Tentando pensar e viver como um Reformado: Reflexões de um estrangeiro residente – Parte 27

5) Uma Compreensão Reformada das Escrituras: Confissão de Westminster  (Continuação)

 

D) Autoridade para nos conduzir a Deus

 

“Ainda que a luz da natureza e as obras da criação e da providência manifestam de tal modo a bondade, a sabedoria e o  poder de Deus, que os homens ficam inescusáveis, todavia não são suficientes para dar aquele conhecimento de Deus e de sua vontade, necessário à salvação; por isso foi o Senhor servido, em diversos tempos e diferentes modos, revelar-se e declarar à sua Igreja aquela sua vontade (…) foi igualmente servido fazê-la escrever toda” (CW., I.1).

“A própria luz da natureza no homem, e as obras de Deus, claramente testificam que existe um Deus; porém, só a        sua Palavra e o seu Espírito o revelam de um modo suficiente       e eficaz, aos homens, para a sua salvação” (Catecismo Maior, Pergunta 2).

Nós Reformados entendemos que sem as Escrituras, não podemos ter um conhecimento correto e salvador de Jesus Cristo (Jo 5.39/Rm 10.17), como bem observou Calvino (1509-1564): “Ora, já que, em razão de sua obtusidade, de modo nenhum pode a mente humana chegar até Deus, salvo se assistida e sustentada por Sua Sagrada Palavra”.[1]

Todavia, também sabemos que este conhecimento não deve ter um fim em si mesmo; a revelação foi-nos dada a fim de que fossemos conduzidos ao Deus da revelação (Jo 5.39-40), adorando-O na liberdade do Espírito e nos parâmetros da Palavra.[2] Sem as Escrituras, Cristo não pode ser conhecido salvadoramente. O conhecimento de Cristo deve implicar sempre na sua adoração. “O culto é a essência e o coroamento da atividade cristã”, resume Moule (1908-2007).[3]

 

 

E) Autoridade para julgar a nossa Teologia

 

“O Velho Testamento em Hebraico (…) e o Novo Testamento em Grego (…) sendo inspirados imediatamente por Deus, e pelo seu singular cuidado e providência conservados puros em todos os séculos, são, por isso, autênticos, e assim em todas as controvérsias religiosas a Igreja deve apelar para eles como para um supremo tribunal….” (CW., I.8).

“O Juiz Supremo, em cuja sentença nos devemos firmar, não pode ser outro senão o Espírito Santo falando na Escritura” (CW., I.10).

Para nós Reformados o valor da teologia estará sempre subordinado à sua fidelidade bíblica. Por isso é que reafirmamos que, a Teologia ou é Bíblica ou não é Teologia.[4] Não julgamos a Bíblia; antes, é Ela que deve julgar a veracidade do nosso sistema: O Espírito falando por meio da Palavra, é o fogo depurador da genuína Teologia.[5] A nossa doutrina estará de pé ou cairá à medida que for ou não bíblica. A vivacidade da Teologia Reformada está em sua preocupação em ser fiel às Escrituras.

 

F) Autoridade completa

“Todo o conselho de Deus concernente a todas as coisas necessárias para a glória dele e para a salvação, fé e vida do homem, ou é expressamente declarado na Escritura ou pode ser lógica e claramente deduzido dela” (CW., I.6).

A Escritura é a revelação completa de Deus. Tudo o que Deus quer que saibamos a respeito da nossa salvação está registrado de forma explícita (CW. 1.7). As demais verdades reveladas, “que precisam ser obedecidas, cridas e observadas para a salvação” podem ser compreendidas por intermédio de uma interpretação lógica, amparada no conjunto dos ensinamentos bíblicos (CW., I.6).

 

G) Autoridade escrita final

“À Escritura nada se acrescentará em tempo algum, nem por novas revelações do Espírito, nem por tradições dos homens….” (CW., I.6).

Entendemos que nos 66 Livros canônicos encontra-se a Revelação Escrita de Deus, registrada de forma inerrante. À Bíblia, não se fará nenhum acréscimo, correção ou eliminação (Dt 4.2;12.32; Mt 5.18; Ap 22.18,19). Ela é a palavra final de Deus, no que se refere à Sua vontade para nós: A Revelação é completa – atingindo tudo o que Deus deseja –, e final: permanece para sempre.

