Duby (1919-1996) mostrou como, na Idade Média, o matrimônio foi central na organização comunitária e religiosa, confirmando que sempre esteve no coração da vida social.[3]
2. O papel dos pais e dos filhos
Homem e mulher foram criados à imagem de Deus (Gn 1.27), iguais em dignidade e distintos em missão. O pai é chamado a exercer liderança marcada pelo amor sacrificial, espelhando Cristo que se entregou pela Igreja (Ef 5.25). A mãe, como auxiliadora idônea (Gn 2.18), participa de forma plena e corresponsável na formação espiritual e cultural dos filhos. Juntos, cumprem o propósito divino de refletir a comunhão e a complementaridade estabelecidas pelo Criador.
As Escrituras revelam a primazia social e governamental do homem, mas deixam claro que isso não implica superioridade essencial (Ef 5.22; 1Co 11.3-12; 1Pe 3.6,7).[4] Liderança bíblica não é sinônimo de tirania, mas de serviço e responsabilidade. É fundamental distinguir autoridade espiritual de dominação abusiva.
Ortlund observa com precisão que masculinidade e feminilidade definem papéis distintos, mas igualmente dignos. O homem, em virtude de sua masculinidade, é chamado a liderar; a mulher, em virtude de sua feminilidade, é chamada a cooperar como auxiliadora. Contudo, ele ressalta: a dominação masculina não é doutrina bíblica, mas falha moral e pessoal.[5]
Ao criar a mulher, Deus não a fez inferior, mas igualmente portadora de sua imagem e semelhança (Gn 1.27). O mandato divino de povoar, dominar, guardar e cultivar a terra foi dado a ambos, homem e mulher, como responsabilidade compartilhada. Nenhum deles, isoladamente, é suficiente para cumprir o propósito divino; juntos, refletem a plenitude da criação.
Harriet (1924-2017) e Gerard van Groningen (1921-2014) destacam que, em Gênesis 1.26-31, a mulher foi criada da mesma substância que o homem, igualmente portadora da imagem de Deus. Ela não é inferior em ser ou pessoa, mas possui plena dignidade e relacionamento pessoal com o Criador.
Recebeu, junto com o marido, o mesmo mandato: cultivar o jardim, dominar a terra, ser frutífera e povoar. No capítulo 2, ambos são igualmente chamados a andar com Deus e igualmente advertidos quanto à árvore proibida. Assim, homem e mulher compartilham responsabilidades espirituais e sociais em absoluta igualdade diante de Deus.[6]
Criados à imagem e semelhança de Deus, homem e mulher encontram sua plenitude na complementaridade. O homem se realiza na mulher, e a mulher se realiza no homem; cada um só é plenamente o que é na relação com o outro.
A relação entre homem e mulher deve espelhar o amor e a compreensão que caracterizam a relação de Deus com seu povo. Nossa humanidade se concretiza na comunhão com o outro, onde o amor divino se torna visível.
Os filhos são chamados a obedecer e honrar seus pais (Ef 6.1-3), reconhecendo neles a autoridade que procede de Deus. Calvino ensinou que a obediência é uma forma de honra,[7] e que desprezar os pais é desprezar a majestade divina. A família, portanto, é espaço de comunhão, disciplina e amor, refletindo a relação entre Deus e seu povo. Com ternura, Calvino escreveu: “É impossível não pensarmos em nosso pai e em nossa mãe sem sentir profundo respeito; e em relação a eles, a veemência áspera deve ceder lugar à brandura”.[8]
3. A dignidade humana e a imagem de Deus
A doutrina da imago Dei[9] fundamenta a ética cristã e a valorização da vida. Cada ser humano é portador da imagem divina, e a família é o primeiro lugar onde essa dignidade deve ser reconhecida e cultivada. Como afirmou Lewis (1898-1963), não existem “pessoas comuns”: cada ser humano é imortal, e a família é chamada a ser o espaço onde essa verdade é vivida e transmitida.[10]
Essa visão bíblica encontra eco na historiografia moderna, que mostra como a família sempre foi núcleo da cultura e da religiosidade popular. A fé reformada, ao recuperar a dignidade da mulher e da criança, moldou práticas sociais que perduram até hoje.
4. A educação espiritual e social
No pensamento protestante, a família é mais que um núcleo social: é o espaço central da transmissão da fé e da preservação dos valores cristãos. Kuyper (1837-1920) lembrava que, mesmo após a Queda, casamento e família manteriam sua existência, pois já estavam presentes no paraíso.[11]
Desde a tradição judaica, a família sempre desempenhou papel fundamental na educação e na transmissão da fé. Os pais eram os primeiros responsáveis pela instrução dos filhos, ensinando-lhes os grandes feitos de Deus na história (Pv 22.6; Sl 34.11). Essa educação preventiva e orientadora era constante, e mesmo quando amas ou tutores eram introduzidos, a família permanecia como núcleo essencial da formação.
O Antigo Testamento mostra exemplos como Noemi, que cuidou de Obede, avô de Davi (Rt 4.16-17), ou a ama de Mefibosete (2Sm 4.4). O apóstolo Paulo, em suas cartas, reforça essa visão ao chamar a Igreja de “família de Deus” (Ef 2.19).
