1.3.1. O sentido básico do perdão
Perdoar é considerar o devedor como alguém que jamais ofendeu; é não lhe imputar qualquer dívida. Por isso, após o perdão, o indivíduo deixa de ser um “devedor perdoado” para tornar-se simplesmente uma pessoa livre − sem qualquer adjetivo que o vincule à culpa anterior.
Nesse sentido, tanto a ofensa quanto o perdão deixam de ser elementos ativos na relação. O perdão de Deus não apenas remove a culpa, mas restaura a comunhão. A ferida provocada pelo pecado é tratada com amor e misericórdia, e o pecador é acolhido como filho. Deus não apenas nos absolve − Ele nos recebe.
Não devemos jamais menosprezar ou subestimar o perdão. Fazer isso seria um erro gravíssimo. O perdão divino não minimiza o pecado nem ignora sua gravidade. Pelo contrário, ele exalta a misericórdia de Deus, que cobre todas as nossas faltas com graça abundante.
A petição ensinada por Jesus na oração do Pai Nosso − “perdoa-nos as nossas dívidas” − é um reconhecimento humilde de nossa condição. Ao orarmos assim, admitimos nossa culpa e rogamos que Deus, por sua misericórdia, não nos trate conforme merecemos: como devedores dignos de castigo. É uma súplica por graça, fundamentada na confiança no caráter perdoador de Deus.
1.3.2. A descrição bíblica do perdão
A riqueza do conceito bíblico de perdão se expressa também na linguagem. Tanto o Antigo quanto o Novo Testamento utilizam diferentes termos para descrever a ação graciosa de Deus ao perdoar pecados. Cada palavra carrega nuances que aprofundam nossa compreensão teológica. A seguir, apresentamos os principais termos hebraicos e gregos usados nas Escrituras:
O Antigo Testamento usa três termos principais (e seus cognatos) para descrever o perdão:[1]
a) rp;K’ (Kâphar) – termo de origem incerta – significa “reconciliar”, “cobrir”, “purgar”, “expiar” e “perdoar”. Está intimamente associado ao conceito de sacrifício, indicando que houve algum tipo de expiação realizada. O uso dessa palavra nas Escrituras aponta para a ação de restaurar a comunhão entre Deus e o ser humano por meio de um ato expiatório (Ex 32.30; Lv 8.15; Nm 5.8; Dt 21.8 (duas vezes); 2Sm 21.3; Sl 65.3; 78.38; 79.9; Is 6.7; Is 22.14; 43.3; Jr 18.23; Dn 9.24; Ez 16.63; 45.20).
b) af’n” (Nâshâ’)[2] tem o sentido de “elevar”, “carregar”, “remover”, ”levar embora”, “remir”, “levantar”, “cobrir”, “livrar”.Esse termo que é usado de modo figurado e literal, apresenta de forma metafórica, a ideia de que o pecado cometido foi levantado e carregado (removido) para longe; esquecido (Gn 18.26; 50.17; Ex 10.17; Jó 11.6; Sl 25.18; 32.1,5; 85.2; Is 2.9; 33.24; 44.21).
Essa imagem de remoção aponta para o alívio espiritual que acompanha o perdão: o pecado, antes pesado e opressor, é levantado dos ombros do pecador e afastado. Diversos textos bíblicos ilustram essa ação redentora (Gn 18.26; 50.17; Ex 10.17; Jó 11.6; Sl 25.18; 32.1,5; 85.2; Is 2.9; 33.24; 44.21).
A angústia do homem não perdoado é dramaticamente expressa nas palavras de Caim, após sua condenação. Ele descreve o peso insuportável da culpa que carrega: “Então, disse Caim ao SENHOR: É tamanho o meu castigo, que já não posso suportá-lo (af’n”) (nâshâ’)” (Gn 4.13).
A palavra af’n” (Nâshâ’) ressalta a responsabilidade pessoal do ser humano diante do pecado − um peso merecido, consequência direta de sua desobediência. O pecado não é tratado como algo trivial, mas como uma carga real, que oprime a alma e exige ser removida.
Davi, no Salmo 32, inicia com uma jubilosa declaração de bem-aventurança, celebrando a restauração de sua comunhão com Deus, fruto do perdão gracioso: “Bem-aventurado aquele cuja iniquidade é perdoada (af’n”) (nâshâ’)” (Sl 32.1). No verso 5, ele reafirma a sua prazerosa certeza: “Tu perdoaste (af’n”) (nâshâ’) a iniquidade do meu pecado” (Sl 32.5).
Aqui, o verbo expressa a ação divina de erguer e afastar o peso da culpa, libertando o pecador do fardo que o esmagava.
