Apontamentos sobre Metodologia, Pesquisa e Ciência

Algumas reminiscências, análises e prospectivas (1)

O próprio educador deve ser educado. ‒ Karl Marx (1818-1883).[1]

O conhecimento científico é produto de um empreendimento humano coletivo ao qual os cientistas fazem contribuições individuais purificadas e ampliadas pela crítica mútua e pela cooperação intelectual. Segundo essa teoria, a meta da ciência é um consenso de opinião racional sobre o campo mais amplo possível.  − John Ziman (1925-2005).[2]

[A ciência] é provisória e limitada. − Karl Barth (1886-1968).[3]

É ocioso falar constantemente da alternativa da razão e da fé. A razão é já de per si uma matéria de fé. É um ato de fé o afirmar que os nossos pensamentos têm qualquer relação com a realidade. − G.K. Chesterton (1874-1936).[4]

A primeira preocupação de todo praticante de ciência, e, particularmente, de todo teólogo, é ser humilde e modesto. Um cientista não deve pensar que é mais sábio do que realmente é. Toda disciplina científica está presa ao seu objeto. Ela não pode  ̶  por causa de uma teoria preconcebida  ̶  falsificar ou negar os fenômenos que observa. − Herman Bavinck (1854-1921).[5]

O físico mais rigoroso pode tornar-se o dogmático mais rígido, fechando a sua mente arbitrariamente para qualquer argumento ou evidência que possa desafiar tais pressupostos. Os paradigmas narrativos são resistentes. Eles podem ser derrubados, mas todos trabalham ativamente para preservá-los do impeachment. − Michael Horton.[6]

O conhecimento de todas as ciências não passa de fumaça quando separada da ciência celestial de Cristo. – João Calvino (1509-1564).[7]

 

Introdução

Continuo com a mesma impressão que me levou a dizer há uns 10 anos que há algo de errado com os pesquisadores e professores. Falo isso diante do espelho. Não me excluo nem olho de soslaio para diminuir minha silhueta.

Por mais que reclamemos de verba e de recursos (isso era recorrente no meu tempo de estudante de Filosofia na UCMG com pixações nos muros, nos idos de 1091-1982), de modo geral a realidade é que os recursos de que dispomos hoje são bem maiores do que há 40 anos e, nossa produção acadêmica não tem acompanhado as novas tecnologias de que dispomos.

Nas universidades, proporcionalmente, pouco se tem produzido de relevante. Obviamente a minha visão é mais afeita à área de Humanas na qual labutei modestamente por vários anos.

Há por vezes uma separação aviltante entre professor e pesquisador como se ambas as atividades fossem distintas e distantes e não complementares.

Compreendo que a pesquisa é testada em sala de aula e, em sala, o nosso labor como pesquisador é retroalimentado. Portanto, a junção de pesquisador e professor é fundamental.

Por vezes o pesquisador precisa aprender a lecionar e, por sua vez, nós professores precisamos aprender a pesquisar. Esta é uma aventura fascinante. Quando nos aventurarmos a isso, a fazer essa simbiose virtuosa, nossos alunos perceberão a diferença. Sabemos que dificilmente conseguimos fascinar nossos alunos com algo que não nos fascina. Eles certamente não aprenderão tudo que lhes ensinamos, mas, guardarão, por vezes  com alegria, aquilo que nos entusiasma.

Enquanto rememoro essas notas nessa tarde quente de primavera, lembro-me do Rev. Chamberlain (1839-1902), iniciador do que seria conhecida como Universidade Presbiteriana Mackenzie. Em 1875 escreve à Board  pleiteando a criação da Escola Normal com o objetivo de formar futuros professores. Argumenta:

O problema mais difícil de solver na administração de um colégio (…)[é] (…) obter e conservar um corpo magistral que se dedique, com amor, ao ensino. A importância e proficuidade duma escola estão na razão direta do valor pessoal do professor. Tal mestre, tal escola. Nada valerão as escolas sem bons mestres; a personalidade do mestre como que passa para a escola e vê-se refletida em cada aluno como um semblante reproduzido em espelho facetado. Os mais belos programas e previdentes instruções se inutilizam e tornam-se ineficazes; os mais engenhosos métodos se desnaturam e viçosas esperanças se esvaecem, se o mestre não for o que cumpre ser.[8]

Deixe-me dar um depoimento. Quando fui convidado para lecionar em uma  Faculdade a disciplina Metodologia da Pesquisa Científica (meados dos anos 90, não me lembro ao certo), fiquei surpreso. Nunca havia lecionado antes essa matéria e, cá com meus botões, não apreciava a forma como a disciplina costumava ser ministrada – não necessariamente nessa Instituição, mas por onde quer que passasse, inclusive como aluno em algumas escolas por ai. Basta recordar que o primeiro contato que tive com a matéria foi em 1976 quando ingressei no Seminário. A despeito disso, ela de fato me foi muito útil. Aliás, esses dias conversando com um aluno, cheguei à conclusão de que essa foi a disciplina que mais marcou a minha formação. Nunca havia pensado sobre isso.

