Viva o ano novo. Viva! O sentido Cristão do tempo e da história

A procrastinação é tão má quanto a precipitação. (…) A oportunidade é uma questão de grande importância. (…) Os meninos na escola não a entendem, portanto deve ter pais e mestres com a vara para controlá-los e para que não negligenciem ou percam tempo. (…) Há um ditado em nosso meio: “Aproveito o tempo enquanto é tempo, e também o presente enquanto está presente”. − Martinho Lutero (1483-1546).[1]

 

E que assunto mais familiar e mais batido nas nossas conversas do que o tempo? Quando dele falamos, compreendemos o que dizemos. Compreendemos também o que nos dizem quando dele nos falam. O que é, por conseguinte, o tempo? Se ninguém me perguntar, eu sei; se o quiser explicar a quem me fizer a pergunta, já não sei. – Agostinho (354-430).[2]

 

Introdução

Escrever, de certa forma, é revelar segredos. Não necessariamente segredos dos conteúdos pesquisados mas, de nós mesmos por meio de nossa perspectiva, interpretação, ênfase, ditos e não-ditos. Aliás, se não fosse assim, não teria graça. Mas, a graça está no fato que fazemos isso até mesmo sem o desfrutar dessa consciência.

Esse período de final de ano sempre sou levado a pensar no tempo e na história. Há um aspecto nostálgico. Mas, também, um transpirar de minha fé no governo providente de Deus. Deus continua dirigindo a história a despeito da forma como a marquemos, classifiquemos ou denominemos. Ano novo, ano velho. Tanto faz. Deus continua no controle de tudo. Para nós cristãos isso é muito confortador e responsabilizador. Afinal, somos agentes de Deus na história. Mas, esse não é o meu ponto aqui.

 

1. A concepção cristã do tempo

A forma cristã de conceber o tempo, mesmo com as suas variações, influenciou diretamente todo o mundo Ocidental. A compreensão de que o tempo tem um início, meio e fim era totalmente estranha às culturas pagãs.[3] A questão da história e do tempo é fundamental para o Cristianismo pela sua própria constituição. Não vou aqui tratar da concepção de Agostinho. Já o fiz, ainda que resumidamente, em outro lugar.[4]

Retornando ainda que parcialmente à nossa rota, podemos dizer que de fato, a questão do significado do tempo ocupa um lugar contínuo em nossa cotidianidade, nas grandes e pequenas corriqueiras coisas da vida. O tempo está sempre presente em nossa fala, expectativas, lembranças, e mesmo angústias:

Estou sem tempo.

Estou aqui esperando a muito tempo.

Não sei como vou conseguir tempo para fazer isso, não tive tempo.

Não sei se terei tempo.

Está se aproximando o dia da cirurgia (angústia com a proximidade do tempo).

Só daqui a 2 anos (alegria ou tristeza por achar muito ou pouco tempo conforme o meu desejo).

Foi a tanto tempo.

Não faz tanto tempo.

O tempo está curto.

O tempo passa tão depressa.

Ganhar tempo.

Perder tempo.

Passatempo.

O tempo a gente faz etc.

O cidadão comum pode não filosofar sobre o tempo, no entanto, essa temática faz parte da sua vida.

A discussão sobre o significado do tempo é infindável. Faz tempo.  Agostinho estava certo em sua perplexidade. O que posso dizer então? Nessa condição de vida, podemos dizer que o tempo foi criado por Deus juntamente com suas criaturas. Sem criação não teríamos tempo. Na eternidade não teremos mais tempo como instrumento de medição da sucessão de eventos. Creio que talvez tenhamos uma outra forma de mensuração de sucessão (precisaremos disso?) na eternidade. Mas, esse assunto escapa à minha compreensão.

Tempo e espaço determinam muitas de nossas prioridades conforme as circunstâncias. Em boa parte das vezes tais circunstâncias são elaboradas pela mistura de ambos os elementos conforme a nossa fórmula caseira de relacionar tempo e espaço.

Por isso, em nossa incompreensão e incertezas diante desses elementos, o tempo pode nos parecer como ao angustiado poeta argentino Jorge L. Borges (1899-1986), uma “ilusão”.[5] No entanto, sabemos, que ele é implacável em sua caminhada e transitoriedade.[6] Mas, não nos esqueçamos, está sob a direção de Deus.

Quando estamos apressados, tudo parece demorado. Quando estou com tempo disponível, as distâncias ficam mais curtas. O relógio, em nossa mente, pode ser romanticamente domesticado, mas, o que de fato não ocorre concretamente.

Conforme a nossa base de avaliação comparativa circunstancial, posso dizer que algo é longe ou perto. Rápido ou demorado. Já observaram como uma viagem de duas horas é longa a partir, digamos, da primeira hora de percurso? Já uma viagem de 8 horas, você nem sequer considera a primeira hora porque ainda faltam muitas outras.

E a refeição servida no restaurante? Faz diferença o tempo de espera quando você está com fome, sozinho e, sem celular. Aliás, este é imprescindível. A sua percepção é diferente se estiver tranquilo, sem muita fome e com uma boa prosa ou conversando no zap? Mais tarde você conversará pelo zap com quem agora está com você à mesa…

Da mesma forma, como temos uma dimensão mais imediatamente material da realidade, tendendo a circunscrevê-la a isso apenas, os propósitos de Deus podem nos parecer demorados ainda que estejam perfeitamente sob o seu domínio e controle.

Como realidade presente, o tempo tem a sua objetividade da qual somente Deus tem o seu controle. Deus é Senhor do tempo. O tempo, portanto, por ser dirigido e preservado por Deus, é implacável no seu transcorrer na vida da criação. Todavia, o tempo assume características subjetivas ativas e passivas nessa mesma criação.

Ativa, quando conscientemente lido com o tempo, atribuindo-lhe significados pessoais de prazer e dor, alegria e tristeza, trabalho e lazer, frustração e esperança, rapidez ou lentidão.

De outro modo, tento enganar o tempo, com cremes, tratamentos e cirurgias para que aparente ter menos tempo de vida (vivido e mais por viver), ainda que na juventude, tenha tentado usar determinada roupa para parecer mais velho. Parece que o tempo contribui para existir esses paradoxos: Encontro ouvidos prazerosos para dizer a uma menina de 7 anos que ela parece ter 10. Mas, essa mesma menina não ouviria com satisfação eu afirmar que ela com 30 parece ter 35 anos.

Passiva, quando ainda que não tenha consciência disso, o tempo se mostrou mais “favorável” a mim por determinados hábitos alimentares, viver em determinada região com o clima mais ameno, cor de minha pele menos suscetível a mostrar as “marcas do tempo” etc. Dessa forma, todos somos influenciados pelo tempo que pode ser um aliado ou algoz, conforme nos valemos dele. (1Co 3.1-2; Hb 5.11-14).

O Cristianismo é uma religião de história.[7] Elimine, por exemplo, a historicidade dos 11 primeiros capítulos de Gênesis, e mutilaremos o sentido das Escrituras e, por isso mesmo, os fundamentos da fé cristã. Pelo fato de a Criação ter ocorrido na história, bem como a Queda, a promessa (Gn 3.15) e o Dilúvio, é que tudo o mais faz sentido. Se a Queda é apenas uma lenda, porque precisaríamos crer na encarnação, morte e ressurreição de Cristo como fato histórico? Bastaria a criação de outra lenda para, quem sabe, remediar o que fora inventado anteriormente.

A revelação dá-se na história. Qual o sentido de Deus falar e agir na história e, ao mesmo tempo, fornecer por meio de sua Palavra uma história mentirosa, cheia de equívocos, contradições e erros? Grande parte dos ensinamentos doutrinários das Escrituras provém de fatos históricos não apenas de proposições doutrinárias.[8]

As narrativas bíblicas se constituem em uma pedagogia histórica da graça da lei e da lei da graça. Vemos de forma  vívida na história a manifestação de aspectos de atributos de Deus na direção do seu povo conforme os seus preceitos, promessas e, também, na manifestação de seu juízo levando o homem ao arrependimento, confissão, perdão e vida.

Na história vemos a demonstração prática dos ensinamentos de Deus, revelando os acertos e fracassos de suas criaturas em serem fiéis ao seu Senhor, e, ao mesmo tempo, a demonstração de sua misericórdia incompreensível que atinge o seu ápice na encarnação do Verbo.

