Um Olhar Mais Detido ao Criacionismo Histórico

Introdução

 

Muitos líderes populares em anos recentes endossaram a interpretação de John Sailhamer a respeito da criação, conhecida como “Criacionismo Histórico”. É um termo que ele próprio cunhou no seu livro “Genesis Unbound: A Provocative New Look at the Creation Account.”[1] (Gênesis Não Consolidado: Uma Nova Visão Provocativa Sobre O Relato da Criação). Com apoio tais como os de John Piper,[2] Mark Driscoll,[3] Matt Chandler[4] e outros, um olhar mais detido é definitivamente necessário. Dr. Sailhamer um erudito em Antigo Testamento e Hebraico. Atualmente, ele é professor de Antigo Testamento no Golden Gate Baptist Theological Seminary (anteriormente professor efetivo de Antigo Testamento e Hebraico no Southeastern Baptist Theological Seminary). Em sua tese, ele pretende fazer uma ponte entre o “gap”, por assim dizer, o literalismo bíblico e a ciência terrena antiga. Sua teoria, ostensivamente, é derivada apenas do texto, e ainda completamente neutra com relação a idade da terra. Tirado da folha de cobertura do livro “Genesis Unbound

Eu realmente tenho de escolher entre religião e ciência? (…) apontando para respostas encontradas nos dois primeiros capítulos de Gênesis, Sailhamer apresenta uma explicação confiável, com base escriturística, e realmente necessária que abre a porta para a reconciliação entre a visão de mundo bíblica e a científica (…)

Isto está em contraste com o criacionismo jovem, que ele acredita ser um embaraço para muitos cristãos e uma pedra de tropeço para a toma de Gênesis “de um modo sério” para eles. (p. 17) Irei discutir a relevância disso posteriormente.

Outra razão para esta resenha é o fato de que muitos cristãos que tem discernimento podem ficar tentados a serem constrangidos pelos elementos eruditos do livro, particularmente, argumentos do hebraico. Espero que este artigo dissipe estas inseguranças. John MacArthur frequentemente fala da perspicuidade da escritura (clareza, simplicidade, inteligibilidade) e eu creio ser imperativo que cristãos sempre tenham isso em mente, mesmo quando eruditos de peso fazem valer seus títulos. Isto não quer dizer que um entendimento do hebraico bíblico não seja um fator importante para se obter compreensão do Antigo Testamento. Claro que é. Eruditos são tão suscetíveis a lógicas errôneas e arrazoados falaciosos como qualquer um. Suas ideias precisam ser examinadas por cristãos bereanos diligentes.

Dito isso, tenha em mente que muitos dos insights de Sailhamer do hebraico serão aceitos neste artigo. Não há necessidade de se aprofundar em discussões gramaticais que somente estudantes do hebraico entenderiam. Os significados precisos de muitas palavras e frases que ele cita tem seus méritos e devem ser considerados. Desta forma, para os propósitos deste artigo, muitas de suas premissas serão aceitas, até o extremo, por causa da argumentação. A questão principal não são suas premissas, mas suas conclusões. São válidas? Quais as decorrências?

Observe também que sua tese do Criacionismo Histórico repousa em algumas poucas ideias fundamentais que eu discutirei em detalhe na parte 1 deste artigo. Não há necessidade de se aprofundar tanto em cada detalhe, pois ele se sustenta, ou cai em poucos argumentos. Se estes suportam sua conclusão, sua teoria merece consideração. Se não, a teoria inteira entra em colapso, não demandando investigação adicional. Tendo sido dito isso, na parte 2, apresentarei uma visão mais detida em de seus argumentos secundários para maior precisão.

 

Visão Geral

O Criacionismo Histórico de Sailhamer é a ideia de que Gênesis 1.1 “No princípio, Deus criou os céus e a terra”, representa um bloco não especificado de tempo no qual o universo inteiro foi criado. Isso inclui a terra e todas as suas formas de vida (exceto o homem) e tudo o mais que existe no cosmos – sol, lua, estrelas, etc.. Estas coisas não foram criadas nos seis dias, mas em vez disso “no princípio”, antes dos seis dias. Em algum tempo posterior ao começo do período de criação, talvez bilhões de anos depois, os seis dias tiveram início, mas isso é um evento completamente diferente da verdadeira criação do mundo.

Se você está familiarizado com a Teoria do Gap popularizada por Scofield e outros, você perceberá algumas similaridades e, de fato, elas são similares. A principal diferença é que a Teoria do Gap vê o princípio com um ponto no tempo seguido por algum lapso (gap) de tempo entre o “começo” e os “seis dias da recriação”. O Criacionismo Histórico, por outro lado, postula que o termo “princípio” em si mesmo, representa um período de tempo não especificado. Veja o gráfico comparativo abaixo).

Tendo em vista que não existe um lapso entre o período do começo no versículo 1 e o período de seis dias que se segue, Sailhamer acredita que sua visão deveria estar em uma categoria inteiramente diferente.

Sailhamer, então, sugere que, diferentemente da Teoria do Gap, os seis dias, detalhados em Gênesis 1.2-31, não se referem à recriação da terra, mas, mas sim à preparação da terra do Éden, o qual ele acredita é a mesma região conhecida, posteriormente, como Canaã, e depois, Israel. Em outras palavras, ele acredita que os seis dias descrevem a preparação da terra prometida em suas porções de terra, rios e atmosfera imediatamente acima.

Esta terra estava, especificamente, sendo formada para a humanidade. Uma vez pronta, o homem foi criado no sexto dia, talvez milhões de anos depois de qualquer outra coisa. Esta é a teoria básica colocada em termos simples. (Veja o gráfico abaixo). E esta teoria, ele postula, é tanto, literal e compatível com as modernas ideias científicas sobre o passado.

 

Parte I – Argumentos Fundacionais

Premissas Fundacionais

A teoria acima está baseada em poucas premissas básicas que, ostensivamente, a suportam. Há mais no que diz respeito à teoria, obviamente, que eu discutirei na parte 2, mas abaixo estão as premissas fundacionais.

1) O significado de “princípio”. A palavra hebraica para re’shiyth (princípio) pode se referir a períodos de tempo, ao invés de apenas pontos de princípios no tempo.

2) O significado da frase “os céus e a terra”. “Os céus e a terra” juntos como uma frase formam uma figura de linguagem chamada merisma, e se refere ao mundo inteiro, ou ao universo, e tudo o que nele há.

