Rei e Pastor: O Senhor na visão e vivência dos salmistas – 29

Atitudes para com o Senhor perdoador (Continuação)

Humildade

A súplica pelo perdão de nossas dívidas pode revelar uma tentativa de enganar o credor ou, mais profundamente, nossa total incapacidade de quitá-las. No entanto, foi o próprio Senhor quem nos ensinou a orar dessa forma, ciente de nossa inadimplência absoluta e irreversível.  Por isso, nossa postura diante de Deus deve ser de humildade, reconhecendo-o como o Senhor que tudo nos concede e que, em seu amor eterno, providenciou o pagamento por meio de seu único e Amado Filho.

Como bem conclui Barth (1886-1968): Somos devedores de Deus. Não lhe devemos algo, nem pouco nem muito, senão pura e simplesmente tudo: nossa pessoa em sua totalidade, a nós mesmos como criaturas que somos, sustentadas e nutridas por sua bondade.” [1]

O perdão divino evidencia nossa necessidade de misericórdia e nossa completa incapacidade de alcançar o padrão de Deus. Por isso, só nos resta suplicar: “perdoa as nossas dívidas” e, com espírito contrito, receber esse perdão, prosseguindo em nossa caminhada com plena consciência de que tudo o que temos é fruto da graça de Deus.

Lutero (1483–1546), ao comentar o Pai Nosso, adverte:  

Isso, porém, deve servir a que Deus nos quebre o orgulho      e nos mantenha na humildade. Pois reservou para si a prerrogativa de que, se alguém quiser jactar-se de sua probidade e menosprezar outros, examine-se a si mesmo e ponha diante dos olhos essa petição: verá então que sua probidade é igual à    dos outros. Diante de Deus todos temos de baixar o topete e estar contentes de que alcançamos o perdão. E ninguém pense que na presente vida vai chegar ao ponto de não precisar desse perdão. Em suma: se Deus não perdoa continuamente, estamos perdidos.[2]

 

Disposição para Perdoar

O Senhor Jesus Cristo nos ensinou a orar:

Perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós temos perdoado aos nossos devedores […] 14 Porque, se perdoardes aos homens as suas ofensas, também vosso Pai celeste vos perdoará; 15 se, porém, não perdoardes aos homens as suas ofensas, tampouco vosso Pai vos perdoará as vossas ofensas. (Mt 6.12,14-15).

O perdão que recebemos de Deus é um imperativo que nos conduz à prática do perdão ao próximo. Aquele que foi alcançado pela graça é inevitavelmente chamado a perdoar. Ao perdoarmos, abrimos o coração para receber o perdão de Deus.

Essa graça é transformadora e nos capacita a perdoar. Como afirma Barth (1886-1968): “O perdão de Deus, quando é recebido, faz ao perdoado capaz de perdoar.[3]

O perdão de Deus reverbera como ondas de amor e misericórdia em nosso coração, criando ciclos concêntricos de aprendizado e concessão de perdão. Assim, nossa disposição em perdoar torna-se um testemunho vivo de gratidão pelo perdão divino.

Calvino adverte:

Porque não devemos pedir a Deus que nos perdoe os nossos pecados se também, de nossa parte, não perdoamos da maneira expressa no texto a todos os que nos ofenderam ou nos ofenderem. E se retivermos algum ódio em nosso coração, abrigarmos algum desejo de vingança, ou se pensarmos em como prejudicar nossos inimigos, malfeitores ou pessoas mal-intencionadas, não peçamos nesta oração que Deus perdoe os nossos pecados. Como tampouco devemos pedir seu perdão se não nos esforçarmos quanto pudermos para contar com o favor e a amizade dos que nos ofenderam, reconciliando-nos com eles, vivendo em paz e amor com eles, prestando-lhes todo o serviço que pudermos e procurando agradá-los. Porque o que pedimos é que Deus nos perdoe como também nós perdoamos aos outros. Isso é o mesmo que pedir que Ele não nos perdoe, se nós não perdoarmos aos outros. Os que procedem desta maneira, que poderão obter por seu pedido, senão mais grave condenação?[4]

A oração exclui qualquer desejo de vingança, pois esta pertence somente a Deus. Quando buscamos vingança, assumimos indevidamente o direito divino e revelamos autossuficiência.[5] Em vez disso, devemos manter os olhos fixos em suas promessas, aguardando com paciência, o que fortalece nossa perseverança na fé e na prática da Palavra. O perdão nasce da confiança no Deus justo e misericordioso

Calvino vai além:

Embora Deus declare que executará vingança contra nossos inimigos, não temos o direito de nutrir sede de vingança quando somos injuriados. […] Os fiéis não devem ser vistos como a expressar algum desejo de serem saciados com a visão do derramamento de sangue humano, como se nutrissem muita avidez pelo mesmo.[6]

Jesus Cristo, de forma instrutiva e corretiva, reforça em diferentes ocasiões:

E quando estiverdes orando, se tendes alguma cousa contra alguém, perdoai, para que o vosso Pai celeste vos perdoe as vossas ofensas. (Mc 11.25).

Acautelai-vos. Se teu irmão pecar contra ti, repreende-o; se ele se arrepender, perdoa-lhe. Se por sete vezes no dia pecar contra ti, e sete vezes vier ter contigo, dizendo: Estou arrependido, perdoa-lhe. (Lc 17.3-4).

