Os 200 anos da Primeira Constituição Brasileira e a oficialização da tolerância Religiosa – Parte 3

1.2. A Inquisição na Espanha

                   1.2.1. A Conquista dos Mouros

Os visigodos (= godos do oeste) que invadiram e pilharam Roma em 24/08/410, conseguiram com muita dificuldade se manter sobre o território conquistado. Contudo, no seu apogeu, a partir do ano 460, comandados pelo ardiloso ariano rei Eurico (c. 420-484), os visigodos estenderam os seus domínios sobre a maior parte da Espanha. Os suevos,[1] entretanto, conservaram o seu território independente no extremo noroeste da Península.[2]

Leovigildo

Apesar do indiscutível domínio dos visigodos, a unificação política dos seus domínios foi lenta, só se desenvolvendo satisfatoriamente 150 anos depois,  sob o reinado de Leovigildo (568-586), que estabeleceu a capital em Toledo, derrotando finalmente o reino dos suevos.

Os visigodos eram arianos,[3] tendo sido doutrinados ao norte do Danúbio pelo missionário cristão Úlfilas  (“Pequeno lobo”)(311?-383). Embora seja discutida a amplitude da influência do trabalho de Úlfilas sobre os visigodos, o fato é que ela existiu.[4]

Leovigildo, um rei hábil, bom estrategista e violento − conforme julgasse oportuno −,  tentou impor o arianismo a seus súditos na Península, inclusive, dispensando os “convertidos” do rebatismo, o que lhe não rendeu grande êxito entre os personagens mais importantes que pretendia alcançar.[5] Com a sua morte (21/04/585),[6] encerra-se a sucessão de reis visigodos arianos.

 

Recaredo

O seu filho Recaredo († 601),[7] assume o trono, governando de 586 a 601. Recaredo, que ao que parece, era cristão, declarou-se oficialmente em 587, quando reinava apenas há dez meses. O bispo de Sevilha, Leandro (c. 545- c. 600), por certo, teve grande influência em sua decisão, como também tivera na de seu irmão Hermenegildo (564-585).[8]

 

Terceiro Concílio de Toledo

Após Recaredo dominar três conspirações arianas, visto que estes não se conformavam com a sua conversão, envolvendo tolerância e devolução de bens confiscados a católicos,[9]  ele convocou o Terceiro Concílio de Toledo que se celebrou em 06/05/589, com a assistência de 62 bispos (oito deles arianos)[10] e 5 metropolitanos de Espanha e das Gálias, sendo Leandro de Sevilha o grande personagem deste evento.[11]

À ocasião, Recaredo e sua esposa Bado (Bada, Baddo),[12] reafirmaram as suas conversões ao catolicismo – proclamando deste modo a conversão de todo o reino –, e muitos outros abjuraram o arianismo, entre eles cinco magnatas e oito bispos.[13] Alguns arianos aristocratas fizeram oposição ao rei, todavia, como não dispunham de apoio popular, nada conseguiram.[14]

Já na abertura do Concílio, temos o seu propósito maior explicitado:

Havendo o mesmo rei gloriosíssimo, em virtude da sinceridade da sua fé, mandado reunir o conselho de todos os bispos de seus domínios para que se alegrassem no Senhor pela sua conversão e pela [conversão] da raça dos godos, e também deram graças à bondade divina por um dom tão especial, o próprio santíssimo príncipe falou ao venerável concílio nestes termos: “Não acredito, reverendíssimos bispos, que desconheçais que eu os convoquei à presença de nossa serenidade com objetivo de restabelecer a disciplina eclesiástica. E como quer que ele faça muitos anos que a heresia ameaçadora não permitia a realização de concílios na Igreja Católica, Deus, que teve o prazer de extirpar a mencionada heresia por nosso intermédio, nos admoestou a restaurar as instituições eclesiásticas conforme os antigos costumes. Deveis pois, estar contentes e alegres porque os costumes antigos e canônicos, com a ajuda de Deus, retornam aos canais antigos através da nossa glória. Porém, em primeiro lugar, advirto-vos e exorto-vos também [que] [v]os consagreis aos jejuns, vigílias e orações, para que a ordem canônica, que um longo e duradouro esquecimento tinha feito desaparecer da memória episcopal e que a nossa época confessa ignorar, se os revele novamente por dom divino”.[15]