Essa experiência de perdão não é teórica para o salmista − é vivida com intensidade. Em outro salmo, ele clama com sinceridade: “Considera as minhas aflições e o meu sofrimento e perdoa (af’n”) (nâshâ’) todos os meus pecados” (Sl 25.18).
A consciência de sua transgressão o aflige profundamente, e o perdão torna-se sua maior necessidade espiritual[3] − a verdadeira cura para sua alma.[4]
As Escrituras, ao descreverem a gravidade e profundidade do pecado humano, não nos deixam sem esperança. Pelo contrário, revelam com clareza a provisão misericordiosa de Deus. Em uma passagem singular e fundamental, o profeta Isaías anuncia que o Senhor tomou sobre si os nossos pecados:
Certamente, ele tomou (af’n”) (nâshâ’) sobre si as nossas enfermidades e as nossas dores levou sobre si; e nós o reputávamos por aflito, ferido de Deus e oprimido. (Is 53.4/Mt 8.17).
Por isso, eu lhe darei muitos como a sua parte, e com os poderosos repartirá ele o despojo, porquanto derramou a sua alma na morte; foi contado com os transgressores; contudo, levou (af’n”) (nâshâ’) sobre si o pecado de muitos e pelos transgressores intercedeu. (Is 53.12).
No Novo Testamento João Batista dá testemunho do Senhor Jesus: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo!” (Jo 1.29). Do mesmo modo, o apóstolo João testifica: “Sabeis também que ele se manifestou para tirar os pecados, e nele não existe pecado” (1Jo 3.5). Assim, o verbo nâshâ’ encontra seu cumprimento mais pleno na cruz, onde o perdão é oferecido de forma definitiva e redentora.
O perdão aqui significa a remoção de nossos pecados e de nossa culpa. O Senhor Jesus levantou o nosso pecado de sobre os nossos ombros e o levou para longe. Agora estamos em paz com Deus; fomos reconciliados.
c) xl;s’ (Sâlah) − “Perdoar”, “esquecer”, “remover a culpa” − é fundamental para compreender o conceito bíblico de perdão: ele expressa a ação divina de perdoar, apagar ou esquecer o pecado, enfatizando a iniciativa graciosa de Deus em restaurar o pecador
A palavra hebraica xl;s’ (Sâlah) aparece cerca de 50 vezes no Antigo Testamento, quase sempre em contextos relacionados ao perdão concedido por Deus. Curiosamente, esse verbo é usado exclusivamente com Deus como sujeito ou seja, somente Deus é descrito como aquele que verdadeiramente perdoa os pecados (Ex 34.9; Lv 4.20,26,31; 5.6,10,13; 1Rs 8.34,36,39; Sl 25.11; 130.4; Is 55.7).
O perdão não é automático nem trivial; ele está sempre ligado ao arrependimento e à misericórdia divina. Sālaḥ não significa apenas “ignorar” o pecado, mas removê-lo da conta do pecador, restaurando o relacionamento com Deus. O termo aponta para a graça soberana de Deus, que perdoa não por mérito humano, mas por sua própria bondade e fidelidade à aliança.
No livro do profeta Jeremias, encontramos a celebração jubilosa do futuro perdão de Deus, relacionado com a Nova Aliança. (Vejam-se: Jr 31.31-34; 33.8; 50.20/Hb 8.6-13).
O conceito de sālaḥ também encontra seu cumprimento em Cristo, o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo (Jo 1.29). Em Cristo, o perdão é pleno e definitivo: “Em quem temos a redenção, pelo seu sangue, a remissão dos pecados” (Ef 1.7).
Enquanto Nâshâ’ é utilizado tanto para o perdão concedido por Deus quanto pelo homem, os termos Kâphar e Sâlah são empregados exclusivamente para descrever o perdão divino. Essa distinção linguística reforça a soberania de Deus no ato de expiar e perdoar pecados, destacando que a verdadeira reconciliação espiritual depende da iniciativa graciosa do Senhor.
O Antigo Testamento enfatiza que todo pecado exige expiação, e esta se realiza por meio do derramamento de sangue, conforme estabelecido em Levítico 17.11 e reafirmado em Hebreus 9.22. Isso não significa que o sacrifício, por si só, possuía poder intrínseco para redimir o pecador. [5] Seu valor reside no fato de ser o método instituído por Deus para conceder perdão. Quando o homem, com sinceridade, obedecia às prescrições divinas, demonstrava arrependimento e submissão ao caminho revelado por Deus.