O que afirmamos, exclui obviamente, a aceitação dos apócrifos (CW. I.3), as supostas revelações complementares,[6] as interpretações “oficiais” (CW., I.4) e a tradição verbal ou escrita (como no caso da igreja romana).[7]

O nosso sistema doutrinário deve permanecer sempre aberto a uma volta, a um reestudo das Escrituras.  Por isso, o critério último de análise, será sempre “O Espírito Santo falando na Escritura” (CW. 1.10).[8]

 

G. A Igreja sob as Escrituras

É insustentável e ilícito introduzir no governo e no culto da igreja qualquer coisa que não tenha a sanção positiva das Escrituras. – William Cunningham (1805-1861).[9]

Além de promover a pregação clara do evangelho, a Reforma moldou a sociedade como um todo, inclusive o governo, a cosmovisão das pessoas e a cultura em todas as suas manifestações. – Francis A. Schaeffer.[10]

Como decorrência lógica do que tratamos no capítulo anterior,       não é a Igreja que autentica  a Palavra por sua interpretação,[11] como a igreja romana sustentou em diversas ocasiões.[12]  “Um testemunho humano falível (como o da igreja) não pode moldar o fundamento da divina fé”, conclui Turretini (1623-1687).[13]

Calvino sempre manifestou um alto apreço pelas Escrituras. Elas são “A Palavra pura de Deus”,[14] a “Sagrada Palavra de Deus”,[15] “Santa Palavra”,[16] “Palavra da verdade”,[17] “Palavra de Vida”,[18] Infalível,[19] que tem “segura credibilidade”:[20]é íntegra.[21] Por isso ela é a “Norma da fé”.[22] “Infalível norma de sua sacra vontade”.[23]

Essa Palavra, portanto, antecede à Igreja: “Se o fundamento da Igreja é a doutrina profética e apostólica, impõe-se a esta haver assistido certeza própria antes que aquela começasse a existir”, conclui Calvino.[24]

É a Bíblia que se autentica a si mesma como Palavra autoritativa de Deus[25] e, é Ele mesmo quem nos ilumina para que possamos interpretá-la corretamente (Sl 119.18). “A carne não é capaz de tão alta sabedoria como é compreender a Deus e o que a Deus pertence, sem ser iluminada pelo Espírito Santo”, afirma Calvino.[26] Por isso, o Espírito não pode ser separado da Palavra.[27]

Somente pela operação divina poderemos reconhecer a sua origem divina, bem como compreendê-la salvadoramente.[28] Portanto, a pretensão da igreja de subordinar a autoridade da Bíblia ao seu arbítrio consiste numa “blasfêmia”: “É chocante blasfêmia afirmar que a Palavra de Deus é falível até que obtenha da parte dos homens uma certeza emprestada”.[29] Em outro lugar: “A Palavra do Senhor é semente frutífera por sua própria natureza”.[30]

Na Confissão Gaulesa (1559), no Capítulo IV lemos:  “Nós sabemos que esses livros [das Escrituras] são canônicos, e a regra segura de nossa fé (Sl 19.9; 12.7), não tanto pelo comum acordo e consentimento da Igreja quanto pelo testemunho e persuasão interior do Espírito Santo”.

 

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

________________________________

[1] J. Calvino, As Institutas, I.6.4. “A comunicação divina é a base fundamental da fé cristã” (D. Martyn Lloyd-Jones, O Combate Cristão, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1991, p. 24).

[2] Vejam-se: Hermisten M.P. Costa, Teologia do Culto, São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1987, p. 27; J. Calvino, As Institutas, I.12.1. O filósofo Sócrates (469-399 a.C.), faz uma pergunta que permanece relevante em nossos dias: “Haverá culto mais sublime e piedoso que o que prescreve a própria divindade?” (Xenofonte, Ditos e Feitos Memoráveis de Sócrates, São Paulo: Abril Cultural, (Os Pensadores, v. 2), 1972, IV.3.16. p. 149).

[3] C.F.D. Moule, As Origens do Novo Testamento, São Paulo: Paulinas, 1979, p. 45. (Vejam-se também, Boanerges Ribeiro, O Senhor que Se Fez Servo, São Paulo: O Semeador, 1989, p. 47; J. Calvino, Catecismo de la Iglesia de Ginebra, pergunta 6: In: Catecismos de la Iglesia Reformada, Buenos Aires: La Aurora, 1962.

