Tentando pensar e viver como um Reformado: Reflexões de um estrangeiro residente – Parte 34

B. Usemos deste mundo como se não usássemos dele

Devemos viver neste mundo com moderação, sem colocar o coração nos bens materiais, pois, tais preocupações nos fazem esquecer a vida celestial e de “adornar nossa alma com seus verdadeiros atavios”.[1]

Comentando o Salmo 30.6 – quando Davi reflete a sua momentânea confiança no sucesso adquirido – diz: “Davi reconhece que havia sido justa e merecidamente punido por sua estulta e precipitada confiança, ao esquecer-se de sua mortal e mutável condição de ser humano, e ao pôr demasiadamente seu coração na prosperidade”.[2]

Em outro lugar, fazendo menção da mesma passagem, escreve: “Davi afirma que a prosperidade havia obnubilado de tal forma seus sentidos, que deixou de pôr seus olhos na graça de Deus, da qual deveria depender continuamente. Em vez disso, creu que poderia andar por suas próprias forças e imaginou que não cairia jamais”.[3]

Portanto, devemos usar nossos bens com moderação:

Ainda que a liberdade dos fiéis com respeito às coisas externas não deva ser limitada por regras ou preceitos, sem dúvida deve regular-se pelo princípio de que deve regalar-se o mínimo possível; e, ao contrário, que temos que estar mui atentos para cortar toda superfluidade, toda vã ostentação de abundância – devem estar longe da intemperança! –, e guardar-se diligentemente de converter em impedimentos as coisas que se lhes há dado para que lhes sirvam de ajuda.[4] (Jo 15.19; 17.14; Fp 3.20; Cl 3.1-4; Hb 11.16; 1Jo 2.15).

Quando Deus nos provê diariamente com abundância de vinho, cometemos um sério erro se permitimos que sua benevolência se nos converta em incitamento para a luxúria. Mas será uma indubitável prova de nossa temperança se formos simples e moderados em meio à abundância.[5]

Devido aos nossos desejos incontrolados, devemos rogar a Deus que nos dê moderação, “pois a única forma de agir com moderação própria é quando Deus governa e preside nossos afetos”.[6]

Deus que nos conhece perfeitamente, preventivamente, para que não nos ensoberbeçamos nem sejamos tentados, equilibra a abundância com a amargura:

Deus modera a doçura da riqueza com amargura; e não permite que a mente de seu servo fique encantada em demasia com isto. E sempre que uma estimativa enganadora de riquezas nos impulsiona a desejá-la imoderadamente, porque nós não percebemos os grandes prejuízos que trazem junto com elas; deixa a lembrança desta história [Abraão e Ló] ajudar a conter tal imoderada fixação. Além disso, tão frequentemente o rico ache qualquer dificuldade que surja da sua riqueza; faz com que aprenda a purificar a sua mente por este medicamento, que eles não podem se tornar excessivamente devotados às coisas boas da presente vida. E verdadeiramente, a menos que o Senhor ocasionalmente ponha rédea nos homens, a que profundidades não cairiam quando abundassem em sua prosperidade? Por outro lado, se nós somos oprimidos com pobreza, faz-nos saber, que, por este método também, Deus corrige os males ocultos de nossa carne. E por fim, permite que aqueles que têm abundância lembrem-se de que estão rodeados de espinhos e tomem muito cuidado para não ser picados.[7]

Em 5 de agosto de 1563, Calvino escreve uma carta à Madame de Coligny, esposa do Almirante Coligny (1519-1572). Em meio a palavras de conforto e estímulo, se reporta às suas próprias enfermidades e aflições, dizendo que elas além de nos humilhar e evidenciar a nossa fraqueza, podem também servir para nos conduzir a colocar nossos olhos na misericórdia de Deus. As aflições também “servem para nós como remédios para nos purificar das infecções mundanas e remover o que é supérfluo  em nós, e, como são mensageiras da morte, devemos aprender a ter um pé levantado para partir quando aprouver a Deus”.[8]

Somos peregrinos, estrangeiros e hóspedes neste mundo.[9] Não há destinação mais nobre e sublime. Somos chamados à glória de Cristo. Isso nos basta. Não como prêmio de consolação, mas, porque não temos vocação maior. O Senhor de todas as coisas (Sl 24.1; 1Co 10.26), de toda a realidade visível e invisível, nos destina à glória de seu Filho amado.

