10 mitos sobre a educação teológica da IPB

Por Ageu Magalhães

 

O mito se enquadra bem na definição de Joseph Goebbels: “Uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade”. De fato, algumas afirmações equivocadas têm sido ditas em nossos dias quanto à educação teológica na IPB. Estes mitos são repetidos tantas vezes que já começam a parecer verdade. Vejamos alguns:

 

1º Mito: A formação teológica atual não prepara o ministro para um auditório mais capacitado.

A atual grade de disciplinas aprovada pelo Supremo Concílio prepara o aluno para qualquer tipo de auditório. O que pode ocorrer é algum aluno pouco aplicado obter aprovação no curso e sair menos preparado. Porém, na medida em que os seminários são exigentes na formação de seus estudantes, a grade atual se encarrega de capacitar o seminarista. É bem comum encontramos alunos do 1º ano, que já fizeram alguma faculdade, estranhando o peso do curso de Teologia. Eu me recordo que na minha época de estudante, fazendo seminário e trabalhando em um banco, acabei gerando olhares surpresos ao contar que mal dormia durante a semana fazendo os trabalhos do Seminário.

 

2º Mito: Quanto mais alto o grau acadêmico do ministro, melhor pastor ele será.

Com a oferta de pós-graduações em Teologia, muitos acham que para serem bons pastores devem ter grau de mestrado e doutorado. Não é verdade. Às vezes, ocorre justamente o contrário. Os títulos fazem com que o pastor, outrora humilde, passe a aceitar convites de pastorado apenas em igrejas grandes.

Um grau acadêmico pode ser bênção na vida do pastor se ele, primeiro, continuar dedicado no pastoreio das ovelhas; segundo, não perder a humildade e continuar disposto a pastorear aonde quer que o Senhor lhe envie.

 

3º Mito: Os seminários da IPB só formam teólogos.

Bem, a princípio, assim como um curso de Medicina forma médicos, um curso de Teologia tem de formar teólogos. Todavia, sabemos que a palavra “teólogo” às vezes é usada com sentido pejorativo. Intenciona-se dizer que “ser teólogo” é diferente de “ser pastor”. Esta divisão é equivocada. Todo teólogo deve ser pastor. E todo pastor deve ser teólogo. O reformador João Calvino, comentando a epístola de Tito 1.1, escreveu: “E assim aprendemos que o homem que mais progride na piedade é também o melhor discípulo de Cristo, e o único homem que deve ser tido na conta de genuíno teólogo é aquele que pode edificar a consciência humana no temor de Deus”.

 

4º Mito: Jovens ministros não têm responsabilidade.

Na Bíblia temos muitos jovens que se portaram com grande responsabilidade, não obstante suas idades: José do Egito, Davi, Jonatas, Daniel, etc. Paulo disse ao jovem Timóteo: “Ninguém despreze a tua mocidade…” (1Tm 4.12). Responsabilidade independe de idade.

 

5º Mito: Os candidatos que têm saído de nossos seminários são muito jovens.

Por causa das últimas resoluções do SC que exigem pelo menos 3 anos de observação antes de o candidato ser enviado ao Seminário, hoje a maioria dos candidatos é madura. Muitos entram no Seminário casados e boa parte ingressa já possuindo diploma de curso superior. No ano passado, dos 322 inscritos para o vestibular unificado, 65% estavam casados e 55% possuíam curso superior completo.

 

6º Mito: A grade de nossos seminários está desatualizada porque foi feita em contexto rural e hoje o Brasil é um país urbano.

Há erro em dizer que a grade de nossos seminários está desatualizada. Esta grade vem sendo atualizada a cada SC. Ela foi produzida em 2006, e atualizada em 2010. Apresenta 87% de disciplinas obrigatórias a todos os seminários e 13% de disciplinas eletivas, que contemplam as diferenças regionais de nosso país. Há erro também em afirmar que o Brasil é um país urbano, pois passa a impressão de que ele é totalmente urbano. Segundo dados do IBGE, pelo menos 30 milhões de pessoas ainda vivem em ambiente rural em nosso país.

 

7º Mito: O sonho de todo seminarista é ter curso reconhecido pelo MEC e Mestrado.

A generalização é precipitada. Pode ser que alguns seminaristas sonhem com isso, mas está longe de ser a maioria. Minha experiência no Seminário JMC é ver alguns estudantes sonhando com missões transculturais, com plantação de igrejas e com pastorado em regiões difíceis. Tenho testemunhado o mesmo sentimento em muitos alunos dos outros seminários da IPB, na convivência que tenho com eles em viagens missionárias.

 

8º Mito: Os cursos da IPB seriam melhores com o reconhecimento do MEC.

Desde 1999 este assunto tem sido debatido na IPB. A última resolução que temos é a de 2010. Na ocasião o Supremo Concílio aprovou o parecer contrário quanto ao credenciamento. Dentre as razões constaram: “a fluidez das normas baixadas a este respeito pelo MEC, fato que representa insegurança para a confessionalidade dos Seminários” e “a desnecessidade do credenciamento junto ao MEC para o exercício do pastorado junto às igrejas da IPB”. (Doc. LXXXIV)

É temerário submeter a formação de nossos pastores a um órgão do governo federal. Para sermos pastores, não necessitamos do reconhecimento do MEC, mas do reconhecimento de Deus. Este basta.