 

Jesus Cristo: O Deus Encarnado na História

Insistimos: O Cristianismo não se ampara em lendas, antes, em fatos os quais devem ser testemunhados, visto que têm uma relação direta com a vida dos que creem.[9] O Cristianismo é uma religião de fatos, palavra e vida. Os fatos, corretamente compreendidos, têm uma relação direta com a nossa vida. A fé cristã fundamenta-se no próprio Cristo: O Deus-Homem. Sem o Cristo Histórico não haveria Cristianismo.[10] A sua força e singularidade estão neste fato, melhor dizendo: na pessoa de Cristo, não simplesmente nos seus ensinamentos.[11] O Cristianismo é o próprio Cristo. A encarnação é toda e inclusivamente missionária: o Verbo fez-se carne e habitou entre nós (Jo 1.14). É por isso também, que o Cristianismo é uma religião de memória, relatando os feitos de Deus e desafiando o povo a reafirmar a sua fé a partir do rememorar dos atos de Deus na história.[12]

Paulo dá a graças a Deus pela fé dos efésios porque era centrada em Cristo (Ef 1.15-16). E não poderia ser diferente. Justamente pelo fato de o Evangelho ser centrado em Cristo, é que a genuína fé, identificada como salvadora, não é uma crença qualquer, cujo teor seja indefinido, tendo como virtude apenas o fato de poder crer; uma espécie de fé na fé. O Evangelho não é algo como uma garrafa “pet” que depois de esvaziada do seu conteúdo original, pode ser preenchida com amaciante, detergente, água ou alguma outra substância. O Evangelho conforme a Escritura nos ensina, é o próprio Senhor Jesus Cristo. Nele temos “uma revelação aberta de Deus”.[13]

A Boa Nova é de Deus, cujo conteúdo é o próprio Deus anunciando a salvação para todos os que sinceramente a desejarem.[14] Portanto, o evangelho tem como conteúdo e essência[15] a Jesus Cristo como Senhor e Salvador conforme revelado na Escritura. “Ter fé é crer que aquilo que Deus diz é verdade. O conteúdo da fé cristã é a Palavra revelada de Deus”, resume MacArthur.[16] Jesus Cristo é a Palavra encarnada.

A fé faz parte essencial do Evangelho. No entanto, essa fé deve repousar unicamente em Cristo como nosso salvador (Jo 3.16).

Bavinck (1854-1921) destaca a singularidade de Cristo para o Cristianismo:

Ele ocupa um lugar completamente único no Cristianismo. Ele não foi o fundador do Cristianismo em um sentido usual, ele é o Cristo, o que foi enviado pelo Pai e que fundou Seu reino sobre a terra e agora expande-o até o fim dos tempos. Cristo é o próprio Cristianismo. Ele não está fora, Ele está dentro do Cristianismo. Sem Seu nome, pessoa e obra, não há Cristianismo. Em outras palavras, Cristo não é aquele que aponta o caminho para o Cristianismo, Ele mesmo é o caminho.[17]

Se formos sinceros em nossa investigação bíblica, não restam muitas alternativas para nós. Ou Jesus Cristo é de fato Deus conforme o seu próprio testemunho e, assim, podemos então considerá-lo de forma decorrente como um grande mestre, um bom homem, justo e misericordioso, ou Ele é um farsante não merecendo a nossa fé nem mesmo o nosso respeito.

Barth (1886-1968) coerentemente afirma que a Escritura não nos deixa vagueando em nossa fé, antes, quando nos fala de Deus, aponta para Jesus Cristo, em quem nossa atenção e pensamentos devem se concentrar.[18]

Stott (1921-2011) coloca a questão nestes termos: “Jesus deve ser adorado ou apenas admirado? Se ele é Deus, é digno de nossa adoração, fé e obediência; se não é Deus, dedicar a ele essa devoção é idolatria”.[19]

Se as reivindicações divinas e redentivas do Jesus Cristo histórico são verdadeiras como de fato são, a mensagem do Evangelho deve ser anunciada ao mundo para que aqueles que crerem sejam salvos.

Noll resume bem ao dizer que: “Estudar a história do cristianismo é lembrar continuamente o caráter histórico da fé cristã”.[20]

Sem o fato histórico da encarnação, morte e ressurreição de Cristo, podemos falar até de experiência religiosa, mas não de experiência cristã. A experiência cristã depende fundamentalmente destes eventos.[21] É por isso que a pregação da Igreja primitiva, conforme nos mostram as Escrituras, estava fundamentalmente amparada na certeza da ressurreição do Senhor.[22]

Quando focamos o nosso olhar na experiência, corremos o risco de perdermos a dimensão da essência, do Referente, que é Deus. Neste processo, como escreveu Barth (1886-1968), “a passagem da experiência do Senhor à experiência de Baal é curta. O religioso e o sexual são extremamente semelhantes”.[23]

Jesus Cristo é o clímax da Revelação. Ele é a Palavra Final de Deus. Nele temos não uma metáfora ou um sinal, antes, temos o próprio Deus que Se fez homem na história.

Sire (1933-2018) escreveu de modo esclarecedor:

Jesus Cristo é a revelação final e especial de Deus. Porque Jesus Cristo era verdadeiramente Deus Ele nos mostrou mais plenamente com quem Deus era semelhante do que qualquer outra forma de revelação. Porque Jesus foi também completamente homem, Ele falou mais claramente a nós do que pode fazê-lo qualquer outra forma de revelação.[24]

 

2. O sentido da história

Nada é mais conservador e tenaz do que a medida do tempo. − Philippe Áries (1914-1984).[25]

Deus é o senhor da História. Não simplesmente da suposta “história da igreja”, como se fosse algo à parte, distante e santificada. A História, toda ela está sob a direção de Deus. Nós fracionamos aspectos da História para poder, quem sabe, nos especializar em algum tema. Contudo, a história, em nenhum de seus aspectos e vertentes, é indiferente a Deus e a seus propósitos.

A História é a execução do plano de Deus, conduzindo todos os acontecimentos para a sua Glória. A História caminha rumo à eternidade – não de forma necessária, deteriorante ou aperfeiçoante –, mas progressiva e realizante.

Com isto queremos dizer que o homem não está necessariamente pior nem melhor, mas que, o hoje, independentemente disto, está mais próximo do fim, do que ontem (Rm 13.11).

Observe que nessa afirmação Deus está essencialmente pressuposto. Sem a compreensão de um Deus infinito – Todo-Poderoso que transcende a história – e pessoal – que se relaciona conosco na história de forma amorosa e inteligente –, a história nunca fará sentido, exceto dentro de um quadro de referência moldado estoicamente pela aceitação das contradições ou, simplesmente, pela total aceitação da falta de sentido.

A história, para nós cristãos, encontra o seu sentido nas Escrituras. Ali temos uma amostragem clara e objetiva que nos permite analisar os fatos, certos da direção de Deus e do triunfo de seu propósito.[26]

Muitas vezes a Igreja se angustia por não entender a História como o Reinado de Cristo; nesta falta de perspectiva, a Igreja se apavora diante das mudanças que ocorrem cada vez mais intensamente em todos os setores da vida.

As verdades cristãs enquanto verdades absolutas têm o seu lugar na História; elas apontam de forma definida para o pós-histórico; quando a veracidade de tais ensinamentos poderão, finalmente, ser verificados à luz do eterno.

Hoekema (1913-1988) escreveu:

Deus está desenvolvendo seu plano na história. Indivíduos podem rebelar-se contra Deus e tentar frustrar seu plano. Outros tentarão realizar sua vontade e viver para o progresso do seu reinado. Em ambos os casos, Deus permanece no controle.[27]

Jesus é o sinal definitivo da dimensão do eterno na História; nele – na encarnação – a História encontrou o seu sentido e nele – no seu regresso triunfante –, ela terá a sua consumação.

 

A Igreja como sinal do eterno no tempo

Como sinal do eterno no tempo, Deus estabelece a sua Igreja, planejada na eternidade e formada no tempo, a qual revela a “multiforme sabedoria de Deus” (Ef 3.8-13):[28] A Igreja é o sinal do eterno no tempo; é Deus se agenciando no mundo por meio dela. A Igreja luta agora no mundo contra os poderes demoníacos, todavia, em essência ela pertence à era por vir, visto ser filha da eternidade e não do tempo.[29] Ela é na presente era a manifestação, ainda que limitada e imperfeita, do Reino: “A igreja é o centro vivo e ardente do reino, uma testemunha de sua presença e poder, e um precursor de sua vinda final”, interpreta Stob.[30]

Devemos ressaltar que quando falamos da Igreja que é alvo do estudo histórico, referimo-nos não à “Igreja Invisível”, o Corpo de Cristo, mas à “Igreja Visível”,[31] histórica, com suas assimilações culturais, sendo agente de transformação e também de acomodação cultural.

“Deus deve ser reconhecido e proclamado na história. A história do mundo deve ser assinalada como os anais do governo do Rei Soberano”, declara – diz D’Aubigné (1794-1872).[32]

      Os atos livres dos homens concorrem de uma forma ou de outra, para a execução do plano de Deus. A Bíblia relata que apesar dos irmãos de José intentarem o mal contra ele, Deus realizou a sua obra por meio deste ato invejoso (Gn 45.5-8; 50.19,20; Sl 105.17). No Novo Testamento, vemos que os homens mataram a Jesus Cristo, entretanto, eles cumpriram livremente a vontade de Deus (At 4.27-28/2.23/Jo 10.17-18).[33]

Mesmo que não possamos discernir o propósito de Deus em todos os atos da história, não podemos duvidar dele. Deus controla o seu povo e os seus inimigos; não há força neste mundo que não esteja sob o domínio de Deus. O fato de não entendermos perfeitamente os propósitos de Deus, é inteiramente natural; afinal, Deus é o Senhor Eterno e Onisciente; os caminhos de Deus não são os nossos caminhos; a sua mente é inescrutável (Is 55.8,9; Rm 11.33).[34]

Muitos dos salmos bíblicos revelam a angústia própria de nossa finitude diante da incompreensão da história, especialmente nos momentos de aflição. Ao mesmo tempo, estes salmos testemunham a confiança destes homens no Deus providente e Todo-Poderoso, que cuida de seu povo permanecendo sempre no controle da história.

  

3. Graça, arrependimento e perdão

    “Volta-te, SENHOR, e livra a minha alma; salva-me por tua graça (ds,x,) (hesedh)(Sl 6.4).

