O lugar do Saltério na piedade cristã reformada: centralidade e uso de outros cânticos na adoração (5)

5. A Reforma e os Salmos

 

A enxurrada de hinos protestantes que inundou a Europa juntamente com as primeiras crises da Reforma criou dificuldades incomuns para a Igreja Católica Romana. O canto congregacional estava associado ao protestantismo de maneira tão profunda e os protestantes foram tão eficazes na utilização dos hinos que alguns personagens importantes da Igreja Católica por breve tempo consideraram a proibição da música nas missas. – Mark Noll.[1]

Na Reforma Protestante, os hinos não foram meras expressões musicais: foram proclamações cantadas, profissões de fé em forma de melodia. Eram Catecismos em versos, doutrina em canto, esperança em harmonia.

Transformaram-se em veículos de ensino, de adoração, de testemunho público. Em meio às perseguições, aos debates teológicos ardentes, às mudanças sociais profundas, o canto congregacional oferecia ao povo uma porta aberta: um caminho acessível para viver e celebrar a fé reformada.

Cada voz, unida em coro, trazia os ingredientes de uma fé viva: alegrias e incertezas, sofrimentos e aprendizados, mas também o regozijo no Senhor que sustenta e consola. Assim, o hino não apenas ecoava nos templos, mas gravava no coração a certeza de que a fé podia ser cantada, partilhada, proclamada — e vivida.

Martinho Lutero (1483–1546) compreendeu o poder da música como linguagem universal. Seus hinos — como Castelo Forte é o nosso Deus (c. 1529) — não apenas transmitiam doutrina, mas fortaleciam corações em meio às adversidades. O canto coletivo unia a comunidade, moldava sua identidade espiritual, transcendia fronteiras e resistia às pressões externas.

 

O valor didático do Cântico

Para os Reformadores, os cânticos tinham um valor didático profundo: eram memórias cantadas, catecismos em melodia, instrumentos para fixar a Palavra de Deus no coração do povo (Dt 31.19).[2] E, porque a Escritura é a própria Palavra divina, cantá-la significava relembrar, guardar e viver seus ensinamentos.[3]

Assim, cada nota se tornava oração, cada verso, testemunho, cada hino, um eco da fé reformada que se erguia contra o tempo, gravando no espírito a certeza de que a verdade podia ser cantada — e, ao ser cantada, permanecia viva.

Calvino não ignorava o poder da música. Ele conhecia bem, inclusive, a posição de pensadores pagãos, que já reconheciam na arte sonora uma força capaz de moldar o coração humano.

Para Calvino, o canto não era mero ornamento litúrgico, mas instrumento de disciplina espiritual, um meio de conduzir a mente e o afeto à reverência diante de Deus. A música, quando unida à Palavra, tornava-se veículo de ensino, de edificação e de comunhão, capaz de ordenar os sentimentos e elevar a alma ao Criador.

 

Beleza e formação

Assim, o Reformador via na música não apenas beleza, mas também poder formativo: um dom que, santificado pela Escritura, servia para gravar no coração dos fiéis a verdade que liberta e transforma.

Todos sabemos pela própria experiência, quão tremendo é o poder da música para agitar as emoções do ser humano; como corretamente ensina Platão, dizendo que, de uma forma ou outra, a música é da maior importância para moldar o caráter moral do Estado.[4]

O canto tem também uma relação direta com a nossa experiência religiosa, não estando relacionado simplesmente a momentos de lazer e entretenimento. O cantar além de refletir a nossa fé – por se amparar o seu conteúdo na Palavra –, tem também uma conotação de lembrete e estímulo espiritual, mesmo para aquele que canta; é como o “falar entre vós com salmos”, recomendado por Paulo (Ef 5.19).

Comentando o Salmo 13, quando Davi, em meio a grande aflição, conclui dizendo: “Cantarei ao Senhor, porquanto me tem feito muito bem”, Calvino observa: “Davi, ao apressar-se com prontidão de alma a cantar os benefícios divinos, mesmo antes que os houvesse recebido, coloca o livramento, que aparentemente estava então distante, imediatamente diante de seus olhos”.[5]

A fé que se expressa em cântico fortalece-se pelo próprio conteúdo que brota da Palavra de Deus. Esse canto não apenas edifica quem o entoa, mas também contagia os fiéis ao redor e testemunha a respeito do Deus que sustenta e renova a confiança em todas as circunstâncias.