[4] O. Michel, escreveu: “Toda teologia genuína é a batalha contra o teologismo, a teorização, e contra a tentativa de substituir o motivo genuinamente bíblico e histórico por uma transformação filosófica (…). Atualmente desejamos cada vez mais ouvir a nós mesmos, enquanto a Bíblia nos convidaria a ouvir a palavra pura” (Apud Johannes Blauw, A Natureza Missionária da Igreja, São Paulo: ASTE., 1966, p. 105).

[5]Corretamente declarou Lloyd-Jones (1899-1981): “O Espírito Santo é o poder atuante na Igreja, e o Espírito    Santo jamais honrará coisa alguma senão a Sua Palavra. Foi o Espírito Santo quem nos deu esta Palavra. Ele é o seu Autor.            Não é dos homens! Tampouco a Bíblia é produto da ‘carne’ e do ‘sangue’ (…). O Espírito não honrará nada, senão Sua Palavra. Portanto, se não crermos e não aceitarmos sua Palavra, ou se de algum modo nos desviarmos dela, não teremos direito       de esperar a bênção do Espírito Santo. O Espírito Santo honrará a verdade, e não honrará outra coisa. Seja o que for que fizermos, se não honrarmos esta verdade, Ele não nos honrará” (D.M. Lloyd-Jones, O Combate Cristão, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1991, p. 103).

[6] O Mormonismo originou-se das supostas visões e revelações alegadas por Joseph Smith Jr., a partir de 1820. (Vejam-se: A. Hoekema, Mormonismo, Grand Rapids, Michigan: Subcomision Literatura Cristiana de la Iglesia Cristiana Reformada, 1977, p. 5ss.; 15ss.; J.K. Van Baalen, O Caos das Seitas, 3. ed. São Paulo: Imprensa Batista Regular, 1977, p. 121ss.; 128, 144).

[7]Vejam-se: L. Boettner, Catolicismo Romano, São Paulo: Imprensa Batista Regular, 1985, p. 67-88 e L. Berkhof, Introduccion a la Teologia Sistematica, p. 186-189.

[8] Timothy George observa que, “Os reformadores eram grandes exegetas das Escrituras Sagradas. Suas obras teológicas mais incisivas encontram-se em        seus sermões e comentários bíblicos. Eles estavam convencidos de que a proclamação da igreja cristã não poderia originar-se da filosofia ou de qualquer cosmovisão auto-elaborada. Não poderia ser nada menos que uma interpretação das Escrituras. Nenhuma outra proclamação possui direito ou esperança na igreja. Uma teologia que se baseia na doutrina reformada das Escrituras Sagradas não tem nada a temer com as descobertas precisas dos estudos bíblicos modernos” (Timothy George, Teologia dos Reformadores, p. 313).

[9] William Cunningham, The Reformers and the Theology of the Reformation, Carlisle, Pennsylvania: The Banner of Truth Trust, 1979 (Reprinted), p. 27.

[10] Francis A. Schaeffer, O Grande Desastre Evangélico. In: Francis A. Schaeffer, A Igreja no Século 21, São Paulo: Cultura Cristã, 2010, p. 251.

[11]Antes, é da Palavra que nasce a Igreja e é justamente pela fidelidade à Palavra que a Igreja de Cristo é reconhecida. (Veja-se: J. Calvino, As Institutas, I.7.1-2).

[12]Como exemplo, citamos Stanilaus Hosius (1504-1579) que considerava a Bíblia como “propriedade da Igreja Católica”            (Cf. Sudhoff, Hosius: In: Philip Schaff, ed. Religious Encyclopaedia: or Dictionary of Biblical, Historical, Doctrinal, and Practical Theology, Chicago: Funk & Wagnalls Publishers, (revised edition), 1887, v. 2, p. 1024). Escrevendo contra o reformador amigo de Lutero, Brentius [J. Brenz (1499-1570)], Hosius disse que “As Escrituras têm tão-somente a mesma força que as fábulas do Esopo, se destituída da autoridade da igreja” (Apud Francis Turretin, Institutes of Elenctic Theology, Phillipsburg, New Jersey: Presbyterian and Reformed Publishing Company, 1992, v. 1, p. 86). Segundo citação de Turretin, Hosius “não hesitou em blasfemar ao dizer”: “Melhor seria para os interesses da igreja se jamais houvesse existido a Bíblia” (Apud Francis Turretin, Institutes of Elenctic Theology, v. 1, p. 57). Johann Maier von Eck (1486-1543), amigo e depois severo oponente de Lutero, escreveu em 1525 [?] que, “As Escrituras não são autênticas, exceto pela autoridade da igreja” ****(John Eck, Enchiridion of Commonplaces Against Luther and Other Enemies of the Church,  Grand Rapids, Michigan: Baker, 1979, I, p. 13). (Francis Turretin cita diversos outros pronunciamentos feitos por católicos a respeito deste assunto. Vejam-se: Institutes of Elenctic Theology, v. 1, p. 86; Kevin J. Vanhoozer, Autoridade Bíblica Pós-Reforma: resgatando os solas segundo a essência do Cristianismo Protestante puro e simples, São Paulo: Vida Nova, 2017, p. 150). Notemos que aqui, nestas questões levantadas pelos católicos, não há uma negação da procedência das Escrituras, mas sim a afirmação da supremacia do subjetivo sobre o objetivo. Neste caso, a verdade não é o que é; ela é o que digo (no caso a Igreja Católica Romana) que ela seja.