O que levaria um homem a fazer um pedido como esse? Sim, já que não nos é costumeiro pedir algo sem uma promessa de pagamento, retribuição ou, pelo menos, uma explicação do por que daquela situação de carência.

Aqui temos um homem desprovido de qualquer orgulho ou perspectiva de retribuir o salvamento solicitado. Ele não barganha com Deus. Não tem falsas esperanças quanto às possibilidades futuras nem faz projeções que poderiam ser interessantes ao seu interlocutor. Ele pede apenas pela graça. Ele apela a Deus.

A riqueza da misericórdia de Deus descrita no Salmo 5, é agora detalhada na situação extrema de um homem em angústia, dor, incompreensão e aparente abandono. Ele coloca isto diante do Deus Todo-Poderoso, justo e misericordioso. Ele apela para a aliança de Deus com o seu povo que se manifesta em graça.

A palavra traduzida por graça (Sl 6.4) (ds,x,) (hesedh), tem um emprego rico no Antigo Testamento. Ela pode também ser traduzida por “bondade”, “benevolência”, “benignidade”, “clemência”, “beneficência”, “humanidade” (ARA. 2Sm 2.5), “fidelidade” (ARA. 2Sm 16.17) e “misericórdia”. A palavra ocorre intensamente nos Salmos.

A ideia principal é a de que Deus manifesta o seu amor ativamente na forma de uma relação de um pacto. Hesedh é um “amor de Pacto” (Dt 7.9,12; Jr 31.3);[35]Hesedh da aliança”.[36]

Devido ao seu Hesedh, Deus voluntariamente elege o seu povo, mantendo-Se fiel nesta relação independentemente da fidelidade circunstancial dos seus eleitos (Dt 7.6-11;[37] 2Sm 2.6; Sl 36.5; 57.3; 89.49; Is 54.10; 55.3).

O clamor do salmista amparava-se na graça de Deus demonstrada em sua aliança para com o seu povo. Ele só pode clamar pela “bondade amorosa de Deus” para ser salvo. A teologia é algo extremamente prático. Ela não foi suficiente para o livrar da queda, contudo, fez com que o salmista arrependido, direcionasse corretamente a sua fé.

A nossa experiência deve ser associada e organizada a partir do que cremos fundamentados nas Escrituras. A teologia fornece a estrutura à qual a nossa experiência deve ser organizada, interpretada e avaliada.[38]

Na obra do monge agostiniano medieval Thomas à Kempis (c. 1380-1471), Imitação de Cristo, nos deparamos com a pergunta de um pecador que, consciente de suas faltas, reconhece a grandeza da misericórdia de Deus:

Que posso eu fazer em expiação dos meus pecados, senão confessá-los humildemente e chorá-los, implorando incessantemente vossa misericórdia? (…) Detesto sumamente todos os meus pecados, e proponho nunca mais cometê-los; arrependo-me deles e me hei de arrepender enquanto viver….[39]

Retornando ao texto, destacamos que este é o primeiro dos chamados Salmos Penitenciais, a saber: Salmo 6, 32, 38, 51, 102, 130, 143. Eles são assim classificados porque neles temos os salmistas suplicando o perdão pelos seus próprios pecados e, também, expressam a tristeza apropriada do penitente.[40]

Não sabemos quando Davi escreveu o Salmo 6. Ainda que isso não seja o aspecto mais relevante,[41] é possível que Davi o tenha redigido no mesmo contexto do Salmo 3, quando fugia de Absalão[42] ou, após o seu pecado com Bate-Seba, quando, aos poucos, Deus vai manifestando o seu desagrado para com o pecado do rei.[43] De qualquer modo, a impressão que se tem é que este Salmo foi redigido após o autor ter passado pela aflição descrita, por isso a sua exultação no final do Salmo, quando obteve a resposta e livramento divino.[44]

Kidner (1913-2008), que o divide em duas partes, diz:

A oração de alguém que está profundamente perturbado e alarmado, ocupa a primeira metade do salmo. A segunda metade, a partir do versículo 6, não contém petição alguma: no início, há choro, mas, no fim, um irrompimento de fé desafiadora. As orações e as lágrimas não foram em vão.[45]

Analisemos o Salmo sob a perspectiva da súplica do salmista: “Salva-me por tua graça (ds,x,) (hesedh)(Sl 6.4).

 

3.1. A situação do salmista

Davi nos apresenta um quadro relativamente detalhado de sua situação. Ele se sente totalmente impotente, sem ânimo e forças para lutar. O salmista se diz doente: debilitado (ll;m.au) (‘umlal) (Sl 6.2), figuradamente, “fraco”, “seco”, “murcho”, “desfalecido” [46] e, com os ossos abalados (lhB) (bahal) (2).[47]

 Ele fala também de suas angústias espirituais usando a mesma expressão que empregou para descrever os seus ossos. É como se dissesse: meus ossos e minha mente estão abalados. Esta expressão (lhB) (bahal) é usada nas Escrituras para falar, do tremor dos ossos (Sl 6.2), da alma (Sl 6.3) e das mãos (Ez 7.27; 2Sm 4.1).[48]

Ele se sente totalmente, inteiramente, corpo e alma, em profunda aflição. Davi está angustiado, enfraquecido física e espiritualmente. Portanto o seu senso de urgência: “Mas tu, SENHOR, até quando?” (Sl 6.3).

O tempo sempre é longo quando a dor e a angústia nos dominam. Notemos também que o “até quando” faz sempre uma projeção distante. Esta é uma pergunta de um coração em intensa agonia. A oração é, por vezes, a confissão de nosso senso de incapacidade diante dos problemas com os quais nos deparamos.

Como ele sabe que o seu livramento é impossível por si mesmo, e, ao mesmo tempo, considerando a gravidade de sua situação mesclada com a sua fé em Deus, clama ao seu Senhor: Volta-te, SENHOR, e livra a minha alma; salva-me por tua graça (ds,x,) (hesed)(Sl 6.4). Não é à toa que nos dez versículos deste salmo o salmista repete o nome de Deus 8 vezes, sendo que 5 delas nos quatro primeiros versos, onde a sua situação é mais tragicamente descrita.

Ele sente a morte aproximar-se (Sl 6.5). Está exausto, cansado de gemer. Este cansaço além de associado à sua dor física e espiritual, relaciona-se também à sensação de que parece debalde o seu gemido (hx’n”a]) (‘anachah) (Sl 6.6). Aliás, o gemido é resultante também de sua desolação.[49]

O seu choro é contínuo e intenso (Sl 6.6-7). No entanto, parece que nada disso adiantava, e, a bem da verdade, nem Davi chorava com algum propósito específico. Nesta descrição intensa, ainda que não meramente poética, vemos um homem profundamente triste e magoado cujas lágrimas são constantes e incontroláveis nas horas da noite. Como disse Calvino: “A tristeza que domina a mente facilmente segue sua rota rumo aos olhos, e seguindo essa via concretamente se revela”.[50]

Davi permanece insone e, por isso mesmo, ele parece prematuramente mais velho e com o consequente enfraquecimento de sua visão: Meus olhos, de mágoa, se acham amortecidos, envelhecem por causa de todos os meus adversários” (Sl 6.7).

Aqui temos um Davi quase irreconhecível. Aquele pastor protetor de suas ovelhas, corajoso guerreiro, foragido, estrategista de pensamento tão rápido, tão bem acostumado aos desafios dos mais variados, agora se sente inerte e inerme: “Estou cansado de tanto gemer…. por causa de todos os meus adversários” (Sl 6.6-7).

 O salmista se sente tão fraco que é incapaz de esboçar qualquer reação; ele apenas geme e chora. Aparentemente está totalmente entregue aos seus adversários.

Notemos que todas estas expressões servem para mostrar o quão intenso e totalmente debilitado está o salmista: corpo e alma; o homem integral está abalado. A sua alma treme mais do que o corpo: a minha alma (vp,n<) (nephesh) está profundamente (daom..) (me`od)[51] perturbada (lhB) (bahal)” (Sl 6.3). A sua angústia, portanto, não é apenas física. O amor de Deus parece distante e a sua ira uma realidade presente. A sua aflição é maior do que todas as outras aflições.[52]

Calvino interpreta:

Considerando o quanto Deus estava desgostoso com ele [Davi], viu, por assim dizer, o inferno escancarado para recebê-lo; e a fadiga mental que isso produz excede a todos os demais sofrimentos. Aliás, quanto mais sinceramente é um homem devotado a Deus, muitíssimo mais severamente perturbado é ele pelo senso da ira divina; e é por isso que as pessoas santas, que de outra forma são dotadas de inusitada fortaleza, têm revelado neste aspecto muito mais debilidade e necessidade de determinação.[53]

Há uma tendência natural em nos solidarizar com o salmista. Às vezes acontece conosco também quando vemos alguém sendo disciplinado. Por um momento temos a impressão que quem aplicou a pena está errado; o penalizado está coberto de razões. “Para que tanto rigor?”, perguntamos um tanto misericordiosa e irresponsavelmente. Quem já não viu um pai disciplinado o filho no mercado, na igreja ou em uma reunião social e, diante do choro da criança ficou com pena sem saber ao certo o que o pequeno fizera?

Tendemos a simpatizar com aqueles que estão circunstancialmente mais fracos e aparentemente indefesos. O sofrimento dá-nos a impressão que apaga todas as nossas transgressões. Quando alguém chora, por exemplo, a impressão que se tem é que qualquer tentativa de análise objetiva desaparece; o choro parece justificar qualquer coisa.