 

O cântico de salmos

Calvino também adotou o cântico dos Salmos, convencido de que somente a Palavra de Deus era digna de ser entoada. No Prefácio do Saltério Genebrino, ele explicita os fundamentos dessa prática:

Os salmos nos incitam a louvar a Deus, orar a Ele, meditar nas Suas obras a fim de que O amemos, temamos, honremos e O glorifiquemos. O que Santo Agostinho diz é totalmente verdade; a pessoa não pode cantar nada mais digno de Deus do que aquilo que recebemos dele.[6]

Para Calvino, o canto não era adorno litúrgico, mas disciplina espiritual: um caminho que conduzia mente e afeto à reverência diante de Deus. Unida à Palavra, a música tornava-se ensino, edificação e comunhão, ordenando os sentimentos e elevando a alma ao Criador.

Nesse testemunho, ressoa o princípio da inspiração bíblica: os Salmos, procedentes do Espírito Santo, são o repertório mais adequado ao culto cristão. Assim, o cântico não é mero ornamento, mas a própria Palavra inspirada, transformada em oração e em louvor comunitário, onde a fé se faz melodia e a verdade se grava no coração.

Se essa ideia fosse tomada ao pé da letra, concluiríamos que a pregação cristã deveria limitar-se à simples leitura do texto sagrado. Qualquer esforço de interpretação ou aplicação da mensagem aos diferentes contextos poderia ser visto como infidelidade à Palavra — ainda que transmitisse com rigor o ensino bíblico.

A resposta de Calvino e da Reforma foi clara: a pregação é, ao mesmo tempo, exposição fiel e aplicação contextual da Palavra. O pregador não cria a mensagem, mas a transmite; não inventa o conteúdo, mas o interpreta à luz da inspiração divina. O cântico dos Salmos expressa a voz da Igreja em consonância com o Espírito. A pregação, por sua vez, traduz a Palavra eterna em linguagem viva para a comunidade. Nesse equilíbrio entre fidelidade e aplicação repousa a dignidade da pregação: instituição eclesial sustentada pelo Deus Trino, Autor da Palavra proclamada e cantada.”

 

O cântico Congregacional

O cântico congregacional – que como tudo o mais deve ser acompanhado do verdadeiro afeto do coração[7] –, tornou-se uma parte importante na liturgia de Calvino.[8] Com o passar do tempo, o cântico a quatro vozes era utilizado no culto,[9] todavia, enfatizou o cântico congregacional.

 

O uso de instrumentos musicais

Ainda que Calvino fosse apreciador da harpa,[10] os cânticos eram como na sinagoga, sem acompanhamento instrumental.[11] Calvino entendia que algumas práticas do Antigo Testamento faziam parte da infância espiritual do povo;[12] entre elas, inclui o uso de instrumentos no culto:[13]

Os levitas, sob a lei, eram justificados ao fazer uso de música instrumental no culto divino. […] Seu intuito era treinar seu povo, enquanto eram ainda imaturos e semelhantes a crianças, necessitando de tais rudimentos, até a vinda de Cristo.[14] Mas então, quando a lídima luz do evangelho já dissipou as sombras da lei, e já nos ensinou que Deus deve ser servido numa forma mais simples, estaremos agindo como tolos e equivocados imitando aquilo que o profeta ordenou somente aos de seu próprio tempo.[15]

Calvino via os instrumentos musicais como auxílios pedagógicos para o povo de Israel em sua infância espiritual. Com a vinda de Cristo, tais sombras foram superadas pela luz do Evangelho. Por isso, o culto cristão deve ser marcado pela simplicidade e pelo canto congregacional dos Salmos, não por pompa cerimonial ou deleite estético. O louvor verdadeiro é espiritual, brota do coração e se ancora na Palavra.[16]

 

Maringá, 08 de Julho de 2026.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


 
 

[1]Mark A. Noll, Momentos Decisivos na História do Cristianismo, São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2000, p. 206.

[2] Ver: John A. Hughes, Por que Educação Cristã e não Doutrinação Secular?: In: John MacArthur, ed. ger. Pense Biblicamente!: recuperando a visão cristã do mundo, São Paulo: Hagnos, 2005, [p. 365-395], p. 389.

[3] Vejam-se: João Calvino, As Institutas, III.20.28,31,32; Confissão de Westminster, 21.5; Segunda Confissão Helvética, XXIII, § 5.221. Também a Confissão Luterana: Confissão de Augsburgo (1530), XXIV. Vejam-se: Felipe Fernández-Armesto; Derek Wilson, Reforma: O Cristianismo e o Mundo 1500-2000, Rio de Janeiro: Record, 1997, p. 163-164 e Hughes Oliphant Old, Worship: That Is Reformed According to Scripture, Atlanta: John Knox Press, 1984, p. 52-53.