[13] Francis Turretin, Institutes of Elenctic Theology, v. 1, p. 89.

[14] João Calvino, As Institutas, IV.4.1; IV.8.9; IV.10.26. Fala também da “mui pura Palavra de Deus” (J. Calvino, As Institutas, II.16.8).

[15] João Calvino, As Institutas, I.18.3.

[16]João Calvino, As Institutas da Religião Cristã: edição especial com notas para estudo e pesquisa, São Paulo: Cultura Cristã, 2006, v. 4, (IV.15), p. 116.

[17] João Calvino, Exposição de Romanos, (Rm 12.7), p. 432.

[18] João Calvino, As Institutas da Religião Cristã: edição especial com notas para estudo e pesquisa, São Paulo: Cultura Cristã, 2006, v. 3, (III.7), p. 10. João Calvino, Exposição de Hebreus, (Hb 4.12), p. 110.

[19] João Calvino, As Pastorais, (1Tm 3.15), p. 98; As Institutas, IV.16.16; Exposição de Hebreus, Dedicatória, p. 14.

[20] João Calvino, As Institutas, I.8.1.

[21] João Calvino, As Pastorais, (1Tm 6.21), p. 187.

[22] João Calvino, Exposição de Romanos, (Rm 9.14), p. 330.

[23] João Calvino, Exposição de Hebreus, Dedicatória, p. 14.

[24] João Calvino, As Institutas, I.7.1.

[25] Ver: João Calvino, Exposição de Hebreus, (Hb 4.12), p. 110.

[26]João Calvino. As Institutas, II.2.19.

[27]Zuínglio (1484-1531) dissera textualmente: “Entendo a Escritura somente na maneira em que ela interpreta a si mesma pelo Espírito Santo. Isso não requer nenhuma opinião humana” (Apud Timothy George, Teologia dos reformadores, p. 129. Vejam-se as p. 126-130; Calvino: “A verdade de Deus não depende da verdade do homem” (João Calvino, Romanos, 2. ed. São Paulo: Parakletos, 2001, (Rm 3.4), p. 111). Paul Tillich, História do Pensamento Cristão, São Paulo: ASTE., 1988, p. 234ss). Vejam-se: Tomás de Aquino, Súmula Contra os Gentios, São Paulo: Abril Cultural, (Os Pensadores, v. 8), 1973, VI, p. 69; J. Calvino, As Institutas, I.9.3; D. M. Lloyd-Jones, Vida No Espírito, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1991, p. 126ss.

[28]J. Calvino, As Institutas, I.7.4. Veja-se: também, As Institutas, I.9.3.

[29]João Calvino, As Pastorais, (1Tm 3.15), p. 98.

[30]João Calvino, Exposição de 1 Coríntios, (1Co 3.6), p. 103. Vejam-se dois estudos de Murray sobre a posição de Calvino a respeito das Escrituras e de sua Autoridade. John Murray, Calvin’s Doctrine of Scripture e Calvin and the Authority of Scripture: In: John Murray, Calvin as Theologian and Expositor, Carlisle, Pennsylvania: The Banner of Truth Trust, (Collected Writings of John Murray, v. 4), 1976, p. 158-175 e 176-190. Também: A.D.R. Polman, Calvino y la Inspiracion de la Escritura: In: Jacob T. Hoogstra, compilador, Juan Calvino, Profeta Contemporáneo, Barcelona: CLIE., 1973, p. 99-114.

 504 total views,  1 views today

Comments

G-BJPJGFD6S2