No momento próprio, o rei e a rainha, solenemente reafirmaram sua fé católica: “Eu Recaredo, rei, retendo de coração e afirmado  de palavra esta santa e verdadeira confissão, à qual igualmente por toda a orbe da terra a confessa a Igreja Católica, a firmei com minha mão direita com o auxílio de Deus”. Na sequência, a rainha declara a sua fé: “Eu Bado, rainha gloriosa, firmei com minha mão e de todo coração esta fé que cri e admiti”.[16]

Como era de se esperar, o crescente desaparecimento de arianismo “facilitou a unida de religiosa e cultural da Europa Ocidental”, comenta Latourette (1884-1968).[17]

Mas, que de outra perspectiva, Herculano (1810-1877), em 1843, comentou sobre os efeitos devastadores disso a médio e longo prazo:

Esta conversão dos vencedores à crença dos subjugados foi o complemento da fusão social dos dois povos. A civilização, porém, que suavizou a rudeza dos bárbaros era uma civilização velha e corrupta. Por alguns bens que produziu para aqueles homens primitivos, trouxe‑lhes o pior dos males, a perversão moral. A monarquia visigótica procurou imitar o luxo do império que morrera e que ela substituíra. Toletum [Toledo] quis ser a imagem de Roma ou de Constantinopla. Esta causa principal, ajudada por muitas outras, nascidas em grande parte da mesma origem, gerou a dissolução política por via da dissolução moral.

Debalde muitos homens de gênio revestidos da autoridade suprema tentaram evitar a ruína que viam no futuro: debalde o clero espanhol, incomparavelmente o mais alumiado da Europa naquelas eras tenebrosas e cuja influência nos negócios públicos era maior que a de todas as outras classes juntas, procurou nas severas leis dos concílios, que eram ao mesmo tempo verdadeiros parlamentos políticos, reter a nação que se despenhava. A podridão tinha chegado ao âmago da árvore, e ela devia secar. O próprio clero se corrompeu por fim. O vício e a degeneração corriam soltamente, rota a última barreira.[18]

…. No fim do século sétimo eram já bem raros aqueles em quem as tradições da cultura romana não haviam subjugado os instintos generosos da barbaria germânica e a quem o cristianismo fazia ainda escutar o seu verbo íntimo, esquecido no meio do luxo profano do clero e da pompa insensata do culto exterior.[19]

 

O avanço Mouro

Desse modo, pouco mais de cem anos depois, no início do século VIII, encontramos um extenso império muçulmano afro-asiático que se agigantara, se estendendo desde o vale do rio Indo (rio da Índia e do Paquistão), até o Atlântico.

Concomitantemente, na Espanha, os visigodos estavam enfraquecidos pelas constantes guerras internas,[20] e evidente fragilidade moral e espiritual. Este foi um bom período, politicamente falando, para que os muçulmanos invadissem a Península, o que de fato ocorreu em 709.

Depois de uma árdua batalha perto do lago Janda (Batalha de Guadalete), que durou de 19 a 26 ou de julho de 711, Tarique-Ibn-Ziad (c. 670-720), o general muçulmano venceu. O exército do rei visigodo Rodrigo (688-711), foi dispersado e ele morreu ainda bastante jovem (cerca de 23 anos). Assim pereceu o último dos reis godos e, com ele seu já enfermo império.