Retornando ao salmo, podemos destacar que ele estava profundamente amargurado. Prossigamos em nossa análise.

 

3.2. O que ele fez

Nesta altura faz-se necessário que façamos algumas perguntas objetivas: o que causou esta dor tão intensa no salmista? O que ele fez para estar nesta situação? É justo o seu sofrimento? Vejamos então o que salmista mesmo diz:

                   A) Pecou

O salmista pecou e tem consciência disso. Ele sabia que a fúria de Deus era resultante de sua desobediência. Reconhece o seu pecado, por isso dizer: “Senhor não me repreendas na tua ira, nem me castigues no teu furor” (Sl 6.1). Davi tinha consciência de que era merecedor de repreensão e de castigo da parte de Deus. Ele sabia que o seu problema era com Deus – já que pecara contra Ele –, mas, também sabia que os homens eram seus agentes.[54]

Uma das coisas mais difíceis de fazer é olhar os nossos pecados de frente e não tentar usar de subterfúgios, não buscar desculpas, antes encará-los para poder vencê-los. No entanto, este é um ponto fundamental: o reconhecimento de nosso pecado. “Se você não reconhecer que, todo o tempo em que estiver nesta vida e neste mundo, haverá este terrível poder infernal dentro de você, ao seu redor e sobre você, então será um mero neófito nestes assuntos! (…) O primeiro passo é que o homem tem que reconhecer e confessar sua pecaminosidade”.[55]

Davi fez isso: assumiu o seu pecado diante de Deus.

 

B) Expôs a Deus a sua dor

                                     “O SENHOR ouviu a voz do meu lamento” (Sl 6.8).

O fato de o salmista reconhecer o seu pecado não elimina a dor de seu sofrimento. Colocarmo-nos em relação correta com Deus não quer dizer que de forma automática estejamos livres de nossos atos pecaminosos e de suas consequências. Portanto, ainda que a confissão nos traga alívio, não significa necessariamente que os efeitos de nossos pecados sejam aliviados. Davi demonstra isso expondo a Deus o seu lamento.

O salmista sabia que tinha pecado contra Deus; por isso, sentia na pele, na alma e nos ossos a dor das consequências de seus atos. No entanto expôs a Deus o que estava sentindo, como estava angustiado com tudo isso, como sofria por causa do seu pecado e consequentemente pelo peso da mão de Deus sobre ele.

Ao contrário de nossos primeiros pais, Adão e Eva, que envergonhados, tentaram fugir da presença de Deus, Davi, sem dúvida, também envergonhado, expôs a Deus a sua dor.

                   C) Suplicou a Deus

Ele suplicou a Deus e já se conforta em saber que Deus ouviu o seu lamento e a sua súplica, acolhendo, tomando para si a sua oração: “O SENHOR ouviu a minha súplica; o SENHOR acolhe a minha oração” (Sl 6.9).

A nossa questão agora é: o que o salmista pediu a Deus?

3.3. O que o salmista suplicou a Deus

O que pedimos a Deus em nossas aflições? O que dizemos a Deus? Toda oração é lícita? Quando estamos aflitos tudo é válido?

O salmista sabe que pecou; por isso está intranquilo. Ele não roga amparado em seus feitos ou suposta inocência, antes, apela para a misericórdia e graça de Deus. “A ansiedade e a tristeza reduziram Davi à paralisia do desespero próprio em que o seu único remédio é uma confiança implícita na misericórdia de Deus”.[56]

Vejamos então, o que o salmista suplicou confiado na providência misericordiosa de Deus:

 

A) Não o repreenda e castigue na sua ira

                                “Não me repreendas (xk;y”) (yakah) na tua ira (@a;) (aph), nem me castigues (rs;y”) (yasar) no teu furor (hm’xe) (chemah) (Sl 6.1).[57]

A correção de Deus sobre seus filhos tem como motivação o seu amor. A repreensão de Deus bem como a sua disciplina, tinha em vista a paternal correção de seu pecado e a sua educação conforme o alvo proposto por Deus em harmonia com a Aliança.

“A disciplina tem seu fundamento teológico na aliança que Yahweh estabelece com seu povo”, comenta Gilchrist.[58]

Enquanto a repreensão (xk;y”) (yakah) parece acentuar o aspecto do convencimento do pecado conforme a Lei de Deus, o castigo (rs;y”) (yasar) denota mais a instrução paternal.[59]

A disciplina de Deus revela o seu amor. Como escreveria Salomão: 11 Filho meu, não rejeites a disciplina do SENHOR, nem te enfades da sua repreensão. 12 Porque o SENHOR repreende (xk;y”) (yakah) a quem ama, assim como o pai, ao filho a quem quer bem” (Pv 3.11-12/Dt 8.5).

Davi sabia disso tudo. Contudo, quem deseja livremente a ira de Deus? Por intermédio de Jeremias, Deus nos ensina a pedir: Castiga-me (rs;y”) (yasar), ó Senhor, mas em justa medida, não na tua ira (@a;) (aph), para que não me reduzas a nada” (Jr 10.24).

Ele pede a Deus, então, que o discipline com misericórdia. Por ter pecado, Davi deseja a correção amorosa de Deus para salvação, não o castigo que consistisse na sua alienação de Deus. Aqui temos uma disciplina restauradora.

Seja qual for o pecado cometido por Davi, o certo é que ele já se arrependeu e está buscando a restauração de sua total comunhão com Deus. O objetivo de Deus ao nos disciplinar é nos tornar semelhantes a Cristo em quem temos a verdadeira humanidade e a verdadeira divindade (Rm 8.28-29).[60]

Calvino faz um extenso e proveitoso comentário comparativo:

Vamos aqui referir-nos a todas as punições em geral com a palavra juízo. Este nós dividiremos em duas espécies, quais sejam, o juízo de vingança ou vindicação, e o juízo de correção ou disciplina. Pelo juízo de vindicação o Senhor pune de tal forma os seus inimigos que demonstra a sua ira contra eles para pô-los a perder, destruí-los e reduzi-los a nada. Portanto, trata-se de vingança ou vindicação de Deus quando a punição que Ele envia vem junto com a sua ira. Pelo juízo de correção ou disciplina Ele não pune com fúria e não castiga para pôr a perder ou para humilhar as pessoas. Por isso, se quisermos falar em termos próprios, essa forma de punição não deve ser chamada vingança ou vindicação, mas admoestação e repreensão. Um pertence a um juiz, o outro a um pai. Porque o juiz, ao punir um malfeitor, pune a sua falta e o seu malefício. Já um pai, ao corrigir o seu filho, não tem por objetivo vingar a falta que ele cometeu, mas, antes, procura ensiná-lo e torná-lo mais prudente no futuro.[61]

Sabemos, portanto, que a instrução de Deus é necessária e que somos bem-aventurados quando seguimos os seus ensinamentos: “Bem-aventurado o homem, SENHOR, a quem tu repreendes (rs;y”) (yasar), a quem ensinas (dm;l’) (lamad)[62] a tua lei” (Sl 94.12).[63]

Também temos consciência de que a ira de Deus é a manifestação da sua justiça. A ira de Deus, portanto, não é caprichosa; é justa. Contudo, quem poderia resisti-la em sua manifestação? Daí o salmista suplicar amparado no conhecimento de Deus: Ele, porém, que é misericordioso, perdoa a iniquidade e não destrói; antes, muitas vezes desvia a sua ira (@a;) (aph) e não dá largas a toda a sua indignação (hm’xe) (chemah)(Sl 78.38). Isto nos conduz ao segundo ponto.

B) Compaixão

O salmista sabendo de sua impossibilidade apela para a compaixão de Deus: “Tem compaixão (!n:x’) (hanan)[64] de mim, SENHOR….” (Sl 6.2). A súplica é feita por alguém que nada tem a oferecer. Esta palavra é geralmente usada denotando uma situação extrema de tristeza e perigo associada à incapacidade de solucionar o problema (Vejam-se: Sl 4.1; 31.9; 41.4,10; 51.1; 56.1; 57.1; 86.3; 119.58).

C) Cura física e espiritual

Devemos entender que a cura que pedia não era de nenhuma doença específica, mas sim, das consequências físicas decorrentes do seu pecado e da consciência angustiada de ter pecado contra Deus:

 2 Tem compaixão de mim, SENHOR, porque eu me sinto debilitado; sara-me (ap’r’) (rãpã’),[65] SENHOR, porque os meus ossos estão abalados (lhB) (bahal). 3 Também a minha alma (vp,n<) (nephesh) está profundamente (daom..) (me`od) perturbada (lhB) (bahal); mas tu, SENHOR, até quando? (Sl 6.2-3).

D) Livramento

“Volta-te, Senhor, e livra (#l;x’) (halats) a minha alma….” (Sl 6.4).