Entretanto, o ritual vazio, desprovido de um coração contrito, era ineficaz. Por isso, as Escrituras registram repetidas admoestações divinas contra uma religiosidade meramente externa, sem transformação interior. (Vejam-se: Is 1.10-17; Am 5.21-22). Deus não se agrada de formalismos; Ele busca verdade no íntimo e arrependimento genuíno.
Os sacrifícios do Antigo Testamento, especialmente à luz das profecias de Isaías, apontam para a vinda do Messias − o Servo do Senhor − que entregaria sua vida em resgate por muitos (Vejam-se: Is 40-42; 52.13-15; 53; 55). O sacrifício de Cristo revela, de forma contundente, o profundo amor de Deus, a seriedade da nossa desobediência, a justiça divina e a gloriosa manifestação de sua misericórdia.
O Novo Testamento emprega quatro palavras principais para descrever o perdão:
a) Pa/resij (Páresis), “Remissão”, “não levar em conta”, “deixar passar”, “mandar embora”, “passar por cima” (* Rm 3.25).
b) A)fi/hmi (Aphíëmi), “Deixar ir”, “enviar”, “soltar”, cancelar”, “desistir”, “abandonar” (Mt 4.11; 6.12; 12.31-32; 18.12,21,27,32, 35; Mc 2.5,7). O substantivo A)fe/sij (Aphesis), “Desobrigação”, “perdão”, “libertação”, “cancelamento” (Mt 26.28; Mc 1.4; At 2.38; Ef 1.7; Cl 1.14; Hb 9.22.
c) O verbo A)polu/w (Apolyõ), “Libertar” (de doenças, um prisioneiro) “perdoar”, “livrar”, “despachar” (uma assembleia, turbas, indivíduos). (Mt 5.31,32; 14.15;15.23; 27.15,17,21,26; At 19.40; 28.18,25; Hb 13.23). Somente em Lc 6.37 tem o sentido claro de perdoar (Ocorre 68 vezes no NT).
4) Xari/zomai (Charízomai), “Mostrar favor ou bondade”, “dar como favor”, “ser gracioso com alguém”, “perdoar”. (Lc 7.42,43; At 27.24; Rm 8.32; 2 Co 2.7,10; Ef 4.32; Cl 2.13; 3.13) (empregada 21 vezes no NT). Nesse verbo aparece de modo explícito o nosso dever de perdoar como resultado do perdão concedido por Deus.
Iniciativa de Deus
Nas Escrituras, o perdão é sempre apresentado como uma iniciativa divina. Deus, em sua soberania e misericórdia, toma a dianteira na restauração do pecador. Ele mesmo declara:
Eu, eu mesmo, sou o que apago as tuas transgressões por amor de mim, e dos teus pecados não me lembro. (Is 43.25).
Desfaço as tuas transgressões como a névoa, e os teus pecados como a nuvem; torna-te para mim, porque eu te remi. (Is 44.22).
Quem, ó Deus, é semelhante a ti, que perdoas a iniquidade, e te esqueces da transgressão do restante da tua herança? O Senhor não retém a sua ira para sempre, porque tem prazer na misericórdia. Tornará a ter compaixão de nós; pisará aos pés as nossas iniquidades, e lançará todos os nossos pecados nas profundezas do mar. (Mq 7.18-19).
Perdoarei as suas iniquidades, e dos seus pecados jamais me lembrarei. (Jr 31.34). (Vejam-se: Jr 5.1; 33.8; Ez 36.25).
O perdão não é um direito humano, mas um favor divino. É prerrogativa exclusiva de Deus, concedida por sua graça e não por nossos méritos. Daniel reconhece isso com clareza: “Ao Senhor, nosso Deus, pertence a misericórdia e o perdão” (Dn 9.9/Sl 130.4). Isaías reforça essa abundância de graça: “Deus (…) é rico em perdoar” (Is 55.7).
Por isso, Davi exclama com gratidão: “Bem-aventurado o homem a quem o SENHOR não atribui iniquidade e em cujo espírito não há dolo” (Sl 32.2).
A singularidade da revelação bíblica é destacada por Grider (1921-2006) que observa com precisão: “Nenhum livro de religião, a não ser a Bíblia, ensina que Deus perdoa completamente o pecado”.[6] Essa afirmação destaca a singularidade da revelação bíblica: somente a Escritura apresenta um Deus absolutamente santo, que é ao mesmo tempo misericordioso. O pecado é uma afronta à santidade divina, e o perdão é a resposta graciosa de Deus à nossa miséria espiritual.
A Justiça e a Graça
A graça não se opõe à justiça; antes, ela se realiza por meio de atos justos. Como a santidade permeia todo o ser de Deus, não há qualquer contradição entre seus atributos − nem em sua essência, nem em suas ações. Em Deus, graça e justiça não competem, mas se complementam perfeitamente.