[4]João Calvino, Exposição de 1 Coríntios, São Paulo: Paracletos, 1996, [1Co 14.7], p. 414. Veja-se por exemplo: Platão, A República, 424b e ss. p. 168-170.

[5] João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Paracletos, 1999, [Sl 13.6], v. 1, p. 269.

[6]In: Herman J. Selderhuis, ed., Calvini Opera Database 1.0. Netherlands: Instituut voor Reformatieonderzoek, 2005, v. 6, col. 171-172.

[7]Cf. João Calvino, As Institutas da Religião Cristã: edição especial com notas para estudo e pesquisa, São Paulo: Cultura Cristã, 2006, v. 3, (III.9), p. 113. “Visto que não é suficiente que pronunciemos os louvores a Deus com nossos lábios, se também não procederem do coração” (João Calvino, O livro dos Salmos, São Paulo: Paracletos, 1999 v. 1 [Sl 9.14], p. 195).

[8]Veja-se: As Institutas, III.20.31-32. Antes de Calvino ser persuadido a permanecer em Genebra (1536), a desafiante reforma em processo, feita pelo destemido Farel (1489-1565), além de limpar o templo de resquícios católicos, “tudo o que fez quanto à execução do culto divino foi musicar o Credo Apostólico e os Dez Mandamentos, e mandar cantá-los pela congregação. […] Mas, até o momento, nem um livro de hinos, nem liturgia ajudavam as devoções dos fiéis” (Charles W. Baird, A Liturgia Reformada: Ensaio histórico, Santa Bárbara D’Oeste, SP.: SOCEP., 2001, p. 20). Veja-se também a p. 26-27.

A chamada Disputa de Rive, ocorrida em 1535, foi um dos marcos decisivos da Reforma em Genebra. Convocada pelo Conselho da cidade, reuniu pregadores reformados — entre eles Guillaume Farel — e representantes católicos, para discutir publicamente temas centrais da fé cristã. Os pontos debatidos incluíram a autoridade da Escritura em contraste com a tradição da Igreja, a natureza da missa e da Ceia do Senhor, o uso de imagens no culto e a doutrina da salvação. Farel e seus companheiros defenderam que somente a Escritura deveria ser regra de fé, que a Ceia era memorial e comunhão espiritual, que o uso de imagens constituía idolatria e que a salvação se dava pela fé em Cristo. Os católicos, por sua vez, sustentaram a transubstanciação, o caráter sacrificial da missa, o valor pedagógico das imagens e a necessidade das obras e dos sacramentos. O resultado foi a vitória dos reformados, que convenceram o Conselho a apoiar oficialmente a Reforma, preparando o terreno para a chegada de João Calvino em 1536 e para a reorganização do culto em torno da Palavra e da oração.

Embora o Saltério de Genebra só viesse a ser desenvolvido posteriormente (primeiras edições em 1539 e versão completa em 1562), a Disputa de Rive abriu espaço para uma nova prática litúrgica. Farel já defendia o canto dos Salmos como oração bíblica e comunitária, em oposição aos cânticos latinos da missa. Para ele, o canto deveria ser simples, congregacional e fundamentado na Escritura, funcionando como instrumento pedagógico para ensinar e memorizar a Palavra de Deus.  (Cf. Théophile Dufour,  (éd.). Résumé des actes de la dispute de Rive (1535), Genève:  Alfred Cherbuliez & Cº  Libraires, 1885).

Essa posição foi decisiva para que, anos depois, Calvino sistematizasse e organizasse o Saltério de Genebra, tornando o canto dos Salmos a marca musical da Reforma. Assim, a Disputa de Rive não discutiu diretamente o Saltério, mas foi o terreno teológico e político que permitiu sua criação, e a defesa de Farel pelo canto bíblico preparou o caminho para que o Saltério se tornasse símbolo da identidade reformada em Genebra.

[9]Cf. John H. Leith, A Tradição Reformada: Uma maneira de ser a comunidade cristã, p. 337 seguindo aqui as conclusões de Doumergue. Contraste esta informação com o próprio conceito de Calvino, As Institutas, III.20.32.

[10]Ver: John Calvin, Calvin’s Commentaries, Grand Rapids, Michigan: Baker Book House Company, 1996 (Reprinted), v. 1, [Gn 4.20], p. 217-218; João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Parakletos, 2002, v. 3, [Sl 92.3], p. 461; Vicente Temudo Lessa, Calvino 1509-1564: Sua Vida e Obra, São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, [s.d.], p. 118. No século XVI, inclusive, as harpas eram bastante utilizadas em música sacra (Cf. Stanley Sade, ed. Dicionário Grove de Música: Edição concisa, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editores, 1994, “Harpa”, p. 409-411).