Hendriksen (1900-1982) corrobora essa ideia ao afirmar que nenhuma instituição é tão sagrada e básica quanto a família, pois dela depende a saúde da igreja, da nação e da sociedade.[12]
Assim, a família torna-se a primeira escola de valores, e sua fragilidade repercute inevitavelmente na desintegração social.
Pesquisadores da Escola dos Annales demonstraram que a família é instrumento essencial de socialização primária.[13] Essa percepção encontra respaldo em estudos contemporâneos: pesquisas do Pew Research Center, AEI-Brookings e Institute for Family Studies[14] mostram de forma consistente que crianças oriundas de lares estáveis apresentam melhor desempenho escolar, maior equilíbrio emocional, menor vulnerabilidade socioeconômica e menor propensão à criminalidade.
Esses achados oferecem respaldo empírico atual à intuição reformada: a família, como guardiã da fé e da cultura, permanece fundamental para o desenvolvimento integral das crianças − tanto em termos educacionais quanto emocionais e sociais.
Ariès (1914-1984), em História Social da Criança e da Família,[15] mostrou que a família moderna se transformou em espaço de intimidade e afetividade, confirmando que a transmissão de valores e fé sempre esteve ligada ao lar. Ladurie (1929-2023), em Montaillou,[16] analisou como a vida comunitária e familiar era o núcleo da religiosidade e da cultura popular medieval.
O vazio existencial do homem só pode ser preenchido pela comunhão com Deus. Esse vazio, quando não preenchido, repercute na desintegração da vida familiar e social. Por isso, a família cristã é chamada a ser espaço de plenitude espiritual, onde o amor, a disciplina e a fé moldam gerações.
Pais e mães são chamados a educar seus filhos “na disciplina e admoestação do Senhor” (Ef 6.4). Essa educação é integral: espiritual, moral e social. O apóstolo Paulo lembra que “toda Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino” (2Tm 3.16), mostrando que a formação cristã é inseparável da vida cotidiana.
Considerações finais
Celebrar o Dia Internacional das Famílias é reconhecer que, além de ser núcleo social reconhecido pela ONU, a família é também, para nós cristãos, espaço espiritual onde se reflete a glória de Deus.
O Protestantismo reafirmou o casamento como instituição sagrada e promoveu uma visão integral da dignidade humana, fundamentada na criação à imagem de Deus. A fé reformada não apenas renovou a espiritualidade, mas também humanizou a cultura ao fundamentar a ética comunitária na dignidade e no respeito.
Assim, a família permanece como guardiã da fé e dos valores cristãos, transmitindo herança espiritual e moldando gerações. Preservar a família é preservar a própria sociedade, pois dela depende a saúde da Igreja, da nação e da cultura. Defender a família é defender o próprio futuro da fé e da sociedade.
Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa
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[1] João Calvino, Sermões em Tito, Brasília, DF.: Monergismo, 2022, p. 64 (Edição do Kindle).
[2] João Calvino, Sermões em Tito, Brasília, p. 63 (Edição do Kindle).
[3] Georges Duby, O Cavaleiro, a Mulher e o Padre, São Paulo: Fundação Editora Unesp., 2022.
[4] Veja-se: Bruce K. Waltke; Cathi J. Fredericks, Gênesis, São Paulo: Cultura Cristã, 2010, (Gn 2.18), p. 104.
[5] Cf. Raymond C. Ortlund, Jr., Igualdade Masculino-Feminina e Liderança Masculina: In: John Piper; Wayne Grudem, compiladores, Homem e Mulher: seu papel bíblico no lar, na igreja e na sociedade, São José dos Campos, SP.: Editora Fiel, 1996, p. 40.
[6] Cf. Harriet; Gerard van Groningen, A Família da Aliança, p. 94. Veja-se também: Gerard van Groningen, Criação e Consumação, São Paulo: Cultura Cristã, 2002, v. 1, p. 86.