3) O significado de “céus” e “terra”, individualmente.

As palavras hebraicas shamayim (céus) e ‘erets (terra), individualmente, podem se referir a terras locais e céus, tanto quanto a céus como um todo, e terra como um todo.

Agora, sem comentar as conclusões que se derivam destas, eu deveria assinalar que eu aceito todas as premissas acima. É de minha opinião que todas têm seu mérito e merecem consideração. A questão principal é: elas dão suporte para suas conclusões? Elas dão suporta para a tese do Criacionismo Histórico?

Ironicamente, eu entendo que não. De fato, eu creio que elas enfraquecem sua tese e dão suporte para a visão tradicional, que eu sustento, de que o universo foi criado em seis dias. Vejamos mais detidamente cada um de seus argumentos.

 

O Significado de “princípio”

A premissa mais fundacional da tese de Sailhamer é seu entendimento do termo “princípio”. Ele mesmo a tem julgado como “crucial para o argumento do livro” (p. 42). Ele postula que re’shiyth (princípio) no Hebraico não, de fato, não traz a ideia de um ponto no tempo, mas sim, um período inicial de um tempo não especificado. Ele aponta para outros usos da palavra no Antigo Testamento, tais como o princípio de um império (Gn 10.8-10) e princípios de reinados de reis (Jr 26, 27-28). A frase hebraica usada nestas passagens, “no princípio de” é muito similar à frade de abertura de Genesis. E ele está correto ao falar de períodos de tempo.

Sailhamer conclui

Tal entendimento do termo “princípio” é essencial para a avaliação do significado do primeiro verso de Gênesis. Quando entendido desta forma, o texto não diz que Deus criou o universo no primeiro momento de tempo; ao invés disso diz que Deus criou o universo durante um período de tempo indeterminado antes do cálculo verdadeiro de uma sequência de tempo ter se iniciado. Em Gênesis 1, o período do que se segue “o princípio” é uma única semana de sete dias … (p. 44) .

Desta forma, o período da criação mencionado em Gn 1.1, precede os seis dias e poderia ser ampliado para bilhões de anos, tal qual a ciência defende. Mas, realmente, o texto nos leva para isso?

 

Um Olhar Mais Detido

A premissa de Sailhamer, que re’shiyth (princípio) possa fazer menção a um período de tempo, é correta. Nós vemos exemplos deste uso em vários lugares no Antigo Testamento. Mas enquanto esta premissa se sustenta, ele passa por cima de uma inconsistência lacunosa em seu argumento, que enfraquece sua conclusão.

Em Gênesis 1.1, ele postula que re’shiyth (princípio) faz menção a um período de tempo, anterior aos seis dias descritos posteriormente. Ainda, em seu texto comparativo, o princípio NÃO descreve um evento anterior àqueles descritos posteriormente. Nos seus próprios exemplos, os versos que se seguem re’shiyth são descrições do que aconteceu durante o período do início.

Em Jeremias, é-nos dito sobre um período de tempo chamado de “o começo do reinado de Jeoaquim” (Jeremias 26.1). Este é seguido por uma série de narrativas que ocorreram durante, ou dentro do período do começo. A narrativa continua, depois do verso 1, por todo o capítulo 26. Desta forma, o capítulo 26 inteiro é uma descrição do que aconteceu “no começo do reinado de Jeoaquim”.

Isso é algo que Sailhamer nunca menciona, mas é de importância vital. Ele postula que os seis dias da criação aconteceram depois do “princípio”, e ainda mais, que não segue o padrão dos seus textos comparativos. Nenhum dos seus dois exemplos (Jeoaquim – Jr 26, Zedequias – Jr 27-28) estão descrevendo um período de começo ocorrendo antes das narrativas. Em vez disso, as narrativas que se seguem são uma descrição do período de começo que é mencionado.

Desta forma, se formos utilizar os textos comparativos de Sailhamer para obter insight de como o termo re’shiyth deveria ser utilizado, nós concluiríamos que os seis dias foram uma verdadeira descrição do “princípio”, ao invés de algum evento distante, após o começo.

Isso, por si só, desacredita a tese de Sailhamer, segundo meu modo de ver, mas como você verá, sua outra premissa fundacional torna isso ainda pior.

 

O significado de “céus e terra”

Sailhamer afirma que a frase “os céus e a terra” (hashamayim waha’arets) é uma figura de linguagem chamada merisma. Um merisma

… combina duas palavras para expressar uma única ideia. Um merisma expressa “totalidade” por combinar dois contrastes ou dois extremos… A expressão “céu e terra”, desta forma, representa a “totalidade do universo”. (p. 62)

Agora, eu poderia argumentar que não há necessidade de se chamar isso de figura de linguagem, como se ela fosse a inferência literária mais natural, feita por todos que a leem. Mas, talvez, tecnicamente, isso pudesse ser categorizado como um merisma, então aceitemos, por causa do argumento.

Sailhamer conclui disso, que frase “céus e terra” encontrada em Gênesis 1.1 é um merisma e que deveria ser interpretado como o mundo inteiro e tudo o que há nele. Desta forma, a criação do universo – o sol, a lua, as estrelas, a terra e todas as suas criaturas – aconteceram no verso 1 antes dos seis dias que o período se iniciou. Isso, convenientemente, dá tempo para as eras celestiais e geológicas passarem, e para os dinossauros aparecerem e se extinguirem, como os naturalistas modernos defendem.

A Bíblia permite a criação dos dinossauros e todas outras formas das primeiras plantas e vida animal “no princípio”, haja vista que a palavra hebraica para “princípio” em Gênesis 1.1 poderia abranger eons durante os quais a obra de Deus de criação foi realizada. (p. 37)

 

Um Olhar Mais Detido

Novamente, eu concordo com a premissa básica de que “céus e terra” se refere ao mundo e ao universo inteiro. O problema é, se esta frase em Gênesis 1.1 significa todo o universo, ela tem de significar todo o universo em qualquer lugar que ele exista. Quando olhamos mais detidamente, percebemos que não somente precede imediatamente a narrativa dos seis dias, como também segue imediatamente em um destaque conclusivo (Gênesis 2.1). Estas formas, eu gosto de chamar de sanduíche de merisma. Dê uma olhada no texto abaixo.

Gn 1.1 No princípio, criou Deus os céus e a terra. 2 A terra, porém, estava sem forma e vazia; havia trevas sobre a face do abismo, e o Espírito de Deus pairava por sobre as águas.