A base do nosso perdão está na obra expiatória de Cristo, consumada em sua morte e coroada com a ressurreição. (Lc 24.45-47; Rm 4.25; 1Co 15.17; 2Co 5.15).[7] Nela, contemplamos a manifestação plena da graça santa e da justiça perfeita de Deus. O pecado não foi ignorado − foi tratado com seriedade, e sua penalidade foi assumida por Cristo em nosso lugar.
O perdão dos nossos pecados repousa exclusivamente no sacrifício redentor de Jesus. Mesmo a “menor” de nossas ofensas exigiu dele uma entrega voluntária, envolvendo todos os seus sofrimentos e sua morte na cruz. O preço foi altíssimo, não porque o pecado fosse grande aos nossos olhos, mas porque a santidade de Deus é absoluta.
Sem a obra de Cristo, não haveria perdão.[8] Não há outro fundamento, nenhum outro meio. O perdão é gratuito para nós, mas foi conquistado por um custo infinito − o sangue do Cordeiro de Deus.
As Escrituras insistem nesse ponto:
No qual (Jesus) temos a redenção pelo seu sangue, a remissão dos pecados segundo a riqueza da sua graça. (Ef 1.7).
Antes sede uns para com os outros benignos, compassivos, perdoando-vos uns aos outros, como também Cristo vos perdoou. (Ef 4.32).
Sendo justificados gratuitamente, por sua graça, mediante a redenção que há em Cristo Jesus. (Rm 3.24).
O perdão concedido por Deus é sempre em nome de Cristo (At 10.43; Cl 1.14; 1Jo 2.12/Mt 26.28; Jo 1.29; At 5.31; 13.38). Pedro, ao anunciar o Evangelho à casa de Cornélio, relembra o ministério de Cristo e a missão confiada à Igreja: proclamar o senhorio de Jesus (At 10.36,42). Ele declara: “Dele todos os profetas dão testemunho de que, por meio de seu nome, todo aquele que nele crê recebe remissão de pecados” (At 10.43/1Jo 2.12). A conexão entre a obra de Cristo, a fé e o perdão é direta e inseparável.
Paulo, ao descrever a salvação em Cristo, resume: “13 Ele nos libertou do império das trevas e nos transportou para o reino do Filho do seu amor, 14 no qual temos a redenção, a remissão dos pecados” (Cl 1.13-14).
O próprio Senhor Jesus, ao instituir a Ceia, estabelece a relação entre seu sangue e nossa expiação: “27 A seguir, tomou um cálice e, tendo dado graças, o deu aos discípulos, dizendo: Bebei dele todos; 28 porque isto é o meu sangue, o sangue da nova aliança, derramado em favor de muitos, para remissão de pecados” (Mt 26.27-28/Ef 1.7).[9]
Calvino (1509-1564) afirma com profundidade: “Deus se paga a si mesmo por Sua misericórdia manifestada em seu Filho, nosso Salvador Jesus Cristo, que uma vez por todas se ofereceu ao Pai para ser Ele próprio a satisfação que Lhe deveríamos prestar”.[10]
Mesmo no Antigo Testamento, os patriarcas, profetas e o povo foram perdoados não pelos sacrifícios em si, mas pela fé no Cristo que viria. As ofertas, quando apresentadas com sinceridade, eram aceitas como expressões de fé.
A obra de Cristo abrange todos os crentes − do passado, presente e futuro.[11] A eleição eterna de Deus provê a obra de Cristo, o arrependimento e a fé. Lloyd-Jones (1899–1981) enfatiza: “A única maneira de alguém ser perdoado, antes de Cristo, depois de Cristo e em qualquer ocasião, é através de Cristo, e este crucificado.”[12]
Não há salvação fora do sacrifício único e vicário de Cristo. Sua obra é completa e suficiente. No Calvário, nenhuma gota de sangue foi derramada em vão. Cristo expiou os pecados de todo o seu povo — e somente de seu povo.
