O lugar do Saltério na piedade cristã reformada: centralidade e uso de outros cânticos na adoração (7)

Calvino, a Reforma francesa e os Cinco Mártires de Lyon: formação, missão e martírio

Pois vemos como os vícios têm hoje plena liberdade, e aquele que pretende servir a Deus com pureza pode bem dizer que é como uma ovelha entre lobos. Mas e daí? Temos um bom Pastor que prometeu nos defender. Confiemos nele e, enquanto isso, caminhemos na senda que Ele nos mostrou. Do contrário, suplico-vos: o que seria dos pobres cristãos que estão entre os inimigos da fé? Se eles considerassem os perigos em que se encontram, como ousariam abrir a boca para honrar a Deus – John Calvin.[1]

A relação de João Calvino com a Reforma francesa pode ser percebida de modo particularmente expressivo no episódio dos chamados Cinco Mártires de Lyon. Em abril de 1552, cinco jovens franceses − Martial Alba, Pierre Escrivain, Bernard Seguin, Charles Favre e Pierre Navihères −, formados teologicamente em Lausanne, partiram para a França com o propósito de servir à causa do Evangelho. Antes de prosseguirem viagem, permaneceram alguns dias em Genebra, onde tiveram contato com a igreja e o ambiente reformado da cidade. Não seria, contudo, historicamente adequado chamá-los simplesmente de “discípulos de Calvino”, pois sua formação teológica ocorrera em Lausanne.

Esse episódio mostra que a Reforma não se limitava à formulação doutrinária ou à reorganização das igrejas suíças. Envolvia também a formação de ministros, seu envio aos países de origem e a expansão do Evangelho em territórios ainda marcados pela perseguição. Os cinco estudantes ilustram essa dimensão missionária: depois de receberem formação teológica, deixaram um ambiente relativamente seguro para retornar à França e servir à Igreja, conscientes dos riscos que isso implicava.

 

Calvino e os prisioneiros de Lyon

Pouco depois de chegarem a Lyon, porém, foram presos em circunstâncias que, segundo as fontes, envolveram engano.[2] A prisão ocorreu em 1º de maio de 1552,[3] e os cinco permaneceram encarcerados por cerca de um ano, processados por sua atividade de propagação da fé reformada. O caso mobilizou as igrejas reformadas suíças. Calvino envolveu-se pessoalmente nos esforços em favor dos prisioneiros e, em 10 de junho de 1552,[4] escreveu-lhes, mencionando-os nominalmente e assegurando que ele e os irmãos de Genebra não os haviam esquecido. Exortou-os a permanecer firmes na fé e garantiu-lhes as orações e o auxílio da comunidade reformada.

A atuação de Calvino, entretanto, não se limitou à correspondência pastoral. Pessoas e autoridades também foram mobilizadas em favor dos prisioneiros. As autoridades de Berna procuraram intervir diplomaticamente junto às autoridades francesas. O episódio evidencia, assim, uma rede reformada que ultrapassava fronteiras locais e envolvia igrejas, ministros e autoridades civis no esforço de socorrer os perseguidos.

Quando os esforços para libertá-los fracassaram e a execução se tornou iminente, a relação de Calvino com os cinco assumiu outra dimensão. Em 15 de maio de 1553, escreveu-lhes pela terceira e última vez. Redigida na véspera da execução, a carta, contudo, não chegou a ser recebida pelos prisioneiros. Já não havia perspectiva humana de livramento; Calvino, porém, não viu nessa situação uma derrota da providência divina. Ao contrário, exortou-os a permanecer firmes na esperança em Deus e em suas promessas.

 

Providência e Martírio

A última carta revela a compreensão de Calvino acerca do martírio: não uma exaltação do sofrimento, mas sua interpretação à luz da providência divina e da união com Cristo. A morte, longe de ser sem sentido, torna-se testemunho da verdade e permanece inserida nos propósitos de Deus para sua Igreja.

Para Calvino, o sangue dos mártires poderia servir à confirmação e à propagação da verdade do Evangelho. Aquilo que, sob a ótica humana, parecia o fracasso de uma missão poderia, na perspectiva da providência divina, tornar-se instrumento para o avanço da própria causa pela qual haviam sido enviados. É nesse contexto que deve ser compreendida sua longa exortação aos prisioneiros: mais do que prepará-los para a morte, Calvino os conduzia a interpretar o martírio à luz da providência de Deus, da glória de Cristo e da esperança cristã:

Para onde quer que olhemos daqui debaixo, Deus tem interrompido o caminho. Não obstante, nossa esperança nele, ou nas suas santas promessas não pode ser frustrada. […] Agora, no presente momento, a própria necessidade os exorta a elevarem a mente totalmente ao céu. Até agora, não sabemos como será o evento, mas, porquanto parece que Deus utilizará o sangue de vocês para subscrever sua verdade, o melhor é prepararem-se para esse objetivo, suplicando-lhe para submetê-los à sua boa vontade, de modo que nada os impeça de seguirem para onde quer que Ele lhes chame. […] Uma vez que lhe [Deus] aprouve consagrar vocês à morte na manutenção da sua contenda, Ele lhes fortalecerá as mãos no combate e não deixará que nenhuma gota do sangue de vocês seja gasta em vão. E embora o fruto não apareça de imediato, no tempo apropriado produzirá com mais abundância do que podemos expressar. Mas assim como Ele lhes concedeu esse privilégio, para que os laços de vocês sejam renovados e o seu clamor se propague amplamente por toda a parte, é indispensável, a despeito de Satanás, que a morte de vocês ressoe muito mais poderosamente, para que o nome do nosso Senhor seja engrandecido por meio disso. Da minha parte, se foi grato a esse bondoso Pai tomá-los [para] si mesmo, não duvido que Ele lhes preservou até aqui para que o seu prolongado e contínuo encarceramento sirva de preparação para despertar melhor a quem Ele determinou edificar com o fim de vocês. Assim, por mais que os inimigos se esforcem, jamais conseguirão esconder essa luz que Deus fez brilhar em vocês, para que fosse contemplada desde muito longe. […] O fato de Deus lhes designar como mártires do seu Filho lhes serve de sinal de graça superabundante. […] Enquanto aprouver a Deus dar o reino aos seus inimigos, nosso dever é ficarmos quietos, embora tarde o tempo da nossa redenção. […] Há de vir o tempo em que a terra revelará o sangue que tem estado escondido, e nós, depois de nos desembaraçarmos desse corpo corruptível, seremos completamente restaurados. De qualquer modo, que o Filho de Deus seja glorificado na nossa vergonha e que nos contentemos com este fiel testemunho: que, embora sejamos perseguidos e condenados, confiamos no Deus vivo. Assim, temos com o que desprezar o mundo inteiro com a sua soberba, até que sejamos reunidos naquele reino eterno, onde gozaremos plenamente aquelas bênçãos de que agora só temos em esperança.[5]

 

Testemunho de fé e martírio

Os cinco, porém, não chegaram a receber a última carta. No dia seguinte, 16 de maio de 1553, foram conduzidos à Place des Terreaux, em Lyon, para a execução. Segundo o relato de Jean Crespin, durante o trajeto recitaram passagens das Escrituras e entoaram salmos. Alba, o mais velho do grupo, permaneceu algum tempo de joelhos em oração enquanto os demais eram amarrados ao poste. Antes de morrer, pediu permissão para despedir-se dos companheiros, beijando cada um deles e dizendo: “Adeus, adeus, meu irmão.” Quando chegou sua vez de subir à fogueira, solicitou novamente ao tenente Tignac que lhe permitisse abraçar os irmãos de fé. Autorizado, despediu-se deles com ternura, sendo então amarrado e entregue às chamas. Segundo o relato, em meio às chamas, exortavam-se mutuamente: “Coragem, meus irmãos; coragem.”[6]

Embora os pormenores da execução devam ser avaliados com a cautela própria de uma fonte martirológica, o episódio tornou-se parte importante da memória da Reforma francesa. A tradição documental relativa aos cinco foi posteriormente preservada em correspondências e relatos de mártires, entre os quais se encontra a edição de 1854 da correspondência atribuída aos estudantes.[7]

O episódio dos Cinco Mártires de Lyon evidencia uma dimensão muitas vezes esquecida da Reforma: a articulação entre formação, missão e martírio. Lausanne formou; Genebra apoiou; Calvino acompanhou; redes reformadas intercederam; e o martírio tornou-se testemunho público da verdade do Evangelho.

Martial Alba e seus companheiros não foram simplesmente vítimas de perseguição religiosa: eram jovens que haviam recebido formação teológica e retornado à sua terra com o propósito de servir à Igreja, conscientes dos riscos que isso implicava. Nesse sentido, o episódio ajuda a compreender melhor uma dimensão do projeto reformador de Calvino para a França. A Reforma que ele desejava ver estabelecida naquele país exigia igrejas organizadas, ministros preparados, formação teológica e pregação fiel, mas também disposição para perseverar diante da oposição.

 

Missão e perseguição

Os Cinco Mártires de Lyon representam, de maneira dramática, o ponto em que essas dimensões se encontram: a formação recebida em Lausanne desemboca na missão; a missão conduz à perseguição; a perseguição, ao martírio; e o martírio, na compreensão de Calvino, permanece submetido à providência daquele que governa sua Igreja.