Davi suplica que assim como Deus o livrou antes, o faça agora, volte-se para ele e o livre. Aqui temos a prática do que Deus ensina por meio de Asafe: “Invoca-me no dia da angústia; eu te livrarei (#l;x’) (halats), e tu me glorificarás” (Sl 50.15).[66]

Toda a oração de Davi se ampara não em seus supostos merecimentos, mas, na graça de Deus. É ao Deus da graça a Quem ele recorre: “Salva-me por tua graça” (Sl 6.4). O restabelecimento do salmista só é possível pela graça de Deus visto que ele sabe que transgrediu a lei de Deus e por isso também está consciente de que é justa a sua punição.[67]

 

Considerações pontuais

Há neste salmo uma nota vibrante de gratidão: O Deus misericordiosamente providente ouviu a voz do seu lamento e acolheu a sua oração.[68] O salmista repete três vezes:

      “O Senhor ouviu a voz do meu lamento (ykiB.) (bekiy) (8).[69] – Enfatiza o seu estado emocional como resultado de sua dor.

      “O Senhor ouviu a minha súplica (hN”xiT.) (tehinnah) (9).[70] – Enfatiza a situação de carência daquele que suplica, rogando, no caso, a graça de Deus.

      “O Senhor acolhe (xq;l’)(laqach) (toma para si) a minha oração (hL’piT.) (tephillah) (9).[71] ‒ O aspecto predominante no emprego da palavra, especialmente nos Salmos, é a de petição por livramento, amparada na promessa de Deus.

Quanto às três declarações do salmista, comenta Agostinho (354-430): “A assídua repetição de uma sentença é desnecessária numa narração, mas demonstra o afeto de alguém que está radiante. Costuma assim falar os que se alegram, porque não lhes basta proferir uma só vez o motivo de sua alegria”.[72]

A mudança de tom no salmo tem como ingrediente fundamental, a certeza de que Deus ouviu o seu clamor. Nesta certeza Davi se fortifica e, agora, não apenas como um crente restaurado, mas, também como rei, diz: “Apartai-vos de mim, todos os que praticais a iniquidade, porque o Senhor ouviu a voz do meu lamento” (Sl 6.8) (Ver Sl 101).

Considerando estas verdades, pontuamos:

  • Conscientes de nossos pecados, não busquemos desculpas para eles, antes confessemos a Deus rogando o seu perdão.
  •  O tempo da angústia por mais doloroso que seja deve também nos conduzir à reflexão a respeito de Deus e de nossa vida a fim de que possamos amadurecer espiritualmente: “Antes de ser afligido andava errado, mas agora guardo a tua palavra” (Sl 119.67).

Calvino comenta:

Os eleitos, tanto quanto os réprobos, estão sujeitos aos castigos temporários que pertencem somente à carne. A diferença entre os dois casos está unicamente no resultado; pois Deus converte aquilo que em si mesmo é um emblema de sua ira em meios de salvação de seus próprios filhos.[73]

 Em outro lugar, Calvino faz uma indagação pertinente e desafiadora:

Quando ficamos sabendo que os castigos de Deus são açoites paternais, não é nosso dever tornar-nos filhos dóceis, em vez de, resistindo, imitar aqueles para os quais já não há esperança, endurecidos que estão por suas más obras? Estaríamos perdidos, se o Senhor não nos puxasse para Si por meio dos seus corretivos quando caímos.[74]

  • Por maiores que sejam os nossos pecados, exponhamos a Deus em oração. Não tenhamos vergonha de colocar diante de Deus as nossas angustias, temores e ansiedades. Tenhamos vergonha de pecar. Lamentavelmente tendo feito isto, arrependidos, não tenhamos vergonha de confessar a Deus a nossa transgressão rogando-lhe a graça do perdão.
  • Devemos ter sempre presente diante de nossos olhos que a restauração concedida por Deus à nossa vida é unicamente amparada em sua misericórdia e graça, cujo fundamento é a obra redentora de Cristo.
  • Devemos estar sempre prontos para nos rejubilar com a resposta de Deus. Junto com um coração suplicante devemos ter uma alma agradecida (Sl 6.5). “Esta é a vantagem primordial das aflições, ou seja, enquanto nos tornam conscientes de nossa miséria, nos estimulam novamente para suplicarmos o favor divino”.[75]

6) Calvino termina o comentário de Os 1.1-2, com esta oração, que bem pode ser nossa à luz do que aprendemos:

Conceda, Todo-Poderoso Deus, que, visto teres uma vez adotado a nós, e continuares a confirmar esse teu favor por nos chamares incessantemente a ti mesmo, e que não só nos castigas severamente, mas também gentil e paternalmente nos convidas a ti mesmo, e nos exortas, ao mesmo tempo, ao arrependimento — ó, permitas que não fiquemos endurecidos de modo a resistir à tua bondade, nem que abusemos de tua incrível tolerância, mas que submetamo-nos a ti em obediência; para que, todas as vezes em que ocorra de tu nos castigar severamente, possamos suportar tuas correções com genuína submissão de fé, e não continuarmos indomáveis e obstinados até o fim, mas retornarmos a ti, a única fonte de vida e salvação, a fim de que, assim como começaste em nós uma boa obra, também a aperfeiçoe até o dia de nosso Senhor. Amém.[76]

 

Considerações finais

      “Ele mesmo julga (jp;v) (shaphat) o mundo com justiça; administra (!yD) (diyn) os povos com retidão (rIv’yme.) (meshar) (Sl 9.8).

No Salmo 9, Davi retrata uma situação angustiante de opressão e, ao mesmo tempo, de confiança em Deus. O salmista parte de uma certeza: o mundo não está entregue ao acaso ou ao governo dos homens. Deus compartilha com o homem o seu poder, contudo, não abriu mão de sua soberania.

Aqui não há espaço para nenhum tipo de Deísmo (Deus distante da Criação), Panteísmo (Deus se confunde com a matéria), Teísmo Finito (Deus é bom, mas, limitado pelo mal) ou Panenteísmo (Deus e o mundo são eternos).[77]            O salmista inspirado por Deus afirma que Deus “administra (julga) os povos”; Ele tem o controle de todas as coisas; é o Senhor não só de Israel, mas, também, de todos os povos. E como não poderia deixar de ser, o controle universal de Deus é com retidão. Isto indica que um dos aspectos de sua soberania ligado diretamente a nós, é o seu governo sobre a história; nada lhe escapa.

No cântico de Ana, há a declaração do governo de Deus sobre “as extremidades da Terra”: Os que contendem com o SENHOR são quebrantados; dos céus troveja contra eles. O SENHOR julga (!yD) (diyn) as extremidades da terra, dá força ao seu rei e exalta o poder do seu ungido” (1Sm 2.10).

A Palavra enfatiza o domínio de Deus sobre todos os povos; todas as nações da Terra. “Ele julga (!yD) (diyn) entre as nações; enche-as de cadáveres; esmagará cabeças por toda a terra” (Sl 110.6). Isto deve ser proclamado entre as nações: O nosso Deus não é de uma cultura ou de um povo, antes é o Rei; e como tal, juiz de todas as nações: “Dizei entre as nações: Reina o SENHOR. Ele firmou o mundo para que não se abale e julga (!yD) (diyn) os povos com equidade” (Sl 96.10).

É muito difícil para nós entender a história.[78] Na realidade esta dificuldade não é apenas nossa. O salmista nos salmos 10 e 73, de modo especial, e  demonstram ter esta dificuldade. Observe que não estamos falando da macro-história; refiro-me até mesmo à dificuldade que com frequência temos de entender a nossa própria história de vida. As adversidades pelas quais passamos, doenças, desemprego, incompreensão, calúnias, etc.

Com frequência não nos é possível compreender a nossa situação de dor e angústia. Mais ainda: nem sempre nos parece possível manter a nossa fé em Deus nas angústias. Não estou dizendo que perdemos a fé; o que percebo é que o difícil é manter a nossa fé subjetivada: crer e viver, comportar-se, responder em consonância com esta fé. A nossa fé nem sempre triunfa de modo existencial durante as nossas angústias.

O fato, é que mesmo administrando a história por meio de homens, Deus continua no controle sobre todos os povos e o faz, com retidão. A sua reta vontade prevalecerá sempre.

O governo soberano de Deus é reto, com equidade, com direito e de forma suave. Os solavancos na história devem-se à rebeldia do homem que deseja subverter o justo governo de Deus. Por isso, muitas vezes, as guerras, fome, pestes, epidemias. O governo de Deus é suave e justo.

Não pensemos que o mal não esteja sob o governo soberano de Deus dentro de seus propósitos eternos. O mundo não está entregue à própria sorte. Deus o governa.

Ainda que não percebamos a todo o momento sinais desse governo, podemos descansar seguros, certos de que a esperança do aflito não se há de frustrar para sempre.[79] O para sempre é dentro de uma perspectiva totalmente humana. Na realidade, pela ótica divina, que é a verdadeira, a esperança do aflito, depositada nas promessas de Deus nunca se frustra. Podemos nos frustrar com os nossos sonhos e anseios, porém, nunca com as promessas de Deus.

Feliz ano novo. Deus nos conduziu amorosamente até aqui. Agradeçamos a Deus pelo seu providente cuidado. Confessemos a Deus os nossos pecados suplicando o seu perdão. Peçamos força para abandoná-los. Procuremos a reconciliação com nossos irmãos. Perdoemos os que nos caluniaram. Usemos melhor os talentos que o Senhor nos concedeu. Cresçamos na graça e no conhecimento de nosso Senhor Jesus Cristo e descansemos em suas promessas. Enfim: Busquemos pela graça uma vida mais semelhante a Jesus Cristo, o modelo perfeito da família de Deus (Rm 8.29). Amém.

 

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

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[1] Martinho Lutero, Conversas à Mesa, Brasília, DF.: Monergismo, 2017, # 892 p. 462.