Em pouco tempo os mouros[21] conquistaram quase toda a Península Ibérica, com exceção de Astúrias e da Gasconha. “logo após a invasão muçulmana, os cristãos se mantiveram refugiados entre as populações primitivas das montanhas do Noroeste onde formavam estreitas comunidades, reunidas em seguida em pequenos principados ou reinos”, informa-nos Heers (1924-2013)[22]

 

Os judeus na Península

Os Judeus, habitantes antigos da Península Ibérica, cujo testemunho remonta ao terceiro século da Era Cristã,[23] eram já há muito tempo, perseguidos, executados, proibidos de praticarem a sua religião, tendo seus bens confiscados.[24] Durante o ataque muçulmano (a partir de 709), colaboraram com os invasores, na esperança de uma perspectiva melhor de vida para o futuro, sob o domínio muçulmano. Todavia, se isto no início ocorreu, posteriormente, seitas mais exclusivistas dos muçulmanos iriam promover de tempos em tempos perseguições, gerando a fuga de judeus dos domínios muçulmanos para os territórios cristãos.[25]

Todavia, os judeus aprenderam ao longo dos séculos a colaborar aqui e ali; ora com as tropas cristãs ora com as tropas muçulmanas; perdiam privilégios aqui, reconquistava-os ali. Em síntese, aprenderam a viver em meio às perseguições e ódios nem sempre gratuitos, mas que sempre existiram e, não eram difíceis de justificar incrementando um argumento teológico para justificar, afinal, eles mataram o “Nosso Senhor”.

 

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

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[1]Ao que parece era um povo de origem germânica que no ano 409 havia invadido a Península Ibérica.

[2]Cf. Justo L. Gonzalez, A Era das Trevas, São Paulo: Vida Nova, (Uma História Ilustrada do Cristianismo), 1980-1988, v. 3, p. 12. Veja-se também, Vários autores, Enciclopedia Universal Ilustrada Europeo-Americana, Madrid: Espasa-Calpe, 70v. (mais apêndices e suplementos), (A edição atual, parece dispor de 114 volumes com os apêndices e suplementos), v. 21, p. 902).

[3] Nome derivado de Ário (c. 250-c.336) – bispo de Alexandria (311-312) –, natural da Líbia e educado em Antioquia da Síria, tendo como mestre a figura enigmática de Luciano de Antioquia († 312), que teria sido discípulo de Paulo de Samosata. Ário teve os seus ensinamentos condenados em Antioquia (02/325); e no Primeiro Concílio Ecumênico de Nicéia (20/05/325), sendo então deportado para o Ilírico. Mesmo no exílio, ele continuou escrevendo, aumentando consideravelmente a sua influência, contando sempre com um bom número de amigos fiéis, sendo o grande articulador político do grupo ariano, o bispo Eusébio de Nicomédia († 342). Em 335, num encontro com Constantino (274-337), Ário subscreveu uma confissão considerada pelo Imperador “ortodoxa”. (Veja-se: o texto da sua confissão In: Socrates Scholasticus, The Ecclesiastical History, I.26: In: P. Schaff; H. Wace, eds. Nicene and Post-Nicene Fathers of the Christian Church, (Second Series), Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, 1978, v. 2, p. 28-29; Salaminus Hermias Sozomen, The Ecclesiastical History, I.27: In: P. Schaff; H. Wace, eds. Nicene and Post-Nicene Fathers of the Christian Church, (Second Series), Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, 1978, v. 2, p. 277-278; o texto grego está reproduzido In: The Creeds of Christendom, 6. ed. Grand Rapids, Michigan: Baker Book House, (Revised and Enlarged), (1931), v. 2, p. 28-29). Em 336/337, quando jazia no seu leito de morte em Constantinopla, foi solenemente readmitido à comunhão da Igreja pelo Sínodo de Jerusalém.

O Arianismo a despeito de sua condenação em Nicéia, juntamente com os anátemas emitidos por este Concílio, desfrutou de ampla aceitação no quarto século, só começando a perder força no Concílio de Constantinopla (381), quando a posição de Nicéia foi reafirmada; no entanto, o arianismo permaneceu vivo até o final do século sétimo, especialmente na Península Ibérica.