Gn 1.3 Disse Deus: Haja luz…

Gn 1.6 E disse Deus: Haja firmamento…

Gn 1.9 Disse também Deus: Ajuntem-se as águas debaixo dos céus num só lugar…

Gn 1.11 E disse: Produza a terra relva, ervas que deem semente…

Gn 1.14 Disse também Deus: Haja luzeiros no firmamento dos céus…

Gn 1.20 Disse também Deus: Povoem-se as águas de enxames de seres viventes…

Gn 1.24 Disse também Deus: Produza a terra seres viventes…

Gn 1.26 Também disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem…

Gn 1.31 Viu Deus tudo quanto fizera, e eis que era muito bom…

Gn 2.1 Assim, pois, foram acabados os céus e a terra e todo o seu exército. 2 E, havendo Deus terminado no dia sétimo a sua obra, que fizera, descansou nesse dia de toda a sua obra que tinha feito.

Repare que os seis dias da criação estão ensanduichados entre estas duas afirmações. Na primeira, temos uma afirmação de abertura, apresentando que Deus criou os céus e a terra, durante um período inicial de tempo. Então, nós temos uma descrição detalhada deste período criativo, que aconteceu durante os seis dias. Então, temos uma afirmação de fechamento que céus e terra estão completos.

Se esta afirmação se refere ao universo, como Sailhamer afirma, então os seis dias podem estar apenas descrevendo a criação do universo.

 

O significado de “céus” e “terra”, individualmente

Finalmente, Sailhamer postula que as palavras hebraicas, shamayim (frequentemente traduzidas por céus) e ‘erets (frequentemente traduzidas por terra) não se referem sempre à totalidade do céu e da terra. Eu aceito esta premissa, também.

De fato, eu diria que o termo erets nunca traz o sentido preciso de planeta terra. No primeiro capítulo de Gênesis, lemos que “E Deus chamou a porção seca de Terra” (Gênesis 1.10). [dry land Earth è mantive para poder se perceber a similaridade em Inglês]. Pela própria definição de Deus, terra significa terra. [earth means land è mantive para poder se perceber a similaridade em Inglês]. ‘erets, em hebraico, pode ser utilizado para descrever uma grande porção de terra do mundo (i.e. todas as massas de terra de nosso planeta), ou para descrever terras específicas quando o contexto indica, tais como a terra do Egito. É a terra seca, em contraste como mar (Gênesis 1.9-10; Êxodo 20.11). É a reunião das terras em todos os lugares – a terra toda, ou uma terra específica – a terra de Israel.

Similarmente, a palavra céu, shamayim, pode se referir ao céu local ao invés do céu como um todo. Às vezes, os céus como um todo estão em questão (Gênesis 7.19), enquanto que outras vezes, somente um céu local está em questão (Deuteronômio 28.23-24). Com tudo isso, até agora, eu concordo.

Sailhamer conclui que as ocorrências de “céu” e “terra”, depois do verso 1, tem somente significado limitado. No verso 1 eles se referem ao todo do universo, mas, mais a frente, somente à terra do Éden, a qual Deus estava preparando para o homem, que ele não havia criado ainda.

Terra, começando no versículo 2, não descreve toda a reunião de terras que Deus criou, mas, em vez disso, uma terra específica que Deus estava repaisagizando, por assim dizer. Durante os seis dias, Deus estava criando o Éden – suas paisagens, seus lagos locais e rios suas atmosferas e rios locais. As plantas e animais, ele argumenta, já existiam, tinham sido criados “no princípio”. Eles NÃO foram criados durante os seis dias, mas, em vez disso, movidos para o local neste período. Os peixes e pássaros foram movidos para os lagos e céus do Éden, no dia 5, e as bestas para as terras no dia 6. O homem, por outro lado, foi criado do pó no dia 6.

O homem, na visão de Sailhamer, é uma exceção da criação. Adão e Eva não foram feitos “no princípio”

A vida humana não foi originada até o sexto dia da semana, como registrado em Gênesis 1.2-2.4a. Isso significa que os seres humanos não foram criados “no princípio” com o resto da criação de Deus. Seres humanos foram “retardatários” segundo o relato bíblico. Eles vieram somente depois do período indefinido de tempo indicado pelo termo “começo”. (p. 36)

Ele vai dizer

Gênesis insiste que todos os seres humanos, como os conhecemos, são descendentes de Adão. Isso rege a criação dos seres humanos “no princípio” em Gênesis 1.1. É uma parte essencial da lógica das genealogias no capítulo 5 e 10 de que nenhum ser humano foi parte do universo criado “no princípio”. (p. 37)

Desta forma, você tem plantas e animais criados no começo, mas o homem, muito posteriormente, durante os seis dias. E melhor de tudo, esta visão é compatível com as teorias científicas modernas.

Tal ponto de vista se encaixa bem com o que a ciência moderna nos diz sobre a terra e a vida humana. A vida humana é bem recente na geologia histórica. Traços claros de seres humanos remontam a apenas trinta mil anos de lugar algum.

No que diz respeito ao registro bíblico, nada em Gênesis 1 e 2 contradiz a ciência moderna. De acordo com a Bíblia – apenas quanto às teorias científicas – os seres humanos entraram em cena muito recentemente, na história geológica, plenamente desenvolvidos cultural e linguisticamente. (p.37)

 

Um Olhar Mais Detido

Sailhamer está correto quanto ao termo terra e céu poderem se referir a pequenas regiões locais em contextos específicos. Mas baseado em sua própria premissa, que estes contextos não existem no relato da criação de seis dias. As frases como de bibliocantos “céu e terra” que circundam os seis dias tornam impossível aplicar a um contexto localizado. Ele próprio, diz que Gênesis 1.1 se refere à criação do universo, e por implicação, Gênesis 2.1 também deve. Essas duas frases ensanduicham a narrativa de seis dias, fornecendo um contexto inegável. Se “contexto é tudo” como Sailhamer insiste (cap. 7), então não pode haver narrativa alternativa. Os seis dias descrevem a criação do universo.

