Tentando pensar e viver como um Reformado: Reflexões de um estrangeiro residente – Parte 62

B. A Necessidade da “Fé Explícita” e a Educação

Por considerar que o conceito de “fé implícita” (fides implicita)[1] − presente na tradição teológica católica − não corresponde à natureza da fé cristã, Calvino rejeita tal formulação e sustenta que a verdadeira fé deve ser explícita, isto é, consciente, confessional e fundamentada na revelação divina.

Todavia, o reformador não ignora a realidade de nossa limitação espiritual e cognitiva. Reconhece que, como nem todos os mistérios foram plenamente revelados por Deus e em virtude de nossa incapacidade de apreender toda a profundidade da revelação, muitos aspectos daquilo em que cremos permanecem, nesta vida, em caráter implícito.

Assim, embora a fé cristã seja essencialmente clara e confessional, ela convive com a dimensão do não revelado, conduzindo o cristão à humildade diante do Deus que se dá a conhecer progressivamente.

Essa tensão entre o caráter explícito da fé e a dimensão implícita do mistério nos lembra que a fé não é mera posse intelectual de verdades, mas confiança viva no Senhor que se revela em sua Palavra e que nos chama a perseverar até que, na consumação escatológica, experimentemos plenamente a plenitude da revelação.

Depois de um extenso comentário, nos diz o reformador de Genebra:

Certamente não nego (de quanta ignorância somos cercados!) que muitas coisas agora são implícitas e obscuras a nós, e seguirão assim até que, deposta a massa da carne, tenhamos chegado mais perto da presença de Deus. Nada nos parece mais conveniente do que suspender nosso juízo sobre essas coisas, mas firmar o ânimo para manter a unidade da Igreja. [2]  Porém, com esse pretexto de manter a união adornar com o nome de fé à ignorância temperada com humildade, é o cúmulo do absurdo. A fé consiste no conhecimento de Deus e de Cristo [Jo 17.3], e não na reverência à Igreja.[3]

Em outro lugar, Calvino observa: “Que costume é esse de professar o evangelho sem saber o que ele significa? Para os papistas, que se deixam dominar pela fé implícita, tal coisa pode ser suficiente. Mas para os cristãos não existe fé onde não haja conhecimento.”[4]

Suas palavras evidenciam a necessidade urgente do ensino e do estudo constante das Escrituras, para que cada pessoa, responsável diante de Deus, possa posicionar-se de forma consciente perante Ele. A fé explícita se manifesta na vida da Igreja por meio da instrução fiel da Palavra. [5]

Calvino afirma ainda que afastar o povo da Escritura, mantendo-o na ignorância, constitui uma atitude anticristã e profundamente nociva: “Daqui se faz evidente que espécie de cristianismo existe dentro do papado, onde não só é a crassa ignorância exaltada em nome da simplicidade, mas também o povo é rigidamente proibido de buscar o real discernimento.” [6]

Ao mesmo tempo, lamenta que nem todos, mesmo tendo acesso, aproveitem esse privilégio supremo: o estudo das Escrituras. A Palavra de Deus, única norma do genuíno discernimento, é declarada como indispensável a todos os cristãos. Contudo, mesmo entre aqueles que já foram libertos de tão diabólica proibição e desfrutam da liberdade de aprender, há indiferença tanto em ouvir quanto em ler. Quando negligenciamos tal disciplina, tornamo-nos insensíveis e destituídos de discernimento espiritual.[7]

O princípio da fé explícita está também relacionado à produção das Confissões Reformadas, que buscaram expressar de modo claro e público o conteúdo da fé cristã. Todavia, esse tema ultrapassa o escopo destas anotações.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

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[1] Calvino denuncia o que chama de “espectro papista” (J. Calvino, Exposição de Romanos, São Paulo: Paracletos, 1997, (Rm 10.17), p. 375), bem como a “fé forjada e implícita inventada pelos papistas. Pois por fé implícita eles querem dizer algo destituído de toda luz da razão” (As Pastorais, São Paulo: Paracletos, 1998, (Tt 1.1), p. 299). Para ele, tal concepção “separa a fé da Palavra de Deus” (Exposição de Romanos, (Rm 10.17), p. 375). Cf. também Gálatas, São Paulo: Paracletos, 1998, (Gl 1.2), p. 25.

Na mesma linha, Johannes Wollebius observa: “A fé implícita que, com um cego assentimento, crê no que a igreja romana acredita não tem valor. A fé não pode existir sem o conhecimento” (Compêndio de Teologia Cristã, Eusébio, CE.: Peregrino, 2020, p. 240).

[2] Foi com este espírito que Calvino nos advertiu diversas vezes, conforme já citei parcialmente: “As cousas que o Senhor deixou recônditas em secreto não perscrutemos, as que pôs a descoberto não negligenciemos, para que não sejamos condenados ou de excessiva curiosidade, de uma parte, ou de ingratidão, de outra” (João Calvino, As Institutas, III.21.4). “Tudo o mais que pesa sobre nós e que devemos buscar é nada sabermos senão o que o Senhor quis revelar à Sua igreja. Eis o limite de nosso conhecimento” (João Calvino, Exposição de 2 Coríntios, São Paulo: Paracletos, 1995 (2Co 12.4), p. 242-243). “Nem nos envergonhemos em até este ponto submeter o entendimento à sabedoria imensa de Deus, que em Seus muitos arcanos sucumba. Pois, dessas cousas que nem é dado, nem é lícito saber, douta é a ignorância, a avidez de conhecimento, uma espécie de loucura” (As Institutas, III.23.8). “Que esta seja a nossa regra sacra: não procurar saber nada mais senão o que a Escritura nos ensina. Onde o Senhor fecha seus próprios lábios, que nós igualmente impeçamos nossas mentes de avançar sequer um passo a mais” (João Calvino, Exposição de Romanos, São Paulo: Paracletos, 1997, (Rm 9.14), p. 330). Vejam-se também: João Calvino, Romanos, 2. ed. São Paulo: Parakletos, 2001, (Rm 11.33), p. 426; As Pastorais, São Paulo: Paracletos, 1998 (Tt 2.1), p. 327; O Evangelho segundo João, São José dos Campos, SP.: Editora Fiel, 2015, v. 1, (Jo 3.12), p. 127; Sermões em Efésios, Brasília, DF.: Monergismo, 2009, p. 176, etc.

[3]João Calvino, As Institutas, (2022).III.2.3. (Veja-se também III.2.5ss).

[4]João Calvino, Gálatas, (Gl 1.2), p. 25.

[5]Comenta: “Pois a Escritura é a escola do Espírito Santo, na qual não se deixa de pôr coisa alguma necessária e útil de se conhecer, e também não se ensina nada mais além do que se precisa saber” (João Calvino, As Institutas, (2022), III.21.3).

[6]João Calvino, Exposição de Hebreus, (Hb 5.14), p. 143.

[7]Escreve: “A Palavra de Deus, a única norma do genuíno discernimento, a qual é aqui declarada como indispensável a todos os cristãos. Mesmo entre os que já foram libertados de tão diabólica proibição e que já desfrutam da liberdade de aprender, há, não obstante, indiferença tanto em ouvir quanto em ler. Quando negligenciamos tal disciplina, nos tornamos insensíveis e destituídos de todo e qualquer discernimento.” (João Calvino, Exposição de Hebreus, (Hb 5.14), p. 143).