O ponto focal de Ário, é de que há um só Deus não-gerado, sem começo, único, verdadeiro, único detentor de imortalidade. Desta premissa, como observa (Veja-se: J.N.D. Kelly, Doutrinas Centrais da Fé Cristã: origem e desenvolvimento, São Paulo: Vida Nova, 1993, p. 172-174) decorrem quatro outras:

1) O Filho é uma criatura; uma criatura perfeita, distinta da criação, mas que veio à existência pela vontade do Pai;

2) Como criatura, o Filho teve um começo. Logo, a afirmação de que Ele era coeterno com o Pai, implicaria na existência de dois princípios, o que assinalaria uma negação do monoteísmo;

3) O Filho não tem nenhuma comunhão substancial com o Pai. Ele é uma criatura que recebeu o título de “Palavra” e “Sabedoria” de Deus porque participa da Palavra e Sabedoria essenciais;

4) O Filho está sujeito a mudanças e ao pecado, e poderia cair como o diabo caiu. Contudo, Deus prevendo a sua firmeza de caráter, agiu preventivamente com a Sua graça.

Ário ensinava que Deus, o Pai, criou o Filho primeiro e, por meio do Filho criou o Espírito, os homens e o mundo; portanto: Jesus é o primogênito do Pai e o Espírito é o primogênito do Filho. O Filho foi criado do nada; Ele veio a existência antes da fundação do mundo, mas ele não é eterno porque foi criado (Ver: Louis Berkhof, História das Doutrinas Cristãs, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1992, p. 78). Daí o “chavão” ariano: “Tempo houve em que Ele não existia”. (Cf. J.N.D. Kelly, Doutrinas Centrais da Fé Cristã: origem e desenvolvimento, p. 173). Portanto, sendo o Filho criado, não é Deus; consequentemente, Jesus não é da mesma essência ou natureza do Pai. A atribuição de títulos “Deus” e “Filho” feita a Jesus, era apenas de cortesia, resultante da graça.

Quando perseguido em 321, Ário buscou ajuda no seu antigo e poderoso amigo, o bispo Eusébio de Nicomédia († 342) – que batizaria o imperador Constantino moribundo em maio de 337 –, escrevendo: “Somos perseguidos porque afirmamos que o Filho tem um início, enquanto Deus é sem início (a/)narxoj)” (Ário a Eusébio In: H. Bettenson, Documentos da Igreja Cristã, São Paulo: ASTE., 1966, p. 72e Carlos Ignacio Gonzalez, El Desarrollo Dogmatico en los Concilios Cristologicos, Santafé de Bogotá: CELAM., 1991, p. 314).

[4]“Apesar de recentes tentativas para minimizar sua atividade evangelizadora entre os bárbaros, esta foi de primeríssima importância” (M. Simonetti, Úlfilas: In: Ângelo Di Berardino,  org. Dicionário Patrístico e de Antiguidades Cristãs, Petrópolis, RJ.; São Paulo: Vozes; Paulinas, 2002,  p. 1393). Vejam-se: Kenneth S. Latourette, Historia del Cristianismo, 3. ed. Buenos Aires: Casa Bautista de Publicaciones, 1977, v. 1, 174 e Williston Walker, História da Igreja Cristã, São Paulo: ASTE, 1967, v. 1, p. 175; Stephen Neill, História das Missões, São Paulo: Vida Nova, 1989, p. 57 e Ruth A. Tucker, “…Até aos Confins da Terra.”: Uma História Biográfica das Missões Cristãs, São Paulo: Vida Nova, 1986, p. 36-39). “Os arianos se consideravam a si mesmos como os verdadeiros cristãos e as suas igrejas, como a Igreja Católica” (Kenneth S. Latourette, Historia del Cristianismo, v. 1, p. 399).

[5] Cf. Teodoro González, La Iglesia desde la conversión de Recaredo hasta la invasión Árabe: In: Ronaldo Garca-Villoslada, dir.  Historia de la Iglesia en España, I: La Iglesia en la España romana y visigoda (Siglos I-VIII),  Madrid: La Editorial Catolica (Biblioteca de Autores Cristianos, v. 19), 1979, [p. 401-727], p. 402.