 

“O Princípio” segundo Cristo

Mas Sailhamer tem um problema ainda maior. Seus pontos de vista sobre a criação do homem estão em conflito direto com a do nosso Senhor. Sailhamer insiste que Adão e Eva não foram criados no princípio, mas foram criados “retardatários”, talvez, bilhões de anos depois do começo. Mas Cristo faz comentários contrários explícitos. Segundo Mateus:

Mateus 19.4 Então, respondeu ele: Não tendes lido que o Criador, desde o princípio, os fez homem e mulher, 5 e que disse: Por esta causa deixará o homem pai e mãe e se unirá a sua mulher, tornando-se os dois uma só carne? 6 De modo que já não são mais dois, porém uma só carne. Portanto, o que Deus ajuntou não o separe o homem.”

Segundo Marcos:

Marcos 10.5 Mas Jesus lhes disse: Por causa da dureza do vosso coração, ele vos deixou escrito esse mandamento; 6 porém, desde o princípio da criação, Deus os fez homem e mulher. 7 por isso, deixará o homem a seu pai e mãe [e unir-se-á a sua mulher], 8 e, com sua mulher, serão os dois uma só carne. De modo que já não são dois, mas uma só carne. 9 Portanto, o que Deus ajuntou não separe o homem.

A crítica mais eficaz contra o Criacionismo Histórico vem do nosso Senhor. Sailhamer diz: “… os seres humanos não foram criados “no princípio”. Nosso Senhor diz: “Não tendes lido que o Criador, desde o princípio, os fez homem e mulher”.

 

Conclusão

A tese de John Sailhamer do Criacionismo Histórico não se sustenta diante de um exame minucioso. A maioria de suas premissas tem mérito, mas suas conclusões não as acompanham. Não é um problema de gramática hebraica, mas de simples lógica.

Se princípio (re’shiyth) realmente, de fato, se refere ao um período de tempo, então este período de tempo tem de ser os seis dias que são descritos imediatamente após. E se a frase céus e terra é um merisma, se referindo ao universo, então os seis dias devem descrever a criação do universo. E, se nosso Senhor, tendo perfeita lógica, diz que o homem foi feito “no princípio”, quem somos nós para teorizarmos de outro modo?

 

Embaraçado?

Eu apenas posso especular em como alguém tão brilhante e devotado como Sailhamer (eu não tenho dúvida que ele seja ambos) poderia apresentar uma tese tão problemática com lógica. Mas talvez no seu comentário em que “se complicou”, o que eu mencionei no início deste artigo, possa nos dar alguma luz. Ele mencionou isso especificamente como uma motivação para seu livro, então eu acho ser apropriado comentar.

Tem sido minha experiência que milhares de cristãos tenham problema em manter a fé bíblica em nossa moderna época científica. Quase todos eles se complicam por causa de Gênesis 1 e 2. Estes primeiros capítulos parecem muito arcaicos, muito desatualizados, muito antigos. Como alguém poderia considerá-los seriamente? (p. 17)

O embaraço é uma emoção incapacitante e suficiente para obscurecer até as mentes mais brilhantes. Lendo este livro, ficou claro para mim, que enquanto ele não quer sua teoria ser influenciada pela ciência moderna, ela se mostra como um fator preponderante. E faz sentido perfeitamente considerar que ele vê a compatibilidade científica como a chave para que milhares de cristãos tomem Gênesis “seriamente”.

Eu insisto que não somente podemos tomar seriamente estes dois primeiros capítulos da Bíblia, mas que eles se encaixam notoriamente bem em nosso modelo cientifico de universo. (p.17)

Eu não tenho dúvida de que suas motivações são sinceras, mas emoções (embaraço) triunfa sobre a lógica (interpretação) todas as vezes. Eu não posso crer que emocionalismo esteja no coração da mais alternativa interpretação de Gênesis. Outros admitem isso também.[5]

Assim como Sailhamer, eu também tenho um forte desejo de retornar à autoridade bíblica e tomar seriamente o livro de Gênesis. Mas, eu discordo completamente que eles apenas farão se pudermos, de alguma forma, harmonizar com as teorias naturalistas. A igreja tem tentado fazer isso por séculos e continua falhando em impressionar os céticos. O melhor que tem conseguido é tentar fazer os cristãos aceitar as teorias naturalistas. O pior que tem conseguido é fazer os céticos manearem suas cabeças e pensarem: “Nem eles mesmos creem!”

A verdadeira chave é confiar na leitura direta da palavra de Deus. Quando nosso líderes e pastores e professores de seminário e eruditos deixarem a igreja saber que eles acreditam na leitura simples, o rebanho seguirá a Deus e fará coisas maravilhosas. Eu concordo com Ken Ham que a Reforma na Igreja deve preceder o avivamento em nosso país – particularmente uma fé avivada no livro de Gênesis.

Eu também quero observar que os cientistas da criação em trabalhado incansavelmente para mostrar aos nossos teólogos que a ciência não refuta o texto. Há inúmeras fontes – a maioria delas gratuitas.[6] E também nossos cientistas da criação – todos, muito frequentemente – estão batalhando mais com os teólogos, do que com os céticos.

 

Parte II – Argumentos Secundários

Enquanto que a secção prévia lidou com os argumentos fundacionais primários do Criacionismo Histórico, esta próxima secção vai mergulhar em alguns dos outros detalhes. Os assuntos não estou em alguma ordem específica e podem ser lidos topicamente, ao invés de sequencialmente.

 

Sem Forma e Vazia

Sailhamer reforça em sua discordância com a maioria das traduções inglesas em sua tradução de Gênesis 1.2: “E a terra era sem forma e vazia…”. Ele insiste em levanta uma questão sobre uma conspiração de tradução retrocedendo aos judeus que traduziram a Septuaginta (o Antigo Testamento grego). Ele acredita que estes judeus escribas inseriram ideias da cosmologia grega no texto, que foi sistematicamente virtualmente corrompido em todas as traduções inglesas.

Ainda que esta frase possa sugerir coisas aos modernos leitores, os primeiros tradutores ingleses tinham intenções precisas com respeito à expressão “sem forma e vazia”. Eles a usaram para harmonizar a questão da criação bíblica com a cosmovisão grega prevalecente nos seus dias. Eles expressamente quiseram dizer que Deus não criou o mundo na condição em que o vemos, agora. Ao invés disso, ele criou o universo como uma massa sem forma de material, somente posteriormente formando o mundo como nós o conhecemos. (p. 67-68)

Sailhamer conclui que quando o versículo 2 é entendido corretamente, ele mostra que a terra já estava aqui, tendo sido feita durante o “princípio”. A terra mencionada no versículo 2 é meramente a terra do Éden que fora criada, mas não ainda apropriada para humanos e precisava ter a forma de algo habitável. Ele acredita que esta frase seria melhor traduzida como desolada, estéril ou deserta.