O episódio, portanto, não deve ser visto apenas como a história edificante de cinco jovens que morreram pela fé. Ele oferece uma pequena janela para a dinâmica da Reforma no século XVI: a verdade recebida deveria ser ensinada; os ministros, formados; as igrejas, estabelecidas; o Evangelho, levado a lugares onde ainda não era livremente proclamado; e seus anunciadores deveriam estar dispostos, se necessário, a sofrer por ele. É nessa convergência entre doutrina, Igreja, missão e martírio que a relação entre Calvino e Martial Alba adquire significado histórico e teológico.

Contudo, o relato de Crespin não se limita ao registro dos acontecimentos; interpreta-os à luz da providência divina. Os cinco estudantes de Lausanne são apresentados como testemunhas da fé cristã em meio à perseguição, e sua perseverança, como parte de um conflito espiritual mais amplo.

Nesse enquadramento, o martírio não representa o triunfo do poder persecutório, mas o testemunho da fidelidade de Deus e da esperança daqueles que permanecem firmes em Cristo. Na perspectiva martirológica de Crespin, o sofrimento não é derrota, mas testemunho da vitória de Cristo. Assim, a narrativa transforma o sofrimento em testemunho e o testemunho em memória para a Igreja.

A história da Reforma, portanto, não pode ser compreendida apenas por seus escritos, confissões e debates doutrinários, mas também pela vida daqueles que, em meio à perseguição, foram chamados a testemunhar sua fé com perseverança e, em alguns casos, com a própria vida. Os nomes de Martial Alba, Pierre Escrivain, Bernard Seguin, Charles [Faure/Favre] e Pierre Navihères permanecem associados à Reforma francesa como testemunhas de uma fé que unia doutrina, missão e perseverança.  (dimensão confessional).

Sua memória, porém, não deve conduzir à exaltação dos mártires, mas à contemplação da fidelidade de Deus para com sua Igreja. Sua história recorda que a formação doutrinária deve servir à missão, que a missão pode envolver sofrimento e que a fidelidade cristã não se fundamenta na força humana, mas na graça daquele que sustenta os seus até o fim. (dimensão missionária). Nesse sentido, o testemunho dos Cinco Mártires de Lyon continua a nos chamar à confiança no Deus vivo, cuja providência governa sua Igreja e cuja promessa permanece firme mesmo em meio às maiores provações. (dimensão memorial). Sua história não é apenas lembrança, mas memorial da fidelidade de Deus e testemunho de que o Evangelho, mesmo em meio à perseguição, continua a ser proclamado e preservado pela graça daquele que governa sua Igreja.

 

Maringá, 23 de agosto de 2026. 

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


 
 

[1] On Monday the 12th of August 1555 The 55th Sermon, which is the fifth upon the seventh Chapter:  In: The Sermons of Master John Calvin upon the first book of Moses called Deuteronomy. Disponível em: https://www.monergism.com/thethreshold/sdg/calvin/Sermons%20on%20Deuteronomy%20-%20 John%20Calvin.pdf).

[2] Veja-se a nota editorial in: João Calvino, As Cartas de João Calvino,  São Paulo: Cultura Cristã, 2009, p. 97.

[3] Cf. Jean Crespin, Histoire des martyrs, Toulouse:  Sociét des Livres Religieux, 1885, v. 1, p. 585.

[4]João Calvino, As Cartas de João Calvino,  São Paulo: Cultura Cristã, 2009, p. 97-99. Escreveu-lhes novamente em 07 de março de 1553. (João Calvino, As Cartas de João Calvino,  p. 103-104).

[5]João Calvino, Cartas de João Calvino, São Paulo: Cultura Cristã, 2009, p. 107-109.

[6]A descrição de Wylie, valendo-se também de Crespin, é particularmente sensível e detalhada. (Veja-se: James A. Wylie, The History of Protestantism, London: Cassell, Petter & Galpin, [1870], v. 2, capítulo 23, p. 340-345; Veja-se também: Jean Crespin, Histoire des martyrs, Toulouse:  Sociét des Livres Religieux, 1885, v. 1, p. 585-595; João Calvino, Cartas de João Calvino, São Paulo: Cultura Cristã, 2009, p. 107 (Nota do editor).

[7]Posteriormente foram achadas várias correspondências entre esses jovens, sendo então publicadas em livro: Pierre Bergier, ed. Correspondance Inédite Des Cinq Étudiants Martyrs Martial Alba, de Montauban, Pierre Escrivain, (Éd. 1854). Hachette Livre Bnf. (Impresso sob demanda). Para uma visão parcial (10 páginas) da edição original em pdf, veja-se:  https://www.furet.com/media/pdf/feuilletage/ 9/7/8/2/0/1/1/3/9782011314147.pdf   (Consulta feita em 31.01.2024).