[11] W. Stanford Reid, El Culto Reformado: In: R. G. Turnbull, ed. ger. Diccionario de la Teología Práctica, Grand Rapids, Michigan: SLC., 1977, p. 42. Lembremo-nos de que a música estava subordinada à Palavra e que o órgão era usado no século XVI com “propósitos não litúrgicos” (John H. Leith, A Tradição Reformada: Uma maneira de ser a comunidade cristã, p. 336). Esta prática não era nova. Nos primeiros séculos da Era Cristã já havia resistência em setores da Igreja quanto ao seu emprego litúrgico (Veja-se: Bruce K; Waltke; James M. Houston, Os Salmos como Louvor Cristão, São Paulo: Shedd Publicações, 2020, p. 202-204.

[12] Veja-se também: João Calvino, O Livro dos Salmos, v. 1, [Sl 24.7], p. 533.

[13]Como este tema não constitui o foco imediato da minha pesquisa, apresento esta nota que, de modo conciso, resgata aspectos relevantes já mencionados e que podem servir de estímulo para estudos mais aprofundados do que os que aqui proponho.

Desde os primeiros séculos, a Igreja cristã enfrentou tensões quanto ao lugar da música no culto. Clemente de Alexandria (150–215 d.C.), em obras como Exhortation to the Heathen, criticava duramente o uso profano dos instrumentos e das melodias associadas à embriaguez, à dança e à sensualidade — práticas comuns nos cultos pagãos. Para ele, a verdadeira música do cristão era o “Novo Cântico”, isto é, Cristo, e o cântico dos Salmos, expressão da inspiração divina e da santidade da vida comunitária. Sua posição não representava uma rejeição absoluta da música, mas a defesa de sua purificação e santificação, subordinando-a ao louvor do Deus Trino (In: Alexander Roberts; James Donaldson, eds. Ante-Nicene Fathers, 2. ed. Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, (reprinted), v. 2, 1995).

Tertuliano (c. 160–220 d.C.) em De Spectaculis (In: Alexander Roberts; James Donaldson, eds. Ante-Nicene Fathers, 2. ed. Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, (reprinted), v. 3, 1995), denuncia os espetáculos públicos romanos — corridas, combates de gladiadores, teatro e festivais musicais — como práticas idolátricas e moralmente corruptoras. Participar desses eventos significava compactuar com a idolatria e com vícios como violência, luxúria e embriaguez. O cristão deveria distinguir-se do mundo, evitando qualquer forma de entretenimento que comprometesse sua santidade. Em contraste, Tertuliano apresenta a vida cristã como o “verdadeiro espetáculo”: a luta contra o pecado, o testemunho da fé e, sobretudo, o martírio, visto como a arena espiritual autêntica do discípulo de Cristo. Nesse contexto, advertiu contra a música que evocava práticas idólatras, insistindo que o cântico cristão fosse distinto do mundo e marcado pela sobriedade.

Basílio de Cesareia (c. 330–379 d.C.), em suas treze homilias consideradas autênticas (Homiliae in Psalmos), valorizou o canto dos Salmos como prática comunitária que unia a Igreja em oração e instrução espiritual. Na Homilia sobre o Salmo 1, escreveu: “O livro dos Salmos reúne o que é mais útil em todos os outros, prediz o futuro, recorda o passado, estabelece as leis da vida, ensina-nos os nossos deveres — em uma palavra, é um tesouro completo de instruções excelentes” (Johannes Quasten, Patrologia: A era de ouro da literatura patrística grega: do concílio de Niceia ao Concílio e Calcedônia, Rio de Janeiro: Editora  Centro Dom Bosco, 2023, v. 3, p. 338).

João Crisóstomo (c. 349–407 d.C.), em suas Homiliae in Psalmos e Homiliae in Matthaeum, via no canto congregacional uma forma de catequese e disciplina espiritual, capaz de moldar o coração dos fiéis. Já Agostinho (354–430 d.C.), como temos demonstrado, nas Confissões (X, 33–34), embora reconhecesse o poder espiritual do canto, manifestava cautela diante de seu potencial de despertar emoções excessivas, defendendo que a música deveria sempre servir à edificação e não ao mero deleite estético.