 

Um Olhar Mais Detido

Enquanto que eu considero seu argumento de uma conspiração de tradução como sendo sem sentido (e ainda perigoso de várias formas), eu o aceitarei pela argumentação. Digamos que Gênesis 1.2 devesse ser traduzido por deserto estéril. Faz alguma diferença?

O problema é que, ambas as traduções são perfeitamente compatíveis com o sentido mais simples do texto, que os céus, como um todo e terra foram criados em seis dias. Caso a terra – a reunião de terras em seu todo – tenha sido inicialmente criada como um deserto submerso estéril, ou uma massa aquosa sem forma e caótica não traz o sentido da narrativa do sexto dia. Eu compreendo que a primeira tradução pode ser essencial para sua tese, mas suas premissas principais impedem suas conclusões de qualquer maneira.

Tendo dito isso, eu tenderia a confiar nas traduções inglesas tanto quanto nos escribas da Septuaginta que traduziram o texto para o grego. As partículas foram criadas primeiramente (água) que foram obtiveram a forma em que estão hoje. Pedro, sob a inspiração do Espírito Santo, fala sobre a terra sendo feita a partir da água.

2Pd 3.5 Porque, deliberadamente, esquecem que, de longo tempo, houve céus bem como terra, a qual surgiu da água e através da água pela palavra de Deus.

Isso pareceria indicar que Deus criou a terra de uma massa original de um fluido fundamental. Com isso dito, qualquer tradução funcionaria. Essencialmente, não é um problema.

 

Ex Nihilo?

Ex nihilo é uma expressão latina que significa “vindo do nada”. Aparece frequentemente em conjunção com o conceito de criação, como em creatio ex nihilo, significando “criação o do nada” – com muita ocorrência em contextos filosóficos e teológicos, mas também ocorre em outros campos.7

Sailhamer ressalta o ponto em que, se a primeira sentença da Bíblia é um título, então não há nada em Gênesis 1.1 para se basear a doutrina do ex nihilo.

Se Gênesis 1.1 simplesmente resume o todo de Gênesis 1, então os atos de Deus da criação começaram, de fato, em Gênesis 1.2. Desde que a terra já estava “sem forma e vazia” (v.2), o que significa que a terra já existia quando Deus começou a agir. Mas, se for assim, quando Deus criou a terra? (p. 25)

Mas se Sailhamer estiver certo, eu teria de perguntar qual a importância da ajuda da sua própria visão? Pois, de acordo com sua própria interpretação, o versículo 1 é uma afirmação-resumo abarcando, potencialmente bilhões de anos de atos criativos, desde a criação de todas as coisas no universo à criação de várias formas de vida ambas vivas e extintas. Por que isso não poderia entrar no mesmo problema, considerando que, também, não fala especificamente de todos os detalhes da criação da terra?

Além disso, os versículos comparativos que ele cita contém “no princípio”, são também resumos de períodos de tempo seguidos de detalhes de eventos nestes períodos (i.e. Jr 26, 27-28). O fato de que estas considerações não mencionam os detalhes dos primeiros momentos destes reinados não significam, de modo algum, que eles não existiram. Há como que uma miríade de detalhes ignorados a respeito da criação, mas isso não os impede de existir. Como o próprio Sailhamer aponta, o uso do termo criado (bara’) com Deus como sujeito e o universo como objeto é suficiente para concluir que Deus trouxe o universo à existência – por definição da não-existência, i.e. do nada. Eu acho que isso, também, não é um problema.

 

Adão e Eva foram levados para uma terra ao Leste do Éden?

Sailhamer frequentemente levanta questões sobre paralelos entre a terra do Éden e a terra de Israel. Ele vê uma analogia entre Deus tirando Adão do Éden e Deus dirigindo Israel para fora da terra como um resultado de sua desobediência. Ele também vê paralelos entre Deus levando Israel para a direção Leste e Deus levando Adão para a direção Leste. Em sua mente, o Éden e Israel são um e o mesmo. Era a terra de Deus no princípio e tem sido cuidada consistentemente desde o princípio.

Enquanto Adão e Eva fossem obedientes à vontade de Deus, eles poderiam desfrutar das provisões de Deus. Mas, quando desobedecessem a Deus e comessem da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal, Deus os expulsaria do jardim “em direção Leste”, na direção da cidade da Babilônia (Gênesis 11). Desta forma Deus também avisou Israel de que se ele fosse desobediente, eles também seriam expulsos da terra, “em direção Leste” para a cidade da Babilônia. (p. 75)

……

Como Adão e Eva em Gênesis 2, Israel poderia esperar habitar em sua “boa terra” somente enquanto eles fossem obedientes à vontade de Deus. Quando eles desobedecessem, Deus os expulsaria da “terra”, e eles iriam para “direção Leste”, para a Babilônia – assim como ele fez com Adão e sua família “para direção Leste”, para fora do jardim (Gênesis 3.23; 4.16) e para a cidade da Babilônia (Gênesis 11.1-9). (p. 80)

 

Um Olhar Mais Detido

Em um exame mais detido, o leitor cuidadoso perceberá que Deus, na verdade, nunca levou Adão e Eva para fora da terra do Éden. Nem há discussão alguma sobre o fato de eles terem sido levados para o Leste. Em vez disso, eles foram levados para fora do Jardim que ficava no Éden.

Gênesis 3.23 O SENHOR Deus, por isso, o lançou fora do jardim do Éden, a fim de lavrar a terra de que fora tomado. 24 E, expulso o homem, colocou querubins ao oriente do jardim do Éden e o refulgir de uma espada que se revolvia, para guardar o caminho da árvore da vida.

Não há pista alguma de Deus os direcionando para alguma terra ao Leste. O que realmente vemos é Deus colocando guardas angelicais no lado Leste do Jardim. Presumivelmente, esta era a única entrada. Talvez repaisagizando prevenisse a entrada por outros pontos (montanhas, rios, folhagens, etc.).

Mas não há nada colocado no lugar para impedir a entrada na terra do Éden e nenhuma indicação de Adão e Eva não permaneceram. De fato, dependendo da localização do Jardim, eles poderiam ter habitado a terra do Éden em qualquer lugar ao Oeste do Jardim. Ou ele poderia ter deixado a região para o Norte, Sul, Oeste, ou Leste. Não nos é dito.