Como vimos, a base do nosso perdão é o perdão concedido por Deus. Ele não apenas nos perdoa, mas também nos capacita a perdoar. Como conclui Hendriksen (1900-1982): “É Deus quem semeia em nossos corações a semente da fé e o ânimo perdoador.”[7]

Paulo reforça essa verdade ao escrever:

Suportai-vos uns aos outros, perdoai-vos mutuamente, caso alguém tenha motivo de queixa contra outrem. Assim como o Senhor vos perdoou, assim também perdoai vós. (Cl 3.13).

Antes sede uns para com os outros benignos, compassivos, perdoando-vos uns aos outros, como também Deus em Cristo vos perdoou. (Ef 4.32).

Testemunho

Portanto, todo o labor evangelístico da Igreja se fundamenta neste pressuposto essencial: todos os homens pecaram, afastando-se de Deus, o seu Criador, em quem somente há vida (Jo 10.10; 1Jo 4.9).

A Igreja anuncia o Evangelho consciente de que o homem, por si mesmo, nada pode fazer para retornar à vida, pois todos estão mortos em seus delitos e pecados (Ef 2.1,5). Lloyd-Jones está correto ao afirmar que “é completamente antiescriturístico favorecer qualquer tipo de evangelização que negligencie a doutrina sobre o pecado.”[8]

A cruz é o fundamento da pregação. Não há verdadeira proclamação sem a consciência da gravidade do pecado e da redenção definitiva realizada por Cristo, o Deus eterno, na cruz.

A Igreja evangeliza convicta de que o pecado envolve, de maneira terrível e desumanizante, toda a raça humana. Ela sabe que a cura para o homem não está nele mesmo, mas em Jesus Cristo, o único que restaura a verdadeira humanidade.

Somente o Deus Criador pode restaurar plenamente suas criaturas. Ele o fez por meio de seu Filho amado, que entregou a vida por seu povo (Jo 3.16; 1Jo 3.16), confiando esta mensagem à Igreja, que proclama o Evangelho como poder de Deus (Rm 1.16), conclamando todos os homens ao arrependimento e, pela graça, ao retorno para Deus.

É exatamente isso que ensina Paulo:

Ora, tudo provém de Deus, que nos reconciliou consigo mesmo por meio de Cristo e nos deu o ministério da reconciliação, a saber, que Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não imputando aos homens as suas transgressões, e nos confiou a palavra da reconciliação. De sorte que somos embaixadores em nome de Cristo, como se Deus exortasse por nosso intermédio. Em nome de Cristo, pois, rogamos que vos reconcilieis com Deus. Aquele que não conheceu pecado, ele o fez pecado por nós; para que, nele, fôssemos feitos justiça de Deus. E nós, na qualidade de cooperadores com ele, também vos exortamos a que não recebais em vão a graça de Deus (porque ele diz: Eu te ouvi no tempo da oportunidade e te socorri no dia da salvação; eis, agora, o tempo sobremodo oportuno, eis, agora, o dia da salvação). (2Co 5.18-6.2).

O perdão recebido em Cristo nos responsabiliza a testemunhar. À Igreja cabe anunciar, de maneira intransferível, o perdão de Deus a todos os que se arrependem e recebem Cristo como Salvador.  (Lc 24.47; At 10.42-43; 13.38).

Considerações Pontuais

A vida cristã é marcada pela consciência de nossa total dependência de Deus. Humildade nos coloca diante do Senhor como devedores que nada podem oferecer senão súplica e gratidão. O perdão recebido em Cristo nos transforma e nos chama a perdoar, tornando-nos instrumentos de reconciliação. E o testemunho da Igreja, fundamentado na cruz, proclama ao mundo que somente em Jesus há vida, restauração e esperança.

Assim, humildade, perdão e testemunho não são virtudes isoladas, mas expressões inseparáveis da graça divina. Quem foi alcançado pelo amor de Deus vive em constante reconhecimento de sua misericórdia, pratica o perdão como fruto da mesma graça e anuncia, com ousadia e fidelidade, o Evangelho que reconcilia.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

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[1] K. Barth, La Oración, Buenos Aires: La Aurora, 1968, p. 75.

[2] Martinho Lutero, Catecismo Maior: In: Os Catecismos, São Leopoldo; Porto Alegre, RS.: Concórdia; Sinodal, 1983, §§ 90-91, p. 469.

[3] Karl Barth, La Oración, Buenos Aires: La Aurora, 1968, p. 78-79.

[4]João Calvino, As Institutas da Religião Cristã: edição especial com notas para estudo e pesquisa, São Paulo: Cultura Cristã, 2006, v. 3, (III.9), p. 129.

[5]Cf. João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Parakletos, 1999,  v. 2, (Sl 38.13), p. 187.

[6]João Calvino, O Livro dos Salmos, v. 3, (Sl 79.10), p. 259. “Sempre que os ímpios, em favor de quem nos devotarmos fazendo-lhes o bem, nos retribuírem mal por bem, Deus certamente será o Juiz deles” (João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Parakletos, 1999, v. 2, (Sl 38.19-20), p. 192).

[7]G. Hendriksen, El Evangelio Segun San Mateo, Grand Rapids, Michigan: Subcomision Literatura Cristiana, 1986, p. 350.

[8]D.M. Lloyd-Jones, Santificados mediante a verdade, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas (Certeza Espiritual, v. 3), 2006, p. 115.