O Seminário e a formação de Pastores – Parte 3

Reflexões históricas e teológicas (3)

(A propósito do dia dos Seminários e Seminaristas da IPB)

2. O perigo de uma teologia divorciada da Igreja

Com a falsa pressuposição de que a teologia que nega as Escrituras é uma teologia acadêmica e relevante, hoje, lamentavelmente podemos falar de uma teologia acadêmica irrelevante. Irrelevante porque, na realidade, não é acadêmica.

O nome acadêmico não pode servir apenas como abrigo para uma casta de pensadores que só pensam em si mesmos enquanto são alimentados pela Igreja. A academia, portanto – que não pode ter como fim a si mesma, olhando apenas para o seu umbigo – deveria ser entendida como serva da Igreja, lugar de estudos sérios e profundos, feitos por homens e mulheres comprometidos com a Revelação de Deus, desejosos de compreender melhor a Palavra para poder vivenciá-la e ensiná-la com maior precisão, riqueza, submissão e unção.

A erudição bíblica não pode ser estéril, porque de fato, o conhecimento de Deus é frutuoso.[1] Almejamos uma mente cheia de conhecimento a serviço de um coração devoto.[2] A alegria de quem ensina não se limita a ver seus discípulos discutindo com suposta destreza sobre assuntos teológicos mas, caminhando da verdade aprendida (3Jo 4; Fp 4.1).

 

Superficialidade como sinônimo de infidelidade

É necessário que entendamos que Infidelidade não consiste apenas em ensinar heresia, mas, também, em não conduzir o povo de forma humilde e responsável à plenitude da revelação bíblica. Nesse sentido, talvez muitos de nós tenhamos que confessar a Deus que temos sido infiéis, suplicando o seu perdão.

Ainda que não partilhemos de muitos aspectos da teologia de Barth (1886-1968)  e principalmente Tillich (1886-1965), nesse particular podemos acompanhá-los:

O sujeito da dogmática é a Igreja cristã. O sujeito de uma ciência não pode ser outro senão aquele que mantém, com o objeto e a atividade considerados, relações de presença e de familiaridade. Não é, portanto, uma redução lamentavelmente limitativa que impomos à dogmática enquanto ciência quando afirmamos: o sujeito de tal ciência é a Igreja. A Igreja é o lugar, a comunidade à qual são confiados o objeto e a atividade próprios da dogmática, isto é, a pregação do Evangelho. Quando dizemos que a Igreja é o sujeito da dogmática, entendemos que desde o instante em que alguém se ocupe de dogmática, seja para aprendê-la, seja para ensiná-la, esse alguém se encontra dentro do ambiente da Igreja. Aquele que queira fazer dogmática, colocando-se conscientemente fora da Igreja, deve esperar que o objeto da dogmática lhe permaneça estranho, e de maneira nenhuma se surpreender ao ficar perdido logo nos primeiros passos, ou ao parecer um destruidor.[3]

A teologia, como função da igreja cristã, deve servir às necessidades desta igreja. Um sistema teológico deve satisfazer duas necessidades básicas: a afirmação da verdade da mensagem cristã e a interpretação desta verdade para cada nova geração. A teologia oscila entre dois polos: a verdade eterna de seu fundamento e a situação temporal em que esta verdade eterna deve ser recebida.[4]

 

Teólogo sem igreja?

É triste e preocupante perceber que em grau cada vez mais elevado, deparamo-nos com teólogos que já iniciam a sua vida acadêmica abandonando a igreja local, distanciando-se do povo de Deus e, para agravar a situação, perfeitamente compreensível, não conseguem produzir nada de útil à igreja que os sustentam ou sustentaram

A atitude, aparentemente, inofensiva de deixar a igreja local é a causa da degringolada espiritual e intelectual. De modo surpreso, li posteriormente a declaração de Piper, fruto de sua experiência pessoal: “Separar-se de uma igreja local com um senso de autossuficiência é, a longo prazo, suicídio”.[5]

A igreja local “humaniza” o teólogo. É no contato com o povo de Deus, com os seus sonhos, necessidades, angústias e o compartilhar da fé, que somos trazidos à realidade concreta da cotidianidade de nossos irmãos, pessoas reais, e, muitas vezes, redirecionamos as nossas pesquisas, reavaliamos as nossas prioridades e crescemos em nossa fé.

É extremamente perigoso e sufocante falar de uma fé à qual não mais cultivamos porque fomos convencidos à moda iluminista de nossa maioridade intelectual. A separação entre academia e igreja é nociva porque os acadêmicos tenderão a murchar por falta de oxigênio espiritual, as suas pesquisas sintomaticamente diminuirão e, num processo de deterioração, tenderão a trazer consigo o gosto amargo de uma objetividade não objetiva por não levar Deus em consideração porque, na realidade, ele deixou de ser considerado em sua vida e, consequentemente, em seu labor.