[2]Agostinho, Confissões, São Paulo: Abril Cultural (Os Pensadores, v. 6), 1973, XI.14.17, p. 244.

[3]Cf. Gene Edward Veith, Jr., De Todo o Teu Entendimento, São Paulo: Cultura Cristã, 2006, p. 22-23.

[4] Hermisten M.P. Costa,  O Homem no teatro de Deus: Providência, tempo, história e circunstância, Eusébio, CE.: Peregrino, 2019.

[5]“O tempo, se podemos intuir essa identidade, é uma ilusão: a indiferenciação e a inseparabilidade de um momento de seu aparente ontem e de outro de seu aparente hoje, bastam para desintegrá-lo” (Jorge L. Borges, Historia de la Eternidad,Buenos Aires: Emecé Editores, (6. impresión), 1969, p. 29).

[6]Agostinho (354-430) escreveu de forma magistral sobre o tempo em diversos lugares. Destaco aqui duas proposições do autor: “A brevidade dos dias estende-se até o fim dos séculos. Brevidade porque a totalidade do tempo, não digo de hoje até o fim dos séculos, mas de Adão até o fim dos séculos, é uma exígua gota d’agua, se comparada à eternidade” (Agostinho, Comentário aos Salmos,  São Paulo: Paulus, (Patrística, 9/3), 1998,  (Sl  101), v. 3, p. 36). “Todos os dias do tempo vêm para não existirem mais. Toda hora, todo mês, todo ano: nada disso permanece. Antes de vir, será; quando vier, não será mais” (Agostinho, Comentário aos Salmos,  São Paulo: Paulus, (Patrística, 9/3), 1998,  (Sl  101), v. 3, p. 37).

[7] Veja-se a exposição de Alan Richardson, Así se hicieron los Credos: Una breve introducción a la historia de la Doctrina Cristiana, Barcelona: Editorial CLIE, 1999, p. 15ss.

[8] Veja-se, por exemplo: Francis A. Schaeffer, Nenhum conflito final: a Bíblia sem erro em tudo o que ela afirma, Brasília, DF.: Monergismo, 2017, p. 13-33.

[9] Veja-se: F.A. Schaeffer, O Deus que intervém, São Paulo: Cultura Cristã, 2002, p. 250-251.

[10] Georges Duby (1919-1996), dentro de uma perspectiva puramente histórica, admite: “O Cristianismo, que impregnou fundamentalmente a sociedade medieval, é uma religião da história. Proclama que o mundo foi criado num dado momento e que, num outro, Deus fez-se homem para salvar a humanidade. A partir disso, a história continua e é Deus quem a dirige” (Georges Duby, Ano 1000, ano 2000, na pista de nossos medos, São Paulo: Editora UNESP; Imprensa Oficial do Estado, 1999, p. 16). “Os historiadores insistiram com justeza sobre o fato de que o cristianismo é uma religião histórica, ancorada na história e se afirmando como tal” (Jacques Le Goff, Tempo: In: Jacques Le Goff; Jean-Claude Schmitt, coords., Dicionário Temático do Ocidente Medieval, Bauru, SP.; São Paulo, SP.: Editora da Universidade Sagrado Coração; Imprensa Oficial do Estado, 2002, v. 2, p. 534). “O cristianismo, como também a religião de Israel, da qual ele nasceu, se apresenta como uma religião histórica de forma absolutamente concreta, em comparação à qual nenhuma das outras religiões do mundo pode se equiparar – nem mesmo o Islã, apesar de este se aproximar mais do cristianismo e do judaísmo, nesse sentido, que qualquer outra religião” (Christopher Dawson, Dinâmicas da História no Mundo, São Paulo: É Realizações Editora, 2010, p. 343). Do mesmo modo: Marc Bloch, Apologia da história, ou, O ofício do historiador, Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1997, p. 58. Veja-se também: Gordon H. Clark, Uma visão cristã dos homens e do mundo, Brasília, DF.: Monergismo, 2013, p. 85, 92.

[11]Veja-se: Alister E. McGrath, Paixão pela Verdade: a coerência intelectual do Evangelicalismo, São Paulo: Shedd, 2007, p. 23ss. “Qualquer coisa que se apresente como cristianismo, mas que não insista na absoluta e essencial necessidade de Cristo, não é cristianismo. Se Ele não for o coração, a alma e o centro, o princípio e o fim do que é oferecido como salvação, não é a salvação cristã, seja lá o que for” (D. M. Lloyd-Jones, O supremo propósito de Deus: Exposição sobre Efésios 1.1-23, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1996, p. 143). “O evangelho nos confronta com fatos. Ele se baseia completamente numa pessoa; está fundamentado em fatos definidos que ocorreram ao longo da história. (…) Ele me conduziu por entre os fatos, ao longo do túnel das trevas em direção à aurora que ilumina a outra extremidade” (D.M. Lloyd-Jones, Não se perturbe o coração de vocês, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 2016, p. 29). Vejam-se Alister E. McGrath, A gênese da doutrina: fundamentos da crítica doutrinária, São Paulo: Vida Nova, 2015, p. 195ss.; D.A. Carson, O que é o evangelho? – revisitado: In:  Sam Storms; Justin Taylor, orgs., John Piper: Ensaios em sua homenagem, São Paulo: Hagnos, 2013, [p. 177-206], p. 204.

[12] Veja-se: Michael S. Horton, Os Sola’s de Reforma: In: J.M. Boice; B. Sasse, Reforma Hoje, São Paulo: Cultura Cristã, 1999, p. 97.

[13]João Calvino, Exposição de Segundo Coríntios, São Paulo: Paracletos, 1995, (2Co 3.18), p. 78.

[14]“Elimine-se o evangelho, e todos permaneceremos malditos e mortos à vista de Deus. Esta mesma Palavra, por meio da qual somos gerados, passa a ser leite para nos criar, bem como alimento sólido para a nossa nutrição contínua” (João Calvino, Exposição de 1 Coríntios, São Paulo: Paracletos, 1996, (1Co 4.15), p. 143).

[15]“Cristo é o fim da lei e a suma do Evangelho” (João Calvino, Efésios, São Paulo: Paracletos, 1998, (Ef 2.20), p. 78).

[16]John MacArthur, Deus: Face a face com sua majestade, São José dos Campos, SP.: Fiel, 2013, p. 16.

[17]Herman Bavinck, Teologia Sistemática, Santa Bárbara d’Oeste, SP.: SOCEP., 2001, p. 311.

[18]Karl Barth, Church Dogmatics, Peabody, Massachusetts: Hendrickson Publishers, 2010, II/2, p. 52-53.

[19]Timothy Dudley, Cristianismo autêntico: 968 textos selecionados das obras de John Stott, São Paulo: Editora Vida, 2006, p. 44. Lewis (1898-1963)  escreveu de forma contundente: “Um homem que fosse só homem, e dissesse as coisas que Jesus disse, não seria um grande mestre de moral: seria ou um lunático, em pé de igualdade com quem diz ser um ovo cozido, ou então seria o Demônio. Cada um de nós tem que optar por uma das alternativas possíveis. Ou este homem era, e é, Filho de Deus, ou então foi um louco, ou cuspir nele e matá-lo como um demônio; ou podemos cair a seus pés e chamá-lo de Senhor e Deus. Mas não venhamos com nenhuma bobagem paternalista sobre ser Ele um grande mestre humano. Ele não nos deu esta escolha. Nem nunca pretendeu” (C.S. Lewis, A essência do Cristianismo, São Paulo: ABU Editora, 1979, p. 29). Boice com maestria analisa as opções fornecidas por Lewis. Veja-se: James M. Boice, Fundamentos da Fé Cristã, Rio de Janeiro: Editora Central Gospel, 2011, p. 238-240. John Piper faz algo semelhante, com uma aproximação diferente. (Veja-se: John Piper, Um homem chamado Jesus Cristo, São Paulo: Vida, 2005, p. 11-12). Do mesmo modo, Josh McDowell, Mais que um carpinteiro, Venda Nova, MG.: Editora Betânia, 1989, p. 26-35.

[20]Mark A. Noll, Momentos Decisivos na História do Cristianismo, São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2000, p. 16. Vejam-se também: Clyde P. Greer, Jr., Refletindo honestamente sobre a história: In: John F. MacArthur Jr. ed. ger. Pense Biblicamente!: recuperando a visão cristã do mundo, São Paulo: Hagnos, 2005, p. 400-401.

[21] Cf. J. Gresham Machen, Cristianismo e Liberalismo, São Paulo: Os Puritanos, 2001, p. 77.

[22] “Gostemos ou não, não podemos escapar ao fato de que historicamente o Cristianismo foi fundado sobre a crença na ressurreição” (Alan Richardson, Así se hicieron los Credos: Una breve introducción a la história de la Doctrina Cristiana, Barcelona: Editorial CLIE, 1999, p. 24).

[23] Karl Barth, A Palavra de Deus e a palavra do homem, São Paulo: Novo Século, 2004, p. 217.

[24]James W. Sire, O Universo ao Lado, São Paulo: Hagnos, 2004, p. 40.

[25]Philippe Ariès, A História das Mentalidades: In: Jacques Le Goff, ed. A História Nova, 4. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2001 (2. tiragem), p. 165.