 

C. Suportemos a Pobreza, usemos moderadamente da abundância

Seguindo o que Paulo disse aos Filipenses: “Tanto sei estar humilhado, como também ser honrado…” (Fp 4.12), comenta:

Quem sofre a pobreza com impaciência, mostra o vício contrário na abundância. Quero dizer com isso que quem se envergonha de andar pobremente vestido, se vangloriará de ver-se ricamente ataviado; que quem não se contenta com a mesa frugal, se atormentará com o desejo de outra mais rica e abundante.[10]

O pobre deveria aprender a ser paciente sob as privações, para não se encontrar atormentado com uma excessiva paixão pelas riquezas.[11]

Devemos aprender a superar a pobreza quieta e pacientemente, e desfrutar da abundância com moderação.[12]

Para assegurarmos que a suficiência [divina] nos satisfaça, aprendamos a controlar nossos desejos de modo a não querermos mais do que é necessário para a manutenção de nossa vida.[13]

O nosso desejo incontrolado nos coloca em franca oposição à vontade de Deus: “Todo aquele que se permite desejar mais do que lhe é necessário, francamente se põe em direta oposição a Deus, visto que todas as luxúrias carnais se lhe opõem diretamente”.[14]

A tendência é de nos envaidecermos com a abundância e nos deprimir com a carência. Para muitos de nós, não se ensoberbecer com a riqueza pode ser mais difícil do que não se desesperar com a pobreza.[15] “Aquele que é impaciente sob a privação manifestará vício oposto quando estiver no meio do luxo”.[16]

Paulo sabia, por experiência própria, agir de modo santo em ambas as circunstâncias. Em tudo Paulo era agradecido a Deus (1Ts 5.18), sabendo que em Cristo poderia suportar e vencer qualquer situação.

Calvino observa que temos que usar moderadamente dos recursos que Deus nos deu, para que não caiamos na torpeza do excesso, da vanglória e da arrogância (Rm 13.14):[17]

Os bens terrenos à luz de nossa natural perversidade, tendem a ofuscar nossos olhos e a levar-nos ao esquecimento de Deus, e portanto devemos ponderar, atentando-nos especialmente para esta doutrina: tudo quanto possuímos, por mais que pareça digno da maior estima, não devemos permitir que obscureça o conhecimento do poder e da graça de Deus.[18]

Calvino insiste no ponto de que aqueles que não aprenderem a viver na pobreza, quando ricos, revelarão a sua arrogância e orgulho. O apóstolo Paulo constitui-se num exemplo de simplicidade em qualquer situação (Fp 4.12).

Ele também entende que na pobreza é que tendemos a nos tornar mais humildes e fraternos. Devemos aprender a repartir e, também, a ser assistidos pelos nossos irmãos:

Todas as pessoas desejam possuir o bastante que as poupe de depender do auxílio de seus irmãos. Mas quando ninguém possui o suficiente para suas necessidades pessoais, então surge um vínculo de comunhão e solidariedade, pois que cada um se vê forçado a buscar empréstimo dos outros. Admito, pois, que a comunhão dos santos só é possível quando cada um se vê contente com sua própria medida, e ainda reparte com seus irmãos as dádivas recebidas, e em contrapartida admite ser também assistido pelas dádivas alheias.[19]

Aos pastores e aos crentes em geral, Calvino apresenta uma recomendação:

Os ministros devem viver contentes com uma mesa frugal, e devem evitar o perigo do regalo e do fausto.[20] Assim, até onde suas necessidades o requeiram, que os crentes considerem toda a sua propriedade como à disposição dos piedosos e santos mestres.[21]

 

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

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[1] Juan Calvino, Institución de la Religión Cristiana, Rijswijk, Países Bajos: Fundación Editorial de Literatura Reformada, 1967 (Nueva Edición Revisada), III.10.4.