 

9º Mito: Um curso híbrido é o melhor para a formação teológica atual.

A proposta é parecida com o que é praticado em seminários norte-americanos, isto é, o candidato obrigatoriamente cursaria um bacharelado reconhecido pelo MEC, e depois faria uma complementação pastoral de 2 anos em um seminário da IPB. A proposta é apenas parecida, pois lá fora estes dois anos são intensivos, cursados em dois períodos, manhã e tarde, por exemplo.

Apesar do mérito da proposta em o candidato fazer um curso de 6 anos, vejo que teríamos mais a perder do que a ganhar com esta forma:

1) Na primeira etapa do curso, reconhecida pelo MEC, as disciplinas de cultura geral teriam a orientação própria dos cursos seculares. Em um parecer do Conselho Nacional de Educação, do MEC, de 06/05/2009, sobre a questão, afirmou-se que o estudo destas disciplinas deveria ser feito “respeitando o princípio da exclusão da transcendência”. Isto significa estudar estas disciplinas sem qualquer menção a Deus.

Em nosso currículo, mesmo as disciplinas de cultura geral contém o elemento da transcendência. Psicologia e Sociologia, por exemplo, devem ser estudadas à luz da teologia bíblico-reformada. Se a proposta do modelo híbrido fosse aprovada, nós perderíamos este prisma cristão sobre várias disciplinas.

2) Em um curso hibrido, perderíamos o ambiente de piedade e comunhão entre futuros pastores. Qualquer faculdade vinculada ao MEC tem de ter vestibular aberto a quaisquer interessados. Teríamos, portanto, estudantes não interessados no ministério e, possivelmente, até não crentes fazendo o curso.

3) Em um curso híbrido perderíamos também o “currículo informal”, isto é, o aprendizado a partir do exemplo e da convivência com professores, em sua maioria, pastores. Em um curso híbrido, reconhecido pelo MEC, o corpo docente não necessariamente seria de pastores e os candidatos perderiam com a falta deste convívio.

 

10º Mito: Presbitérios podem enviar seus candidatos a seminários que não são da IPB

Não. Pelas nossas leis, presbitérios não podem enviar candidatos a seminários de fora da IPB. O artigo 118 diz: “Ninguém poderá apresentar-se para licenciatura sem que tenha completado o estudo das matérias dos cursos regulares de qualquer dos seminários da Igreja Presbiteriana do Brasil.” Observe: Ninguém pode se apresentar sem ter completado as matérias dos cursos regulares de qualquer dos seminários da IPB. Este artigo fecha as portas para alguém fazer outro seminário, que não um dos 8 seminários da IPB.

Mas, e o parágrafo 1º? Ele não permite que um presbitério encaminhe aluno para seminário não presbiteriano? Não permite. Ele diz: “§ 1º. Em casos excepcionais, poderá ser aceito para licenciatura candidato que tenha feito curso em outro seminário idôneo ou que tenha feito um curso teológico de conformidade com o programa que lhe tenha sido traçado pelo Presbitério.”

O artigo não fala que, em casos excepcionais poderá ser enviado para outro seminário. Mas fala do candidato que está se apresentando para licenciatura e já fez um curso em outro seminário. Ele já está no final do processo, com curso pronto. Os legisladores vislumbraram a situação de alguém que veio de outra denominação com um curso concluído e agora quer ser ordenado na IPB. Neste caso, de acordo com as últimas resoluções do Supremo Concílio, o presbitério deve juntar toda a documentação do seminário deste candidato e enviá-la à JET para que ela averigue a idoneidade do Seminário. Mas, o envio do candidato, no início do processo, deve ser a um seminário da IPB.

Note que o caput do Artigo 118 fala da regra: ninguém pode se apresentar sem curso de seminário da IPB. Ele abrange o envio do candidato. Já o parágrafo 1º não trata do envio, mas da excepcionalidade de se receber alguém com curso pronto, vindo de outra denominação. E isso não pode anular a regra estabelecida no caput. Na última reunião do SC, em 2010, foi reafirmada a resolução da CE-2008, justamente com a interpretação dada acima: “… 3. Responder que a competência para aferir a idoneidade dos seminários é da JET, segundo decisões SC-94-024 – Doc. CCXXVIII; CE-SC/IPB-2000-Doc.CV; 4. Reafirmar a resolução SC-70-097- Recomendar a todos os presbitérios da IPB que encaminhem os seus candidatos ao Sagrado Ministério aos seminários da Igreja Presbiteriana do Brasil”. (Doc. CXLIII)

Louvado seja Deus, pois a educação teológica de nossa Igreja vai muito bem e tende a ficar melhor. A JET tem feito um trabalho primoroso na superintendência dos seminários e institutos bíblicos de nossa denominação e está trabalhando agora na padronização dos conteúdos programáticos dos Seminários, para aprovação do próximo SC. Isto fortalecerá e consolidará a formação teológica de nossa Igreja.

Que o Senhor da Seara continue enviando trabalhadores (Mt 9.38) e que nós, conselhos, presbitérios e seminários, sejamos zelosos na preparação deles.

 

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