[26] “Tente explicar a história deste mundo excluindo Deus! você não conseguirá. A Bíblia é o melhor livro de história que existe. É nas suas páginas que você realmente começa a entender a história” (David Martyn Lloyd-Jones, Uma Nação sob a ira de Deus: Estudos em Isaías 5, 2. ed. Rio de Janeiro: Textus, 2004, p. 71).

[27] A.A.Hoekema, A Bíblia e o Futuro, São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1989, p. 38.

[28]A Igreja é o meio pelo qual a sabedoria se torna manifesta. A Igreja é uma espécie de prisma posto no caminho da luz para repartir o resplendor nas cores do espectro (…). É através da Igreja, como um meio, que os anjos têm recebido esta nova concepção da transcendente glória da sabedoria de Deus (…). A Igreja Cristã é mais maravilhosa do que qualquer coisa visível na natureza (…). Como membros do corpo de Cristo somos o mais maravilhoso fenômeno do universo, a coisa mais admirável que Deus fez” (D. Martyn Lloyd-Jones, As Insondáveis Riquezas de Cristo, p. 76-77). “A igreja é seu teatro em que contemplam, extasiados, a variada e multiforme sabedoria de Deus” (João Calvino, As Institutas, III.20.23).

[29] Veja-se: Gustaf Aulén, A Fé Cristã, São Paulo: ASTE, 1965, p. 294.

[30]Enrique Stob, Reflexiones Éticas: Ensayos sobre temas morales, Grand Rapids, Michigan: T.E.L.L., 1982, p. 68.

[31] Quanto à distinção. veja-se: Confissão de Westminster, Cap. 25.

[32] J.H. Merle D’Aubigné, História da Reforma no Décimo-Sexto Século, São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, [s.d.], v. 1, p. 9.

[33] “Os ladrões e os homicidas, e os demais malfeitores, são instrumentos da divina providência, dos quais o próprio Senhor Se utiliza para executar os juízos que em Si determinou” (João Calvino, As Institutas, I.17.5). Comentando a investida de Satanás contra Jó, arremata: “Concluímos que desta provação de que Satanás e os perversos salteadores foram os ministros, Deus foi o autor” (Calvino, As Institutas, I.18.1). Veja-se também: Calvino, As Institutas, I.18.2.

[34] Veja-se: João Calvino, As Institutas, I.17.2.

[35] Van Groningen, comentando o Salmo 111.1, chama a expressão de “fidelidade pactual”; no Salmo 118.1, designa de “amor pactual” (Gerard Van Groningen, Revelação Messiânica no Velho Testamento, Campinas, SP.: Luz para o Caminho, 1995, p. 351, 363). Packer, a traduz por “Amor constante” (J.I. Packer, Vocábulos de Deus, São José dos Campos, SP.: Fiel, 1994, p. 88); Eichrodt, chama de “amor solícito” (Walther Eichrodt, Teologia del Antiguo Testamento, Madrid: Ediciones Cristiandad, 1975, v. 1, p. 213). Harris seguindo a versão King James, crê que uma boa tradução é “bondade amorosa” (R. Laird Harris, hsd: In: R. Laird Harris, et. al., eds. Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1998, p. 503).

[36] R. Laird Harris, ihsd: In: R. Laird Harris, et. al., eds. Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento, p. 501.

[37]6 Porque tu és povo santo ao SENHOR, teu Deus; o SENHOR, teu Deus, te escolheu, para que lhe fosses o seu povo próprio, de todos os povos que há sobre a terra. 7 Não vos teve o SENHOR afeição, nem vos escolheu porque fôsseis mais numerosos do que qualquer povo, pois éreis o menor de todos os povos, 8 mas porque o SENHOR vos amava e, para guardar o juramento que fizera a vossos pais, o SENHOR vos tirou com mão poderosa e vos resgatou da casa da servidão, do poder de Faraó, rei do Egito. 9 Saberás, pois, que o SENHOR, teu Deus, é Deus, o Deus fiel, que guarda a aliança e a misericórdia (ds,x,) (hesedh) até mil gerações aos que o amam e cumprem os seus mandamentos; 10 e dá o pago diretamente aos que o odeiam, fazendo-os perecer; não será demorado para com o que o odeia; prontamente, lho retribuirá. 11 Guarda, pois, os mandamentos, e os estatutos, e os juízos que hoje te mando cumprir. 12 Será, pois, que, se, ouvindo estes juízos, os guardares e cumprires, o SENHOR, teu Deus, te guardará a aliança e a misericórdia (ds,x,) (hesedh) prometida sob juramento a teus pais” (Dt 7.6-12).

[38] “A teologia cristã oferece uma estrutura pela qual as ambiguidades da experiência podem se interpretadas. A teologia visa interpretar a experiência. É como uma rede que podemos lançar sobre a experiência, a fim de capturar seu sentido. A experiência é vista como algo para ser interpretado, em vez de algo que em si é capaz de interpretar. A teologia cristã visa assim a dirigir-se a, interpretar e transformar a experiência humana” (Alister E. McGrath, Paixão pela Verdade: a coerência intelectual do Evangelicalismo, São Paulo: Shedd Publicações, 2007, p. 66-67). Sobre esta questão, vejam-se: D. Martyn Lloyd-Jones, A Vida de Paz, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 2008, p. 90; D.M. Lloyd-Jones, Crescendo no Espírito, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 2006 (Certeza Espiritual: v. 4), p. 12; D.M. Lloyd-Jones, Santificados Mediante a Verdade, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, (Certeza Espiritual, v. 3), 2006, p. 55.

[39] T. Kempis, Imitação de Cristo, 9. ed. Petrópolis, RJ.: Vozes, 1945, IV.9.3. p. 242-243.

[40] Vejam-se, entre outros: William S. Plumer, Psalms, Carlisle, Pennsylvania: The Banner of Truth Trust, 1975, p. 94; James M. Boice, Psalms, Grand Rapids, MI.: Baker Books, © 1994, 2005, v. 1, (Sl 6), p. 51.

[41] Veja-se: Alexander Maclaren, Psalms: In: W.R. Nicoll, ed., The Expositor’s Bible, [CD-ROM], (Rio, Wi: Ages Software, 2002), (Sl 6).

[42] Cf. J.A. Motyer, Os Salmos: In: D.A. Carson, et. al., eds. Comentário Bíblico: Vida Nova, São Paulo: Vida Nova, 2009, (Sl 6), p. 743; Derek Kidner, Salmos 1-72: introdução e comentário, São Paulo: Mundo Cristão; Vida Nova, 1980, p. 76.

[43]Cf. C.F. Keil; F. Delitzsch, Commentary on the Old Testament, Grand Rapids, MI: Eerdmans, (1871), v. 5, (I/III), (Sl 6), p. 130ss.

[44]Cf. João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Paracletos, 1999, v. 1, (Sl 6), p. 123; William S. Plumer, Psalms, Carlisle, Pennsylvania: The Banner of Truth Trust, 1975, p. 94.

[45] Derek Kidner, Salmos 1-72: Introdução e comentário, São Paulo: Mundo Cristão; Vida Nova, 1980, p. 76. Para uma divisão diferente das estrofes, vejam-se: H.C. Leupold, Exposition of the Psalms, 6. ed. Grand Rapids, MI.: Baker Book House, 1979, (Sl 6), p. 83; Ernst W. Hengstenberg; John Thomson, Commentary on the Psalms, Tennessee: General Books, © 1846, 2010 (Reprinted), v. 1, (Sl 6), p. 60-61; James M. Boice, Psalms, Grand Rapids, MI.: Baker Books, © 1994, 2005, v, 1, (Sl 6), p. 52; John W. Baigent; Leslie C. Allen, Salmos: In: F.F. Bruce, ed. ger., Comentário Bíblico NVI: Antigo e Novo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 2009, p. 769; C.F. Keil; F. Delitzsch, Commentary on the Old Testament, Grand Rapids, MI: Eerdmans, (1871), v. 5, (I/III), (Sl 6), p. 130; Leslie S. M’Caw, Salmos: In: F. Davidson, ed., O Novo Comentário da Bíblia, São Paulo: Vida Nova, 1976 (reimpressão), p. 503-504; Artur Weiser, Os Salmos, São Paulo: Paulus, 1994, (Sl 6), p. 90-92; A.F. Kirkpatrick, The Books of Psalms, 11. ed. Cambridge: University Press, 1951, (Sl 6), p. 26.

[46] Ne 4.2; Is 16.8; Jl 1.10; Na 1.4 (duas vezes).

[47] “Ele atribui medo a seus ossos, não porque sejam dotados de emoção, mas porque a veemência de sua tristeza era tal que afetara todo seu corpo. Ele não fala de sua carne, a qual é a mais tenra e a mais suscetível parte do sistema corporal; menciona, porém, seus ossos, com isso insinuando que as partes mais resistentes de sua estrutura foram feitas para tremerem de medo” (João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Paracletos, 1999, v. 1, (Sl 6.2), p. 127).

[48]O rei se lamentará, e o príncipe se vestirá de horror, e as mãos do povo da terra tremerão (lhB) (bahal) de medo; segundo o seu caminho, lhes farei e, com os seus próprios juízos, os julgarei; e saberão que eu sou o SENHOR (Ez 7.27). Ouvindo, pois, o filho de Saul que Abner morrera em Hebrom, as mãos se lhe afrouxaram (lhB) (bahal), e todo o Israel pasmou” (2Sm 4.1).