Calvino escreve:
Em cada época, desde o princípio, houve pecados que necessitavam de expiação. Portanto, a menos que o sacrifício de Cristo fosse eficaz, nenhum dos [antigos] pais haveria obtido a salvação. Visto que se achavam sujeitos à ira divina, qualquer remédio para livrá-los teria resultado em nada, se Cristo, ao sofrer uma vez por todas, não sofresse o suficiente para reconciliar os homens com a graça de Deus, desde o princípio do mundo e até ao fim. A não ser que desejemos muitas mortes, contentemo-nos com um só sacrifício. (…) Não está no poder do homem inventar sacrifícios como lhe apraz. Eis aqui uma verdade expressa pelo Espírito Santo, a saber: que os pecados não são expiados por um sacrifício, a menos que haja derramamento de sangue. Por conseguinte, a ideia de que Cristo é sacrificado muitas vezes não passa de uma invenção diabólica.[13]
Insistimos nesse ensino fundamental: os méritos de Cristo alcançam todo o seu povo, tanto do Antigo quanto do Novo Testamento. Ninguém jamais foi ou será salvo fora da obra expiatória de Cristo. A Boa Nova é que, por ser perfeita, sua obra continua eficaz e disponível a todos os que creem.[14] Todos por quem Cristo morreu serão salvos. A Igreja, composta por esses redimidos, é a portadora dessa mensagem.
Calvino (1509-1564) resume:
Tudo o que o Senhor tinha feito e sofrido para adquirir salvação para o gênero humano pertencia tanto aos crentes do Antigo Testamento quanto a nós. E, de fato, eles tinham um mesmo espírito que nós temos, pelo qual Deus regenera os Seus para a vida eterna. Portanto, como vemos que o Espírito de Deus, que é como uma semente de imortalidade em nós (pelo que é chamado penhor da nossa herança), habitava neles, como ousaríamos vetar a eles a herança da vida?. (…)
Foi isso que desejei sustentar, isto é, que todos os santos a respeito dos quais lemos na Escritura que foram escolhidos por Deus, desde o princípio do mundo, têm sido participantes conosco das mesmas bênçãos que nos são dadas com a salvação eterna.[15]
Paulo declara que o triunfo de Cristo se manifestou na cruz:
E a vós outros, que estáveis mortos pelas vossas transgressões, e pela incircuncisão da vossa carne, vos deu vida juntamente com ele, perdoando todos os nossos delitos; tendo cancelado o escrito de dívida, que era contra nós e que constava de ordenanças, o qual nos era prejudicial, removeu-o inteiramente, encravando-o na cruz; e, despojando os principados e as potestades, publicamente os expôs ao desprezo, triunfando deles na cruz. (Cl 2.13-15).
Lloyd-Jones reforça que os patriarcas foram salvos pela fé em Cristo, ainda que não o vissem claramente. Eles criam na promessa de Deus e foram perdoados pela mesma graça que nos alcança:
A mensagem não é que Deus está disposto a perdoar o fato do Calvário, mas que Deus perdoa por meio do Calvário. É o que Deus fez no Calvário que produz o perdão para nós. O Calvário não é meramente uma proclamação ou um anúncio do amor de Deus e da Sua prontidão para perdoar; é Deus mediante o que Ele fez em Cristo e por meio dEle na cruz do Calvário, criando um meio pelo qual Ele pode reconciliar-nos consigo.[16]
Em Cristo, recebemos justificação e perdão. A justificação é um ato judicial em que Deus declara que não há mais culpa, pois os pecados foram pagos. O perdão é um ato soberano, em que Deus decide não aplicar a penalidade da Lei. A justificação traz consigo reconciliação, paz, adoção e outros benefícios.[17]
Eu comecei a página, O Perdão em Cristo na Teologia Reformada. Você pode editá-la agora ou voltar para ela mais tarde.
Portanto, nunca é demais insistir no ponto de que o perdão que nos vem pela graça, custou um alto preço para o nosso Salvador: o seu precioso sangue. A graça é o benefício das obras de Cristo. “Sem derramamento de sangue não há remissão” (Hb 9.22). “O sangue de Jesus, seu Filho, nos purifica de todo pecado” (1Jo 1.7).
A paz é fruto da justificação[18] − suas primícias.[19] Deus nos declara justos em Cristo, perdoando nossos pecados e promovendo a paz.
“Já não há condenação para os que estão em Cristo” (Rm 8.1). O perdão está diretamente ligado à entrega graciosa de Deus em Cristo (Rm 8.32; 2Co 5.21).
O perdão não torna Deus indiferente ao pecado, nem suaviza seu padrão de justiça (Ex 34.6-7). Pelo contrário, revela seu amor ativo em Cristo, cuja trajetória eterna culminou na cruz − o sacrifício perfeito. [20]
A misericórdia de Deus
O arrependimento e a confissão são requisitos essenciais para o perdão dos nossos pecados (Pv 28.13; Mq 1.4; Mc 1.15; Lc 24.47; At 2.38; 5.31; Hb 6.1; Tg 5.16; 1Jo 1.9). No entanto, é fundamental afirmar que o arrependimento não nos confere direito ao perdão. Ele não é a causa do perdão, nem o torna obrigatório. Deus não está vinculado a nenhuma obrigação moral de perdoar. O arrependimento é uma condição necessária, sim − mas o perdão continua sendo um ato soberano da misericórdia divina.