[6] Parece que Leovigildo, bem próximo do final da vida, arrependido, tornou-se católico, entregando seu filho Recaredo aos cuidados espirituais do erudito Leandro de Sevilha (c. 545-600) a quem perseguira. (Vejam-se: Teodoro González, La Iglesia desde la conversión de Recaredo hasta la invasión Árabe: In: Ronaldo Garca-Villoslada, dir.  Historia de la Iglesia en España, I: La Iglesia en la España romana y visigoda (Siglos I-VIII),  Madrid: La Editorial Catolica (Biblioteca de Autores Cristianos, v. 19), 1979, [p. 401-727], p. 404;  Enciclopedia Universal Ilustrada Europeo-Americana, v. 21, p. 904a; v. 27, p. 1205a; v. 29, p. 1234a; L. Navarra, Recaredo: In: Ângelo Di Berardino,  org. Dicionário Patrístico e de Antiguidades Cristãs, Petrópolis, RJ.; São Paulo: Vozes; Paulinas, 2002, p. 1212). No entanto, a conversão oficial de Leovigildo mesmo sendo quase consensual, há  controvérsias, como escreveu González: “Leovigildo, ainda que cabeça dura, enérgico e, às vezes cruel, era um rei com uma grande visão política” (Teodoro González, La Iglesia desde la conversión de Recaredo hasta la invasión Árabe: In: Ronaldo Garca-Villoslada, dir.  Historia de la Iglesia en España, [p. 401-727], p. 405).

[7]Aqui há uma certa imprecisão quanto à mãe e esposa de quem. Explico: As informações são um tanto confusas porque são apresentadas parcialmente e as incertezas já veem de longa data. Além disso, o mais comum é a narrativa conter uma informação sem sequer a menção de que há incertezas quanto ao assunto. Desse modo, a constatação do problema por si só já é uma conquista. Contudo, uma conquista parcial. Pelo que pude pesquisar e com uma dose de intuição, destaco:

Leovigildo casou-se duas vezes. Do primeiro casamento com a católica Teodósia de Cartagena (525?-567?), nasceram  Hermenegildo (564-585) e Recaredo (†601).

Leovigildo, viúvo, contraiu segundas núpcias. Desta vez com Goisuintha (Goiswintha) (525-589), viúva do rei visigodo  Atanagildo (517-567),  sendo uma “ariana furiosa” e violenta. (Cf. Enciclopedia Universal Ilustrada Europeo-Americana, v. 21, p. 903b/Enciclopedia Universal Ilustrada Europeo-Americana, v. 49, p. 1136b). Ele mesmo era um ariano convicto (Cf.  Teodoro González, La Iglesia desde la conversión de Recaredo hasta la invasión Árabe: In: Ronaldo Garca-Villoslada, [p. 401-727], p. 402). Deste modo, os meninos foram criados em uma sólida fé ariana.

Contudo, Hermenegildo (564-585), se converteu ao catolicismo por volta do ano 580. Mais tarde, por questões políticas e, finalmente, por se negar voltar ao arianismo, rejeitando inclusive, receber a Comunhão das mãos de um bispo ariano, foi martirizado em 13/04/585, em Sevilha ou, mais provavelmente em Terragona (Ver: Enciclopedia Universal Ilustrada Europeo-Americana, XXI, p. 903b; XXVII, p. 1204; https://www.britannica.com/place/Tarragona-Spain (Consulta feita em 30.03.2024); V. Saxer, Hermenegildo: In: Ângelo Di Berardino,  org. Dicionário Patrístico e de Antiguidades Cristãs, Petrópolis, RJ.; São Paulo: Vozes; Paulinas, 2002,  p. 669). Conforme pedido do Rei Felipe II da Espanha, o Papa Sisto V canonizou Hermenigldo em 13.04.1585. Em sua homenagem, o Rei Fernando VII, de Espanha (1784-1833), criou em 10/07/1815, “A Real e Militar Ordem de São Hermenegildo”, que objetivava premiar os oficiais dos Reais Exércitos e Armada pela constância no serviço militar. (Ver: Enciclopedia Universal Ilustrada Europeo-Americana,  v. 27, p. 1203-1204).

Um terceiro nome que aparece gerando incertezas, é o de Richilde (Riquilde) que por vezes é apresentada como sendo uma esposa de Leovigildo. Este é um embrolho difícil de decifrar. Uma explicação que encontrei é que a confusão foi gerada por um erro de interpretação da leitura de documentos – dentro de tentativas comuns de promover casamentos com fins políticos − que dizia que a Princesa Richilde (Richunde) foi “dirigida por seus pais ao Rei Leovigildo”, sendo entendido  posteriormente que ela estaria sendo prometida ao rei Leovigildo  e não ao seu filho Recaredo.