É interessante que, posteriormente, Caim foi direcionado para fora da terra que ele estava habitando. Caim foi tirado da presença do Senhor e habitou na terra de Nod ao Leste do Éden.

Gênesis 4.16 Retirou-se Caim da presença do SENHOR e habitou na terra de Node, ao oriente do Éden.

Isso parece implicar em que ele ainda estava no Éden, neste tempo, morando com seus pais e irmãos e que viajou em direção Leste até receber sua maldição.

 

A Verdadeira Tragédia

Mas a verdadeira tragédia está aqui, parece que Sailhamer perdeu o verdadeiro significado do relato do Éden. O aviso de Deus a Adão era infinitamente diferente do que o aviso para Israel (Deuteronômio 30.15-18). Adão não estava sendo avisado sobre perder sua terra, mas, em vez disso, de morrer nela.

Gênesis 2.17 mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás; porque, no dia em que dela comeres, certamente morrerás. (…) Gênesis 3.19 No suor do rosto comerás o teu pão, até que tornes à terra, pois dela foste formado; porque tu és pó e ao pó tornarás.

Adão não foi criado para morrer, mas Deus o avisou que ele poderia se desobedecesse. E Deus permaneceu fiel ao seu aviso.

Gênesis 3.22 Então, disse o SENHOR Deus: Eis que o homem se tornou como um de nós, conhecedor do bem e do mal; assim, que não estenda a mão, e tome também da árvore da vida, e coma, e viva eternamente.

Deus amaldiçoou a terra por causa de Adão, e que ele deveria, finalmente, redimi-lo e seus descendentes através da vinda do Salvador – um criança macho que derrotaria seu adversário.

Gênesis 3.15 Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e o seu descendente. Este te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar.

Essa é a verdadeira mensagem do relato de criação. Tentar encaixar uma terra prometida nele, não é apenas perigoso, é confuso. Adão não perdeu sua terra prometida do Éden, na verdade, ele deve ter habitado ali até morrer. A verdadeira questão é que a terra foi amaldiçoada como um todo (Gênesis 3.17). Adão, agora, era um homem amaldiçoado em uma terra amaldiçoada em precisando desesperadamente de um Salvador. É uma parte intrincada do evangelho. Deus ajude a igreja se nós desviarmos isso.

 

Éden e Israel se referem à mesma terra?

Virtualmente, todas as teorias sobre a localização do Éden estão enraizadas em uma tácita negação do dilúvio global. No relato do Dilúvio lemos:

Gênesis 13 Então, disse Deus a Noé: Resolvi dar cabo de toda carne, porque a terra está cheia da violência dos homens; eis que os farei perecer juntamente com a terra.

A destruição da terra (mencionada também em Gênesis 9.11), deveria encerrar todas as especulações sobre a localização do Éden (para mais veja nosso artigo: Onde estava localizado o Éden?). Mas, infelizmente, elas continuam. Sailhamer comenta:

Poderia a fronteira do jardim do Éden mencionada em Gênesis 2 ser identificada com qualquer outra área específica dentro das subsequentes narrativas de Gênesis? Eu creio que a resposta é sim. O autor destas narrativas tinha um lugar específico em mente quando ele falou do jardim do Éden. O lugar é a terra prometida. (p.77)

 

Um Olhar Mais Detido

A tentação é compreensível. Mas o leitor cuidadoso perceberá que as terras e marcos em cada aspecto do dilúvio guardam certa semelhança, a despeito dos seus nomes. Dada a destruição que um Dilúvio desta natureza causaria, todas as massas de terra teriam sido destruídas como o texto indica. Todas as paisagens e sistemas de águas teriam sido obliterados e substituídos por outros novos. O sistema de rios descrito em Gênesis 2 – um se dividindo em quatro – não existem mais.

Mas alguém poderia perguntar: Por que, então, o Tigre, Eufrates e as terras de Havilá, Cuxe e Assur são mencionados na Bíblia depois do Dilúvio? A resposta é muito simples. Em nosso artigo: Onde estava localizado o Éden?)

Humanos tem reciclado nomes dos inícios dos tempos. Já ouviu de Paris, Texas? Marte, Califórnia? Inferno, Michigan? Nós vemos nomes recorrentes de lugares ao redor do mundo. Por exemplo, aqui está uma lista exaustiva de lugares no Estados Unidos que receberam nomes da Inglaterra. Observe que há 113 somente no estado de Massachusetts, sozinho!

Ainda mais, crianças frequentemente recebem nomes de lugares. Já encontrou algum Austin, Sydney, ou Brooklyn, ou London? Por outro lado, também é comum nomear lugares com nomes de pessoas – particularmente aqueles envolvidos em sua fundação ou descoberta. De acordo com uma fonte, há 23 lugares nos Estados Unidos chamados Christopher Columbus. E quantas cidades antigas levam o nome de Alexandria, por causa de Alexandre, o Grande? Nomes de pessoas e lugares têm sido usados e reutilizados desde o início dos tempos. Portanto, não deveria ser surpresa que certos nomes reaparecessem depois do Dilúvio.

Para um tratamento mais aprofundado deste tema, veja o link do artigo completo acima, mas, em suma, os descendentes de Noé nomearam muitas de suas crianças com estes nomes de locais geográficos que existiam no mundo, anteriormente. Isso é evidente na Tabela das Nações (Gênesis 10) onde se vê nomes como Havilá (Gênesis 10.7; 29), Assur (Gênesis 10.22) e Cuxe (Gênesis 10.6) sendo atribuídos. Essa era uma prática comum naquele tempo, assim como hoje (Austin, Sydney, ou Brooklyn, ou London, etc.). Estas crianças que levavam nomes antediluvianos saíram para se estabelecer em terras que, por sua vez, vieram a levar seus nomes. Outros nomes dignos de nota são os dos bisnetos de Noé, que são Egito, filho de Cam (Gênesis 10.6 – às vezes traduzido por Mizriam), Grécia, filho de Jafé (Gênesis 10.2 – transliterado por Jafé), e Cuxe, ou Etiópia, o filho de Cam (Gênesis 10.6).

