Um breve relato da vida de Franciscus Junius

Por Todd M. Rester, Diretor do Instituto Junius[1]

 

François du Jon (1545-1602), latinizado como Franciscus Junius, foi uma importante voz protestante reformada na era da confessionalização no final do século XVI. Ele talvez seja mais conhecido como o professor de teologia da Universidade de Leiden, entre 1592-1602. Junius nasceu em Bourges, na França, numa família de nobreza menor, com toda a assistência social e vantagens educacionais de alguém de sua posição. Aos doze anos, Junius foi matriculado na academia de Bourges e estudou direito como aluno do jurista huguenote François Douaren (1509-1559), reconhecido como o principal articulador da escola mos gallicus na aplicação dos frutos do humanismo italiano ao código legal de Justiniano. Junius também estudou sob o renomado humanista francês, jurista e huguenote, Hughes Doneau (1527-1591). Doneau, ou latinizado, Hugo Donellus, é mais conhecido por sua aplicação do humanismo francês ao estudo do Corpus Iuris Civilis de Justiniano, especificamente a Digesta. Junius teve de assimilar profundamente todo esse conhecimento, e a maturação desses estudos é evidenciada nas notas de rodapé e nas citações da tradição legal clássica Greco-Romana em várias de suas obras.

Com a aliança Franco-Otomana iniciada em 1536 contra o Sacro Império Romano, e, por tabela, com várias cidade-estados aliadas na Itália, havia com frequência diplomatas franceses enviados para cruzar de Toulon a Istanbul. Em 1560, devido à sua facilidade com o grego e o direito, Junius assegurou uma posição diplomática como ajudante do embaixador da França na corte de Suleiman I (1494-1567). Junius, contudo, não viajou à Constantinopla porque ele, literalmente, perdeu o navio, ou melhor, a comitiva que partiu de Lyon indo para a costa mediterrânea de passagem à Constantinopla. Pelos próximos dois anos ele viveu em Lyon estudando e ministrando aulas nos clássicos gregos e romanos.

Pouco tempo depois, Junius decidiu entrar na Igreja Reformada Francesa, e quase no seu décimo sétimo aniversário, no meio da guerra huguenote na França, Junius desembarcou em Genebra em 17 de março de 1562, para estudar aos pés de Calvino e Beza. Apesar de seu nascimento nobre, sua renda foi cortada devido à revolta na França bem como pelo assassinato de seu pai protestante, reduzindo-o à mais severa pobreza enquanto ele estudava pelo período de três anos. Em abril de 1565, e aos quase vinte anos de idade, ele aceitou o chamado ao ministério pastoral na igreja de Walloon, na Antuérpia, Bélgica.

Foi durante este período na Antuérpia que Junius conduziu ao pastorado a Confissão Belga por meio dos canais eclesiásticos na Igreja Reformada, pelo reconhecimento formal do Sínodo da Antuérpia. Embora tenha sido preparado em 1561, primeiramente por Guido de Bres, com assistência de H. Modestus e G. Wingen, Junius teve um papel numa leve modificação e abreviação do Artigo 16 da Confissão Belga. Junius também contribuiu ativamente em distribuir cópias da Confissão Belga para Genebra e outras igrejas reformadas a fim de obter pareceres e alcançar um mais amplo consenso. Em 1566, o Sínodo da Antuérpia foi o primeiro corpo sinodal a adotar a Confissão Belga, seguido pelo Sínodo de Wesel (1568) e o Sínodo de Emden (1571).

No começo do ano de 1566, o Rei Filipe II da Espanha permitiu que a inquisição viesse à Holanda. Em toda a Holanda havia um tumulto generalizado que resultou num excesso iconoclasta, ao qual Junius não tomou parte, nem encorajou. Havia uma famosa imagem, de autor desconhecido, de Junius pregando à noite na sua congregação na Antuérpia, numa sala iluminada através das janelas pelo fogo dos mártires protestantes de Walloon, queimados em praça pública. Junius também fez sua voz política conhecida num apelo público publicado ao rei da Espanha em nome das igrejas de Walloon, que foi impressa na frança (1565) assim como na Alemanha (1566). Um dos acordos feitos por William de Orange com Filipe II da Espanha, em 2 de Setembro de 1566, protegia apenas ministros e pregadores que eram nativos dos Países Baixos. Como resultado, Junius fugiu para Limburgo. Ainda exposto a conflitos com católicos romanos e anabatistas, ele fugiu novamente para Heidelberg. O ano de 1568 Junius estabeleceu residência em Heidelberg. Seguido de um breve mandato como pastor da Igreja Reformada em Schonau, e um ainda mais breve como capelão numa fracassada campanha militar à Holanda, Junius retornou a seu pastorado em Schonau até 1573.