O bispo de Viena, Ádon (c. 800- c.875), famoso por seus equívocos históricos, teria sido quem introduziu a confusão que se tornou comumente repetida. (Veja-se: Juan Francisco, Historia Critica  de España, y de la Cultura Española, Madrid: Imprenta de Sancha, 1791, Tomo X, Libro II,  p. 133). No entanto, a questão não é pacífica. Por isso, há quem ache que Richilde é a mãe de Recaredo e Hermenegildo (Veja-se: Alfonso Moreno de Espinosa, Compendio de Historia de España, 14. ed. Tipografia el Anuario de la Exportacion, 1915, p. 71).

O que consta, muito bem documentado, é que Recaredo se casou com  Bado que, inclusive, é a única rainha visigótica que teve sua assinatura em ata do Terceiro Concílio de Toledo (589).

[8] Cf. V. Saxer, Hermenegildo: In: Ângelo Di Berardino,  org. Dicionário Patrístico e de Antiguidades Cristãs, Petrópolis, RJ.; São Paulo: Vozes; Paulinas, 2002, p. 669; L. Navarra, Leandro de Sevilha: In: Ângelo Di Berardino,  org. Dicionário Patrístico e de Antiguidades Cristãs, p. 813; L. Navarra, Recaredo: In: Ângelo Di Berardino,  org. Dicionário Patrístico e de Antiguidades Cristãs, p. 1212.

[9]Cf. Teodoro González, La Iglesia desde la conversión de Recaredo hasta la invasión Árabe: In: Ronaldo Garca-Villoslada, dir.  Historia de la Iglesia en España, I: La Iglesia en la España romana y visigoda (Siglos I-VIII),  Madrid: La Editorial Catolica (Biblioteca de Autores Cristianos, v. 19), 1979, [p. 401-727], p. 407-408.

[10] Cf. P. de Luis, Toledo: In: Ângelo Di Berardino.  org. Dicionário Patrístico e de Antiguidades Cristãs, [p. 1371-1373], p. 1372.