Misericórdia automerecida é uma contradição. Deus nos perdoa graciosamente, não por nossos méritos, mas com base nos méritos de Cristo Jesus.
Ele nos perdoa não porque deve, mas porque é misericordioso. [21] Ele contempla nossa miséria espiritual e, movido por compaixão, nos alivia, apagando nossas iniquidades e restaurando nossa comunhão com Ele.
O salmista expressa essa verdade com beleza: “Ele, porém, que é misericordioso, perdoa a iniquidade, e não destrói; antes muitas vezes desvia a sua ira, e não dá largas a toda a sua indignação” (Sl 78.38).
Daniel, em sua oração, reconhece o mesmo princípio: “Inclina, ó Deus meu, os teus ouvidos, e ouve; abre os teus olhos e olha para a nossa desolação… porque não lançamos as nossas súplicas perante a tua face fiados em nossas justiças, mas em tuas muitas misericórdias” (Dn 9.18).
Na mesma condição de pecadores perdoados, unimo-nos ao salmista em louvor:
“Pois tu, Senhor, és bom e compassivo (salach), abundante em benignidade para com todos os que te invocam” (Sl 86.5).
O amor de Deus
Deus nos perdoa porque nos ama. Seu amor não encontra em nós qualquer mérito que o justifique. Ele nos ama porque decidiu nos amar. Como bem interpreta Calvino:
“Deus jamais encontrará em nós algo digno de seu amor, senão que Ele nos ama porque é bondoso e misericordioso”.[22] (Jo 3.16; Rm 5.8; Cl 3.12-14).
O perdão divino não pode ser compreendido sem considerar seu amor eterno e imutável.[23] Jesus mesmo ensinou: “Aquele a quem pouco se perdoa, pouco ama” (Lc 7.47). O perdão de Deus está fundamentado em seu amor soberano, livre e invencível.
Importante destacar: Deus não se torna cativo de seu amor. Seu amor está sempre em perfeita harmonia com todos os seus atributos. A cruz revela, simultaneamente, a gravidade da nossa ofensa à santidade divina e a incomensurável grandeza do amor de Deus.
Packer comenta com profundidade:
A medida do amor, humano e divino, é o quanto ele dá. Por este padrão, o amor de Deus é imensurável, porque tanto a grandeza da dádiva quanto o seu custo estão além da nossa compreensão. Todos os paralelos humanos são insuficientes; todas as comparações, inadequadas.[24]
Por isso, o apóstolo Paulo apresenta como prova cabal do amor de Deus por nós o fato extraordinário da encarnação e morte de Cristo em nosso favor. Ele escreve:
“Deus prova (suni/sthmi) (evidencia, demonstra, mostra) o seu próprio amor para conosco, pelo fato de ter Cristo morrido por nós, sendo nós ainda pecadores” (Rm 5.8). Essa declaração não apenas revela a iniciativa divina, mas também a profundidade do amor que se manifesta no sacrifício do Filho. O amor de Deus não é abstrato − ele se encarna, sofre e se entrega.
Como bem sintetizou Gustaf Aulén (1879–1977): “O perdão é obra exclusiva de Deus, é dom de Deus”.[25]
Algumas Considerações
Essa verdade nos conduz à adoração reverente: fomos amados quando ainda éramos indignos e perdoados por um ato soberano de graça. O Calvário permanece como a mais sublime evidência do amor divino − um amor que salva, transforma e reconcilia.
O perdão é um dom de Deus, não um direito humano. Por isso, devemos nos aproximar do Senhor com humildade, reconhecendo que o perdão não é fruto de mérito, mas expressão da graça. Essa consciência nos livra do orgulho espiritual e nos conduz à gratidão reverente e sincera.
Toda remissão de pecados está fundamentada na obra expiatória de Cristo. Por essa razão, a pregação do Evangelho deve sempre apontar para o sacrifício único e suficiente do Salvador. A Igreja é chamada a proclamar essa verdade com clareza, fidelidade e reverência.
O perdão não nos exime da responsabilidade moral; ao contrário, nos capacita a viver em obediência. Quem foi perdoado, ama − e quem ama, busca agradar ao Senhor. A vida cristã é, portanto, uma resposta à graça recebida.
Em Cristo, fomos reconciliados com Deus e chamados a viver em paz com o próximo. Isso implica perdoar como fomos perdoados, cultivando relacionamentos marcados pela graça, pela verdade e pela reconciliação.