O homem é um ser integral envolvendo o intelecto e o seu coração. A pesquisa não pode, porque na realidade é impossível, fraccionar subjetivamente o pesquisador, assim como é impossível separar objetivamente a realidade que envolve Deus e o mundo criado e sustentado por Ele, como bem escreveu Bavinck (1854-1921):

O homem que se dedica à ciência não pode se dividir em duas metades, separando sua fé de seu conhecimento; mesmo em suas investigações científicas, ele continua sendo um homem – não um ser puramente intelectual, mas uma pessoa com um coração, com afeições e emoções, com sentimento e vontade.[6]

A piedade para tudo é proveitosa. Ela deve nos acompanhar em nossas pesquisas.

A Igreja por sua vez que, que em geral financiou ou financia tais estudiosos, não terá a oportunidade de continuar contribuindo em sua formação e lapidação espiritual, bem como será privada de, em grande parte, poder usufruir dos frutos do amadurecimento de suas pesquisas e do compartilhar da fé deste irmão. Contudo, nessa dissociação indesejada, quem mais perderá é, sem dúvida, o acadêmico.

Posteriormente, li algo nesta mesma linha de pensamento escrito por um professor de Teologia Sistemática vivendo em outro contexto: “Uma coisa que me preocupa nos estudos teológicos é a tentação de fazer divisões exageradamente fortes: entre academia e igreja, entre teologia e vida, entre verdade e amor”.[7]

O desejo de reconhecimento acadêmico pode se tornar um grande empecilho para nós. É possível que desejemos tanto a respeitabilidade de nossos colegas que, talvez, sem perceber, sacrifiquemos a nossa lealdade ao Senhor, a quem devemos glorificar em nossas pesquisas como nas demais esferas de nossa vida. É preciso uma séria atenção para este perigo.

A teologia, por sua vez, que termina em si mesma, tenderá a nos afastar da pureza e simplicidade do Evangelho, tornando-nos arrogantes e presunçosos.[8] A igreja, de fato, é a “escola de Deus”[9] para todos, inclusive para o teólogo. Parece-me pertinente a constatação de Veith: “Os cristãos, não importa quão intelectualmente sofisticados eles possam ser, devem se submeter à disciplina e à comunhão de uma congregação local e, ao fazer isso, eles encontrarão um fundamento espiritual precioso”.[10]

Deixe-me voltar ao velho Calvino:

Também hoje, quando definimos a verdadeira teologia, faz-se plenamente evidente que nós é que desejamos restaurar algo que foi miseravelmente mutilado e desfigurado por esses homens frívolos que se incham ante o fútil título de teólogos, mas que nada oferecem senão ninharias degeneradas e inexpressivas.[11]

 

 

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

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[1] “O propósito da verdade de Deus colocada nas mentes do Seu povo é que, ao compreendê-las, eles venham a conhecer o seu efeito na própria experiência pessoal” (Albert N. Martin, As Implicações Práticas do Calvinismo, São Paulo: Os Puritanos, 2001, p. 9).

[2]Veja o perigo da antítese disso descrito por Bavinck. (Herman Bavinck, Teologia Sistemática, Santa Bárbara d’Oeste, SP.: SOCEP., 2001, p. 21).

[3] Karl Barth, Esboço de uma Dogmática, São Paulo: Fonte Editorial, 2006, p. 8.

[4] Paul Tillich, Teologia Sistemática, São Paulo; São Leopoldo, RS.: Paulinas; Sinodal, (1984), p. 13.

[5]John Piper; D.A Carson, O Pastor Mestre e O Mestre Pastor, São José dos Campos, SP.: Fiel, 2011, p. 42.

[6] Herman Bavinck, Filosofia da Revelação, Brasília, DF.: Monergismo, 2019, p. 129-130. “O esforço acadêmico puramente objetivo, na verdade, não existe” (Iain Provan; V. Philips Long; Tremper Longman III, Uma história bíblica de Israel, São Paulo: Vida Nova, 2016, p. 68).

[7] Kelly M. Kapic, Pequeno livro para novos teólogos, São Paulo: Cultura Cristã, 2014, p. 9.

[8] Veja-se: J.I. Packer, O Conhecimento de Deus, 3. ed. São Paulo: Mundo Cristão, 1987, p. 13.

[9]João Calvino, As Pastorais, (1Tm 5.7), p.136.

[10]Gene Edward Veith, Jr., De todo o teu entendimento, São Paulo: Cultura Cristã, 2006, p. 95.

[11]João Calvino, As Pastorais, (1Tm 1.4), p. 31-32.

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