No que diz respeito ao cântico dos Salmos, é evidente que este ocupava posição central na liturgia e na espiritualidade cristã primitiva. Contudo, não era absolutamente exclusivo: já nos primeiros séculos, além dos Salmos, a Igreja também cantava hinos cristológicos e doxológicos (cf. Ef 5.19; Cl 3.16), muitos deles compostos especificamente para o culto, exaltando Cristo como o “Novo Cântico”. Agostinho testemunha em suas Confissões como se emocionava ao ouvir hinos e cânticos espirituais que iam além dos Salmos, mas sempre subordinados ao conteúdo bíblico e à edificação da fé.

A tensão entre salmodia exclusiva e novos cânticos acompanhou a Igreja por séculos. Na Idade Média, culminou no canto gregoriano, que manteve os Salmos como base, mas acrescentou antífonas, responsórios e hinos próprios.  (Cf. Willi Apel, Gregorian Chant, Bloomington: Indiana University Press, 1958, [Reprinted] 1990). A partir do século IX, com o surgimento da polifonia (organum), a Igreja ampliou ainda mais o repertório musical, sem abandonar a centralidade dos Salmos, mas reconhecendo a legitimidade de outras composições litúrgicas. Richard H. Hoppin (Medieval Music, New York: W.W. Norton, 1978) vê o uso dos Salmos e do canto litúrgico como o alicerce da música medieval, considerando o canto gregoriano — especialmente a salmodia — a matriz espiritual e musical da Idade Média, da qual se desenvolveram tanto a música sacra quanto a secular. Comparativamente, Bernard McGinn (The Foundations of Mysticism: Origins to the Fifth Century, 1991) entende que o uso dos Salmos entre os primeiros cristãos foi decisivo para moldar a espiritualidade e a mística da Igreja, funcionando como porta de entrada para a experiência da presença de Deus. Ele mostra que o cântico dos Salmos foi a espinha dorsal da espiritualidade cristã, mas que a tradição mística sempre buscou novas formas de expressão musical e poética para traduzir a experiência da fé. Calvin R. Stapert (A New Song for an Old World: Musical Thought in the Early Church, Grand Rapids: Eerdmans, 2007), interpreta essa tradição como um chamado permanente para que a Igreja cante não para entreter, mas para proclamar a Palavra e viver a “Nova Canção” em fidelidade ao Deus Trino. Ao traçar paralelos entre as culturas pagãs da Antiguidade e os dilemas contemporâneos, Stapert mostra que os primeiros cristãos estabeleceram um paradigma que continua relevante: distinguir entre música como espetáculo e música como louvor, assegurando que o cântico seja sempre expressão da fé e meio de edificação espiritual. A obra de Joseph Waddell Clokey, (David’s Harp in Song and Story, Pittsburgh: United Presbyterian Board of Publications, 1896), ainda que não se preocupe com o aspecto  documental, é fascinante da riqueza de informações sobre o uso do Saltério em diversas cidades que aderiram à teologia reformada.

[14]Calvino reconhecia que os instrumentos foram usados no Antigo Testamento como estímulos pedagógicos para um povo ainda imaturo na fé. Em Cristo, porém, tais sombras foram superadas pela simplicidade do Evangelho. (Cf. João Calvino, O Profeta Daniel: 1-6, v. 1, [Dn 3.2-7], p. 193-194).  Vejam-se também: João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Paracletos, 1999, v. 2, [Sl 33.2]. p. 56-58; João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Parakletos, 2002, v. 3, [Sl  71.22], p. 65.

[15]João Calvino, O Livro dos Salmos, v. 3, [Sl 81.2], p. 278. Do mesmo modo, ver: John Calvin, Calvin’s Commentaries, Grand Rapids, Michigan: Baker Book House Company, 1996 (Reprinted), v. 2, [Ex 15.20], p. 262-263.

[16]João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Parakletos, 2002, v. 3, [Sl 92.3], p. 461-462;  João Calvino, O Profeta Daniel: 1-6, São Paulo: Parakletos, 2000, v. 1, [Dn 3.2-7], p. 193-194; João Calvino. “Sermões sobre 2 Samuel”: In: Timothy George, org. Reformation Commentary on Scripture. Old Testament V: 1-2 Samuel, 1-2 Kings, 1-2 Chronicles, Downers Grove, IL.: InterVarsity Press, 2016, p. 167. Veja-se também, a página 170. (Devo essa referência ao Rev. Mauro Filgueiras Filho em correspondência privada); João Calvino, Exposição de Hebreus, São Paulo: Paracletos, 1997, [Hb 10.5], p. 257