Essa doutrina consola o aflito, orienta o arrependido e fortalece o crente. Por isso, devemos vivê-la com gratidão e ensiná-la com sensibilidade pastoral, como expressão da misericórdia que nos alcançou.
Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa
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[1] Para uma visão mais completa dos termos, veja-se: Herman Bavinck, Dogmática Reformada, São Paulo: Cultura Cristã, 2012, v. 4, p. 185-186. Para uma avaliação mais ampla do perdão de Deus, veja-se: Hermisten M.P. Costa, O Deus de Misericórdia, Goiânia, GO.: Cruz, 2023.
[2] Para um estudo mais aprofundado do termo hebraico, vejam-se: Victor Hamilton, Ns’: In: Willem A. VanGemeren, org. Novo Dicionário Internacional de Teologia e Exegese do Antigo Testamento, São Paulo: Cultura Cristã, 2011, v. 3, p. 163-167; Robert B. Girdlestone, Synonyms of the Old Testament, Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, (1897), Reprinted, 1981, p. 137-138; N.H. Snaith, Forgive, Forgiveness: In: Alan Richardson, ed. A Theological Word Book of the Bible, London: SCM Press, 13. impression, 1975, p. 85-86.
[3]Veja-se: Abraham Booth, Somente pela Graça, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1986, p. 29.
[4] Essa percepção é reforçada por Adams (1929-2020), ao afirmar: “A maior necessidade do homem é de perdão” (Jay E. Adams, Teologia do Aconselhamento Cristão, Eusébio, CE.: Editora Peregrino, 2016, p. 255).
[5] Eichrodt (1890-1978), seguindo o rabino A. Büchler (1867-1939) diz que “A expiação não é uma forma imediata de remoção do pecado independentemente de seu perdão, senão um método de perdão” (Walter Eichrodt, Teologia del Antiguo Testamento, Madrid: Ediciones Cristiandad, 1975, v. 2, p. 440).
[6] J.K. Grider, Perdão: In: Walter A. Elwell, ed. Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã, São Paulo: Vida Nova, 1990, v. 3, p. 136. Esta declaração não entra em conflito com o fato de que os deuses dos povos do Antigo Testamento eram aplacados em sua ira e esta consciência de “perdão” era testemunhada pelos seus adoradores. (Cf. J. Scharbert, Perdão: In: Heinrich Fries, (direção de), Dicionário de Teologia, 2. ed. São Paulo: Loyola, 1987, v. 4, p. 229-230). Contudo, um exemplo explícito de um “deus” declarando o perdão absoluto parece ser estranho à literatura antiga, fora da Bíblia.
[7] “Então, lhes abriu o entendimento para compreenderem as Escrituras; e lhes disse: Assim está escrito que o Cristo havia de padecer e ressuscitar dentre os mortos no terceiro dia e que em seu nome se pregasse arrependimento para remissão de pecados a todas as nações, começando de Jerusalém” (Lc 24.45-47). “O qual foi entregue por causa das nossas transgressões e ressuscitou por causa da nossa justificação” (Rm 4.25). “E, se Cristo não ressuscitou, é vã a vossa fé, e ainda permaneceis nos vossos pecados” (1Co 15.17). “E ele morreu por todos, para que os que vivem não vivam mais para si mesmos, mas para aquele que por eles morreu e ressuscitou” (2Co 5.15).
[8]Veith alerta para o perigo do orgulho religioso, que impede o reconhecimento da necessidade de perdão: “A ilusão mais perigosa de todas é o farisaísmo. Essa é a verdadeira barreira a Jesus Cristo. Toda a rejeição da graça de Deus toma essa forma. Aqueles que recusam o perdão gratuito de Deus por meio de Cristo fazem assim porque acham que não precisam desse perdão. Eles não admitem que são pecadores. Eles negam que estejam desesperadamente perdidos” (Gene Edward Veith, Jr. De todo o teu entendimento, São Paulo: Cultura Cristã, 2006, p. 79).
[9] O Catecismo de Heidelberg (1563), capta bem esse sentido ao tratar dos sacramentos: “São os sinais e selos santos e visíveis instituídos por Deus para que, pelo seu uso por nós, ele possa, de modo mais completo, revelar-nos e selar a promessa do Evangelho, por causa do sacrifício único de Cristo realizado na cruz, Ele, de graça, nos concede o perdão de pecados e a vida eterna” (Perg. 66).
[10]João Calvino, As Institutas da Religião Cristã: edição especial com notas para estudo e pesquisa, São Paulo: Cultura Cristã, 2006, v. 3, (III.9), p. 129.