[7] João Calvino, Efésios, São Paulo: Paracletos, 1998, [Ef 6.1], p. 178. Em outro lugar, Calvino explica o significado de honrar os pais: “Que os filhos sejam humildes e obedientes aos pais, que os tratem com honra e reverência, que os sirvam e obedeçam como é seu dever.” (João Calvino, Catecismo da Igreja de Genebra, São Paulo: Seminário Presbiteriano Rev. José Manoel da Conceição; Editora Cultura Cristã, 2026, Pergunta 186 (E-Book). Em outros lugares amplia esse conceito: “Com efeito, Deus compartilha seu nome com aqueles a quem atribui eminência, até onde se faz necessário para que ela seja preservada. A ele tão somente convém, segundo a Escritura, os títulos Pai, Deus e Senhor, de modo que, sempre que ouvirmos qualquer um deles, nosso entendimento seja tocado com o senso de sua majestade. Portanto, aqueles a quem faz participantes desses títulos ilumina-os como que com uma centelha de seu fulgor, de modo que sejam, cada um, dignos de honra em conformidade com sua posição de eminência.” (João Calvino, As Institutas, II.8.35). “A síntese, portanto, será: que usemos de deferência para com aqueles que o Senhor nos fez superiores e os tenhamos em honra, em obediência e em grato reconhecimento. De onde se segue a proibição: que não denigremos nada de sua dignidade, quer por desdém, quer por rebeldia, ou por ingratidão. Ora, o termo honra assim se evidencia amplamente na Escritura.” (João Calvino, As Institutas, II.8.35). “É vontade do Senhor que sirvamos àqueles que nos colocaram nesta vida. Não importa se eles são ou não dignos desta honra porque, seja o que forem, eles nos foram dados como pais e mães pelo Senhor que deseja que os honremos” (João Calvino, Instrução na Fé, Goiânia, GO: Logos Editora, 2003, Cap. 8, p. 27). “É impossível não pensarmos em nosso pai e em nossa mãe sem sentir profundo respeito; e em relação a eles, a veemência áspera deve ceder lugar à brandura.” (João Calvino, As Pastorais, São Paulo: Paracletos, 1998, [1Tm 5.1], p. 128). “O propósito do Quinto Mandamento é que se deve render honra àqueles a quem Deus a atribui. Portanto, esta é a síntese do mandamento: ser justo e do agrado de Deus que honremos aqueles a quem ele tem prodigalizado algo de excelência; ser abominação para ele o desprezo e a obstinação para com eles.” (João Calvino, As Institutas, II.8.8).
[8] João Calvino, As Pastorais, São Paulo: Paracletos, 1998, [1Tm 5.1], p. 128.
[9]Bavinck (1854-1921), expressa esse conceito de forma quase poética, porém, amplamente bíblica:
“A essência da natureza humana é seu ser [criado] à imagem de Deus. Todo o mundo é uma revelação de Deus, um espelho de seus atributos e perfeições. Toda criatura, ao seu próprio modo e grau, é a incorporação de um pensamento divino. Mas, entre as criaturas, apenas o ser humano é a imagem de Deus, a mais exaltada e mais rica autorrevelação de Deus e, consequentemente, a cabeça e a coroa de toda a criação, a imago Dei e o epítome da natureza.” (Herman Bavinck, Dogmática Reformada: Deus e a criação, São Paulo: Cultura Cristã, 2012, v. 2, p. 540).
“Embora todas as criaturas exibam vestígios de Deus, somente o ser humano é a imagem de Deus. Ele inteiro é essa imagem, alma e corpo, em suas faculdades e capacidades, em todas as condições e relações. O ser humano é a imagem de Deus porque, e na medida em que, é verdadeiramente humano; e é verdadeiro e essencialmente humano porque, e na medida em que, é a imagem de Deus.” (Herman Bavinck, Dogmática Reformada: Deus e a Criação, São Paulo: Cultura Cristã, 2012, v. 2, p. 564. Veja-se também: Wayne Grudem, Teologia Sistemática, São Paulo: Vida Nova, 1999, p. 370).
[10] C.S. Lewis, Peso de Glória, 2. ed. São Paulo: Vida Nova, 1993, p. 23.
[11]Abraham Kuyper, Sabedoria & Prodígios: Graça comum na ciência e na arte, Brasília, DF.: Monergismo, 2018, p. 34
[12] Cf. William Hendriksen, Exposição de Efésios, São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1992, (Ef 5.22), p. 308.
[13]A socialização pode ser entendida como “o processo pelo qual uma pessoa internaliza as normas do grupo em que vive, de modo que surja um ‘eu’ distinto, único para um dado indivíduo” (Paul B. Horton; Chester L. Hunt, Sociologia, São Paulo: McGraw-Hill do Brasil, 1980, p. 77). De forma mais específica, a socialização primária corresponde à primeira experiência do indivíduo na infância, enquanto a socialização secundária diz respeito a processos posteriores que o introduzem em novos setores da realidade social (P. Berger; T. Luckmann, A Construção Social da Realidade, 5. ed. Petrópolis, RJ.: Vozes, 1983, p. 128).
Toda sociedade possui um código moral, e para que haja regularidade na vida comunitária é necessário que os indivíduos se conformem a esse código (Cf. Melville J. Herskovits, Man and His Works: The Science of Cultural Anthropology, New York: Alfred A. Knopf, 1948, p. 77).
[14]Veja-se também: Institute for Family Studies, “Children First: Why Family Structure and Stability Matter for Children”, disponível em: https://ifstudies.org/blog/children-first-why-family-structure-and-stability-matter-for-children (acessado em 15.05.2026).
[15]O que temos em português é uma tradução da edição abreviada em francês (1975). A obra completa foi publicada originalmente em 1960 (Philippe Ariès, L’Enfant et la Vie familiale sous l’Ancien Régime, Paris: Plon, 1960). A que disponho é: História Social da Criança e da Família, 2. ed. Rio de Janeiro: LTC., 2006).
[16]Emmanuel Le Roy Ladurie, Montaillou, povoado Occitânio, 1294-1324, São Paulo: Companhia das Letras, 1997.