Com respeito ao Tigre e Eufrates, faria sentido se apenas os descendentes de Noé reciclassem os nomes dos rios mais famosos no mundo antediluviano. Mas o leitor cuidadoso perceberá que estes são rios diferentes. Respostas em Gênesis apontam:

… um exame mais detido de Gênesis 2 revela que a topografia interna e periférica do Éden era diferente de hoje. Quatro rios tinham uma vez saído do Éden; hoje, contudo, somente dois rios principais, o Eufrates e o Tigre, cortam o Iraque. Também, um dos quatro rios, Giom, é descrito em Gênesis 2.13 (RA) “é o que circunda a terra de Cuxe.”; mas o país dos dias atuais da Etiópia está há 1.609,34km distante do Iraque (e pela água: o Mar Vermelho).

De fato, os rios atuais estão, de fato, fluindo ao contrário, convergindo, o invés de desaguarem e fluírem de um para o outro.8

Nós raramente (se alguma vez) vemos rios que desembocam em cabeceiras. Isso pode ter sido um subproduto de sistemas de águas antediluvianas subterrâneas que existiam antes do Dilúvio (Gênesis 2.6). Hoje, diferentemente, vemos pequenos rios convergindo para rios maiores, como no caso do atual Tigre e Eufrates.

 

Criado vs. Feito

Se você está familiarizado com a Teoria do Gap, você pode ter ouvido argumentos sobre bara’ (criado) vs. ‘asah (feito). Sailhamer e outros proponentes desta teoria afirmam que quando os escritores usaram ‘asah eles não estavam se referindo à criação de algo, mas, em vez disso, sua subsequente formação, ou preparação – “como o fazer de uma cama”. (p. 116) Desta forma, quando a Bíblia diz que Deus fez os céus e a terra e o mar e tudo o que neles há (Êxodo 20.11), não está falando sobre a criação propriamente dita (bara’), mas de um subsequente ajuste, ou formação (‘asah) de componentes existes.

 

Um Olhar Mais Detido

Mas o fato é que bara’ e ‘asah são intercambiáveis entre si, no contexto, podem se referir à criação – mesmo à criação ex nihilo. É verdade que bara’ é um verbo usado somente quando Deus é o sujeito, mas ‘asah é também usado com Deus como sujeito, e frequentemente usado no mesmo sentido exato que bara’. ‘asah é um termo mais geral que pode apenas significar realizar, mas frequentemente traz o sentido de criar.

Para traçar uma analogia, em inglês, poderíamos dizer: “Deus criou de A a Z”. Então, descrevendo em detalhes, poderíamos dizer: “Primeiro ele realizou de A a F, depois ele realizou de GL, etc.”. Não há nada no verbo fez que negue o ato de criação. É apenas um termo mais simples e genérico que precisa de mais contexto. No contexto do meu exemplo, significa criar.

O melhor exemplo de intercambialidade de ‘asah e bara’ pode ser a criação do homem, descrita em Gênesis 1.26-27.

Gênesis 1.26 Também disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; tenha ele domínio sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus, sobre os animais domésticos, sobre toda a terra e sobre todos os répteis que rastejam pela terra. 27 Criou Deus, pois, o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou.

Nesta passagem, tanto ‘asah (fazer) e bara’ (criar) são utilizados. Observe que Deus primeiramente diz “façamos” o homem. Depois Deus diz ter “criado” o homem. Eles têm, claramente, o mesmo sentido idêntico.

No sétimo dia, vemos isso novamente. Referindo-se retroativamente ao todo da criação de Deus, ambos os termos são utilizados.

Gênesis 2.3 E abençoou Deus o dia sétimo e o santificou; porque nele descansou de toda a obra que, como Criador, fizera.

Por último, vemos o narrador resumir todos os seis dias da criação utilizando o termo criou (bara’).

Gênesis 2.4 Esta é a gênese dos céus e da terra quando foram criados, quando o SENHOR Deus os criou.

Ainda que ‘asah seja utilizado para descrever vários detalhes dos seis dias, nos é resumido como sendo criado mostrando bara’, novamente, a intercambialidade de termos.

 

Criado, Mas Não Concluído?

Enquanto Sailhamer afirma que o universo inteiro foi criado durante o período do princípio em Gênesis 1.1, ele também vê o problema óbvio que Gênesis 1.2 apresenta. Imediatamente, depois dos seis dias, vemos a afirmação:

Gênesis 2.1 Assim, pois, foram acabados os céus e a terra e todo o seu exército.

Se céu e terra, conjuntamente, constituem um merisma significando todo o universo, teríamos de concluir que o autor está falando do universo inteiro, aqui, e não somente de algum evento pós-criação. Mas Sailhamer postula que o universo foi criado em Gênesis 1.1, mas não concluído.

1.1. Muito tempo atrás, Deus criou o mundo. Ele criou o sol, a lua, as estrelas, bem como todas as criaturas que habitam a terra. Ele os criou do nada – não em um único instante de tempo, mas durante um vasto período de tempo.

1.2 O mundo de Deus, contudo, ainda não estava completo. Ele ainda não tinha criado os seres humanos e a terra, na qual ele queria colocá-los, ainda não estava própria para eles … (p.107)

Posteriormente, no capítulo 2, depois de seis dias, ele parafraseia:

2.1 O mundo que Deus criou estava, agora, concluído (p.110)

 

Um Olhar Mais Detido

Dizendo isso, Sailhamer revela uma crença em uma criação parcial em Gênesis 1.1, e as coisas realmente começam a desvendar neste momento. Porque, tecnicamente, ele não acredita que Deus criou o “mundo inteiro” no princípio.

Mas, isso enfraquece sua premissa que “céus e terra” (o mundo inteiro) foram criados no princípio, antes dos seis dias. Se “céus e terra” é um merisma se referindo ao todo do universo, então o mundo inteiro estava completo no princípio, antes dos seis dias. Não seria correto dizer que só estaria completo depois de seis dias. E, se o mundo não estava completo em Gênesis 1.1, então não seria correto dizer que o mundo inteiro, foi criado no princípio. Na melhor das hipóteses, ele poderia dizer que foi iniciado no princípio, o que seria contrário à sua própria tese.

A solução óbvia é a de renunciar às manobras interpretativas e ler a passagem de uma maneira simples. O início da criação, mencionado em Gênesis 1.1, se refere diretamente, aos seis dias.

 

O Criacionismo Histórico Precisa De Uma Categoria Própria?