[49] Vejam-se: Sl 69.3; Is 49.4; Jr 45.3

[50] João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Paracletos, 1999, v. 1, (Sl 6.7), p. 132-133.

[51] Este advérbio denota a dor superlativa de sua alma.

[52] Veja-se: C.F. Keil; F. Delitzsch, Commentary on the Old Testament, Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, [s.d.], v. 5, (Sl 6.2-4), p. 133.

[53] João Calvino, O Livro dos Salmos, v. 1, (Sl 6.6-7), p. 131. “Ora, não podemos tirar bom proveito da sua disciplina, a não ser que, julgando que Ele está indignado com os nossos vícios e maldades, consideremos o Senhor propício a nós, e que Ele nos trata com afetuoso amor” (João Calvino, As Institutas da Religião Cristã: edição especial com notas para estudo e pesquisa, São Paulo: Cultura Cristã, 2006, v. 2, (II.5), p. 178).

[54]“Em Deus, que é juiz, não há perturbação. Todavia, os atos de seus servos, efetuados por meio das leis que são suas, chamam-se sua ira” (Agostinho, Comentário aos Salmos, São Paulo: Paulinas, 1997, IX/1, 3, p. 62).

[55]D.M. Lloyd-Jones, O Clamor de um Desviado, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1997, p. 16,17.

[56]Leslie S. M’Caw, Salmos: In: F. Davidson, ed. O Novo Comentário da Bíblia, 2. ed. São Paulo: Vida Nova, 1976, p. 503.

[57] De modo semelhante ao salmo 38.1.

[58] Paul R. Gilchrist, yãsar: In: R. Laird Harris, et. al., eds. Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1998, p. 632.

[59] Vejam-se: Paul R. Gilchrist, Yakah: In: R. Laird Harris, et. al., eds. Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1998, p. 615-616; H.C. Leupold, Exposition of The Psalms, 6. ed. Grand Rapids, MI.: Baker Book House, 1979, p. 84; E.H. Merrill, Ysr: In: Willem A. VanGemeren, org., Novo Dicionário Internacional de Teologia e Exegese do Antigo Testamento, São Paulo: Cultura Cristã, 2011, v. 2, p. 479.

[60]28 Sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito. 29 Porquanto aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos” (Rm 8.28-29).

[61]João Calvino, As Institutas da Religião Cristã: edição especial com notas para estudo e pesquisa, São Paulo: Cultura Cristã, 2006, v. 2, (II.5), p. 174.

[62]A ideia básica da palavra é a de aprender, ensinar, treinar, educar, acostumar-se a; familiarizar-se com. Deus nos ensina para que cumpramos a sua Palavra: “Agora, pois, ó Israel, ouve os estatutos e os juízos que eu vos ensino (למד)(lâmad), para os cumprirdes, para que vivais, e entreis, e possuais a terra que o SENHOR, Deus de vossos pais, vos dá” (Dt 4.1). (Do mesmo modo: Dt 4.5,14; 5.1,31; 6.1).

Como mestre perfeito, Deus usava inclusive do recurso musical para ensinar a Lei ao povo: “Escrevei para vós outros este cântico e ensinai-o (למד)(lâmad) aos filhos de Israel; ponde-o na sua boca, para que este cântico me seja por testemunha contra os filhos de Israel. (…) Assim, Moisés, naquele mesmo dia, escreveu este cântico e o ensinou (למד)(lâmad) aos filhos de Israel” (Dt 31.19,22/Dt 32.1-47). (Cf. Walter C. Kaiser, Lâmad: In: R. Laird Harris, et. al., eds. Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento, p. 791; D. Muller, Discípulo: In: Colin Brown, ed. ger. Novo Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1981-1983, v. 1, p. 662; A.W. Morton, Educação nos Tempos Bíblicos: In: Merrill C. Tenney, org. ger., Enciclopédia da Bíblia, São Paulo: Cultura Cristã, 2008, v. 2, p. 261; E.H. Merrill, dml: In: Willem A. VanGemeren, org., Novo Dicionário Internacional de Teologia e Exegese do Antigo Testamento, São Paulo: Cultura Cristã, 2011, v. 2, p. 800-802; Hermisten M.P. Costa, introdução à Educação Cristã, Brasília, DF.: Monergismo, 2012).

[63]Portanto, devemos suplicar pelo ensino de Deus: “Bendito és tu, SENHOR; ensina-me (dm;l’) (lamad) os teus preceitos” (Sl 119.12). Eu te expus os meus caminhos, e tu me valeste; ensina-me (dm;l’) (lamad) os teus decretos” (Sl 119.26). (Do mesmo modo: Sl 119.64,66,68,73, 108,124,135; 143.10).

[64] É desta palavra que vem o nome Ana e seus derivados. Veja-se: Edwin Yamauchi, Hãnan: In: R. Laird Harris, et. al., eds. Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1998, p. 495.

[65] Este verbo tem o sentido amplo de curar, sarar, restaurar, tornar saudável. É empregado literalmente para referir-se ao médico (Gn 50.2; Jó 13.4). A cura, por sua vez, pode ser física (Gn 20.17; Sl 30.3; 103.3) ou espiritual (Sl 41.4; 147.3; Is 53.5; 11.3; Os 14.4). Tem também o sentido de reparar a terra (Sl 60.2), curar a rebelião (Jr 3.22), etc. Para uma aplicação desta questão, veja-se: Mark D. Futato, Interpretação dos Salmos, São Paulo: Cultura Cristã, 2011, p. 106-107.

[66]Do mesmo modo: Sl 81.7; 91.15; 116.8; 119.153.

[67]Veja-se: Agostinho, Comentário aos Salmos, São Paulo: Paulinas, 1997, IX/1, 5, p. 64.

[68] Deve ser observado que no hebraico há pelo menos 12 termos para se referirem à oração e ao ato de orar (Cf. Robert B. Girdlestone, Synonyms of the Old Testament, Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, (1897), Reprinted, 1981, p. 219; Victor P. Hamilton, Palal: In: R. Laird Harris, et. al., eds. Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1998, p. 1218).

[69] Choro (Gn 45.2; 2Sm 13.36; Sl 30.5); pranto (Dt 34.8; Jz 21.2); lágrimas (Sl 102.9).

[70]Súplica (1Rs 8.28,30,38,45,49,52 (duas vezes),54; Sl 55.1; Dn 9.20); petição (Sl 119.170).

[71] Prece (Sl 102.17).

[72] Agostinho, Comentário aos Salmos, São Paulo: Paulinas, 1997, IX/1, 11, p. 68.

[73] João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Parakletos, 2002 v. 3, (Sl 79.1), p. 250. Calvino, comentando a respeito da pedagogia das aflições, exorta: “Os homens são incapazes de sentir seus pecados a menos que sejam levados pela força a conhecer-se por si mesmos. Por isso, vendo que a prosperidade nos embriaga de tal maneira, e que quando estamos em paz cada um se adula em seus pecados; temos que sofrer pacientemente as aflições de Deus. Porque a aflição é a autêntica mestra que leva os homens ao arrependimento para que se condenem eles mesmos diante de Deus e, sendo condenados, aprendam a odiar aqueles pecados nos quais anteriormente se banhavam” (Juan Calvino, El Uso Adecuado de la Afliccion: In: Sermones Sobre Job, Jenison, Michigan: T.E.L.L., 1988, (Sermon nº 19), p. 226).

[74]João Calvino, As Institutas da Religião Cristã: edição especial com notas para estudo e pesquisa, v. 4, (IV.17), p. 204. “….os crentes são açoitados, não para com isso satisfazerem à ira de Deus, nem para pagarem o que é devido ao juízo que Ele lhes impõe, mas a fim de aproveitarem a oportunidade para arrependimento e para retorno ao bom caminho” (João Calvino, As Institutas da Religião Cristã: edição especial com notas para estudo e pesquisa, v. 2, (II.5), p. 177).

[75]João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Paracletos, 1999, v. 1, (Sl 30.8), p. 635.

[76]John Calvin, Calvin’s Commentaries, Grand Rapids, Michigan: Baker Book House Company, 1996, (Os 1.2), v. 8/2, p. 46.

[77]Veja-se: W. Gary Crampton; Richard E. Bacon, Em Direção a uma Cosmovisão Cristã, Brasília, DF.: Monergismo, 2010, p. 93-106; Cosmovisão: In: Norman Geisler, Enciclopédia de Apologética, São Paulo: Editora Vida, 2002, (2. impressão), p. 188-189.

[78] “A história é ciência do homem e nada do que se refere ao homem é simples. E se uma questão histórica importante nos parece simples, o nosso dever deve ser imediatamente complicá-la, pois, ao vê-la simples, podemos ter a certeza de que a deformamos… Por outras palavras, o papel do historiador não é simplificar o real, é procurar, por trás das aparências da simplicidade, a complexidade das coisas vivas, o corrente, a necessária complexidade da vida” (Lucien Febvre, A Europa: Génese de uma Civilização, Lisboa: Teorema, 2001, p. 153).

[79] “A fé não deixou de ser confiante. Ela não se baseia em instáveis acasos terrenos, mas no Deus que, apesar de tudo, está no trono. Porém, os golpes terrenos também são reais, e muitas vezes o mundo em que vivemos parece pertencer aos ímpios e maus” (J.A. Motyer, Os Salmos: In: D.A. Carson, et. al., eds. Comentário Bíblico: Vida Nova, São Paulo: Vida Nova, 2009, (Sl 9), p. 746).

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