O período de 1573 a 1578 foi marcado por uma contribuição extraordinária aos estudos bíblicos reformados no período da ortodoxia protestante. Em uma edição ou outra, a tradução Tremellius-Junius da Bíblia transformou a teologia e a dogmática protestante – em especial a reformada – no final do século XVIII. Durante esse período, Junius foi participante de uma tradução distintivamente reformada da Escritura a partir das línguas originais para o latim. Ele embarcou nesse trabalho com o famoso hebraísta Giovanni Emmanuele Tremelio (1510-1580), ou Tremellius. Tremellius foi um erudito judeu italiano, graduado na proeminente humanista Universidade de Pádua, um convertido ao catolicismo romano (1540) e ao protestantismo (1541). A carreira de Tremellius o levou às academias e universidades em Estrasburgo (1541–1549), Cambridge (1549–1553), Heidelberg (1561–1577) e Sedan (1577–1580). Ambos os eruditos eram peritos em hebraico, aramaico, e seus cognatos em siríaco e caldeu, assim como em árabe, grego e latim. A primeira edição da Bíblia Tremellius-Junius apareceu em 1579 e recebeu três revisões posteriores por Junius (1581, 1593, 1602), sendo as edições mais populares a segunda (1581) e a quarta (1602). A Bíblia Tremellius-Junius foi publicada em Frankfurt, Amsterdã, Londres, Genebra, Hanôver e Zurique, com trinta e três diferentes impressões entre 1579 a 1764. A tradução do Antigo Testamento de Tremellius-Junius foi frequentemente colocada lado a lado com a tradução de Theodore Beza do Novo Testamento.

Em 1576, com a morte de Frederico III, Eleitor Palatino e firme aliado da Reforma Protestante, ele foi sucedido pelo seu filho luterano, Luís VI. Sob o princípio da cuius regio, eius religio (em qualquer região, uma só religião), Heidelberg tornou-se luterana novamente. A faculdade reformada e seus estudantes que se recusaram a assinar a Fórmula de Concórdia (1577) foram expulsos da Universidade de Heidelberg em 1577. A partir da discórdia a respeito da Fórmula da Concórdia, em meados de 1578-1579, Johann Casimir von Pfalz-Simmern (1543-1592), irmão de Frederico III e também um aliado dos reformados, fundou o Casmirianum Collegium (1579-1583) em Neustadt. Junius estava na faculdade da recém-formada universidade, junto com um dos principais autores do Catecismo de Heidelberg, Zacarias Ursinus (1534-1583), que era um amigo desde os dias em Heidelberg. Junius fez o discurso fúnebre, posteriormente, na ocasião da morte de Ursinus, em Neustadt. Foi exatamente durante seu período em Neustadt, em suas aulas sobre os Salmos, que Junius iria articular seu método hermenêutico para interpretação dos Salmos, bem como seu entendimento distinto do foedus, pactum e testamentum articulado em seus comentários de Gênesis, e também suas teses teológicas. Em 1583, com a morte de Luís VI, Casimir tornou-se regente do seu jovem sobrinho e futuro eleitor, Frederico IV, e deste modo Heidelberg passou mais uma vez de mãos luteranas para reformadas. Nesse tempo, após morte de Ursinus, Junius foi novamente convidado para ser professor de teologia em Heidelberg, um posto no qual ele permaneceria até o final da década de 1580. Enquanto estava ali, Junius se engajou em escrever comentários bíblicos, tratados políticos e cartas, e teses teológicas para disputas práticas de seus estudantes. Uma das contribuições mais significativas desse período foi seu trabalho Sacrorum Parallelorum (3º ed., 1588), que foi uma comparação, correlação e comentário de todas as passagens do Antigo Testamento no Novo Testamento.

Em meados da década de 1580 até o início de 1592, Junius esteve envolvido em conversas diplomáticas e missões para o duque de Bouillon, na França e Alemanha, no final da guerra huguenote, e em conversas pessoais com Henrique IV de Navarra, rei da França. Foi quando curadores da Universidade de Leiden pediram a Junius que considerasse a cadeira em teologia na Universidade de Leiden. No início de 1592, Junius aceitou a posição de professor primarius.

Enquanto estava em Leiden, Junius foi autor do trabalho que nos precede como uma importante obra teológica de prolegômena: De Vera Theologia. O conteúdo de De Vera Theologia é a pedra angular da teologia escolástica reformada, sobrevivendo bem entre teólogos reformados do século XIX, tais como Herman Bavinck. Os temas e sugestões de De Vera Theologia acharam seu caminho em escolásticos luteranos do século XVII, como nas Loci Communes de Andreas Quenstedt e Johannes Gehard. Em sua obra, Junius não apenas delineou o relacionamento arquetípico/ectípico como a base para o entendimento da distinção entre Criador e criatura, mas também para a compreensão da teologia e da necessidade da Escritura para seres humanos que estão caídos em pecado, mas que se esforçam como peregrinos ou viajantes em direção à abençoada visio Dei. Essa obra aparece primeiro na impressão em Leiden, em 1594, dois anos depois de empregar o entendimento arquetípico/ectípico da distinção entre Criador e criatura na explicação da lei natural e seu relacionamento com o regime mosaico.

Em 1602, na ocasião de sua morte, foi a cadeira de teologia de Junius (e sua causa em Rapenburg junto com a maior parte dos móveis) que Jacob Arminius ocupou após a morte de Junius na praga que atingiu Leiden. Ninguém menos que o historiador humanista Joseph Justus Scaliger (1540-1609) compôs estas palavras sobre a morte de Junius para a comunidade universitária de Leiden:

Tu, Ó escola enlutada, chore pelo seu professor

Tu, ó destituída igreja, seu pai!

Seu doutor, o mundo inteiro, lamente!

 

[1] Extraído da introdução do tradutor à F. Junius, “Selection from On the Observation of the Mosaic Polity”.

Tradução de Sem. Weinne Willan M. Santos

Revisado por Rev. Ewerton B. Tokashiki

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