Na época tive o privilégio de ler a 2ª edição da obra de Metodologia do Professor Severino, como é conhecido carinhosamente. Cerca de 18 anos depois, sendo aluno desse professor, mesmo com uma edição novíssima de sua obra que ao longo dos anos fora revista e ampliada, pedi-lhe um autógrafo naquela segunda edição, o que ele me concedeu com satisfação, falando-me da raridade da mesma.[9]

Retornando: a minha insatisfação, certamente fruto de minha ignorância, era pelo fato de gastar-se um semestre ensinando aos alunos a respeito das fontes, digo, tipo, tamanho das letras, espaços, centímetros, itálico, negrito, aspas, sem aspas, autor, data e página, tudo em maiúsculo, só a primeira letra, recuo à esquerda, etc. Sei que tudo isso é importante dentro de um quadro muito maior, que é a pesquisa em si. Porém, esses detalhes, que não devem ser menosprezados, são adminículos ao conteúdo, à essência.

Outro agravante, é que antigamente, algumas vezes quem ensinava essa matéria não era um entusiasta por pesquisa – podia ter feito até alguma pesquisa para obter algum grau acadêmico, todavia, essa não era a sua rotina –, contudo, transformava a disciplina na quinta essência do saber, o sexto dia da criação acadêmica: por isso, um itálico transformar-se em negrito era um pecado quase imperdoável. As notas de rodapé em lugar das já famosas citações no texto com autor, data e página, mereciam  discursos prolongados sobre as novas regras da ABNT explorando o senso de culpa dos incautos que sabem apenas pesquisar, mas, ainda não aprenderam esses rituais acadêmicos.

Prossegue:  Índice agora é Sumário, Conclusão passou a ser Considerações Finais. A confusão desses nomes tem profundas implicações ontológicas no valor da pesquisa.  A coisa era tão séria que as pessoas conseguiam até dominar circunstancialmente tais normas, mas, não conseguiam produzir quase nada.

Lembro-me certa vez de ter enviado um artigo para uma revista seguindo as normas do último número que saíra naqueles dias. Qual não foi a minha surpresa ao receber o relatório da primeira revisão quando mandava que eu mudasse determinado nome, quando então perguntei se havia alguma modificação visto que seguia o modelo da última publicação. Não obtive resposta: Pensei: o metodólogo deve estar também confuso.

Assim, indicando alguns desvios, 10 ou 15 publicam um artigo (na área de Humanas), que me faz lembrar a lenda a respeito da formulação do Credo Apostólico,[10]  os plágios, justamente aquilo que fere a essência da Academia, determinando o seu suicídio, é chamado de esquecimento, lapso, coordenação motora não sincronizada (Ctrl C + Ctrl V), etc. Reprovar um aluno em TGI/TCC é ofensivo, no Mestrado e Doutorado, nem vou comentar para não ser acusado de blasfêmia entre os judeus e cristãos ou de impiedade pelos gregos.

A coisa ficou tão feia que determinada Instituição de Ensino Superior, há alguns anos,  em documento oficial, sugeriu aos seus professores que deem menos leitura para seus alunos porque os plágios têm aumentado. Ou seja: não apertem que os meninos colam.

A epistemologia que tem sido aplicada na prática é a do senso comum dos amigos, dependentes ou agregados acadêmicos. A pesquisa ganha relevância não pelo seu valor intrínseco, teórico e pragmático, antes pelo seu valor apriorístico e abstrato difundido pela quantidade de pessoas que repete algo a respeito do importância de uma obra.