O Criacionismo Histórico é melhor entendido como uma Teoria do Gap modificada. Existem diferenças entre ele e a teoria tradicional do Gap, mas as similaridades são muitas. Ambas postulam um lapso de tempo entre o ponto do princípio da criação e os seis dias. Sailhamer entende que este lapso está expresso no termo “princípio”, mas que de qualquer modo, são os mesmos. Ambos tomam os dias de Gênesis literalmente, ao invés de figurativamente, como dias de 24 horas. Ambos sustentam que plantas e animais foram criados milhões de anos antes dos seis dias. Ambos têm o aparecimento do homem em cena, em um momento relativamente tardio na história cosmológica. E ambos acreditam que a terra estava submersa antes de ser reconstruída.

O Criacionismo Histórico sustenta que uma região específica foi reconstruída, enquanto que a teoria tradicional sustenta que o todo da massa de terra foi reconstruída. E a teoria tradicional do gap leva certos conceitos teológicos em consideração, retrocedendo a queda de Satanás para milhões de anos para dar conta do sofrimento visto no registro fóssil antes de o homem ter existido. Até onde sei, Sailhamer nunca tratou desta questão do sofrimento e morte antes do pecado de Adão. Se o registro fóssil realmente é datado de milhões de anos, antes do pecado de Adão, como a teoria naturalista sugere, por que encontramos elementos como câncer, predacionismo e canibalismo preservados em rochas? Isso realmente aconteceu antes do pecado ter entrado no mundo? Os proponentes da teoria do gap veem o problema e especulação sobre o pecado como tendo entrado no mundo antes de Adão. A teoria de Sailhamer não.

Mas tudo isso considerado, Sailhamer apresentou uma Teoria do Gap modificada, emprestando muitos conceitos dos irmãos proponentes da teoria do gap.

 

A Teoria De Sailhamer É Realmente Histórica?

Logo no início do livro, Sailhamer afirma que sua teoria é muito antiga, e que, durante algum tempo, foi dominante em meio aos intérpretes antigos. Lendo isso, inicialmente, eu estava certo de que ele iria me bombardear com citações antigas, mas isso nunca aconteceu. Examinando todas as suas citações, eu não vi nenhuma fonte que desposasse a teoria completa em sua inteireza, como apresentado, e ele apenas cita alguns rabinos e um teólogo da era puritana para concluir seu ponto. Eu não estou sozinho em minha perplexidade. Em Desunindo as Regras – um artigo por Andrew Kuliovsky, de Respostas em Gênesis, escreve:

Uma das mais absurdas afirmações de Sailhamer é que sua interpretação é “tanto fiel ao texto bíblico como conectada a uma longa linha de interpretações acadêmicas, que se estendem por séculos”. Ele também afirma que antes do surgimento da ciência moderna, tais pontos de vista “dominavam a área” (p. 156). Novamente, isso simplesmente não é verdade.

Sailhamer, realmente, falha em citar estes primeiros trabalhos, que “dominaram a área”, e uma história detalhada e erudita de interpretação dos dias da criação produzidos por J. P. Lewis mostra conclusivamente que é a interpretação criacionista bíblica que está “ligada a uma longa linha de interpretações acadêmicas, que se estendem por séculos” e que tem “dominado a área”. Na verdade, parece bastante desonesto que Sailhamer rotule seu ponto de vista como “histórico”, quando nada poderia estar mais longe da verdade.9 Agora, eu estou completamente aberto à existência de tais interpretações históricas. Eu não estaria, de modo algum, obrigado a concordar com eles sobre a leitura simples do Gênesis, mas teria de dar a eles um cuidadoso olhar para determinar como elas surgiram. Eu pensaria que se elas realmente existiam em abundância, Sailhamer deveria tê-las citado, considerando que ele deu nome à sua teoria por causa delas.

 

Todas As Traduções Inglesas Estão Corrompidas?

Sailhamer acredita que as traduções inglesas da Bíblia estão repletas de falsos pressupostos sobre o que o texto está realmente dizendo. Ele acredita que elas nos induzem ao erro sobre o propósito do relato da criação, sobre o estado original da terra e sobre o que Deus fez durante os seis dias.

Como eu sei disso? Eu sei por causa dos pressupostos que estão por trás das traduções inglesas de Gênesis 1 e 2 que nós usamos, hoje. Goste, ou não, Gênesis na Bíblia Inglesa, está ligado a estes pressupostos. A maior parte de minha tarefa no livro é livrar destas amarras e libertar os capítulos para falarem por si mesmos. Daí o título. (p.13)

Como mencionado acima, ele cita uma conspiração datando desde os tradutores da Septuaginta (Antigo Testamento Grego). Mas ele chega a lugar algum provando este ponto.

 

A Verdadeira Tragédia

Mas a verdadeira tragédia é sua mensagem subjacente. Você não pode crer na Bíblia! … ao menos, não como está escrita. Isso, infelizmente, resume o atual estado de descrença da igreja, nos dias de hoje, com respeito a Gênesis.

Você tem de imaginar o que a próxima geração pensará sobre nós? Eles vão mesmo abraçar um livro que nós admitimos como confiável?

 

 

NOTAS:

[1] Dr. John Sailhamer, “Genesis Unbound: A Provocative New Look at The Creation Account” (Sisters: Multnomah Books, 1996; repr. Colorado Springs: Dawson Media, 2011).

[2] John Piper, “What Should We Teach About Creation?” Desiring God, June 1, 2010 (http://www.desiringgod.org/interviews/what-should-we-teach-about-creation).

[3] Mark Driscoll, Doctrine: What Christians Should Believe (Wheaton, IL, Crossway, 2011), 96.

[4] Matt Chandler, The Explicit Gospel (Wheaton, IL, Crossway, 2012), 96-97.

[5] Alguns dos melhores websites para pesquisar sobre os debates das origens em Gênesis: Answers in Genesis (http://answersingenesis.org), Creation Ministries International (http://creation.com), Institute for Creation Research (http://www.icr.org).

[6] William Lane Criag, cristão e apologista, também relacionou algum constrangimento ao criacionismo bíblico. Você pode ler a resposta completa a ele, aqui, por Jonathan Sarfati of CMI: http://creation.com/william-lane-craig-vs-creation.

 

Leitura Adicional Unbinding the Rules A Review of Genesis Unbound by John Sailhamer by Andrew Kulikovsky Answers in Genesis, 1 Dezembro de 2000.

Revisado por Ewerton B. Tokashiki

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