[11] Nesse Concílio,  convocado por Recaredo e presidido por Leandro de Sevilha, a expressão “e do Filho” em latim “Filioque”, foi acrescentada ao Credo Niceno-Constantitnopolitano e, ao que parece, posteriormente fizeram o mesmo o Quarto Sínodo de Braga (675) e outro Concílio em Hatfield (680).(Cf. O. Semmelroth, Espírito Santo: H. Fries, dir. Dicionário de Teologia, 2. ed. São Paulo: Loyola, 1983, v. 2, p. 100; J.N.D. Kelly, Primitivos Credos Cristianos, Salamanca: Secretariado Trinitario, 1980, p. 426, 429-430). Todavia, esta cláusula já havia sido usada no Primeiro (400) e Segundo (477) Concílio de Toledo.  (Veja-se: H. Bettenson, Documentos da Igreja Cristã, p. 56; The Creeds of Christendom, 6. ed. Grand Rapids, Michigan: Baker Book House, (Revised and Enlarged), (1931), v. 1, p. 26; Earle E. Cairns, O Cristianismo Através dos Séculos, São Paulo: Vida Nova, 1984, p. 109; G.W. Bromiley, Filioque: In: E.F. Harrison, ed. Diccionario de Teologia, Grand Rapids, Michigan:  T.E.L.L., 1985, p. 242; L. Boff, A Trindade e a Sociedade, 3. ed. Petrópolis, RJ.: Vozes, 1987, p. 93; J.N.D. Kelly, Primitivos Credos Cristianos, p. 427). Este acréscimo – que reflete especialmente o pensamento de Agostinho (354-430), que enfatizou com propriedade a unidade da Trindade (A Trindade, São Paulo: Paulus, 1994, II.5.7; IV.20.29.; XV.17-20; 26-27), ainda que não exclusivamente (Veja-se: J.N.D. Kelly, Primitivos Credos Cristianos, p. 425) –, marca de forma definitiva a teologia anti-Ariana sustentada pela Igreja Ocidental, enfatizando a unidade essencial do Pai e do Filho bem como a procedência do Espírito como sendo de ambos. Este acréscimo que se tornou amplamente aceito na Igreja Ocidental (em 1014, o papa Benedito VIII determinou que o Credo Niceno-Constantinopolitano, com a expressão “filioque” deveria ser proferido durante a missa. (Cf. Robert W. Jenson, O Espírito Santo: In: Carl E. Braaten; Robert W. Jenson, eds. Dogmática Cristã, São Leopoldo, RS.: Sinodal, 1995, v. 2, p. 159) e ratificado em 1017, foi o principal motivo doutrinário para a primeira grande divisão da Cristandade, criando a Igreja do Oriente e a do Ocidente em 1054 (As Igrejas do Oriente, diziam: “Do Pai através do Filho”). No entanto, somente no Segundo Concílio de Lyon (1274), é que esta cláusula foi considerada oficialmente como doutrina da Igreja Ocidental. (Cf. H. Brandt, O Risco do Espírito: Um Estudo Pneumatológico, São Leopoldo, RS.: Sinodal, 1977, p. 16). Este assunto seria ampla e vagarosamente discutido no Concílio de Ferrara-Florença-Roma (1438-1445) entre os representantes da Igreja Oriental e Ocidental, quando então, os Orientais aceitariam como razoável o acréscimo latino, contudo não ficando imposto à sua Igreja a aceitação do mesmo. Nesta reunião foi formulada uma declaração “conciliatória”, datada de 06/7/1439. (Veja-se o texto In: L. Boff, A Trindade e a Sociedade, 3. ed. Petrópolis, RJ.: Vozes, 1987, p. 95-96). (Veja-se: Umberto Proch, A União no Segundo Concílio de Lião e no Concílio de Ferrara-Florença-Roma: In: Giuseppe Alberigo, org. História dos Concílios Ecumênicos, São Paulo: Paulus, 1995, p. 300ss, 305; L. Boff, A Trindade e a Sociedade, p. 95-96). (Veja-se uma boa discussão a respeito do uso da expressão, In: J.N.D. Kelly, Primitivos Credos Cristianos, p. 424ss.; Reinhold Seeberg, Manual de Historia de las Doctrinas, El Paso, Texas: Casa Bautista de Publicaciones, 1963, v. 2, p. 45; Sinclair B. Ferguson, O Espírito Santo, São Paulo: Editora Os Puritanos, 2000, p. 95-103). No entanto, não devemos nos esquecer que a Confissão Ortodoxa de Fé da Igreja Católica e Apostólica do Oriente (1643), reafirma a procedência do Espírito como sendo apenas do Pai. (Veja-se o texto In: The Creeds of Christendom, 6. ed. Grand Rapids, Michigan: Baker Book House, (Revised and Enlarged), (1931), v. 2, p. 282).

[12]Recaredo já tinha filho com ela antes do casamento. Ficou acordado que eles regularizariam sua situação casando-se antes de Concílio de Toledo. Ela revelou-se uma esposa fiel e muita dedicada aos interesses do reino. Veja-se:  Narrador de la Historia; Jorge LS. En el nombre de la Reyna; Reinas de Hispania (Spanish Edition), (eBook Kindle). Local 281 de 2970.

[13] Veja-se: Enciclopedia Universal Ilustrada Europeo-Americana, v. 49, p. 1137.

[14] Cf. Jacques Heers, História Medieval, 3. ed. (corrigida), São Paulo: Difel, 1981, p. 31.

[15] José Vives, (org.), Concílios Visigóticos e Hispano-Romanos, Barcelona-Madrid:  Consejo Superior de Investigaciones Científicas Instituto Enrique Flóres,  1963, v. 1, p. 107-108.

[16] José Vives, (org.), Concílios Visigóticos e Hispano-Romanos, Barcelona-Madrid:  Consejo Superior de Investigaciones Científicas Instituto Enrique Flóres,  1963, v. 1, p. 116.