Assim, aqueles coleguinhas acadêmicos vão citar tal produção em suas aulas, palestras e em alguma obra que consiga escrever, crendo assim, no poder transmetafísico da linguagem que é capaz de transformar a realidade; seria uma espécie de mantra acadêmico filantrópico. Desse modo, imaginam de forma indagatória com alguma credibilidade fenomênica: quem sabe se todos nós juntos começarmos a falar da grandeza de um pensamento ele não se torne grande?!… Certamente se tornará grande entre os acadêmicos de sua escola que se promovem a si mesmos.[11]

Bem, essas anotações as elaborei não para equacionar estes problemas, o pecado do plágio, como quase todos em geral, não se resolve apenas com a instrução. Antes, tentei na época – lecionei essa matéria apenas alguns poucos anos –, dar algumas noções introdutórias de grandes áreas do Curso de Teologia, o que não pretendo especificar aqui devido às suas particularidades. Creio que o enfoque dessa disciplina deve ser adequado a cada Curso.

Quanto às regras da ABNT, basta torná-las acessíveis, e tentar segui-las dentro das próprias variáveis sugeridas, ainda que discordado aqui ou ali. Contudo, elas não são a essência: a essência é a construção do saber com simplicidade, humildade, profundidade e verdade, a que a Academia se propõe em seus avanços e retrocessos.

Recordei-me de uma observação de Aquino (1225-1274), feita no século XIII: “Ninguém pode entregar-se à pesquisa da verdade divina sem muito trabalho e diligência. Este trabalho, muito poucos estão dispostos a assumi-lo por amor à ciência, embora Deus tenha colocado este desejo no mais profundo do coração humano”.[12]

Tentando encontrar um ponto em comum entre homens tão diferentes, cito Calvino (1509-1564): “Nenhum homem será sempre um bom mestre se não revelar-se pessoalmente educável e sempre disposto a aprender; e ninguém satisfará àquele que se acha por demais imbuído da plenitude e lucidez de seu conhecimento, que crê que nada lucraria ouvindo a outrem”.[13]

Lembremo-nos que os professores os nossos alunos os tem quase por imposição curricular. Os mestres eles escolhem.

No próximo artigo falarei sobre o conhecimento e os seus tipos.

 

 

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa.

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[1]Karl Marx, Teses Contra Feuerbach, São Paulo: Abril Cultural, (Os Pensadores, Vol. XXXV), 1974, # 3, p. 57.

[2]John Ziman, O Conhecimento Confiável: uma exploração dos fundamentos para a crença na ciência, Campinas, SP.: Papirus, 1996, p. 13.

[3] Karl Barth, Esboço de uma Dogmática, São Paulo: Fonte Editorial, 2006, p. 7.

[4] G.K. Chesterton, Ortodoxia, 5. ed. Porto: Livraria Tavares Martins, 1974, p. 62.

[5] Herman Bavinck, Dogmática Reformada, São Paulo: Cultura Cristã, 2012, v. 2, p. 246.

[6] Michael Horton, Doutrinas da fé cristã, São Paulo: Cultura Cristã, 2016, p. 17.

[7] João Calvino, Exposição de 1 Coríntios, São Paulo: Paracletos, 1996, (1Co 1.20), p. 60.

[8]Apud Benedicto Novaes Garcez, O Mackenzie, São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1970, p. 66-67. Veja-se, também: Boanerges Ribeiro, Protestantismo e Cultura Brasileira, São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1981, p. 241.

[9] Disponho atualmente da seguinte edição, além da 2ª edição autografada:   Antonio J. Severino, Metodologia do Trabalho Científico.  20. ed. rev. amp., São Paulo: Cortez Editora, 1996.

[10] O Credo Apostólico que fora lendariamente atribuído aos Apóstolos, teve um novo incremento fictício por meio de Rufino (c. 404), que supunha que cada um dos apóstolos colaborou com uma cláusula em particular na elaboração do “Credo”. (Vejam-se: J.N.D. Kelly, Primitivos Credos Cristianos, Salamanca: Secretariado Trinitario, 1980, p. 15ss.; J. Ratzinger, Introdução ao Cristianismo, São Paulo: Herder, 1970, p. 17-18).

[11] Posteriormente li a observação correta de Bauman: “Um erro não é transformado em verdade por sua constante e obstinada repetição. Erros são erros independentemente de seu predomínio ou da persistência de seus promotores” (Michael Bauman, Moralidade Legisladora. In: Francis J. Beckwith, et. al. eds. Ensaios Apologéticos: um estudo para uma cosmovisão cristã, São Paulo: Hagnos, 2006, p. 301).

[12] Tomás de Aquino, Súmula Contra os Gentios, São Paulo: Abril Cultural, (Os Pensadores, Vol. VIII), 1973, IV, p. 67.

[13]João Calvino,  Exposição de 1 Coríntios, São Paulo: Edições Paracletos, 1996, (1Co 14.31), p. 433.

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