[2] João Calvino, O Livro dos Salmos, v. 1, (Sl 30.6), p. 631.

[3]João Calvino, A Verdadeira Vida Cristã, p. 47.

[4] J. Calvino, Institución de la Religión Cristiana, III.10.4.

[5]João Calvino, O Evangelho segundo João, São José dos Campos, SP.: Editora Fiel, 2015, v. 1, (Jo 2.10),  p. 94.

[6] João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Parakletos, 2002, v. 3, (Sl 106.14), p. 678.

[7] John Calvin, Commentaries on The First Book of Moses Called Genesis, Grand Rapids, Michigan: Eerdmans Publishing Co., 1996 (Reprinted), v. 1, (Gn 13.5), p. 369.

[8]John Calvin, To Madame de Coligny, “Letters,” John Calvin Collection, [CD-ROM],  (Albany, OR: Ages Software, 1998), nº 655.

[9] “….os filhos de Deus, onde quer que estejam, não passam de hóspedes deste mundo. De fato, no primeiro sentido ele (Pedro), no início da Epístola, os chama de peregrinos, como transparece do contexto; aqui, porém, o que ele diz é comum a todos eles. Pois as concupiscências da carne nos mantêm enredados quando em nossa mente permanecemos no mundo e cremos que o céu não é nossa pátria; mas quando vivemos como forasteiros ao longo desta vida, não vivemos escravizados à carne” (John Calvin, Calvin’s Commentaries, Grand Rapids, Michigan: Baker Book House, 1996 (reprinted), v. 22, (1Pe 2.11), p. 78). “Somos estrangeiros e peregrinos neste mundo, (…) não possuímos morada fixa senão no céu. Portanto, sempre que formos expulsos de algum lugar, ou alguma mudança no suceder, tenhamos em mente, segundo as palavras do apóstolo aqui, que não temos lugar definido sobre a terra, porquanto nossa herança é o céu; e quando formos cada vez mais provados, então nos preparemos para nossa meta final. Os que desfrutam de uma vida tranquila, comumente imaginam que possuem para si um repouso neste mundo. Portanto é bom que nós, que somos inclinados a esse gênero de pândega, que somos constantemente levados de um a outro lado, tão propensos à contemplação das coisas aqui de baixo, aprendamos a volver sempre nossos olhos para o céu” (João Calvino, Exposição de Hebreus, São Paulo: Paracletos, 1997, (Hb 13.14), p. 391-392).

[10]Juan Calvino, Institución de la Religión Cristiana, III.10.5. Conforme já citamos, Calvino entendia que: “Quando depositamos nossa confiança nas riquezas, na verdade estamos transferindo para elas as prerrogativas que pertencem exclusivamente a Deus” (João Calvino, As Pastorais, (1Tm 6.17), p. 182).

[11] João Calvino, A Verdadeira Vida Cristã, p. 74.

[12]João Calvino, A Verdadeira Vida Cristã, p. 73.

[13]João Calvino, As Pastorais, (1Tm 6.8), p. 169.

[14]João Calvino, O Livro dos Salmos, v. 3, (Sl 106.14), p. 678.

[15]Veja-se: John Calvin, Commentary on the Epistle to the Philippians, Grand Rapids, Michigan: Baker Book House Company, 1996, (Calvin’s Commentaries, v. 21), (Fp 4.12) p. 124.

[16] João Calvino, A Verdadeira Vida Cristã, p. 74.

[17] Juan Calvino, Institución de la Religión Cristiana, III.10.3.

[18]João Calvino, O Livro dos Salmos, v. 2, (Sl 48.3), p. 355-356.

[19] João Calvino, Exposição de Romanos, São Paulo: Paracletos, 1997, (Rm 12.6), p. 430.

[20] No entanto, Calvino não era indiferente à necessidade dos ministros serem mantidos condignamente (Veja-se: João Calvino, Cartas de João Calvino, São Paulo: Cultura Cristã, 2009, p. 91-92; 156).

[21] João Calvino, Gálatas, São Paulo: Paracletos, 1998, (Gl 6.6), p. 181.

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