[11]“Quando o Filho de Deus sofreu e morreu, Ele assim expiou os pecados de todos os que o aceitaram ou iriam aceitá-lo por meio de uma fé viva, ou seja, por todos os crentes de ambas as dispensações. Os méritos da cruz estendem-se tanto para trás como para adiante” (W. Hendriksen, Romanos, São Paulo: Cultura Cristã, 2001, (Rm 3.25-26), p. 178).
[12] D. Martyn Lloyd-Jones, Estudos no Sermão do Monte, São Paulo: FIEL. 1984, p. 359. “Ninguém pode dizer, nem por um momento, que pessoas como Davi, Abraão, Isaque e Jacó não foram perdoadas. Mas não o foram por causa daqueles sacrifícios que ofereceram. Eles foram perdoados porque olhavam para Cristo. Não percebiam isso claramente, mas criam no ensinamento e faziam essas ofertas pela fé. Criam na Palavra de Deus, que Ele um dia no porvir, proveria um sacrifício, e pela fé se mantiveram firmes nisso. Foi a fé em Cristo que os salvou, exatamente como é a fé em Cristo que salva agora” (D.M. Lloyd-Jones, A Cruz: A Justificação de Deus, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, [s.d.], p. 9-10).
[13]João Calvino, Exposição de Hebreus, São Paulo: Paracletos, 1997, (Hb 9.26), p. 245-246. “A razão pela qual Deus ordenara que se oferecessem vítimas como expressão de ações de graça foi, como é bem notório, para ensinar ao povo que seus louvores eram contaminados pelo pecado, e que necessitavam de ser santificados exteriormente. Por mais que proponhamos a nós mesmos louvar o nome de Deus, outra coisa não fazemos senão profaná-lo com nossos lábios impuros, não houvera Cristo se oferecido em sacrifício com o propósito de santificar a nós e às nossas atividades sagradas (Hb 10.7). É através dele, como aprendemos do apóstolo, que nossos louvores são aceitos” (João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Paracletos, 1999, v. 2, (Sl 66.15), p. 631).
[14] “Ele (escritor de Hebreus) demonstra agora quão absurda será nossa atitude se não dermos valor ao único sacrifício de Cristo, o qual efetua eficientemente expiação. Se isso é assim, ele infere que Cristo deveria morrer muitas vezes, visto que a morte está sempre relacionada com sacrifício. Ainda bem que essa última suposição é completamente absurda. Segue-se, pois, que a eficácia desse sacrifício único é eterna e se estende por todos os séculos” (João Calvino, Exposição de Hebreus, São Paulo: Paracletos, 1997, (Hb 9.26), p. 245).
[15]João Calvino, As Institutas da Religião Cristã: edição especial com notas para estudo e pesquisa, São Paulo: Cultura Cristã, 2006, v. 3, (III.7), p. 24, 34.
[16]D.M. Lloyd-Jones, O supremo propósito de Deus: Exposição sobre Efésios 1.1-23, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1996, p. 145.
[17] Veja-se: A.A. Hodge, Esboços de Teologia, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 2001, p. 706.
[18]Veja-se: Thomas Watson, A Fé Cristã, estudos baseados no breve catecismo de Westminster, São Paulo: Cultura Cristã, 2009, p. 268.
[19]R.C. Sproul, A santidade de Deus, São Paulo: Cultura Cristã, 1997, p. 162.
[20] “A cruz de Cristo se tornou o ápice de uma vida que sempre foi o caminho da cruz” (A.H. Leitch, Justiça: In: M.C. Tenney, org. ger. Enciclopédia da Bíblia, São Paulo: Cultura Cristã, 2008, v. 3, [p. 807-823], p. 820).
[21] “A misericórdia não é um direito ao qual o homem faz jus. A misericórdia é aquele atributo adorável de Deus, pelo qual tem dó dos miseráveis e os alivia” (A.W. Pink, Deus é Soberano, p. 23).
[22]João Calvino, As Pastorais, São Paulo: Paracletos, 1998, (Tt 3.4), p. 347.
[23]John Murray (1898-1974) observou acertadamente que, “nenhum estudo da expiação pode ser devidamente desenvolvido sem reconhecer em primeiro lugar o livre e soberano amor de Deus (…). Este amor é a causa ou a fonte da expiação” (John Murray, Redenção: Consumada e Aplicada, São Paulo: Editora Cultura Cristã, 1993, p. 11,13).
[24]J.I. Packer, O Plano de Deus para Você, 2. ed. Rio de Janeiro: Casa Publicadora das Assembleias de Deus, 2005, p. 137.
[25] G. Aulén, A Fé Cristã, São Paulo: ASTE, 1965, p. 258.