[17]Kenneth S. Latourette, Historia del Cristianismo, v. 1, p. 400.

[18]Alexandre Herculano, Eurico, o Presbítero, São Paulo: Editora Três, 1972, p. 26.

[19] Alexandre Herculano, Eurico, o Presbítero, São Paulo: Editora Três, 1972, p. 2627.

[20] Cf. Pierre Guichard, Islã: In: Jacques Le Goff; Jean-Claude Schmitt, coords. Dicionário Temático do Ocidente Medieval, Bauru, SP.; São Paulo, SP.: Editora da Universidade Sagrado Coração; Imprensa Oficial do Estado, 2002, v. 1,  [p. 633-649], p. 633.

[21] Os Mouros são considerados, originalmente, os povos oriundos do Norte de África, praticantes do Islão, invasores da região da Península Ibérica.

[22] Jacques Heers, História Medieval, 3. ed. (corrigida), São Paulo: Difel, 1981, p. 174.

[23]“Desde cedo, na Península Ibérica, existiam judeus, viessem eles como comerciantes no tempo de Salomão, ou como fugitivos no tempo de Nabucodonosor, ou, mais tarde, durante o Império Romano, a verdade é que as suas comunidades aparecem aqui e a sua origem mergulha na escuridão do tempo e na confusão das lendas e tradições.

“Pertence aos século III da nossa era, o mais antigo documento escrito relativo aos judeus na Península Ibérica, e          é do século VI, o mais antigo vestígio que nos fala deles, no nosso território. Trata-se de uma lápide funerária, encontrada em Espiche, perto de Lagos” (Maria José Pimenta Ferro, Os Judeus em Portugal no Século XIV, Lisboa: Guimarães & C.ª Editores, 1979, p. 9). Embora alguns judeus alegassem habitar na Península desde os tempos de Salomão e outros desde Nabucodonosor. (Maria J. P. Ferro, Os Judeus em Portugal no Século XIV, p. 9; J. Lúcio de Azevedo, História dos Cristãos Novos Portugueses, 3. ed. Porto: Clássica Editora, 1989, p. 1-2; Alexandre Herculano, História  da Origem e Estabelecimento da Inquisição em  Portugal, Mira-Sintra, Lisboa:  Publicações Europa-América [s.d.], v. 1, “Apêndices”, p. 151; Paul Johnson, História dos Judeus, 2. ed. Rio de Janeiro: Imago, p. 231).

[24]O progresso econômico dos judeus era evidente. Isso contribuiu para a insatisfação da população cristã. Os judeus que usufruíram durante certo tempo de leis tolerantes, possuíam escravos cristãos, fazendo-os circuncidar. Contudo, no ano 613, no reinado do visigodo Sisebuto (612-621) que era fascinado com a riqueza dos judeus, os expulsou da Espanha, exceção feita aos que se batizassem ou aos que foram batizados à força. (Cf. J. Lúcio de Azevedo, História dos Cristãos Novos Portugueses, 3. ed. Porto: Clássica Editora, 1989, p. 3). Azevedo (1855-1933) faz um comentário amargo: “A forçada circuncisão que os hebreus praticavam, respondiam os cristãos com o forçado batismo; sistema de conversão que não aumentava o número de verdadeiros crentes. Por sua vez, as leis não tinham força para vencer os costumes, e, passados vinte anos da perseguição de Sisebuto, como foi pelos hebreus denominada a explosão de 613, a proibição desses fatos atesta que as mesmas razões de queixa mantinham o azedume popular na mesma vivacidade. Era sobretudo incomportável à nação a preponderância da raça aborrecida, e judeus, como tais conhecidos, ou conversos, todos eles novas disposições vieram excluir dos cargos da república” (Ibidem., p. 4).

[25]Vejam-se: Paul Johnson, História dos Judeus, 2. ed. Rio de Janeiro: Imago, p. 179ss.; J. Lúcio de Azevedo, História dos Cristãos Novos Portugueses, 3. ed. Porto: Clássica Editora, 1989, p. 4.

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